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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

POEMA PARA UMA PASSAGEM DE ANO COM FINAL FELIZ

 Lembro-me de certos dias  
De um sonho sem retorno  
De alguns passos desviados e 
Da matança integral Dos fracassos 
com doses de naftalina e 
Da alfabetização Da ejaculação colectiva 
Dos buracos ocasionais 
Da estrada Da glória 
De alguns erros De palmatória 
que não pude escusar 
De certas acções De castidade mal sucedidas  
De elogios frios como o mármore 
De favores perfeitamente dispensáveis 
De poucas curvas sem muita gravidade 
De aparições cósmicas sem serem convidadas 
De senilidades não vigiadas 
De carícias tímidas 
De poucas conversas envergonhadas
 De algumas urgências atrapalhadas 
De poucos convites para a deserção social
Também me lembro Dos dias restantes
Mas esses serão sempre pertença minha

Permitam-me que me apresente:
sou um homem que em mim tem fé
e, pelo qual nutro a simpatia suficiente

,2017dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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BISBILHOTICE DORIDA

 


Gosta de mim?


Porque não?


É uma anomalia

Como outra

Qualquer


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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

LÍNGUA DE PERGUNTADOR

 


Então, nada diz.


Não se preocupe.


Quando gostar, falo.


(para bom entendedor)…


2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
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EQUIVALÊNCIA ACIDENTAL A ROÇAR A INSOLVÊNCIA DA SORTE TRIVIAL

 


Talvez devesse escrever no sentido 
discordante
Reparar o Almanaque
Preparar o Sudário
Pedir asilo ao Sacrário
E desorientar virgulas 
na  rotunda das interrogações
Talvez devesse ainda acalentar 
gemidos surpreendidos 
Salgar o abecedário
Ludibriar o salário
Sacudir o leque dos suores ousados
Elogiar os pecados não arrependidos
E esperar na horizontal
Um idílio mais que improvável
[Vai longo este enfado
enlatado na eira das fadigas]



2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

IREI POR AÍ ACHAR UMA NOITE

 


Vou por aí esperar uma noite.
Um sonho que verdadeiramente acredite em mim.
Agora que falam que o céu não tem culpa 
da demora do meu chegar.
Sentado na janela,
um pássaro roufenho,
procura  na nuvem a última viagem. 
Um sax magoado,
bate à porta da magia,
E, então, um solo amistoso,
lentamente vai soprando 
as folhas do calendário.
Ergo as mãos para o laço.
Cavalgo num lento compasso.
Nada entendo das palavras
Que querem que ouça.
Irei por aí achar uma noite.







2025Out19_aNTÓNIODEmiRANDA
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domingo, 28 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DA COVA

 

Já 

Só 

Falo 

Com 

Gume 

Do 

Silêncio




,2022dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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VISTO-ME NESTE MANTO DE FIASCOS

 

Neste pranto de vistas vazias 

enrolo a ossaria 

com versos de 

tempestade



,2022dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

IDEIA EFICAZ

 


O Tédio 

Aborrece-te?



Muda 

De 

Óbito



2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NA MINHA INOPERÂNCIA JUVENIL

 


Dei-te todo o meu amor mas nunca soubeste daquilo que falávamos. Continuas a pensar que voas no céu aquecido, feito pateta vestido de amarelo empobrecido, para a rentrée da estação tola, onde caiem folhas que ninguém lê. 
Não gosto daquilo que encontras. 
Tenho escrito no nó da gravata os preâmbulos que não tivemos. 
Pára de me enfeitares a sorte. 
Essa carta está avariada, contida num vazio que dentro de mim, insulta a vontade com que me ofereço. Continuaremos a escrever na pele este adeus sempre que a despedida deixe de ser uma palavra mentirosa.
3 mata-haris / 1 califa constipado / 1 faquir enferrujado / 3 observadores circuncisados & uma vontade tremenda de ver outro filme /Je t`adore ma petite / mais pour favor / ne me donne plus / patates frites.
Escrevo-te um atestado comprovativo de falta de assiduidade mental, mas não quero fazer de ti a gata putalheira a ler a ladainha excomungada. 
Há quem viva numa caixa de espelhos mirando a Modas & Bordados, e duvide das intenções só com maldade moderada. Aquilo que somos é a impossibilidade que ignobilmente nos consome. E ficamos quietos como um qualquer caracol encarquilhado. Desprezámos o indício da escolha.  Nessa altura eu era jovem e ainda não sabia percorrer os caminhos da língua. Na minha inoperância juvenil eu achava sempre que a primeira vez tardava. 
Claro que me chateei / Embora soubesse / Que isso podia acontecer / Eu disse-te / Que era um problema / Mas não eras tu / Que o iria resolver.


,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Dezembro e os Outros Tempos. Prefácio do Levi Condinho.

 



CANSADO À ESPERA DA BOLEIA QUE ME SALVE DO PARAÍSO

 

Pensam que vivo zangado com o mundo.
- Ninguém fala da minha insatisfação.

Estranham a minha distância. 
- Todos ignoram as feridas desse caminho.  

Ninguém estima a competência que tenho para acertar relógios esquecidos das horas malucas. 
- Desconhecem que o carteiro já não bate à porta.

Crêem-me intolerante.
-Nada sabem do desencanto de adornar passados.

