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quinta-feira, 29 de junho de 2023

E ADORMECIA …

Limpava alguns momentos à procura  de boas notícias na página da necrologia do jornal pousado na mesa do café e invariavelmente discutia a desilusão com o barbeiro.
Depois seguia até à paragem da camioneta que religiosamente tinha partido às sete da manhã. 
E esperava pelo carro do peixeiro, sempre com a esperança de um atraso que era raro acontecer.
Dava um pulo à horta para regar os tomates, e encostado ao muro habitual, contava vagarosamente as badaladas do sino da igreja, não que tivesse interesse, mas podia ser que desta vez elas não sincronizassem com o relógio que tinha comprado na loja do chinês.
Tinha saudades da cavaqueira da feira, mas agora está tudo tão fraco e longe, mais longe, do que o tempo que tem para gastar. 
Chegava a casa e ligava a televisão e telefonava para o número mágico que lhe prometia um prémio de não deitar fora. 
Quando fosse á cidade, haveria de comprar um telemóvel novo. 
O seu só funcionava para chamadas sem ofertas. 
Além disso queria fazer boa figura quando fosse à festa da aldeia. 
E continuava a cismar com a mania de pôr a mota em cima da mesa do snooker. 
Claro que gostava muito dela e aos poucos foi perdendo a saudade do ribombar das bolas. 
E o canito já estava velho para as apanhar.
Não ia para a cama sem visitar a adega, agora que não podia beber nem vinho nem aguardente que teimava em fazer. Talvez alguém apareça hoje e lhe dê dois dedos de conversa. 
Não será pedir muito. 
E adormecia ...

,2016_,aNTÓNIODEmIRANDA

 

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