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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

P.

 

Adeus amor
Já não posso sofrer por ti
Só tive aquele tempo
Não me deste o momento
Para aquilo que te prometi.
Do resto fica o desejo
O adiado beijo
A ideia em flor
E a triste intenção
Que o medo matou.
Ai meu amor
O que eu faria por ti
Se me tivesses dado o tempo
Ou apenas o momento
Para o sonho que não vivi.
Ai meu amor
O que eu não fiz por ti
Mas não tive o momento
Nem sequer o tempo
Na vida que morri.

Eu sei
Que não me deste o momento
Ficará o lamento :
Tu sabes que não te menti.

jun2010 aNTÓNIODEmIRANDA




ANA, NIKO E AM

 


domingo, 16 de agosto de 2026

AMAR A POESIA NOS SOLUÇOS DA MEMÓRIA

 


Eu e a cabeça fora de mim

oferecendo lágrimas limpas

ao apressado lavrar do tempo.


Não precisamos de Pátrias

para salvar o lugar que amamos.


E na casa dos sonhos por nascer,

para sempre será proibido 

beijar a posteridade.


E no adeus das palavras escondidas,

a mais ousada intenção

repousa no comprimido oferecido

pela simpatia do poema.


Até porque na última noite

abracei um poeta.





,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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COMO VELAS ACESAS ACARICIANDO O VENTO

 

Na falésia das ideias

Despe-se a vida

No lento caminhar

Fora das vistas da crueldade do tempo

Nas asas de Ícaro

Deveria assim ser amada toda a tristeza

Porque a vida

Mesmo fora do sonho

Nunca será para ser morrida

E, na serenata das saudades

Jamais serão admitidos queixumes.


,2026Jul_ aNTÓNIODEmiRANDA
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CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA

 


No concílio económico já tudo tinha sido roubado
O velho caminho já não me acompanha ao bar. 
As palavras estão difíceis. 
O momento tarda em chegar, 
e a chuva que molha o pára-brisas da bondade
já deixa no patamar da possível esperança aplausos falseados.
Flores desfalcadas regam a varanda dos despojos.
Um céu vazio diz que me espera.
Depois desta farsa quem mais poderei assassinar?
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
 
Mas não sei onde se apagaram os sonhos ou em que feira foram lembrados.
Esse lugar não existe, assegura o relato do tempo não ardiloso.
Assim desce a vontade até ao fim do coração no desencontro inacabado.
A misericórdia é a mais cruel das lisonjas.
E ele disse" o paraíso não passa de uma promoção mentida em primeira mão.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
De joelhos não contes que apareça.
Mesmo no fim (cada vez mais repetido), sempre foi deste modo que mantive a esperança nesta vivida e (nem sempre apetecida) espera.
O miar do gato malvado amorosamente assanhado pousou no focinho e pintou na alma a acalmia que julguei não possível.
Agora sou um patudo orgulhoso que nunca se esquece de virar as folhas que sobram deste calendário. 
A alegria continuará a ser para todo o sempre aquela pedra rolante cuspindo no recanto da miséria.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
O que de mim gostava foi para a enfermaria das palavras cruzadas.
Os lábios escorrem as memórias na areia, onde envergonhados, os nomes, procuram a fuga possível.
Asas bonitas vestem combinações da boa-esperança confortando o abrigo da almejada possibilidade, enquanto pássaros solidários ensaiam um hipotético bailado, para que a tristeza finalmente não se torne a mais fértil certeza. 
Mas neste defunto mundo a única verdade apodrece numa retoma em permanente leilão.
Toda a gente chora nas infinitas traições entregues “à la minuta”.
Prédicas erguidas para o mais sangrento dos deuses pasmam no hipócrita consternação dos "inocentes".
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
Quem poderá respeitar as bombas que lhes vendemos?
A covardia será sempre um acto que jamais se cansa de ser celebrado.
Ó vida, dizes por aí que o "show" não pode parar.
Até porque a humanidade cedo demais assassinou o respeito que nos é devido.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
Como se uma tempestade acampasse no meu travesseiro e o sono que dela fugiu escrevesse acenos obscenos na agenda do despertar.
Não!
Não preciso de outra Ressurreição!
(Já tenho o “GPS” do paraíso artificial).
Olá!
Há por aí alguém que não me conheça?
Nosso Senhor!
(Malvado insidioso).
Que pena tenho que isso aconteça.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
E neste sentir demasiado cansado a procurar o botão do autoclismo, benzo sermões fictícios.


2025Fev05_aNTÓNIODEmIRANDA
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(Começado a ser escrito em Fev01 , durante um concerto na Fábrica de Alternativas_Algés)

NA VARANDA DOS OCASOS

 


Adeus ó vida. Vou fugir.
Já não conto os passos. É só isso. 
Nada mais tenho para falar.
Desejaria amar-te mais do que a verdadeira possibilidade, mas este assassinato resgatado da desilusão, rouba dia após dia pingos da esperança restante. Rasguei a rendição da dor. Nada já sou naquilo que atrevi ousar. Nem sequer a simples ideia das possíveis opções. Já não atendo a audácia do voo que até então adormecia na inocência que supostamente me baptizou. E na valsa da tristeza, amada nos sonhos de areia, gentis abraços da guitarra amiga mostravam espelhos do mais autêntico alento.
Não! Não! Não!
Não fui eu quem traiu a generosidade.
A ignorância, bordada na almofada da contagem final, segura a mão do anjo clandestino erguendo um ronco para anunciar o prognóstico dos dias que nunca mais conseguirei abraçar. Já só sobra o cheiro do sonho prometido. 
A porta está aberta. Mas o pesadelo dorme no infinito tempo dos perdedores. Não posso sentar-me e simplesmente esperar.
Na varanda dos ocasos desfila o ramalhete da agonia a caminho do vale do silêncio habitado pela crueldade infligida.