,2021Dezembro_aNTÓNIODEmIRANDA
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FANTASIAS DE NATAL

 
Não sei se terei o tempo para ter o momento para te mentir no engano mais verdadeiro.
Nada sei de calendários com nomes estranhos que definem dias para vontades nunca apetecidas. Fico-me por Janeiro não por ser o primeiro mas porque Dezembro tem um calor que já não me aquece. Roubo figuras do presépio poupando-as assim ao desconforto de um choque eventualmente patético. Agora são cromos pousados num musgo com características normalizadas. Queimei assim as palhas para incendiar natais onde só isso faltava. Fingia a alegria imitando o olhar infeliz da criancinha e adormecia com a repetida frustração de mais um par de meias de duvidosa qualidade. Na manhã seguinte toda a gente sorridente mas nada era mesmo o nada e o resto nunca diferente. Os anjos de chocolate com asas deficientes, animavam o José e a Maria arrependida. O burrinho constipado, o menino cagado e alguém agoniado queimava incenso para disfarçar o cheiro da erva.



,2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA
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Alberto Ribeiro _ Canção do Cigano.wmv / Uma das canções que o meu tio Jorge Faria, costumava cantar.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A VISITA DO DESALENTO

 



Tenho 3 luas na minha algibeira,
disse-me o cachimbo de um sábio índio.
Enrola a vida numa velha manta,
e nunca a deixes cansar de remendar 
alegrias.
Aconchega os sentidos na penumbra
poeirenta,
e,
nada mais caberá na tua cabeça,
do que a visita do desalento.
Abraça a ausência do deitar ferido,
e, chora na  enxerga de lençóis desabitados,
mesmo que não consigas esperar a chegada
escrita nos anúncios do nevoeiro,
que espreitam na janela.
O que te espera,
quando com a solidão,
não consegues falar?
D. Juan foi brincar com a erva do diabo.



,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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GOSTO DE TI INDECENTEMENTE



Amor da minha vida 

Que tão cedo me enganaste 

Flor em constante ferida 

Fúria incorrigível  

Cavalgada

Em fracassos de puro-sangue 


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OFERTAS DE NATAL # DA SÉRIE FANTASIAS DE NATAL#

 

 O tempo está a cair.
Espera no varrer das folhas, 
os conselhos da solidão aprazível.
Aqui, 
no lugar que foge, 
há memórias embrulhadas para ofertas de natal.
Fala-se agora uma estranha linguagem, 
caiada numa indiferença 
que nunca nos abandona.

.

,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 20 de dezembro de 2025

TODOS OS DIAS TROCAMOS ABRAÇOS

 


No 

Inquieto instante 

Do Recordar 

Roubo 

Nomes 

Ao Diário 

Das 

Ausências 








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NO CAMINHO PARA O PARAÍSO EMBEBEDEI-ME NAS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO

 


A agonia recém-trasladada não resistiu 
às tentações do 
Antão
e, como paga, 
autopsiou a audácia de 
Hieronymus.

Bosch 
pedrado até mais não, 
enxertava suspiros na 
Adoração Da Criança.

Entretanto, 
um desfile não programado do 
Carro de Feno 
conduzido por anões 
(em fase adiantada de estupefacção), 
tentou disfarçar a decência.
Lá no arraial, no 
Jardim das Delícias Terrenas
as sardinhas passaram-se com os bíceps do 
Ecce Homo.

Deixa-as morrer, 
gritava doidamente o 
Juízo Final





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A SABEDORIA DO AFONSO (4 ANOS)

 


O que é morrer?


                            É ir para o céu.


Isso eu não gosto!


                        Quero ir todos os dias

Para casa



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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

NADA NO MUNDO ME AGRADA MAIS DO QUE A PAIXÃO

 


O futuro está escrito numa mortalha
 ansiosa 
e os sonhos engalanados 
na cama da infâmia,
contemplam a ajuda ausente 
bordada 
na colcha do não acontecer. 

Gritos meus escritos na vidraça apedrejada, 
escondem nas veias o sangue tingido 
na cadência da vergonha. 

Haverá por aí alguém para enterrar 
a última palavra? 

Resta-me o tempo que a esperança agoniza.

E eu, 
já alguma vez vivo me senti.






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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CAFÉ DOS POETAS #36 – Natal de Quê? Natal de Quem? Natal de quê? De quem? TEMPLO DA POESIA_ PARQUE DOS POETAS_ OEIRAS - 5ª Feira - 18 Dezembro.

 


CAFÉ DOS POETAS #36 – Natal de Quê? Natal de Quem?
Natal de quê? De quem?
Este verso de Jorge de Sena (extraído do poema ‘Natal de 1971’) dá o mote para esta edição de Natal do Café dos Poetas.
E para tornar esta sessão ainda mais especial, convidámos cerca de duas dezenas de poetas que, ao longo destes últimos anos, têm sido amigos e cúmplices da PALAVRA, para nos enviarem um poema inspirado na quadra natalícia.
A colectânea de poemas que daqui resulta, será nesta noite lançada com pompa e circunstância. Mais do que celebrar o Natal, pretende também mostrar que estamos atentos ao que se passa no mundo num período que deveria ser de paz e harmonia entre todos nós.
Não percam uma noite cheia de surpresas!

Participam:
Afonso de Melo, Alice Duarte, António Carlos Cortez, António de Castro Caeiro, António de Miranda, António Manuel Ribeiro, Elisa Scarpa, Emília Gomes da Costa, Fernando Pinto do Amaral, Filipe Homem Fonseca, Jaime Rocha, José Anjos, José Baião Santos, José Fernando Delgado Mendonça, Lauren Mendunieta, M. Parissy, Maria Caetano Vilalobos, Maria de Abreu Morais, Miguel Martins, Nuno Miguel Guedes, Paula Cortes, Paulo Amado, Rodrigo Brandão, Rute Rocha Ferreira e Sir Scratch.

domingo, 14 de dezembro de 2025

SE ISTO FOSSE UM POEMA

 


