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quinta-feira, 20 de agosto de 2026
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
P.
Já não posso sofrer por ti
Só tive aquele tempo
Não me deste o momento
Para aquilo que te prometi.
Do resto fica o desejo
O adiado beijo
A ideia em flor
E a triste intenção
Que o medo matou.
Ai meu amor
O que eu faria por ti
Se me tivesses dado o tempo
Ou apenas o momento
Para o sonho que não vivi.
Ai meu amor
O que eu não fiz por ti
Mas não tive o momento
Nem sequer o tempo
Na vida que morri.
Que não me deste o momento
Ficará o lamento :
Tu sabes que não te menti.
jun2010 aNTÓNIODEmIRANDA
domingo, 16 de agosto de 2026
AMAR A POESIA NOS SOLUÇOS DA MEMÓRIA
Eu e a cabeça fora de mim
oferecendo lágrimas limpas
ao apressado lavrar do tempo.
Não precisamos de Pátrias
para salvar o lugar que amamos.
E na casa dos sonhos por nascer,
para sempre será proibido
beijar a posteridade.
E no adeus das palavras escondidas,
a mais ousada intenção
repousa no comprimido oferecido
pela simpatia do poema.
Até porque na última noite
abracei um poeta.
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COMO VELAS ACESAS ACARICIANDO O VENTO
Na falésia das ideias
Despe-se a vida
No lento caminhar
Fora das vistas da crueldade do tempo
Nas asas de Ícaro
Deveria assim ser amada toda a tristeza
Porque a vida
Mesmo fora do sonho
Nunca será para ser morrida
E, na serenata das saudades
Jamais serão admitidos queixumes.
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CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
O velho caminho já não me acompanha ao bar.
As palavras estão difíceis.
O momento tarda em chegar,
e a chuva que molha o pára-brisas da bondade
já deixa no patamar da possível esperança aplausos falseados.
Flores desfalcadas regam a varanda dos despojos.
Um céu vazio diz que me espera.
Depois desta farsa quem mais poderei assassinar?
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
Mas não sei onde se apagaram os sonhos ou em que feira foram lembrados.
Esse lugar não existe, assegura o relato do tempo não ardiloso.
Assim desce a vontade até ao fim do coração no desencontro inacabado.
A misericórdia é a mais cruel das lisonjas.
E ele disse" o paraíso não passa de uma promoção mentida em primeira mão.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
De joelhos não contes que apareça.
Mesmo no fim (cada vez mais repetido), sempre foi deste modo que mantive a esperança nesta vivida e (nem sempre apetecida) espera.
O miar do gato malvado amorosamente assanhado pousou no focinho e pintou na alma a acalmia que julguei não possível.
Agora sou um patudo orgulhoso que nunca se esquece de virar as folhas que sobram deste calendário.
A alegria continuará a ser para todo o sempre aquela pedra rolante cuspindo no recanto da miséria.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
O que de mim gostava foi para a enfermaria das palavras cruzadas.
Os lábios escorrem as memórias na areia, onde envergonhados, os nomes, procuram a fuga possível.
Asas bonitas vestem combinações da boa-esperança confortando o abrigo da almejada possibilidade, enquanto pássaros solidários ensaiam um hipotético bailado, para que a tristeza finalmente não se torne a mais fértil certeza.
Mas neste defunto mundo a única verdade apodrece numa retoma em permanente leilão.
Toda a gente chora nas infinitas traições entregues “à la minuta”.
Prédicas erguidas para o mais sangrento dos deuses pasmam no hipócrita consternação dos "inocentes".
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
Quem poderá respeitar as bombas que lhes vendemos?
A covardia será sempre um acto que jamais se cansa de ser celebrado.
Ó vida, dizes por aí que o "show" não pode parar.
Até porque a humanidade cedo demais assassinou o respeito que nos é devido.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
Como se uma tempestade acampasse no meu travesseiro e o sono que dela fugiu escrevesse acenos obscenos na agenda do despertar.
Não!
