Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

AS PALAVRAS DA DESPEDIDA

 

As palavras da despedida são o conhecimento com que ficamos, agora que o resto foi coado no passar deste tempo que alongou a memória. 
Os dias do sol feliz deviam ser sempre gastos com abraços de absolvição. 
Um ritmo absorvente não nos ficaria nada mal e o sorriso sempre aderente, deveria ser considerado um bem mais que necessário para o desenvolvimento da contracultura há demasiado tempo metido no reservatório do lixo nacional. 
As palavras da despedida são lidas nas exéquias da 7ª lua, supostamente como se tivessem morrido. 
Não há funerais de véspera e os véus que enfeitam os bancos do purgatório, só não ardem porque acender uma simples vela, leva-nos a módica quantia de 50 cêntimos por minuto. 
E há espectáculos de superior qualidade manifestamente menos dispendiosos. 
Depois da morte, qualquer filho da puta aparece milagrosamente na fotografia como boa pessoa. E isso, deixem-me dizer, retarda a ideia que tenho do finamento. Nas horas da despedida dizem o céu fica turvo, o vigário liga o turbo, as nuvens deslocam-se apressadamente para Hollywood e no spa dos prazeres sensoriais, secam-se tomates supostamente de origem demarcada, em estendais noticiando a evolução da bolsa das vergonhas. 
Nas horas da despedida despejam-se lembranças, queimam-se os últimos poemas e admitimos a morte súbita como a única culpada desta vida passada na ideia errada de transformar em ouro a merda que fizemos. 
Nas palavras da despedida há lágrimas de castidade, causas nunca assumidas e esculpida no rosto, uma indigna surpresa que nunca vimos no relógio.
Apanha-nos desprevenidos esta hora sempre adiantada e no ramo que pensam nos aquece os pés, uma cor que nunca iremos cheirar. 
Já não falamos para o umbigo e a autópsia, a única amiga que desprezamos, deixou a assinatura.
Temos agora outro nome!
Mas não o sabemos dizer!
E no samba deste Carnaval, abanam-se cus, mamas tentam tocar céus já ocupados e tambores que rufam nas nuvens para que a chuva nos respeite.
As palavras da despedida correm num rio com curvas que escrevem aquilo que fomos.
Que os sorrisos se alegrem desta vez sem fantasia e que a festa seja feita de acordo com a nossa última vontade.

2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA

Sem comentários:

Enviar um comentário