,2024Set03_Vila Chã _aNTÓNIODEmIRANDA
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O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA ILUSÃO

 


Construímos Relógios, Riscamos Calendários, Trocamos Promessas, Cânticos & Invenções & Talismãs & Vaticínios optimistas.
Mas, o tempo não nos liga nenhuma. 
A noite é uma songamonga onde se celebra a insidiosa reflexão no apartamento da alucinação. 
(velha mania destilada no alambique das fraudes).
Uma nova sessão de vaidades & acordes, mentidos na fuga dos martírios dirigida cor um qualquer Qristo sebáceo, aguarda os profetas da mudança, que na gentileza da oração pronto-socorro, cumprimentam as vontades obedientes penduradas na clausura do manicómio.
No mausoléu da hipocrisia a urna dos hóspedes ensaiados esperando o embalo dos aplausos, elogia os mensageiros das promessas repletas de morte. 
(Anunciado no Boletim Neurológico Nacional)! 
E, se os pensamentos honestos pudessem ser vistos, provavelmente seriam colocados na guilhotina da mesquinhez.
Vivemos no muro dentro de muro. 
Fugir é fácil.
Difícil é continuar em liberdade.



2026,Ago_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 15 de agosto de 2026

AUTO-ESTRADA ‘64 ( para Foguito, o cão que mijou nas botas da tropa.’76)

 


    Quando olho em volta e sinto-me longe do lugar onde gostaria de estar, não perco tempo a pensar se esse sítio na realidade existe. Foda-se! Não tenho culpa que o meu esperma originasse um saco de viagem. Na verdade, embora esteja apaixonado pela auto-estrada 64, não vejo nisto uma solução. Tudo começou quando cheguei a casa para jantar e vi pessoas estranhas sentadas à mesa. Elas tinham flores na cabeça, eu sentei-me numa lata de sardinhas & disseram: está louco, temos a certeza. Olhei para o prato e vi que alguém estava lá a acampar. Tirei um macaco do nariz & ele satisfeito, disse: uff! (até que enfim!). Senti-me aliviado, arrotei. Olhei para o chão: o boneco do mosaico estava a engraxar-me as botas! Pelo seu olhar, logo percebi: que bem que arrotas.
    Mas eu, algumas vezes sinto-me como um arco-íris ou como um cogumelo & quando olho em volta e sinto-me longe daquilo que desejo, logo penso que nem todas as pessoas se deviam ejacular. Bolas! Não tenho culpa que o meu esperma originasse um saco de viagem. Forniquei a família depois da sua primeira masturbação colectiva. Sinceramente irritou-me o cheiro do sémen então derramado. Demasiadamente! Abusivamente igual ao cheiro da merda. Além disso, é sempre tempo de partir. 
Recuso a paragem porque a sombra acabará por me trair. Cago nos contratos da única maneira possível: adiando-os. 
Corri os quatro cantos do mundo (é esta a prova de que ele realmente não é redondo), escrevi á Rommy Schneider (da qual ainda hoje espero resposta),forniquei nos wc´s dos comboios, passei tardes em Victoria Station a conversar com um índio mexicano que me ofereceu um cogumelo sagrado. Lavei os pés em muitos jardins de renome e importância histórica. Lembrei-me amiúde do conforto de uma cama. Evitei muitas vezes a memória da saudade.
& foi então que apareceste. 
Sinceramente duvidei que fosses tu, embora nunca te tivesse visto. Mas havia qualquer coisa no ar, inclusive as pessoas ficaram espantadas por terem a possibilidade de admirar um arco-íris em plena estação. Fiquei louco, muito louco & por isso beijei-te loucamente. Sim! Cago perfeitamente que me chamem machista ou homossexual, mas apaixonei-me por ti! Como pode alguém apaixonar-se por uma auto-estrada? Conhecendo-a!
Não acredito no valor relativo das palavras, (aliás o único que podem possuir). Odeio a palavra possessão!
Bem sei que caminhamos de mãos dadas através destas florestas de betão armado, provas evidentes de um urbanismo paranóico, onde raramente o pôr-do-sol acontece. Paris Bruxelas Amesterdão Colónia Hamburgo Copenhague Estocolmo Oslo Londres Belfast Biarritz Vitória Barcelona Lisboa, onde o sexo se vende em garrafas. 
(O de qualidade superior, enlatado). Os dentes dos caracóis estão expostos nas conferências e servem para coçar os cornos das pessoas que se sentem com capacidade para os possuir. 
Todos! Burocratas, políticos, capitalistas, imperialistas artistas e poetas a fingir! As mãozinhas das crianças têm muita procura no mercado: ajudam a tirar a merda dos narizes. Para o sarro da cabeça, ainda não há cura, apesar do esforço de um qualquer champô despudoradamente publicitado.
Vá lá… enrabem-se com os vossos poderosos canhões! Dêem às bombas a mesma utilidade que os supositórios vos oferecem! Se tal fizerem, verão que isto ficará um pouco melhor. Quem julgam que são! Onde pensam que estão? Superstars! Estou farto, mesmo muito cansado de vocês. Sei muito bem que as oportunidades que mentirosamente me oferecem, têm um único objectivo: o meu falhanço. Também sei que irei cair. Mas será de um modo diferente.