Se isto fosse um poema, beijava a oração do descrédito dos poetas do fim do longe. Enlatava os erros de palmatória, queimava a tristeza absurda que assola as perspectivas e barrava todos os naufrágios deste mar que só lavra a terra do desperdício. Se isto fosse um poema, as horas que me roubam teriam outro tempo e a exactidão dos ponteiros não se aproximaria tanto da fatalidade. Se isto fosse um poema, não teria nojo de toda esta mentira, que tudo me tira nestes dias cortados em fatias envenenadas. Se isto fosse um poema, não lamberia esta gelatina de destroços que me congela os ossos em alguidares de menosprezo. Se isto fosse um poema, queimava o mundo que me vira as costas e a dignidade significada em formas de postas, que me oferece a mais pobre afinidade. Se isto fosse um poema, não seria menos que o resto, e o que de mim dizem faltar, oferecido em festins nus numa festa definhada. Se isto fosse um poema, diria que ler certa poesia, é por vezes um hobby nojento. Se isto fosse um poema, na sombra da árvore sagrada dos versos, sentir-me-ia existir agradecido às folhas que pousavam no meu firmamento, pintava assim as horas amigas, soletrando prazeres com abraços de poetas companheiros, que pisam o mesmo chão.


2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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FUTEBOL (1) (Para o Tó Carlos)

 


Futebol

É 

Óbvio 

Do 

Povo.


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sábado, 13 de dezembro de 2025

AQUILO QUE GOSTO DE LER

 


Nunca será importante 

        o que escrevo.


O que continua a realizar-me,

            é aquilo que gosto de ler.



2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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AMY W.

 


No último degrau do sonho que deixaste, 
doí-me demasiado o não poder ouvir-te 
e o meu coração é um copo de vinho 
que nunca molhou o teu penteado. 

O mundo sempre aborrecido, 
desprezou o teu olhar de sereia atrevida 
navegando o tempo que não te quis merecer.
 
As boas estrelas voltam ao sonho, 
acompanhadas de um sax que grita ajoelhado 
o tímido amor de só te quer beijar. 

No teu céu, estará à espera 
um cálice sempre cheio de saudade.

Aqui, vou rasgando aqueles aplausos 
que tanto te enganaram.







2017set_aNTÓNIODEmIRANDA
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APENAS UM CONSELHO

Não cobices o alheio com receio!

Culpas arrependidas

nunca têm fodas cumpridas.
 




,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

AO CORRER DO TEMPO

Tenho no bolso as outras horas
que o relógio que uso no pulso esconde.
Ouço agora os soluços da guitarra do Ry Cooder
que escorrem como se fossem memórias.
Sinto o frio no meio do meu mundo,
onde demasiadas vezes,
como Pilatos, lavei as mãos.
Está difícil este tempo,
e o seu correr deixa-me cansado.
É uma sentinela, sempre alerta
e preocupada.
Continuamente escondida
por uma cortina de fumo,
que só me permite
um enlace nunca dourado.



2016,02_aNTÓNIODEmIRANDA
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A VÉNIA ,

 

Pus um sorriso nas veias
e quase toquei o céu

Alguém invejou
a vénia 
que o tempo
me entregou

Eu
Só tentei
Outro
Lugar



,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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CARNE PICADA

Enrola-me pela manhã
docemente até ao fim do dia.
Quero que me mates...

até os ossos
se tornarem fiambre.
Ama-me no chão,
faz de mim o mais vil tostão
um chá de um Judas pestilento,
canta-me numa canção de
azar,
só para acreditarem
que gostas de mim.
Enrola-me num cartucho
como se guardasses a
mais preciosa iguaria.
E oferece-me sofregamente
quando te apetecer.
Estou aqui,
abaixo do zero
mais que finito
com arpejos do bolero
onde uma loura sem vergonha,
cavalgou nas minhas ancas
arfando palavras
roubadas dos meus poemas.
Enrola-me de manhã
mesmo só um bocado,
no mais fino brocado
para fingir a alegria.
Enrola-me agora,
pela noite fora
até fazeres das minhas costas
um ossário defeituoso.


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

NO TRAVESSEIRO DA VIDA ONDE SE ESCONDEM OS GRITOS DA SOLIDÃO

 


No descontente deitar tento abalar a melancolia mas a solidão encharcada nestes ossos não passa da mais indesejada das companhias. 
E a revolta que entope as veias não desiste de animar o que farei com as mãos erguidas para o absurdo desejo. 
Chegam-me as notícias da saudade, como se aquilo que pretendo, fosse a mais traiçoeiras das ambições. 
Recuso passar o acontecer enfiado num sarcófago à espera da admiração “post mortem”.
Entretanto na almofada da vida possível, tímidas nuvens tentam fugir da nostalgia agitando a bandeira da ofensa. 
Não há rendição possível.
A consternação repousa na mais impostora indignidade. Banhos de sangue não passam de lamentos tatuados na hipocrisia que domesticamente nos conforta.
                    
QUEM MAIS PODERÁ GOSTAR DE TI? 
(fala do reclame).

Olha a televisão! 
Comprei-lhe toda a mentira! 
E não imaginas o quão dourou este falsário. 
Não penses que sou o único!
Esse é o fatídico erro. 
(Tão pouco me importa o teu desapontamento). 
Estou sempre disponível para aplaudir a ingenuidade da fé que tanto te agacha. 
E agora, que tudo te roubei, poderei então saudar a estima e consideração que por ti nunca terei.

,2024Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A SOMBRA DE DEUS

 


Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras. As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado. Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos. Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas. Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente. Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos. Fui sequestrado por um arco-íris. Na minha cabeça há um comboio de inquietações sem catalogação possível, escondendo visões numa maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas grito que afaga suavemente confeitos envinagrados argamassa roída coma esquelético ossos braseados cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio, apalpando o êxtase das entranhas deixadas ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso. Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas. Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade. Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos num bordel de virgens electrificadas. 
 Psicoestimulante colérico escravizado pelos embaixadores da maldade. 
A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim. Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias da nojenta oligarquia do Kremlin. Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão. Confissão mágica emprenhando paixões distraídas acampadas no viaduto da burocracia. Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz de onde fugiu um manequim que nunca aceitou a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões. Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas em postes benzidos. De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível. A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta.
Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente da sombra de deus.