Não preciso de outra Ressurreição!
(Já tenho o “GPS” do paraíso artificial).
Olá!
Há por aí alguém que não me conheça?
Nosso Senhor!
(Malvado insidioso).
Que pena tenho que isso aconteça.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
E neste sentir demasiado cansado a procurar o botão do autoclismo, benzo sermões fictícios.
2025Fev05_aNTÓNIODEmIRANDA
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(Começado a ser escrito em Fev01 , durante um concerto na Fábrica de Alternativas_Algés)
NA VARANDA DOS OCASOS
,2024Set03_Vila Chã _aNTÓNIODEmIRANDA
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O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA ILUSÃO
2026,Ago_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 15 de agosto de 2026
AUTO-ESTRADA ‘64 ( para Foguito, o cão que mijou nas botas da tropa.’76)
,1976_aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 14 de agosto de 2026
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
BANALIDADES DE BASE
Há quem goste
&
Ache piada
Eu
Nunca Consegui
Estimar
Uma Mente
Menstruada
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quarta-feira, 12 de agosto de 2026
GURU PSICADÉLICO
um cometa com almas
coradas de fresco.
E,
no refugo das asas esquecidas
do crivo do tempo,
afogam-se desejos
brindados por um Gel Mental,
fiel patrocinador das virtudes
inacabadas.
,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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VERDADE DE LA VALISE
Não Sei
Se Irei
Mas Se
For
Lá Estarei
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…AMOR ÀS 6 DA TARDE (#LIVRARIA BUENOS AIRES# Editora Tea For One_2015Março)
Movia-se como um anjo
Levei-a ao restaurante chinês
E comemos amor.
Com a face
Bastante rosada
Falei-lhe do
Nevoeiro de Lisboa
Contrastando fortemente
Com o sol radioso de Londres
Ela riu-se
E eu
Perguntei-lhe
Se já tinha visto algum santo
Cortar as unhas.
Chamou-me doido
E foi à casa de banho
Tirar o penso higiénico
Tirei a bota do pé esquerdo
Para ver as horas
Ela, admirada
Perguntou-me porque não usava
O relógio no pulso.
Disse-lhe que não tinha braços.
Levei-a ao restaurante chinês
E comemos amor.
Gostas de mim?
Gosto. Porquê?
Ezra Pound é fantástico
Amas-me?
Amo-te. Porquê?
Os Estados Unidos estão em decadência
Queres-me?
Quero-te. Porquê?
Na Rússia não há Páginas Amarelas
Desejas-me?
Desejo. Porquê?
Sou parvo.
Mas
Ela movia-se como um anjo
E dizia que odiava o sistema
Mas prazer e amor
Continuavam a ser esquema.
,76_aNTÓNIODEmiRANDA
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#LIVRARIA BUENOS AIRES#
Editora Tea For One_2015Março
FISIOTERAPIA
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
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ETC...
Se
Eu
Fosse Esperma
Escolheria
O Teu Corpo
Para Navegar.
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DIAGNÓSTICOS INDECENTES
canso-me assim.
Como se fosse uma espinha deitada na areia.
Visto a pele do búzio mais parecido
com a desordem do mar.
E conto-lhe histórias de linhas de água,
onde às vezes, isto é, poucas vezes,
mergulho o cansaço.
Atraco o sentimento,
no seixo mais polido
onde às vezes, e não sei quantas vezes,
desenho nas ondas
desalinhados gemidos.
Enredo-me nesta teia
onde chocalha o meu cérebro.
Avisei a Catarina,
a minha médica,
que continuo indisponível
para diagnósticos indecentes.
Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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ENVIESAVA O DESTINO NA VIA-SACRA
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BULIMUNDO (Para o Alexandre Neves, o músico no restaurante TAMBARINA)
terça-feira, 11 de agosto de 2026
ENTRE A AUSÊNCIA E A PRESENÇA O PASSADO É-ME FIEL
76*aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 10 de agosto de 2026
DO LADO ESQUERDO...
domingo, 9 de agosto de 2026
SINOPSE
O que nos deixaram?