… Da invenção do homem

Depois do homem, o único ser abominável que conheço, é exactamente o homem. 
Inteligência? Estupidez? Honestidade? Moral? Trabalho? Escola? Educação? Família? Posição social? Deus?
Vegetem, vegetem, vegetem. Mastiguem à vontade os vossos complexos. Experimentem, experimentem, cada vez mais e mais. Vocês nunca se fartam, tenho a certeza. Ser controlado? Recenseado? Etiquetado? Notado? Tarimbado? Selado? Normalizado? Isso vocês não admitem nem saber porquê. 
    Construam! Produzam cada vez mais e mais hospitais manicómios escolas, porque num futuro cada vez mais presente, serão essas as únicas instituições que terão alguma utilidade. Adorem! Louvem, idolatrem cada vez mais e mais o poder. 
    Coloquem-no numa estante e limpem-lhe o pó todos os dias: poluindo, limpa-se a contaminação. É esse o vosso lema.
    Que me interessa ler jornais que me sujam as mãos e tentam fazer o mesmo à minha cabeça?
    Estou farto! Cada vez mais cansado e não me dirijo a vocês com qualquer réstia de esperança.
Sou porco! Suficientemente porco para defecar na vossa presunção.
    Mas tu nunca mais chegas e eu continuo a pensar. Aliás, é aquilo que me faz hesitar. Vem! Vem depressa, pois embora acredite que o suicídio não tenha dor, sou demasiado covarde para o tentar. Toca-me apalpa-me penetra-me. Faz com que eu te sinta. Nunca disse isto a ninguém, mas a verdade é que estou apaixonado por ti. Mas, tu nunca mais chegas, lembras-te? Então demos as mãos de mãos dadas, apertámos o coração e beijámos sítios que depois nos proibiram de pisar. Como vês, aquilo que eu te disse, confirmou-se. Ser diferente implica estar sujeito a duas atitudes: marginalizam-nos ou tentam devorar-nos. Não me perguntes porquê, bem sabes que não suporto questões banais,
Era mesmo necessário a separação? Disse-te para me veres quando desejasses, mas tarda o teu chegar.
… Não vi monstros coloridos, mas senti-me apertado, farto banal. 
Desejei-te da maneira que tu ainda não compreendeste, ou talvez ainda não sentiste & posso dizer que foi a primeira vez que isto me sucedeu. 
Senti a crueldade a estupidez a futilidade da existência das distâncias e isso foi o suficiente para me fazer pensar que tu realmente existias. A morfina como sempre ajudou, pelo menos da maneira que eu desejei. Surgiste mais calma, exactamente como quando julguei ter uma alucinação ao olhar-te pela primeira vez. Fecha os olhos. É melhor que não me vejas. Não! Não é que esteja com mau aspecto mas acima de tudo neste momento estou fodido. O desejo não deveria existir!
Então eles entraram. Porcos palhaços, justamente como porcos palhaços porcos. Aí senti que não me podia masturbar. Inútil! Tudo é inútil quando sentimos a necessidade da coerência, quando perguntamos a nós mesmos o que fazer quando vemos um monte enorme de trampa e nem sequer temos uma pá impregnada de batota para a destruir. Quando temos uma prova da inutilidade do pénis e da vagina, quando olhamos para uma pessoa, (sim pessoa!) e sentimos a sua dentadura beliscando o nosso corpo, quando estendemos um cigarro com o intencional desejo de uma bala, quando nos olham e sinceramente somos obrigados a sorrir todo o nojo, quando nos dizem adeus & logo pensamos que eles nunca ali estiveram presentes, quando somos obrigados a abrir os arquivos da puta da memória em busca de recordações susceptíveis de nos fazerem ausentar, mesmo que seja por um só momento.
Mas o que é isto? Não, não é uma fórmula1. Odeio descaradamente a publicidade. Isto? Ou aquilo, foi uma bad. Vocês são todos uns filhos da puta. Mas eu tive consciência de que isso tinha de acontecer.
Bad trip, fizeste desaparecer o cogumelo que até então tinha no estômago, a aura que há muito tempo contornava o meu corpo. É isso tudo o que lamento. Yah! Mete-o no cú.
Continuamos de mãos dadas. Não sei por quantos quilómetros, mas…
Vamos desejar ser odiados! Imediatamente!
Quando olho em volta e sinto-me longe do lugar onde gostaria de estar, não perco tempo a pensar se esse lugar na realidade existe. Que o meu esperma dê origem a um saco de viagem!

…Do chuto

    Heroína nas veias, cocaína na cabeça, sol espreguiçando-se no parapeito dos meus olhos, speed nas minhas mãos o brilho reflecte-se no meu cérebro. Acontece o silêncio. O único que aceito. Mas o ruído torna-se audível embora eu queira acreditar que daí nada poderá surgir. A hora do lobo. O gesto não foi consequência do pensamento e sinto que dum momento para o outro, estou cercado de espelhos que não me mostram o personagem que eu quero. O delírio deixa de sofrer alterações e tudo volta à normalidade. Uma rotina que acima de tudo continua a limitar-me. Ámen!
O arco-íris é a alucinação dos pobres!
Daqueles que apelidam de loucos, os que se apaixonam por uma auto-estrada. Daqueles que tomando “Dietilamida do Ácido Lisérgico”, pensam poder sentir o amanhecer na cabeça, comunicar com seres extra ou não terrestres, utilizar nas suas deslocações sempre denunciadas pela sua própria limitação, naves espaciais & depois desiludidos porque nada disto acontece, atiram-se do rés do chão e geralmente conseguem fisicamente não morrer, ou formam normalmente a nova polícia. 
Oferecem-me um prazer indiscutível: a banhada.
Que faço eu aqui?
Estou no intervalo de um filme. Recusei ser mais um artista nesse elenco.
É duro! Bem sei que é duro de dizer, mas nunca amei em vão. Tão pouco poderei colher os frutos dum possível fracasso. Continua-se a dar demasiada importância às palavras & por isso mesmo as contradições continuam a existir. Eu acabei agora mesmo de ler as instruções referentes ao uso do tampax: sinto-me menstruado e continuo a queimar as etiquetas dos cigarros & o telefone teima em acordar-me todas as manhãs.
Não é preciso ser meteorologista para saber de que lado sopra o vento. Não sei se alguma vez te disse isto, mas continua a não te importares.
Depois! Bem, depois uma beata apagada um charro na boca uma grande pedrada & logo pensas que a solução está na química. Também costumas politi-falar, mas estás certo: Rússia e América afinal são duas formas de poder & o poder só serve para nos foder. 
Eu? Bom, eu continuo a querer matar-te.
… Drogo-me, drogo-me não! Fico porreiro sempre que tenho oportunidade & meter-te o dedo no ânus, já não me dá prazer! Bem sabes que não posso dizer o que acontece quando um homem ama uma mulher, tal como considero nula a existência de todos os poetas & não me agrada nada que os submarinos soviéticos continuem na minha banheira. & porque te beijei e nos meus lábios nasceu uma borbulha, a partir de então prometi não beijar nunca mais o teu corpo, excepto na...boca. 
Além de mais que interesse me dá o acordar todos os dias, se vejo paredes nuas ou miseravelmente enfeitadas, com uma única saída: a futilidade do quotidiano.

