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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ALGUÉM VIU ESTE GAJO?

Tinha no bolso a mania da ilusão, e remendos envergonhados
escondidos na solidão que lhe rasgava o olhar.
Fugia dentro de si, embalando uma rouca canção,
chorada demasiadas vezes, e, no aperto que restava,
aperaltava-se em frente ao espelho preto,
enquanto as luzes da ribalta simulavam a sua presença.
Escorria no nó da gravata,
a hipótese mentirosa de sair de si mesmo.
Mas os beijos que lhe fugiam da cara,
fingiam o sorriso que pensava ter.
Guarda as carícias numa seira confidente,
e durante o amor que lhe mente,
amassa a dor que a vida lhe deixou.
Num esgar florido, julga-se agradecido,
e comovidamente bate as palmas,
encostado às pontes do inferno.
Fecha os olhos numa cortina de fumo breve,
 e queima os passos que lhe tolhem a vontade,
com longos apertos de solidão.
Tem nas mãos a indigência
que lhe carimbaram na pele vagabunda,
que dorme no altar das estátuas tristes.
E assim amanhece,
sem qualquer jeito para outro sentir.
E na oração que ninguém lhe ensinou,
murcham fios sem prumo, à procura do novelo.
Está mais só do que a própria sombra,
e agora procura o embrulho dos sonhos remendados.
Vai colando nas esquinas a sua fotografia que pergunta:
Alguém viu este gajo?
 
,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pablo Picasso / Paul Éluard


Para ver.

 
 
 

 
 
 

IMPRECAÇÕES PARA UM DEUS MENOR _AGNUS DEI

Cordeiro de Deus,
Que tirais o pecado do mundo,...

Melhor teria sido,
Se tivesses matado a fome
A muita gente
.



,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

TENHAM JUÍZO!

 Subverter com um sorriso?
Tenham juízo!
A subversão não é um jogo de sedução.
Escrita criativa?
Incha-me os ouvidos.
Só de pensar nisso, fico com entorses

e logo penso que não há ponto sem dó.
O meu perfil não é temporário.
A poesia é difícil.
Será por isso que certos “poetas”

têm estampado na testa o carimbo da infelicidade?
É como se fosse uma maldade que cultivam
e regam a bajulice
como se as palavras crescessem num canteiro.
Não percebo nada disso,
mas sei que não terá de ser assim.
Nunca tive paciência para analfabetos letrados,
muito menos para o seu anafado conhecimento.
É uma banha que dá maus cozinhados.
Escarro a vaidade para o lenço
e cuidadosamente volto a dobrá-lo.
As vezes necessárias.
Tantas vezes!
Nunca se sabe o dia do vosso amanhã…

2016,09aNTÓNIODEmIRANDA