A Sempre Negada Hipótese
Ensopada
No Nojo
Da
Humanidade.
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MAS QUE GRANDE BUSÍLIS
que há-vir,
enquanto esquecido no mar de ossos,
o futuro,
(é para amanhã que ontem
estive fechado),
joga ao toca-e-foge.
(Agarra-me se puderes).
Cara ou Coroa…
Tanto faz.
Assim reza o letreiro colado
no olhar da incerteza.
,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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NUNCA ME PEÇAM PARA USAR MELHOR A FALTA DE JUÍZO!
Sou niilista de origem
Anarquista de nascimento
Não bebo coca-cola
Por isso serei
Aquilo que não fui
Gosto!
Gosto de Jazz; Blues & Alka-Seltzer.
Nos intervalos afirmo que a importância está na aderência.
(daí o dizer-se que a adesão não é uma palavra importante).
A caspa irrita-me!
Também uso um relógio branco!
(vinha misturado com um pó frenético).
Gosto de Gin, da Gina e do cheiro de uma boa erva.
(nas mortalhas escrevo poemas).
A possibilidade é-nos dada pela publicidade.
Andei na escola onde queriam que lesse jornais que só me sujavam as mãos.
Também penso que a terra é redonda.
Admiro Kerouac; Ferlinghetti; Ginsberg, Corso e todo o pessoal da Beat.
Estive em várias reuniões como convidado de Timothy Leary.
Aprendi o evangelho nas #folhas de erva# do senhor Walt Whitman.
Por vezes viajo #debaixo do vulcão# só para cumprimentar o Malcom Lowry.
Troco facilmente uma conversa de merda por uma garrafa de whiskey.
(os padres mamam Porto Kopke).
Não sou masoquista!
Unicamente nos momentos dolorosos gosto de ouvir falar os políticos.
(dão-me coragem para continuar “defecadamente” interessado nas conversas da treta).
Sou!
(facto importante)!
Sou adepto do suicídio mas não acredito nele.
Ou não será que mortos já todos nascemos?
Adoro a palavra facto!
Muitas vezes confunde-se com fato.
(no Brasil não há factos)!
Acredito perfeitamente que Bakunine tenha nascido.
E creio firmemente que esteja morto.
(duvido, isso sim, que tenha sido compreendido).
As pessoas na sua linguagem para me atingirem ou provocar,
têm ou devem inventar palavras.
(felizmente não lhes reconheço essa capacidade).
Acho útil a palavra inútil como meio de provar a utilidade da inutilidade.
Os nomes são logicamente aceitáveis.
Caso contrário, saliente-se, incorrer-se-ia
no risco de confundir pessoas com animais.
A miopia é um facto!
Por isso não conheço nenhum cão pitosga.
O arroto é essencial!
Consequência: esteticamente proibido.
Parágrafo único e portanto não mentiroso:
adoro gerar a confusão no meio da desordem!
Drogo-me?
Nunca!
Apenas fumo marijuana sempre que tenho oportunidade!
Nb: os pássaros são anarquistas!
Adoram cagar em cima das pessoas!
Dez/27/74Ago2026_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 8 de agosto de 2026
O Cinema Underground de Jim Jarmusch
Primeiro filme de Jarmusch no estilo preto e branco, “Estranhos no Paraíso” é constituído por sequências filmadas em um único plano, separadas umas das outras por uma tela preta. Planos-sequência sem malabarismos ou virtuosismos técnicos, apenas a câmera fixa observando seus personagens em diálogos curtos e esvaziados e representando ações cotidianas, como assistir à televisão, dirigir ou conversar em um corredor do prédio. O filme conta a história de um jovem apático que recebe a visita de sua prima húngara, e resolvem, junto com um amigo, visitar a tia em Cleveland. Filme radicalmente contra a forma tradicional, com sequências dando ênfase principalmente a situações cotidianas, “Estranhos no Paraíso” rejeita qualquer aprofundamento ou discurso, tornando-se desconfortável e revelador em seu silêncio profundamente humano, onde impressões de afeto e desespero não são permitidas pela ação ou pelos diálogos, mas pela ausência de tudo isso. O minimalismo de Jarmusch, aqui, iniciou uma revolução silenciosa, fazendo desta uma obra influente para as gerações posteriores. Símbolo do cinema indie, “Estranhos no Paraíso” conquista pelo anacronismo legítimo, sem concessões ou didatismo.