    … De um país por mim lamentado

    Aqui perco-me com dias iguais descoloridos aqui a alegria dá lugar a um lamento constante aqui a ânsia da liberdade é a sucessão das horas dias anos aqui o grito de revolta é mudo aqui o sorrir é mecânico como mecanizados são todos os gestos aqui o obedecer é o contestar silencioso, nas costas de quem nos manda, com um sorriso nos lábios, aqui o estudar é futuro como posição social, aqui a esperança é sempre uma palavra agredida pela ridicularia dos homens, aqui o amor é o jogo de cama inventado pela sociedade num momento de ócio, aqui não haverá memória para dias felizes.
Não me sigas! Eu também estou perdido. E vocês não digam que estou errado! Era jovem quando saí de casa.
… Da negação do existir
Sou filho da guerra do ódio da miséria e do pecado que não fiz minha irmã é a noite que nunca mais termina é a dor inventada a boca asquerosa que não pensa nem sabe aquilo que diz minha vida são as grades que eu como os covardes não consigo quebrar os meus braços são tenazes que apertam os meus desejos e destroem a minha ânsia de amar os meus olhos são a alegria simulada de uma ambição frustrada que eu teimo ainda em pensar os meus beijos são despejos manias fumo exibição o meu pensamento é tempo é o vento da vida que eu não vivi sou homem objecto sou produto para consumir sou futuro sem presente sou a negação do existir.
… O tempo morreu, mas o cerco aperta-se a fuga é eminente a ambição desapareceu. Merda é o poema! Contudo é urgente libertar o sol para que as estrelas possam de novo dançar. Que os pássaros ensinem o mundo a amar.

    … amor às 6 da tarde

    Ela Movia-se como um anjo Levei-a ao restaurante chinês E comemos amor
Com a face Bastante rosada Falei-lhe do Nevoeiro de Lisboa Contrastando fortemente Com o sol radioso de Londres Ela riu-se E eu Perguntei-lhe Se já tinha visto algum santo Cortar as unhas Chamou-me doido E foi à casa de banho Arrancar o penso higiénico Tirei a bota do pé esquerdo Para ver as horas Ela, admirada Perguntou-me porque não usava O relógio no pulso. Disse-lhe que não tinha braços.
Levei-a ao restaurante chinês E comemos amor
Gostas de mim? Gosto Porquê? 
Ezra Pound é fantástico
Amas-me? Amo-te Porquê?
Os Estados Unidos estão em decadênCIA
Queres-me? Quero-te Porquê?
Na Rússia não há páginas amarelas
Desejas-me? Desejo Porquê?
Sou parvo
Mas Ela movia-se como um anjo
E dizia que odiava o sistema Mas prazer e amor
Continuavam a ser esquema.

  …Mas

A vida é bela, passada à janela vendo a Manela chupando um pau de canela olhando para a panela, no mar: uma caravela e a prima da Manela também é bela. Olha, lá vem ela. Como é bela a vida a Manela vista de uma janela.
… A desculpa
Não tenho o direito de vos chamar porcos estúpidos e maus. Nem lamento sentir que são isso tudo & muito mais.
… De um happening sobrenatural em Lisboa
3 três Submarinos Soviéticos 
Juntaram-se No Aqueduto Das Águas Livres
Para Fazerem 1 um Piquenique
& Devoraram 1 um Destroyer Americano

        … De um requiem por todos os poetas descalços

Nada! Para além dum bolso repleto de sonhos. Duma prática quotidiana abusivamente condicionada por um certo ritmo de consumo, de posições motivadas pelo próprio sistema. Ou uma traição consciente mas sempre traição a mim mesmo. Não! Não quero ser dos que ficaram pelo caminho. Poema é a pena de eu não ter pena de escrever o poema.
Mas, não te chateies: 
Eu sou o único poeta que pode mijar na tua algibeira.



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ROLLING STONES - DOWN IN THE BOTTOM (live)

https://youtu.be/YjAMhWwDry0?si=jXvIZDnVSRAov0Dt 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

BANALIDADES DE BASE

 


Há quem goste

&

Ache piada


Eu

Nunca Consegui

Estimar

Uma Mente

Menstruada



,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

GURU PSICADÉLICO

 


Oferece-se lá para as beiras do céu
um cometa com almas 
coradas de fresco.
E, 
no refugo das asas esquecidas
do crivo do tempo,
afogam-se desejos 
brindados por um Gel Mental, 
fiel patrocinador das virtudes 
inacabadas
.







