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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

VÁ JOHN, SALTA AGORA

Vá John, salta agora.
Eles só querem acabar contigo. Já têm um número reservado. Escreverão na autópsia que eras um gajo chanfrado que sempre estiveste em mau estado. Para ti estiveram sempre esgotadas as vagas do albergue. Nem sequer descontavas um cêntimo que fosse para a normalidade social. Vá John, salta agora. Não tens que hesitar. Ninguém vai reparar. Despacha-te John, não alongues o directo, não desiludas a notícia. Confiámos na tua perícia, mas sabes bem que é só desta vez. Está tudo a espreitar. Salta John. Fá-lo com destreza, não estragues a surpresa desta gente que te empurra. Lá em baixo nunca será pior do que a miséria que te gastou o tempo. Dizem os que nunca voltaram. Atira-te agora. Está na hora. Nunca nos doeu a insignificância do teu arrastar. Atira-te John. Nós que juntamos os teus erros, e as lágrimas corridas em segredos de sangue com farpas oferecidas para que o teu choro não incomodasse o nosso bem estar. Vá lá John. Encharcamos-te as veias, temperamos a tua cabeça com um caldo para te acalmar. Não te queixes da fortuna. Nós oferecemos-te uma sorte mentida, mas tu só querias uma nuvem que nos molhava. E apontavas na ponta do desespero uma triste canção. E nós só pretendíamos desperdiçar o teu tempo e nunca te deitaste na cama que oferecíamos à tua atrevida diferença. Que coisa estranha, John. Adiares a morte foi uma traição. Pensas que não nos custou cantar a mentirosa balada para adormecer os nossos filhos? Não foste agradecido. Nós, os que cuidamos do envenenamento dos teus sonhos.
Salta John.
Lembra-te da pomada do charlatão.
Nunca perguntaram o que sentias quando abafavas a tempestade asilada na tua cabeça. E aquele santo de barro que bebia o vinho das noites frias, rezava-te orações sempre mentirosas. Embrulhava em massa folhada os recados que escrevias nos sacos de plástico que te forravam a pele. Disseste que a nossa heroína te enganou. Será verdade? Nós só tentámos trair-te sempre que possível. E se bem me lembro, prometemos um velório auspicioso, musicado por um orgão Hammond enfeitado com papoilas perfumadas do mais genuíno ópio. Só para te lembrares que celebraremos condignamente a tua ausência. Vá salta. Salta John. Ninguém está á tua espera. Como pensas que nos sentimos neste filme parado? É certo que não és tido nem achado e a tua solidão é agora falada numa língua dobrada que ninguém entende. Canções metidas na colher, carne branca acendida numa luz insidiosa. Foi assim que te fizeram passar os dias quando pensavas ser o dono das tuas decisões. Não te incomodava a espuma no canto da boca nem os olhares que mijavam em cima de ti. A vida é uma canção de rock`n´roll. Mas o resto, o que de ti importava, sempre passou ao lado. Mas a tua alma chorava. Ninguém respeitava o teu silêncio e riam do personagem que encenavas. Salta John. Agora que já sabes aonde ir. Agora que a tristeza infectada não obedece à direcção indicada pelo sinaleiro, agora que na encruzilhada todos se esquecem de ti, John o teu único sonho partiu para um céu sem o teu nome. Deixou para sempre tatuada uma pressa que não sabes parar. Adiantaste a corrida. Apertaste a correia errada. Não há estrelas que contem o teu segredo, um táxi qualquer que fale de ti, uma linha que lembre a maneira como não sabes o teu nome.
Salta John.
Não largues a corda que te estendi.
Eu sei que pensavas ter um anjo sempre ao teu lado. Ninguém te informou que a misericórdia é uma anomalia que não funciona.
John, a compaixão é uma call girl que nem sempre está de serviço. Sempre te desonraram. A tua namorada chorava quando dizia que eras o homem da sua vida , dizia ser a rainha de um reino só teu. Sou a tua fada à deriva neste céu banhando este oásis de desejos apodrecidos.
Diz que me amas. Pediam as lágrimas espalhadas no colchão. John, tu dizias que não sabias a cor do sangue que enchia as ruas da tua dormida. As teias dos sonhos que te chicoteavam eram dores menores nos dias estragados. Que dor podias sentir? Gritos escondidos na ambulância e tu sem nada conhecer. O que fizeram de ti. Uma vaga ideia escondida numa salada de putas.
Vá, salta agora John. Leste o livro errado. És o único culpado. Rejeitaste este mundo viciado.
Salta agora John!
Não abales a nossa consideração.
 
2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA

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