“Down by Law” talvez seja o filme mais famoso do diretor. A aura cult do filme está implícita no longa desde a escalação do elenco, que tem: John Lurie (como um cafetão), o músico Tom Waits (como um DJ desempregado) e Roberto Benigni (como um excêntrico e otimista imigrante italiano). A história do filme gira em torno de três personagens de tipos bem diferentes que acabam se encontrando na prisão. Nesse ambiente inóspito, eles criam um vínculo de amizade (ou, pelo menos, aprendem a se tolerar) e formam uma parceria para que possam fugir dali. Neste – que é um filme de crime feito como qualquer outra coisa menos um filme de crime, os personagens marginais e “abaixo da lei”, como afirma o título, são mais importantes que seus delitos. Temos, assim, alguns temas recorrentes do cineasta Jim Jarmusch: um imigrante (Benigni), personagens desajustados, as coincidências que mudam drasticamente o destino dos personagens. O filme é elegantemente produzido em preto e branco, divertido, com um texto bem amarrado e criativo.
Inaugurando um formato de narração que consagraria o diretor dentro do circuito alternativo, “Trem Mistério” é o primeiro filme de Jarmusch a ser composto em “vinhetas” – três pequenas histórias que, juntas, com uma conexão causal mínima entre si, formam uma história maior. O espaço é o mesmo – um hotel onde, em todos os segmentos, os personagens são recebidos pelo saudoso gênio rústico Screamin’ Jay Hawkins, mas não há nenhuma conexão ou propósito maior. As histórias de uma turista que perde todo o dinheiro após um golpe e é ajudada por uma desconhecida, de um casal de japoneses obsessivos por Elvis que querem conhecer lugares da sua história em Memphis, e um trio de criminosos pé-de-chinelo, se encontram devido a apenas um evento em comum: o disparo dado pelo trio e ouvido pelos outros. Ocorrendo simultaneamente, formam uma espécie de tríptico jarmuschiano sobre a vida noturna. Sem implicações sociais ou romantismos individuais, Jarmusch entra adentra a natureza dos Estados Unidos, com forasteiros conhecendo os resquícios do império do cinema e do rock ‘n’ roll, e os últimos sobreviventes deste sonho catando migalhas e tentando sobreviver. Com a habitual tristeza contemplativa, somada a gags cômicas e diálogos nonsense que aprofundam ainda mais o lado “patético” de seus personagens, “Trem Mistério” aprofunda a recusa ao cinema tradicional e amplifica ainda mais o interesse pela recriação do cotidiano urbano “fora da grande roda”.
“Uma Noite Sobre a Terra” trata de variações sobre um mesmo tema: pegar um táxi e conversar com o motorista, construir mini-narrativas através das relações efêmeras e do papo furado de gente que não consegue ficar quieta consigo mesma e tenta se comunicar – costume este espalhado pelas duas mais famosas capitais dos EUA, Los Angeles e Nova York, e três capitais européias, Paris, Roma e Helsinki. É surpreendente como o estilo de Jarmusch é mutante mesmo com o formalismo fiel, referenciando o cinema de cada lugar – como é possível observar na comédia multi-cultural de Nova York, no taxista de Roma de Roberto Benigni e seu exagero obsceno a la Monicelli, ou no drama realista distante típico dos países nórdicos em Helsinki.