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VERDADE DE LA VALISE

 


            Não Sei

                        Se Irei

        Mas Se 

                                            For

                 Estarei



2026Ago7_aNTÓNIODEmIRANDA
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…AMOR ÀS 6 DA TARDE (#LIVRARIA BUENOS AIRES# Editora Tea For One_2015Março)

 


Ela
Movia-se como um anjo
Levei-a ao restaurante chinês
E comemos amor.
Com a face
Bastante rosada
Falei-lhe do
Nevoeiro de Lisboa
Contrastando fortemente
Com o sol radioso de Londres
Ela riu-se
E eu
Perguntei-lhe
Se já tinha visto algum santo
Cortar as unhas.
Chamou-me doido
E foi à casa de banho
Tirar o penso higiénico
Tirei a bota do pé esquerdo
Para ver as horas
Ela, admirada
Perguntou-me porque não usava
O relógio no pulso.
Disse-lhe que não tinha braços.
Levei-a ao restaurante chinês
E comemos amor.
Gostas de mim?
Gosto. Porquê?
Ezra Pound é fantástico
Amas-me?
Amo-te. Porquê?
Os Estados Unidos estão em decadência
Queres-me?
Quero-te. Porquê?
Na Rússia não há Páginas Amarelas
Desejas-me?
Desejo. Porquê?
Sou parvo.
Mas
Ela movia-se como um anjo
E dizia que odiava o sistema
Mas prazer e amor
Continuavam a ser esquema.





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#LIVRARIA BUENOS AIRES#
Editora Tea For One_2015Março







FISIOTERAPIA

 


Não me iludo nas explicações que esgotam 
horas que escapam e toldam o momento que pensei.
Sou demasiado comparsa da minha perspectiva 
& confesso a máxima deferência para este oleado 
onde passeiam as minhas vontades. 
Escorrego neste bamboar, 
passividades que tendo a diluir.
Não mudo nada!
Nem o mais completo de mim.
Sentado neste espaço ocupado tantas vezes 
com a ausência, articulo asneiras nesta fisioterapia 
amparada por canadianas bêbadas 
& cansadas da minha teimosia.
A serenidade passa por vezes galgando o rio, 
tão apressada que nem consigo agarrar o seu cheiro.
Tiro os pés do chão só para decorar 
esta vela com palavras que um dia 
deixarão de me fugir.






,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
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ETC...

 


Se

Eu

Fosse Esperma

Escolheria

O Teu Corpo

Para Navegar.





aNTÓNIODEmiRANDA
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DIAGNÓSTICOS INDECENTES

 


Às vezes, isto é, muitas vezes,
canso-me assim.
Como se fosse uma espinha deitada na areia.
Visto a pele do búzio mais parecido 
com a desordem do mar.
E conto-lhe histórias de linhas de água,
onde às vezes, isto é, poucas vezes,
mergulho o cansaço.
Atraco o sentimento,
no seixo mais polido
onde às vezes, e não sei quantas vezes,
desenho nas ondas 
desalinhados gemidos.
Enredo-me nesta teia
onde chocalha o meu cérebro.
Avisei a Catarina,
a minha médica,
que continuo indisponível
para diagnósticos indecentes.





Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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A postos...


 

ENVIESAVA O DESTINO NA VIA-SACRA


Pensou todo o tempo.
Numa raiz apodrecida e raivosa até mais não, conspurcada por cem anos de solidão.
Como seria levantar-se neste torpedo de pólvora penteado com genuínos golpes de «Pratex» e as mãos cavadas pelo bocejar com que julgava iluminar os dias seguintes?
Não se lembrava da dor mas sentia cada vez mais a lâmina da sua presença.
Enviesava o destino na via-sacra que com ele falava na catedral dos encontros imediatos.
Tanto caminho sem eira nem fim, tanto percalço solitário, tanta paz desalmada, todo o desassossego bebido.
Não há moedas para esta contrição, nem pecados para disfarçar este medo.
Pensou aquele tempo quando as amoras lhe ofereciam os mais puros dos sangues que lhe bebiam a sede.
& Mirando estrelas curiosas que só queriam a sua amizade, por vezes chegava a pensar que afinal tinha existido.


2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
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BULIMUNDO (Para o Alexandre Neves, o músico no restaurante TAMBARINA)



Corri mundo
fugi do mundo
mas nunca encontrei outro lugar.
Vivi em barracas sem o céu da minha terra 
fiquei além de mim para viver em guerra 
mas nada sabia desta vida. 
Caí para o mundo 
mas não havia FUNANÁ para dançar. 
Bulimundo onde me chamam vagabundo 
mas eu só queria  um torrão da Tabanca 
onde os meus pés descalços eram felizes. 
Parti morri não pertenço aqui 
onde outras músicas tocam corações não meus
e sempre de mim ausentes.
Que faço aqui onde o meu lugar é uma ferida?
Não quero morrer da tristeza 
onde algo maior que a fome me mata.




