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quinta-feira, 15 de junho de 2023

RELÓGIOS ATRAPALHADOS

 


Cansei de não ser ninguém

De pensar que a lembrança nunca morreria
mas o corpo moído de recordar 
os dias que têm o tempo mais curto
entregava horas perfumadas 
com venenos ávidos de saborearem a desilusão

É triste este relicário obsceno 
onde guardo cumplicidades sedutoras

Relógios atrapalhados, 
reclamam nos meus braços
um porvir não traiçoeiro 

Se calhar haverá um sentido nesta fuga
que não se farta de perseguir 
a saudade que não me abandona 

Sou eu, sem mundo para caminhar 
acariciando memórias tão inúteis 
como a lisonja que me oferecem

A esperança foi para longe
resta-me contar lágrimas 

Cai a noite

Os últimos passos não chegam à estação

O presente foge demasiado apressado 
numa doida correria 
como se eu dele quisesse furtar os sorrisos 
que até então me entregavam paraísos
adormecidos em camas de lençóis esperançados 
em todas as possibilidades 
das manhãs prometedoras


,2022Abr_aNTÓNIODEmIRANDA

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