,2023Dez06e7_aNTÓNIODEmIRANDA
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SE ESCREVEREM À MINHA TRISTEZA…

 


Não sei e não tenho vergonha.
É-me estranha a peçonha recolhida na palha onde aqueci estrelas não sintonizadas com a harmonia dos horóscopos. Não sei escrever um suflê da mais digna maneira que tanta canseira me produz quando desagua em offshores emporcalhados onde engordam panças geradas pelo suor do pobre. Não sei nada dos amantes ousados num script onde nada pintei. Não sei dar corda a este relógio que tanto me abusa e se recusa a lamber-me um só minuto de intervalo. Não sei de não gostar. Não sei sugerir opções contrárias a uma mania que acorda sempre na minha cabeça. Não sei fazer nada que não me apetece, agora que já posso silenciar o despertador com um tiro retardador dirigido pela  minha aptidão de não admitir interferências litigiosas direccionadas à minha alheia susceptibilidade. Não sei.. Não sei porque o meu cão deixou de gostar da ração. Não sei porque continuo a caminhar assim. Como se não quisesse magoar as águas do rio que corajosamente zela pela ferrugem da minha âncora. Não sei que horas tenho embora me tivessem prometido que isso seria uma questão de dias. Não sei que sonhos pintar agora que os segundos foram passar a noite na ópera. Não sei que lâmina usar para fatiar contratempos não convidados. Não sei. Procuro só os passos que me levarão ao encontro de um coração desclassificado.
Se escreverem à minha tristeza, por favor não lhe digam como eu me sinto.


,2016,04,08,03,30h_aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

#DEZEMBRO E OS OUTROS TEMPOS#_COM GREGORY CORSO NUMA CADEIRA PERTO DO CÉU (abençoados por um cogumelo cósmico)

 





COSTUMAVA SER MINHA, ESTA MANIA POR VEZES HÁBIL DE EVITAR SONHOS

 


Talvez o céu sacuda a poeira que me 
calca os ossos, escorra do tempo 
o cansaço e afaste todos os escolhos 
deste teimoso caminhar.

Santa misericórdia dos urinóis,
não me deixes fugir das tentações.

Embrulha - me só nos pecados 
originais,
leva os sonhos para além do céu.

Diz qualquer coisa que me tire deste 
contrário. 

Pinta aquele sorriso, que leva o convite 
para o banquete das iguarias imponentes.

Ajuda - me a sair deste grito.

Costumava ser minha, 
esta mania por vezes hábil de evitar 
sonhos.



,2021Novembro_aNTÓNIODEmIRANDA
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O TEMPO PASSA, A MERDA ACONTECE

 


Há uma longa mentira entre mim e aquilo que querem que veja.
Podemos construir castelos e banhá-los nas memórias da areia, e na fronteira da tonta espera, continuar sem encontro marcado para o afago da guilhotina. 
Odores de um bairro operário aguardam a chegada dos imaculados enquanto a morte é carpida em vivos soluços. 
O vagabundo encostado à porta, veste a alma que um dia alguém animou. 
A tentação foge sem destino e uma fala estranha ladra o terrível desapontamento. 
Deuses cor de carne apodrecida, exímios predadores, oferecem fortunas perversas para que a realidade proposta não seja contestada. 
Lâminas de propaganda abençoam a estupidez com que te enganam, levando-te a pensar que és o crente mais importante. 
(Enquanto isso, o atropelo continua). 
De repente descobres que o medo é o único conforto que te entregaram. 
A dúvida aloja-se nos vómitos. 
Mas sabes que não há resposta certa para te impedir de desistir. 
A vida nunca nos pertencerá. 
Não passa de um exército de órfãos. 
E o pintor das palavras vazias, recolhe as lágrimas da colher de prata para desenhar outros sonhos. 
Quem irá nesse caminho ardiloso, qual destino matizado com enganos espalhando nas ogivas da baixeza as últimas orações perfumadas pelas flores de urânio? 
Nada melhor do que uma bomba para lamentar a incapacidade. 
Deus é grande. 
Maior será sempre a minha indignação. 
Muitas vezes a princesa dos sonhos acorda angustiada por tanto fingimento. 
(A inutilidade da nojenta existência, qual desfile de óvulos mal mexidos,
colectora de vontades incorrectas enxertadas em troncos de auto-ajuda). 
E no bar das insónias, voos falidos procuram sugestões para incendiar o repetido pedido de desculpas. 
Um dia quando for regar o Jardim das Delícias tentarei o prazer em pequenas doses, entregue por uma qualquer estrela rebelde rebocada com subtis micoses eclesiásticas. 
Nunca admitirei ser algemado pelos convites dos profetas asilados na estação das desamparadas promessas. 
Não me apetece lamber cinzas na crueldade do herbário dos falhados.
Porque bordar sonhos à pressa nos lençóis da procurada ternura, não é senão uma fantasia.
 
Não fede nem cheira.
  (como a minha mãe costumava dizer).

2025DezaNTÓNIODEmiRANDA
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SANGRO EMOÇÕES PARA ASSASSINAR IDEIAS COM PALAVRAS

 


Pois é, caro Leminski!
Vivemos o tempo em que 
qualquer pateta 
se ousa dizer poeta.

E o verdadeiro poeta, 
no desconsolo de tanta palermice, 
morre à pressa 
antes que chegue a chalaça 
do reino da chatice.

