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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A MORTE NÃO ACABA AQUI

I

Cuida de mim disse o futuro enlutado no testamento – toma conta de todas as vírgulas – dos choros que escondeste – mesmo dos pecados a fingir – dos abraços falsamente coloridos – das opções hipoteticamente honestas – das orações fraudulentas que falharam o meu adormecer
Tem cuidado com a minha debilidade sentimental - com a inconstância da felicidade engolida em amargos travos de solidão
Cuida de mim - Estou confortavelmente só neste monte vestido de ruídos que acariciam a encruzilhada onde o diabo benzeu a cruz - Abandonei-me neste hangar de pássaros machucados - gritos sem som deitados no cobertor da minha angústia - Treme tudo nesta voz - gotas de frio nojento aconchegados na bandeja - A serena manhã espera por mim - 
É tarde para adormecer - 
Sempre! Sempre cedo para despertar - 
Enrolo horas na espera dos dias fictícios -
A morte não acaba aqui

II


Talvez um dia seja feliz, disse a voz que arranhou a porta do céu.
A beleza zangou-se com a impaciência, e espalha um sentido vazio, diluído em lágrimas de chantilly certificado. 
Cânticos de júbilo arredondam copas de árvores cansadas de tanta seca. 
Aqui, no lugar de nenhures, caiam-se sorrisos plantados no musgo. 
Vai longe o tempo que nunca nos encontrou, aqui, neste céu sem ninguém para saudar. 
Leva-me contigo, pousa a velha e cansada voz nos meus cabelos. 
Tanto que gostava de encaminhar o teu brilho, mas a luz que pintei fugiu da tela, e, sem me avisar, riscou do calendário o dia seguinte. Deixou uma estrela que devora paixões. 
O que é feito de ti? 
Diz a alma gentil que fingiste.

,2020Ago_aNTÓNIODEmIRANDA

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