“Dead Man” – não só pelo título, mas até a medula – é quase como o espelho de um western tradicional: é preto e branco após o technicolor; o caubói da terra é substituído pelo forasteiro; ao invés dos típicos violões, a guitarra distorcida de Neil Young. O ritmo não é aventureiro, mas letárgico. Enfim, o resultado é um filme com Johnny Depp na sua melhor fase, com um clima de comédia de erros onde as coincidências vão construindo e guiando os personagens. Explora um personagem preso entre duas culturas (o índio que gosta de ser chamado de “Ninguém” – numa clara brincadeira sobre o choque cultural tão evidente no cinema de Jarmusch), com Iggy Pop como vilão e muito mais. É um grande filme, sendo incomum, anti-climático e muito bem realizado.
Após Johnny Depp, Jarmusch escolheu outro ator célebre por procurar personagens diferenciados, Forrest Whitaker, e criou “Ghost Dog” – um assassino de aluguel afrodescendente que segue os ensinamentos samurai e que trabalha para Louie, um mafioso italiano, como uma dívida de gratidão por ter salvo sua vida. O conflito principal, neste que é o filme mais narrativo de Jarmusch até então, é o embate do severo código bushido, “o caminho do guerreiro”, para que o samurai viva e sirva com honra, contra o mundo mafioso, disforme, amoral e interesseiro. Cruzando referências das mais diversas – o roteiro faz menção tanto ao clássico conto “Rashomon”, na construção do passado de “Ghost Dog”, quanto tem a trilha sonora produzida pelo mestre do hip hop RZA, do Wu-Tang Clan, sempre criando, através de suas batidas, samples e vinhetas sonoras com um clima urbano vivo, instável e tenso.
Coadjuvante, como o sorverteiro haitiano amigo de “Ghost Dog” no filme homônimo, o marfinês Isaach de Bankolé volta como o assassino de aluguel protagonista de “Os Limites do Controle”, o mais silencioso e opressivo dos filmes de Jarmusch. Enfileirando figuras típicas do cinema policial, nenhum deles é individualizado através do drama. Os personagens não têm nome nem personalidades definidas, sendo identificados apenas por uma característica marcante (“o mexicano”, “a loira”, “guitarra”), e interagem com o protagonista de forma ritualística: café, pergunta, papo furado e informações criptografadas. No restante do tempo, a rotina de hotéis e trens. A história trata de um homem solitário (Isaach De Bankolé) que vai à Espanha, com o propósito de cumprir ordens sem muito questionar. Sua eficiência é o que interessa, e ele está interessado em fazer seu trabalho da forma mais discreta possível. Entre encontros com intermediários, com quem troca caixas de fósforos, conversas sobre assuntos banais. Embora a imagem de Isaach De Bankolé inspire certo respeito, medo e periculosidade, ele nunca usa de violência. Ele pouco fala, embora sempre seja questionado sobre seus interesses por aqueles que encontra: artes, ciência, música, sexo? Aquele homem não se interessa por nada e é como se estivesse deliberadamente perdido dentro de uma lógica que não lhe pertence.
Mais um anti-gênero de Jarmusch, dessa vez flertando com o cinema fantástico. Por mais que isso possa parecer atípico, o novo filme de Jarmusch trata sobre vampiros. E se a vida finita já era tediosa, imagine se você estiver vivo há séculos, sem data para morrer. É o caso de Adão e Eva, um casal de vampiros que se relacionam há séculos, alheios à humanidade, mas verdadeiras esponjas de toda a arte produzida nesses séculos. A rotina vampiresca, às voltas com personagens periféricos inconvenientes, violência pontual e contemplação da vida urbana noturna de maneira cíclica, assim como denota o início com zenitais circulares, constrói um panorama da vida ocidental – obsessão frequente do diretor ao demonstrar as relações de indivíduos com sua cultura, costumes e crenças. Os vampiros bíblicos de Jarmusch são assim como os humanos que emulam e por eles são emulados: tecnológicos e místicos, “na moda” e nostálgicos, brutais e sofisticados, filmados não em conflito entre trevas e luz, como as unidades cromáticas do casal protagonista parece dar a entender, mas com a naturalidade da instância do presente.










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