E não há procedimento estético 
que disfarce tamanha agonia!

(afinal aquilo que o poeta tanto 
queria).





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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

MANCEBO

 


        Encostado na esquina, ouço partir os olhos vazios, neste passar do tempo, que teimam em dizer que perdi. Mas eu continuo a acender este fogo, como se fosse um cantor de uma banda de rock`n`roll, onde nunca toquei. Poderia contar outras histórias, se o blush na minha face, não mostrasse que isso não passa de uma mentira. És doce como aquela canção que já não me espera. Continuo longe desse sapateado, ensaiado na escala do baixo, que amorosamente quer levantar o chão que me insulta. Por vezes, tudo me parece tão difícil, malgrado as desculpas de ocasiões mal desagravadas. Tenho saudades das velhas lojas, onde muitas vezes entrei para nada comprar, apesar das boas intenções. Os velhos amigos continuam comigo, mitigando a recordação das gajas que não chegamos a comer. Era só um supor malandro, que enchia uma pose com que fingíamos vender a alma. Estamos aqui, como provam estas gargalhadas emolduradas nos cabelos brancos, que só nos fazem sorrir. Naquelas noites tocadas nos jardins, fomos os mais felizes astronautas. Nas ondas do medo, iluminadas pelos faróis dos carros da polícia, enfeitávamos em segredo a nossa diferença. E no quarto das paredes sem sonho, adiávamos o sono, com todo o pavor da farda que nos esperava. Nunca perdemos a cabeça neste horizonte selvagem, ainda que as notícias dos amigos mais velhos deixassem de ser escritas. A lua sonhava então, com cores bonitas, o pequeno-almoço era animado com ácidos sem estricnina, e lá fora, a realidade mentirosa, felizmente não estranhava esta mania. Acariciava os anjos no duche, e compreendia que o seu olhar, só procurava o amor, num abraço que nunca ignorei. Entregavam-me sempre uma fotografia, com uma nuvem que tentava agarrar todas as coisas que fugiram do meu caminho, quando deus não estava feliz com a minha aparição, nas manhãs do ódio que tanto me sujava. Olhos sem luz, sorrisos maltratados, assaltavam a minha cabeça, neste princípio da procura de uma só escada divertida.


,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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MARÉS MORTAS

Ando
A
Amar-e-ar
Pelas
Paredes.
&
Marés
Mortas
Não
Me
Tiram
Dos
Rodapés.


,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA
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INCONTINÊNCIA ERVANÁRIA

 


Não te resisto

Nunca me abandones

Continuarei 
a enrolar-te 
com toda a fé 
que prometi 
na última 
tentação


,2022Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 30 de novembro de 2025

TATAMI

 


Estou a atender no além.
Também faço deslocações a hotéis 
e motéis com marcação prévia.
Faço tudo que quiser.
Venha passar bons momentos comigo.
Um encontro memorável 
entre quatro paredes num 
apertamento discreto.
Alta carga eléctrica.
Por ser casado
prefiro manter a curiosidade 
e desejo não revelar o meu desgosto.
Venha relaxar debaixo do chão.
Recebo com todos os luxos
numa urna 
com um tatami da última geração.





,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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VEM MEU ANJO!

 

Vem meu anjo, 
desce esse caminhar do medo, 
pérola fendida nas mágoas da escuridão.
Tenho um poema pintado com palavras, 
um sonho para colorir, 
um grito absurdo, 
uma mão para amparar o vómito de todos os desencantos.
Iremos por fim, 
ouvir os acordes do realejo do amolador, 
que no seu canto de profeta, 
anuncia a boa nova do tempo que o magoou.
Chega com a pressa do momento dissonante, 
sê gentil só com aquilo que pretendes, 
se erraste, 
nada emendes, 
e tenta sorrir para quem pensa que existes.
Vem, meu anjo!
Procuraremos um lugar digno da tua mentira, 
um altar adequado à tua ausência, 
um abraço ocasional para a nossa brevidade.
Somos um contra o outro, 
o resto mais importante do nada 
que nos viu nascer.
Vem, meu anjo!
Escorrega devagar dessa nuvem 
que só te leu nomes errados.
Estou à tua espera!
Já é tempo
de nos conhecermos.


2018Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 29 de novembro de 2025

AMOLADOR - Senhor Ferrer. O meu amigo.

Mas do que eu gosto mesmo é do realejo do galego amolador que ao meu passar pergunta na sua gaita:
então não tem nada para afiar?
Tenho vergonha de lhe dizer, que poderia começar pela minha vida.
Damos 2 dedos de conversa e sempre prometemos que está para breve a hipótese de mastigar a empanada de bacalhau e saborear o tal xarro de tinto.
Os melros do jardim fazem uma breve pausa na sua azáfama, para assim ouvirem melhor a sua música.
Sentado na velha companheira, penteia no esmeril uma tesoura, cortando assim saudades da sua Galiza.



,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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SABES QUEM ÉS!