,2016,08aNTÓNIODEmIRANDA_restaurante Tambarina
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terça-feira, 11 de agosto de 2026

ENTRE A AUSÊNCIA E A PRESENÇA O PASSADO É-ME FIEL

 


O importante é não nos comprometermos com as pessoas, não que temamos as consequências, mas porque não aceitamos e rejeitamos a realidade em que vivem. A futilidade do seu quotidiano é a sua mais notória falta de imaginação. Pensar, é aquilo que elas não conseguem, mesmo quando não têm nada para fazer. Se eu tivesse um Ferrari fazia amor com ele. Se eu fosse pato gostava de ser gato. Se eu fosse francês não falaria emigrante. Se eu fosse esperma escolheria o teu corpo para navegar. Quem pôs a bomba? Senti a sua explosão no meu corpo & logo pensei que tivessem inventado o amor. Acredito no amor, não como palavra, não como acto, mas como desejo.
É preciso estarmos atentos vigilantes não só a nós mesmos mas também aos nossos instintos naturais. Somos sensíveis, mudamos frequentemente, e quando isso acontece, nada se altera. Hoje pode dizer-se que naquele verão estavas magnífica e eu posso também afirmar, embora não publicamente, que às vezes precisava de ti imaginando-te drogada & quando tu aparecias, o que nunca aconteceu, eu olhava-te e convidava-te para me cortares as unhas dos pés. Lembro-me perfeitamente do sorriso que tinhas quando me olhaste com o dedo que não tinha unha entre as mãos: mas eu sabia, sim eu sabia que isso mais dia, menos dia iria acontecer. E eu toquei-te e tu disseste não e eu beijei-te e tu disseste não e eu desejei-te e tu disseste não. Visivelmente cansados pela nossa primeira experiência permanecemos pedrados de mãos dadas na cama, cuspindo para o tecto tentando acertar numa casca de ovo horrivelmente pintada. Aproveitei para pôr no gira-charros Woodie Guthrie & tu gostaste! 
Ouvindo Sonny Terry e Brownnie McGhee e perguntaste o que era um Blue. E eu disse-te ao ouvido: sabes pá, quando um gajo está na merda com a sua girl friend, pega na guitarra e acontece o Blue
“Eu nasci na auto-estrada 64 e a primeira refeição que tive foi uma boleia. Cresci, embora não muito, no meio de negros de caracóis dourados. Engolindo o fumo dos seus cigarros, eu ouvia-os longo tempo cantando: oh deus! Oh deus! Porque é que isto acontece? Porquê trabalho eu tanto para o outro ter Mercedes Benz. ”Comecei a trabalhar, não muito frequentemente, gastando todo o dinheiro em livrarias, até ficar com calos nas mãos de tanto pegar nos livros que muitas vezes não tinha hipótese de comprar. Era sempre um desejo adiado. Passei dias no café Pigalle observando os craques do bilhar e os curiosos das slot machines. Aprendi a conhecer pelo cheiro das beatas que fumava a marca de alguns charutos e tinha como passatempo preferido, mudar as etiquetas das garrafas de vinho nos supermercados, tornando assim viável a compra com o preço adequado às minhas reais possibilidades. E pensei em mudar. Disse á minha namorada: estou cansado de andar por aí, quero fixar-me, tenho de casar. Mas devemos de estar atentos, não mudamos quando queremos, mas porque quase sempre somos obrigados a fazê-lo. Não somos tão sensíveis como imaginamos e tão sólidos como de tal temos a certeza.
Entre a ausência e a presença o passado é-me fiel.
… Embora se saiba que a fidelidade, também é uma companhia de seguros…


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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

DO LADO ESQUERDO...

 

Do lado esquerdo, 
escrevo na outra fase da lua, 
enquanto sonhos ansiosos aguardam 
curiosos temperos coloridos com os sabores 
de ousadias não programadas. 
Do lado esquerdo, 
deito-me enternecido, e jogo o elenco preferido, 
agarrado a uma eventual play station 
com comandos avariados, 
que fugiram para outra cena 
agarrados ao chupa-chupa da Mary Poppins
A Alice já não quer dormir comigo, 
(a não ser do lado esquerdo),
e deve ser por isso que tenho suores frios 
que me enlouquecem a barba, 
sempre mal disposta para o afago do pincel.
Não sei quem mora aqui, 
agora que  estou disponível 
para uma conversa de pé de orelha, 
sem corrector pornográfico.
Do lado esquerdo, 
alcanço outras irreverências 
e não é sujo dizer que amparado 
por óculos monofecais, 
sinto nas costas um par de m(i)amas, 
que me aquecem as mãos.
Do lado esquerdo...

2016,03aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 9 de agosto de 2026

SINOPSE

 


O que nos deixaram?

A Sempre Negada Hipótese

Ensopada

No Nojo

Da

Humanidade.



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MAS QUE GRANDE BUSÍLIS

 


No banco do tempo conforta-se aquilo 
que há-vir, 
enquanto esquecido no mar de ossos, 
o futuro, 
(é para amanhã que ontem 
estive fechado),
joga ao toca-e-foge.
(Agarra-me se puderes).
Cara ou Coroa…
Tanto faz.
Assim reza o letreiro colado 
no olhar da incerteza.










,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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NUNCA ME PEÇAM PARA USAR MELHOR A FALTA DE JUÍZO!

 


