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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

NA VIA LÁCTEA DO BUÑUEL

Nada aconteceu naquele momento em que estive no céu e roubei as escadas para que ninguém mais conseguisse lá chegar. Acampei na tarte de limão, aconcheguei a normalidade e espalhei os confetti mais bonitos na via láctea do Buñuel.
Todo o olhar era vidrado, exactamente como naquelas séries do Syfy, carne picada amaciando um crepúsculo de deuses murmurado numa dicção nada subtil. O mundo está diferente e cada vez mais interessado em iludir ideias para uma viagem que nunca nos satisfará.
Já vi este filme. E pior do que isso, é que não me apetece mudar de canal. São agora dez horas da noite, horas iguais aquelas que continuo a vomitar. No baloiço desta cadeira, cambaleio num inverosímil latir do cão e no meu ombro recostado no sofá, caiem lágrimas da púrpura chuva. Os meus olhos não te viram e sei que esta não é uma desculpa aliciante. Gostaria de contar outras histórias, mas não filmadas em slow motion, para que as mentiras apetitosas não fossem sodomizadas pelos efeitos especiais. Tenho o horóscopo manchado por pegadas de pizza oferecida na recepção do motel onde um oral até à última gota é pago a uma loura a imitar uma Marilyn em forma de candeeiro.
É tudo tão estranho!
Logo sou levado a pensar que já vi aquilo que quis. A minha cabeça capota perante a presença de tanta luz inusitada. Acordo agarrado a uma roda desconhecida e tento desmaiar perante a visão de um porta-chaves falante em forma de et, que agora lembro, tinha visto numa fábrica lá para os lados do Areeiro.
Estava em promoção! Culpa minha! Merda de distracção!
Liguei a lanterna para não causar distúrbios à minha bisbilhotice e poisamos num bar curioso onde saboreamos amistosas sanduiches de vitela estucada.
Alien o porteiro da morte, abriu a porta e num desinibido aperto de mãos, disse-me:
Se calhar vou ter saudades tuas.
 
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA


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