 

Olha para ti todo avariado.
Que vida é esta que nos afasta de casa? Fuga pintada ao ritmo de bombas. Suaves tons de borboleta oferecem sorrisos doridos na boleia da enganosa esperança. A paz continua a ser grotescamente agredida pela bestialidade. Agora as lágrimas sabem o caminho, e mergulham a tristeza nos lábios de sangue. A fúria desce para esconder a traidora perspectiva. Sabes quem és! Tens esse fel bordado na almofada. A insónia molha o incómodo da memória. Não há sonhos para cobrir este desespero. Anjos vadios choram só para invejarem a impossibilidade. Ninguém sabe da tua fome. Sabes quem és! Claro que não consegues levantar-te. Queimaram a vontade comprada no alfarrabista. O desgosto aninhado, o futuro extraviado lá no poço da ousadia. Música de fundo aconchegada em suaves tons de luto. Olha para ti todo avariado.
Silêncio solitário. Iguarias imponentes oferecidas pela rainha dos loucos como se fosse ontem o dia que queria amanhã. Como ELE costumava mentir quando asseverava que ilimitada era a bondade do mundo. Ninguém sabe para o que está guardado. 
Acertou mesmo em cheio o cangalheiro, velho gozador. Fogo gelado à espreita na atrofia deste paraíso. Desenvencilhar pedaços de verdade Continuam difíceis os convites para quem só quer acreditar. Curiosidade dos urinóis.
Vai longe o poema que costumava vestir os nossos ideais. De mãos dadas no ocaso amolgado, não serei o único insanamente belo. Nuvens cristalinas já não acontecem.
Quando o sol veste o roupão negro à lua, parto à procura de um verbo que me entregue meiguices. 
A paixão seriamente danificada foi ter com o amante ao consultório. Noites doidamente cansadas. Onde te escondes, surpresa pré combinada? Vendo alguns dos meus milagres a 40 nós a desgraça. Envio por mensagem mentirosa um eloquente certificado garantindo o mísero estado dos meus órgãos veniais. (O último a cair nem imagina a sorte que teve).De costas voltadas durmo num soluço desesperadamente apressado. Ele perdeu a capacidade de esconder pesadelos banhados em fétidos tanques onde se arquivam heróis estupidamente desinfectados. Chorosos, os sinos já não dobram abraçados aos que não conseguem falar. Que deus (tal e qual sex symbol do aviário),não esqueça nunca as mentiras que lhe perdoei, assim como os pecados legendados com remendos de arrependimento.
Por mim pode perder-se no banho dos aloquetes desconfiados, olhar com simpatia o nojo, enaltecer a covardia, apunhalar os impulsos atrevidos, espalhar na avenida salpicos da desilusão constante.
Não quero pertencer-me nesta dor que assopra na coroa dos falhanços que não consigo evitar. 
Muito do que amei desapareceu neste império doloso.
Sabes quem és!

Fazem de ti ladrão mas não és tu o usurpador.



,2022Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

MEMÓRIA DA GUERRA EM JULHO - Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) / A Ronda da Noite José Eduardo Agualusa: estremecimento, espanto, poesia.|Ep. 188

 

1
É preciso que aconteça numa manhã sem sol e sem
recurso para o cansaço que o corpo traz da noite.
É preciso também valorizar o medo. Dizer assim, talvez:
- a guerra continua, dormi a noite toda e a guerra continua.
Uma luz como a de Outubro surgirá em Julho.
Atingirá as formas como se as formas a desconhecessem,
como se até aí fossem rocha apenas sobre as areias que há
[no mar profundo
e não soubessem nada do seu próprio corpo
e a luz as dissolvesse numa excessiva sobreexposição.
Vem declarar, num instante, a anulação completa das
idades].
A progressão da luz e a regressão da forma.
A dissolvência, em suma.
Os contornos estão perdidos para sempre. Agora é a memória,
memória, a madrugada, a opacidade imaculada do silêncio.
Esta era a profecia. O retrato fiel do fim do mundo.
2
É já apenas só uma memória.
Falo da luz que irradiava dos cadáveres
e das águas fermentadas que os continham.
Havia um frasco, enorme.
Crescera desmedido para albergar compassos de uma guerra longe:
s ecos todos dos obuses todos
os glaciares do medo nas arenas do norte.
À volta uma manhã que era já quente, a luz rente de
Outubro, a iminência da dissolução.
E havia o frasco, um frasco enorme, prismático e aberto,
retendo o amarelo de uma água velha,
matéria a mais propícia à gestação dos limos e das algas.
À tona alguns cadáveres, o ventre exposto, inchado e branco,
alguns também retidos na verdura
e os olhos sobretudo, provocação soberba da miséria.
Quando isto aconteceu eu era muito novo
e sem recursos para iludir surpresas.
Mais tarde atravessei cidades mortas
Não as temi.
Morte ou memória? Como entendê-lo agora?
3
Os pequenos dragões puseram a gravata, ajustaram ao
corpo a couraça do orgulho, consultaram num instante a
cartilha da paz, e vieram para a rua comandar a guerra.
A ordem de batalha está completa: o cancro explodirá
Pela madrugada. Nem as franjas da noite estarão
bastante longe. A flor do eco, que abre nos peitos um
lugar para a sede, oscilará suspensa no silêncio,
assegurando o gangrenar da aurora.
Os pequenos dragões esbracejam na penumbra. Estendem
o braço para afagar o ferro e aferem, um a um, os
potentes instrumentos da confiança. Os pequenos dragões
estão sobretudo ansiosos. Exibem, varonis, a erecção da
voz e arremetem-na de encontro à multidão para
fecundar-lhe o embrião da raiva.
A aranha é instalada nos baldios da fé. Assenta o peso
sobre a carne incauta e crava as garras, para se afirmar,
na oferta abdominal das hostes seduzidas. O ferro
arranca vivas de prazer. Entre dois crânios grandes um
pequeno, de forma a que não haja qualquer falha e se
edifique um piso só de crânios. O aparelho
vive de equilíbrios.
Os pequenos dragões não podem mais. É tempo já de
acometer a noite. As condições propícias estão criadas: há
já um cio para umedecer o medo. Sejamos fêmeas para a
erecção da armada. Do som haverá luz e das brechas da
carne escorrerão manhãs.
O sangue, hoje, é dos outros.
4
Acordas ansioso por saber das grinaldas que o sangue
abriu na noite. Enfrentas a manhã nua e devassa
como a parede branca a que se rasga a forma
de um cartaz antigo. Caíram os tapumes da confiança
e eis presente, como nunca adversa, a geografia
cada vez mais tensa.
vês a língua de areias servida de outra luz.
A memória sumiu-se, cristalizou nos ecos.
A gestação do medo arruinou as horas.
Ensaias o andar antes sabido. Apenas expões a pele
sem que o contorno do teu velho corpo
revele indícios do que lhe vai por dentro. Reinventas no
mundo a implantação do vulto, lavado agora das razões
seguras. Estar vivo e acometer a claridade
implica a vocação de afeiçoar o corpo à praça imposta.
Há uma maneira apenas de enfrentar o frio.
É transportar, por dentro, o mesmo frio. Não fere, a
decisão, muito para além das decisões alheias.
5
Nada mudou para quem delega a glória.
Nada é tão grave que nos impeça os corpos.
Estamos aqui, sentados, sabendo que o conforto
é só cá dentro e a casa é cheia de alegria e festa
e a carne é fresca porque viva e alheia
à carne longe, retalhada e fria.
Somos de fato, em nosso apuro e com o nosso dote,
uma versão apenas indecisa
do nó que nos habita bem no centro.
Rapazes, raparigas,
que cada um empunhe a flor oculta
para inseri-la entre pernadas jovens.
A morte longe enquanto nos arder
à flor da boca
esta atenção pelas florações dos outros.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

