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sábado, 22 de fevereiro de 2025

JÁ NÃO FALAMOS MUITO

Às vezes desvio-me para a caverna só para acordar a sedução,
dizendo-lhe ao ouvido que não pode abandonar-me.
Ela então sorri um riso vertical e promete-me que quando se lembrar,
não vai esquecer-me.
Então aqueço-lhe as mãos com um tremor ternurento
e beijo a sua memória com todo o afago.
Rimos os dois num modo igual à ficção em que nos tornámos.
Visto-lhe o roupão comprado no último saldo dos certificados de aforro.
Agradecemos encarecidamente à rolha da garrafa do tinto que tanta alegria nos proporcionou.
Já não falamos muito, é certo,
mas também é verdade que em dados momentos,
as palavras deixam sempre de ter sentido.
Adormecemos geralmente sem a necessidade de continuar esta ilusão.
Ainda não sei se temos relógios iguais… mas nunca falhámos qualquer encontro.
Vamo-nos vendo por aí.
Às vezes nas esquinas onde ninguém se encontra.

  2016,11aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


W. H. Auden “FUNERAL BLUES”

 


Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cão com um osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caixão, deixem que o luto chore.
Deixem que os aviões voem em círculos altos
Riscando no céu a mensagem: 
Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A minha semana útil e o meu domingo inerte,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha canção, a minha fala,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.
As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada no momento pode algum bem causar.


W. H. Auden, in 'Another Time'



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

ANARQUIA PRECISA-SE!



Existo Logo trabalho Vendo-me Consumo E sou consumido. Sentado á secretária, Imagino & sou feliz Vendo os ponteiros do relógio Apressando um tempo Que em nada me dignifica.
Ser figurante nunca fez de alguém importante. Ainda nos torram com tantas soldagens. Não precisa de ser tão pessimista! Pois é, senhor ministro, eu dantes não era pensionista. É sempre o mesmo filme que nos preparam estes mentecaptos realizadores. É-nos impingida a ideia constante que precisamos de ser orientados, governados e caímos sempre na teia que nos transforma em meros espoliados. A banca está atenta, como sempre pronta para chupar um sangue que já não é nosso. Depois virão as teorias do plasma negociado por vampiros, varizes cromáticas em forma de tatuagens para impressionar os músculos fabricados com suplementos encharcados com toxinas inadvertidamente amestradas num ginásio sempre com promoções prometendo um aumento facilmente observável do sexo daqueles que só distraidamente o praticam. As desculpas habituais aparecerão nas mãos de cavaleiros liofilizados com máscaras de anjos para cultivar a nossa servidão. Mas quem manda, quem tem de mandar para construir uma realidade que a cada um de nós diz respeito? Falam do útil como se fosse necessário e premendo a tecla do fútil nunca arbitrário. Dói-nos na pele. Emporca-nos a alma, tira-nos a calma e queima-nos assiduamente o sonho. 
Estatísticas holísticas inquéritos esponjados numa frequência tendencialmente alérgica à mínima inteligência necessária para a eles não responder. Óleos queimados que nos entopem a tentativa da diferença. Não me conformo, e sei agora que nunca poderá ser proibido o ousar. Mas o medo encanta uma gente que já não canta esta vida que já não é e nunca virá a ser. Ameaçam-nos com o caos porque eles são os bons e nós, os sempre roubados e enganados, os maus. Deixem-me em paz! Eu quero agora calcar o meu próprio caminho. Não sei que força é esta. Não a compreendo. E rejeito as suas garras que vos engenham a necessidade de serem mandados.
ANARQUIA PRECISA-SE!
Deveremos saboreá-la e bebê-la com o sangue daqueles que ao abrigo da lei só nos têm enganado.
Chegou o momento de provarem o próprio veneno da sua hipocrisia. Ofereço-vos um nó  windsor  na gravata feita com as vossas tripas.






,2015aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

A SORTE TEM OS SEUS DIAS PARA A ORDINARICE

 


Às escondidas engraxo as patas de centopeia 
perante o olhar desconfiado de empregada do bar, 
sito na academia dos incautos molestados.
Independentemente do que aconteça,
lampejos de serenidade embriagam 
a verdade aos pedaços.
        Mas ainda ninguém descobriu o atalho 
para a bilheteira das almas 
misericordiosas.
        (E a máquina das virtudes automáticas 
tem o horário avariado).
        O pilar da sabedoria, 
(carunchoso e empenado) 
não passa de um aforismo artificial.
        Solução ideal?
        A mentira sem consequências repetidas.
        Por fim, o evento arrogante,
 (da triagem absurda do pântano dos escolhos), 
desenfreadamente empolgado,
asilou-se na residência do bom-sucesso. 

A sorte tem os seus dias para a ordinarice, 
disparou ela para o espanto do tira-teimas.




2025Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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ESCOLHA ATRAPALHADA

 


Espantalho meu 

 Quem de 

Ti

 Será mais 

do que 

 Eu?




2025Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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TENHO UMA MORTE EM CONSTANTE ERECÇÃO

 


Pela vida, 

Nada deram 

&

Isso foi a minha 

Bem-aventurança 



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