SOU!
Sou niilista de origem
Anarquista de nascimento
Não bebo coca-cola
Por isso serei
Aquilo que não fui
Gosto!
Gosto de Jazz; Blues & Alka-Seltzer.
Nos intervalos afirmo que a importância está na aderência.
(daí o dizer-se que a adesão não é uma palavra importante).
A caspa irrita-me!
Também uso um relógio branco!
(vinha misturado com um pó frenético).
Gosto de Gin, da Gina e do cheiro de uma boa erva.
(nas mortalhas escrevo poemas).
A possibilidade é-nos dada pela publicidade.
Andei na escola onde queriam que lesse jornais que só me sujavam as mãos.
Também penso que a terra é redonda.
Admiro Kerouac; Ferlinghetti; Ginsberg, Corso e todo o pessoal da Beat.
Estive em várias reuniões como convidado de Timothy Leary.
Aprendi o evangelho nas #folhas de erva# do senhor Walt Whitman.
Por vezes viajo #debaixo do vulcão# só para cumprimentar o Malcom Lowry.
Troco facilmente uma conversa de merda por uma garrafa de whiskey.
(os padres mamam Porto Kopke).
Não sou masoquista!
Unicamente nos momentos dolorosos gosto de ouvir falar os políticos.
(dão-me coragem para continuar “defecadamente” interessado nas conversas da treta).
Sou!
(facto importante)!
Sou adepto do suicídio mas não acredito nele.
Ou não será que mortos já todos nascemos?
Adoro a palavra facto!
Muitas vezes confunde-se com fato. 
O que aliás é um facto.
(no Brasil não há factos)!
 E nem toda a gente veste fato.
Acredito perfeitamente que Bakunine tenha nascido. 
E creio firmemente que esteja morto.
(duvido, isso sim, que tenha sido compreendido).
As pessoas na sua linguagem para me atingirem ou provocar, 
têm ou devem  inventar palavras.
(felizmente não lhes reconheço essa capacidade).
Acho útil a palavra inútil como meio de provar a utilidade da inutilidade.
Os nomes são logicamente aceitáveis. 
Caso contrário, saliente-se, incorrer-se-ia 
no risco de confundir pessoas com animais.
A miopia é um facto!
Por isso não conheço nenhum cão pitosga.
O arroto é essencial!
Consequência: esteticamente proibido.
Parágrafo único e portanto não mentiroso:
adoro gerar a confusão no meio da desordem!
Drogo-me?
Nunca!
Apenas fumo marijuana sempre que tenho oportunidade!
Nb: os pássaros são anarquistas!
Adoram cagar em cima das pessoas!


Dez/27/74Ago2026_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 8 de agosto de 2026

O Cinema Underground de Jim Jarmusch

Ao contrário do ritmo acelerado que os filmes independentes de nossa época possuem, Jarmusch seguiu um outro padrão visual, menos agressivo e mais contemplativo. Com esse estilo, Jarmusch introduziu o movimento que hoje é conhecido como “underground americano”.
 
 
Jim Jarmusch é um dos pais do novo cinema independente norte-americano. Ao lado dos seus irmãos cineastas, até mais populares, Quentin Tarantino e os Irmãos Coen, ele foi um dos responsáveis pelo renascimento do cinema independente americano no fim dos anos 80 e começo dos 90.
Jarmusch estudou cinema na Universidade de Nova York, mas abandonou os estudos quando lhe surgiu a oportunidade de fazer seu primeiro filme, “Permanent Vacation”. Embora “Permanent Vacation” tenha chamado atenção, foi com “Estranhos no Paraíso” que ele realmente mostrou a que veio, conquistando elogios da crítica e do público.
Primeiro filme de Jarmusch no estilo preto e branco, “Estranhos no Paraíso” é constituído por sequências filmadas em um único plano, separadas umas das outras por uma tela preta. Planos-sequência sem malabarismos ou virtuosismos técnicos, apenas a câmera fixa observando seus personagens em diálogos curtos e esvaziados e representando ações cotidianas, como assistir à televisão, dirigir ou conversar em um corredor do prédio. O filme conta a história de um jovem apático que recebe a visita de sua prima húngara, e resolvem, junto com um amigo, visitar a tia em Cleveland. Filme radicalmente contra a forma tradicional, com sequências dando ênfase principalmente a situações cotidianas, “Estranhos no Paraíso” rejeita qualquer aprofundamento ou discurso, tornando-se desconfortável e revelador em seu silêncio profundamente humano, onde impressões de afeto e desespero não são permitidas pela ação ou pelos diálogos, mas pela ausência de tudo isso. O minimalismo de Jarmusch, aqui, iniciou uma revolução silenciosa, fazendo desta uma obra influente para as gerações posteriores. Símbolo do cinema indie, “Estranhos no Paraíso” conquista pelo anacronismo legítimo, sem concessões ou didatismo.