SONHO - TE

 


Sonho - te 

Dentro -  de -  mim 

Como

Se

A

V e r d a d e

Fosse

Esse

Momento


,2021Novembro_aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

O PRESIDENTE ENGANOU-SE OUTRA VEZ NO COMPRIMIDO...

 


Tudo é (im) perfeito 
O mundo é (im) perfeito 
A crise é (im) perfeita
A Inflação não tem defeito
O desemprego urra de tanta (im) perfeição
A miséria é (im) perfeita 
A fome é (im) perfeita 
A guerra é (im) perfeita 
A injustiça é (im) perfeita 
A infâmia é (im) perfeita 
O Governo é (im) perfeito 
Até Deus (mesmo quando não está ocupado) é (im) perfeito 
A loucura é (im) perfeita
A pandemia é (im) perfeita 
A vacina é (im) perfeita 
A ganância é (im) perfeita 
A inveja é (im) perfeita 
A estupidez então nem é bom falar…
                                      é um fartar de (im) perfeição.
O desespero é (im) perfeito 
A solidão é (im) perfeita
A ignorância?
Bem, a ignorância é a coisa mais (im)    perfeita, 
depois do naufrágio da arca do Noé!
Eu próprio afirmo que ainda bem que não sou 
PERFEITO.


,2022Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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SEMENTES APODRECIDAS

 


Mais de mil amantes espalhados pelas ruas, 
rezam poemas sem ninguém para os entregar. 
Escondem na sarjeta, desgostos malvados, 
distribuídos na novena do entardecer amolecido. 
Varrem do céu, as luas da solidão, 
e, já nada esperam
 dos ruídos dos cinzentos subúrbios. 
Pedem-lhes para acreditarem no amanhecer 
que confortará
 a violência com que sempre se deitam. 
Fingem pintar o azul do nó que aperta a vida, 
e, sacodem na corda bamba, um choro rouco.
Mais de mil amantes, 
enterram sementes apodrecidas 
na terra da esperança mentirosa.
Destroçados, 
procuram um sangue não santificado, 
um único abraço, 
mesmo que finja a verdade.


,2019nov,10_aNTÓNIODEmIRANDA
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O ACONCHEGO DA NOITE MALDOSA


 Nada mais do que o desespero 
estava escrito naquela esperança. 
Inchou a taça das agonias com a vontade restante. 
Caminhou para o céu como se a estrada existisse.
Deitou-se na cama da poeira,
escutou o sino com os berros dos últimos pássaros.
Embrulhou-se no cartão 
para o aconchego da noite maldosa.
Não tenho lugar para ti,
disse mais uma vez,
o raiar do dia.

,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 23 de novembro de 2025

ORA PRO NOBIS_2019



Pegou no pão 

e multiplicou-o por 12 

migalhas.

                                        Os que tinham fome,

                                        não acharam piada.




,2019_ jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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A FERRUGEM NUNCA DORME

Quando te tratarem sempre como um brinquedo Desconfia da intenção Ainda não chegou Dezembro A ferrugem nunca dorme Entretém-se a espalhar cruelmente a infâmia Que consome os nossos dias Enrouquece-nos os sentidos Não esquece um só pormenor Pinta-nos no corpo O som da dor E Por vezes Impede-nos de passar a ferro As pregas da saia da Marilyn Sabemos Sempre que é necessário Que para morrer um grande amor É preciso continuar a viver A ferrugem nunca dorme Compunge-nos com um hálito cínico Fingindo uma preocupação melíflua Exaurida na mentira abundante Com um amanhã Provavelmente tímido Sem nada para acontecer A ferrugem nunca dorme Transforma qualquer vontade Em torno deste tempo Num penhasco onde te possas inclinar.


2016,03_aNTÓNIODEmIRANDA
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FELIZ LUSITÂNIA _ Carlos Mota de Oliveira. Livraria Poesia Incompleta. Ontem com leitura do Changuito. Muito bom!

 






sábado, 22 de novembro de 2025

BEAT (Com um abraço para o Miguel Martins) - 56! Parabéns.

