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domingo, 25 de abril de 2021

SOU EU

 Sim!
Sou eu.
Outra vez a bater à porta que não me abre.
Sou eu, 
a amolgar a memória, sempre agarrado à mesma derrota.
Sou eu, 
a não compreender esta espera, a pintar sabores de ausência.
Sou eu, 
a assassinar a angústia, a contar gota a gota lágrimas de indignidade.
Sou eu, 
a colar pingos de chuva, a pintar cenários, a fugir sempre de mim, numa pressa desabitada. 
Sou eu, 
nesta colecção de restos, vendidos em saldos idiotas. 
Sou eu, 
a encaixar vazios, a erguer as mãos para um destino sujo, a encaixotar desculpas em segunda mão, a pensar redondo com esta fé enferrujada, que não pára de me atraiçoar. Sou eu, 
a perder a cabeça nesta parede grafitada com lamentações. 
Sou eu, 
vestido com  aquilo que já não presta. 
Sou eu, 
a acenar a um deus que nunca mais larga a cruz. 
Sou eu, 
encharcado nesta sombra cansada de me emoldurar. 

,2019Mar_aNTÓNIODEmIRANDA




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