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segunda-feira, 4 de julho de 2016

A CORRIDA

Sempre que sentia aquele cheiro,
algo estranhamente insano
bulia com ele.
Acelerava! Acelerava! Acelerava!
Ninguém o apanhava.
Era o rei da maracona.


,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

FUTEBOL (8)

Ok!
Não tinha muito jeito para os lançamentos laterais.
Ainda por cima era maneta.
Mas nos penalties era a 1ª opção.
… Até que uma caibra na orelha esquerda,
obrigou-o a marcar a penalidade
com o calcanhar de pedra.
Falhou!
Ainda hoje,
conta que a culpa foi do escultor.


,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

LÁGRIMAS MOVEDIÇAS

Não me respeitam.
Roubam-me o nome e dão-me um número
como se fosse a chave do euro milhões.
Escorro a seca da vida
num rio de lágrimas movediças
só para afundar as minhas ilusões.
Rio que me envergonha
onde desliza a peçonha
daquilo com que me faço.
A vontade só acontecida em fotografia
revelada no ácido da tina
onde arde a sina
da possibilidade admitida
sem a minha permissão.
Mas eu não me encontro
e dói-me tanto o achar-me
às escondidas da esquina.
Elevo agora,
e isto sou eu a fingir,
imbecilidades pisadas a papel químico.
Nada sei daquilo que de mim pensam diria respeito.
Longe vai a lua
realizando uma manhã,
certamente com as habituais palavras nos noticiários.
Continuo a mijar em retretes
onde estão escritos convites
sem a menor convicção.

,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

A SECRETA ESPERANÇA

Tinha na mão o poema.
Dobrou-o em forma de avião
E lançou-o ao vento
Com a secreta esperança
De algum pássaro o ler.


,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

Delilah • Tom Jones • Original • 1968 ( estava Dalila na cama...)


sexta-feira, 1 de julho de 2016

GROGUE

Nunca estive em Acapulco.
Se calhar, joguei golfe em Las Vergas
com o Silva dos plásticos.
Não colhi férias temporárias em Bali
nem dancei rumbas nem salsas lá para os lados deVaradero.
Também não meti o cú
numa qualquer espreguiçadeira de Cancun.
Também nunca vi fornicar em Punta Cana.
Mas, orgulhosamente estive presente
numa festa no bairro de Santa Filomena, na Amadora.
Tenho na alma o sabor daquela cachupa.
E reguei com o melhor Grogue
o Funáná mais bonito do mundo.


,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

O FRIO DE VÉNUS “sine Cerere et Baccho friget Venus”

No fim do inferno,
Vénus tirou a camisa numa honrada elegia a Baco,
que sorrateiramente tinha fugido para o monte,
no seu Saab descapotável.
Anjos despidos na auto-estrada,
desconfiados, não aceitaram a boleia.
Ficaram sentados,
a grelhar uma deliciosa barriga de freira,
abanando as brasas com o diploma da licenciatura.
Sorria, você está sendo filmado.
Agradeci, dizendo não merecer tanta atenção.
Afinal sou um homem simples
com bifídos activos
contribuindo para a manutenção
do nível normal de estatina.
É verdade que preciso de mudar o óleo.
Tudo está bem nesta manhã.
Não pretendo explicações difusas
para preencher questionários
com técnicas de procura de emprego.
O sempre sério fica-me cansado.
A artrite mongolóide está sossegada,
convenientemente vigiada por princípios antigos.
Sou apenas uma velha pedra rolante abraçando blues.
Quero casar!
Contrair matrimónio!
Já tenho a fralda rota
de coçar este demónio!
Põe a tua mão na minha...
Não tenhas medo que o Senhor da Califórnia
Não está a ver
Põe a tua mão na cama do Senhor
que acalma o mar
Meu Senhor que cuidas de mim
eu que passo o dia a distribuir mercearia
Noite e dia sem pescar
Põe a tua mão na mão do meu Credor
não tenhas medo, ele pode pagar.
Mãe compra-me umas botas
que estas já estão rotas
de dançar o charleston.


,2016,06aNTÓNIODEmIRANDA