 



Ginsberg!
Na América nada mudou! Apesar dos avisos e das mil profecias que lhe entregou. Tudo continua ridículo no país que tanto te ofendeu. Corso continua à deriva tentando encontrar uma plantação digna da sua generosidade. Snyder deixou de ser um monge respeitado mesmo não tendo corrido bem a impressão de haikus na Reader's Digest. Diane di Prima e as suas longilíneas meias de vidro enforcam agora as memórias da beat com “mais ou menos poemas de amor”. Ferlinghetti tenta fazer o que pode emoldurando “os dias tranquilos”. E eu próprio para lá caminho. Allen, tenho todos os seus poemas guardados num saco cama sempre pronto a desafiar-me. Continuo a entrar nos supermercados sem que alguém reze pela minha beleza. Compro assim o que falta usando um cartão de crédito made in China. Pago as contas com euros sediados numa off shore que continua a fazer-me a vida ainda mais preta. Nas ruas vejo tantas pessoas deitadas ao lado dos contentores do lixo que comem depois dos ratos saciarem o apetite. Ginsberg, a América está como sempre perigosamente parecida com o outro mundo. 
E os russos ainda o tornam pior. Ginsberg, toda a gente escreve palavras numa articulada mania que dizem ser poesia. Aprenderam nos compêndios que lhes oferecem doutoramentos tirados nas máquinas das fotografias onde perdemos a identidade. Allen, morre-se assim sem dar por ela, embora ninguém vá ao seu funeral. Nunca estive na City Lights mas quando lá chegar serei imediatamente cumprimentado pelo Lawrence. O mundo continua a fugir do meu sonho e desatento como é, tenta polvilhar os seus poemas como se isso pagasse o respeito que nunca mostraram. O Carrol já não tem saudades do pai e ocupa agora os feriados entregando porta a porta embalagens de poesia sem consignação. Ginsberg, este universo é cruel apesar de tudo o que tenho oferecido. Tenho a uretra infectada com pus e uma fricção contagiosa que me controla a alma e o Robert Saggese tem “um pássaro na palavra” e está demasiado esquecido para a salvar. Allen, tomam conta de mim agora anjos que nunca pedi. E fazem piqueniques no Central Park com a bandeira do Goldman Sachs estendida e olham de soslaio todas as minhas expectativas. Ouço em semitom a música das sirenes que encharcam a minha ruína e Frank O´Hara continua preocupado com “a crise da indústria cinematográfica”.
Morre-se em qualquer lugar sem hora combinada sem culpa formada e sempre nos apanham desprevenidos e esta é “a proposta imoral” escrita por Robert Creeley. Allen, a vida é o cemitério do medo com orações take away gravadas em lápides onde se mente aqui jazz um homem bom. A melancolia cega a beleza dos meus olhos perdidos de volta no espelho, onde costumava ver-me enferrujado como os nós do arame farpado, pejado de retratos desconhecidos balançando uma “melodia para homens casados” gingada nas ancas da Lenore Kandel. E a noite chega atrapalhando o festim do fim do mundo, que acontece todos os dias em que não somos capazes de nascer. E Ron Loewinsohn continua a gritar “contra os silêncios que estão para vir”. Allen, sou observado por um drone não identificado e só tento esconder a denúncia nas folhas que guardo num mealheiro que roubei na igreja dos últimos dias dos santos sem piedade. Estou farto de ver gente feliz sem qualquer motivo e com orgulho menstruado pela miséria que espalham. Mas este passadiço não tem limite e eu acabo por adormecer sempre com a estrela errada na cabeça. Koller tenta acalmar-me oferecendo um tapete de “Ossos & Penas Pele e Asas no chão”. Allen, preciso de uma ligação pré-paga para o paraíso artificial. Pretendo pedir asilo temporário para a minha solidão. Mas ninguém se interessa pelo meu horário, embora ele não tenha os dias sempre tristes. Allen, estive numa concentração budista em que um monge flipado danificou o meu drama. Frequentei aulas de yoga com uma bailarina atenciosa que só bebia iogurtes fora de prazo. E até deus sabia o quanto eu detesto esta forma de orientação. E assim fui até ao fim do mundo ainda com um fardo mais pesado. Perco-me no significado das eloquências mal frequentadas que mais parecem elogios fúnebres acompanhados pela dança de carpideiras hawaianas, que me puseram no pescoço um colar de flores putrefactas e agora entretenho-me nas horas de ponta a espalhar o seu perfume nos urinóis mais utilizados pela opinião pública. Tenho uma postura sisuda e nada simpática para não me confundirem com o namorado da barbie. Volto ao lugar para ouvir o discurso do velho corvo de asas metalizadas e língua prenhe da única sabedoria. Fala-me do degelo da humanidade e dos medos que tanto a ferem. Então digo-lhe que estou pronto. Eu sei que ele me levará aos demónios. Allen, não quero este caminho que a solidão comodamente instalada no sofá pensa cativar-me. 
Actualizo-me num sequestro sereno na chegada do momento de abraçar manuscritos pacientes que decoram as sombras do silêncio numa modernidade de estátuas com olhares distantes. Este universo é cruel apesar de tudo o que tenho tentado. Estou cansado de esperar nas escadas do paraíso com a chave errada. 
Tenho uma coleira certificada, anti tudo mas que não funciona. Tomam conta de mim agora poetas tão tesos como eu. E afiam no nobre golpe da navalha a memória enlouquecida. Aparo pétalas demasiado parecidas com gotas de sangue. Já não penso no que teria ter sido nem nos milagres que tentavam vender-me na feira das onze aos domingos. 
Aplainei virtudes diferentes nos anos que só a mim pertenciam e alinhei nas propostas condizentes com a minha pretensão. Colhi nesta estrada frutos nunca imaginados por quem de mim só pensou o que não me conhecia. Continuo um curioso sem complexos o que me torna um aprendiz interessado.
Ginsberg!
Também tenho um grito!
E um frio tremor nas mãos que me tempera angústias desesperadamente sós.
Ginsberg!
O mundo nunca vai encontrar o caminho.





2016,09aNTÓNIODEmIRANDA
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