“Down by Law” talvez seja o filme mais famoso do diretor. A aura cult do filme está implícita no longa desde a escalação do elenco, que tem: John Lurie (como um cafetão), o músico Tom Waits (como um DJ desempregado) e Roberto Benigni (como um excêntrico e otimista imigrante italiano). A história do filme gira em torno de três personagens de tipos bem diferentes que acabam se encontrando na prisão. Nesse ambiente inóspito, eles criam um vínculo de amizade (ou, pelo menos, aprendem a se tolerar) e formam uma parceria para que possam fugir dali. Neste – que é um filme de crime feito como qualquer outra coisa menos um filme de crime, os personagens marginais e “abaixo da lei”, como afirma o título, são mais importantes que seus delitos. Temos, assim, alguns temas recorrentes do cineasta Jim Jarmusch: um imigrante (Benigni), personagens desajustados, as coincidências que mudam drasticamente o destino dos personagens. O filme é elegantemente produzido em preto e branco, divertido, com um texto bem amarrado e criativo.
Inaugurando um formato de narração que consagraria o diretor dentro do circuito alternativo, “Trem Mistério” é o primeiro filme de Jarmusch a ser composto em “vinhetas” – três pequenas histórias que, juntas, com uma conexão causal mínima entre si, formam uma história maior. O espaço é o mesmo – um hotel onde, em todos os segmentos, os personagens são recebidos pelo saudoso gênio rústico Screamin’ Jay Hawkins, mas não há nenhuma conexão ou propósito maior. As histórias de uma turista que perde todo o dinheiro após um golpe e é ajudada por uma desconhecida, de um casal de japoneses obsessivos por Elvis que querem conhecer lugares da sua história em Memphis, e um trio de criminosos pé-de-chinelo, se encontram devido a apenas um evento em comum: o disparo dado pelo trio e ouvido pelos outros. Ocorrendo simultaneamente, formam uma espécie de tríptico jarmuschiano sobre a vida noturna. Sem implicações sociais ou romantismos individuais, Jarmusch entra adentra a natureza dos Estados Unidos, com forasteiros conhecendo os resquícios do império do cinema e do rock ‘n’ roll, e os últimos sobreviventes deste sonho catando migalhas e tentando sobreviver. Com a habitual tristeza contemplativa, somada a gags cômicas e diálogos nonsense que aprofundam ainda mais o lado “patético” de seus personagens, “Trem Mistério” aprofunda a recusa ao cinema tradicional e amplifica ainda mais o interesse pela recriação do cotidiano urbano “fora da grande roda”.
“Uma Noite Sobre a Terra” trata de variações sobre um mesmo tema: pegar um táxi e conversar com o motorista, construir mini-narrativas através das relações efêmeras e do papo furado de gente que não consegue ficar quieta consigo mesma e tenta se comunicar – costume este espalhado pelas duas mais famosas capitais dos EUA, Los Angeles e Nova York, e três capitais européias, Paris, Roma e Helsinki. É surpreendente como o estilo de Jarmusch é mutante mesmo com o formalismo fiel, referenciando o cinema de cada lugar – como é possível observar na comédia multi-cultural de Nova York, no taxista de Roma de Roberto Benigni e seu exagero obsceno a la Monicelli, ou no drama realista distante típico dos países nórdicos em Helsinki.
“Dead Man” – não só pelo título, mas até a medula – é quase como o espelho de um western tradicional: é preto e branco após o technicolor; o caubói da terra é substituído pelo forasteiro; ao invés dos típicos violões, a guitarra distorcida de Neil Young. O ritmo não é aventureiro, mas letárgico. Enfim, o resultado é um filme com Johnny Depp na sua melhor fase, com um clima de comédia de erros onde as coincidências vão construindo e guiando os personagens. Explora um personagem preso entre duas culturas (o índio que gosta de ser chamado de “Ninguém” – numa clara brincadeira sobre o choque cultural tão evidente no cinema de Jarmusch), com Iggy Pop como vilão e muito mais. É um grande filme, sendo incomum, anti-climático e muito bem realizado.
Após Johnny Depp, Jarmusch escolheu outro ator célebre por procurar personagens diferenciados, Forrest Whitaker, e criou “Ghost Dog” – um assassino de aluguel afrodescendente que segue os ensinamentos samurai e que trabalha para Louie, um mafioso italiano, como uma dívida de gratidão por ter salvo sua vida. O conflito principal, neste que é o filme mais narrativo de Jarmusch até então, é o embate do severo código bushido, “o caminho do guerreiro”, para que o samurai viva e sirva com honra, contra o mundo mafioso, disforme, amoral e interesseiro. Cruzando referências das mais diversas – o roteiro faz menção tanto ao clássico conto “Rashomon”, na construção do passado de “Ghost Dog”, quanto tem a trilha sonora produzida pelo mestre do hip hop RZA, do Wu-Tang Clan, sempre criando, através de suas batidas, samples e vinhetas sonoras com um clima urbano vivo, instável e tenso.
“Sobre Café e Cigarros” é o filme-síntese de um projeto estético. Nele, é refinado, mais do que nunca, o tal sincretismo do papo furado – os temas e situações universais que nos unem e não damos importância. As histórias, invariavelmente sobre pessoas fumando e tomando café, conversando amenidades e se relacionando de forma superficial, sempre caem em desconforto e constrangimento sob qualquer tentativa de aproximação. Em um conjunto de 11 curtas, o diretor e roteirista coloca essa vasta gama de personagens para filosofar à mesa sobre os mais variados temas – da suposta morte do irmão gêmeo de Elvis Presley a picolés de cafeína. São papos entre irmãos, primos, amigos, colegas de profissão, clientes e garçons. Neste misto, surgem alguns personagens interessantes, como as primas Shelly e Catie, ambas vividas pela sagaz Cate Blanchett. Simples e vulgar como todo o cinema contemporâneo, “Sobre Café e Cigarros” é um improviso, um rascunho, algo que só se completa se alguém o assistir e inserir o afeto ali. Não há limites ou horizontes, apenas vislumbres.
“Flores Partidas” apresenta o rosto esvaziado de Bill Murray, a atuação contida, a recusa a qualquer construção de emoção pelo método. A história sobre um bon-vivant aposentado procurando o filho de dezenove anos – que nunca conheceu, visitando cinco ex-namoradas, cria um filme episódico. Onde deveria haver a progressão dramática tradicional, há apenas o esforço, a tentativa, a possibilidade. Há um mundo maior por trás de cada obra de Jarmusch, que recusa a encerrar a obra em si. O mistério que jamais se responde – que é o interessante: o reencontro do protagonista com suas antigas namoradas não é construtivo; as diferentes reações às suas batidas à porta refletem o singular filme sobre envelhecimento de Jarmusch, onde se trabalha com as ilusões perdidas, rancor internalizado e relações vazias.

Coadjuvante, como o sorverteiro haitiano amigo de “Ghost Dog” no filme homônimo, o marfinês Isaach de Bankolé volta como o assassino de aluguel protagonista de “Os Limites do Controle”, o mais silencioso e opressivo dos filmes de Jarmusch. Enfileirando figuras típicas do cinema policial, nenhum deles é individualizado através do drama. Os personagens não têm nome nem personalidades definidas, sendo identificados apenas por uma característica marcante (“o mexicano”, “a loira”, “guitarra”), e interagem com o protagonista de forma ritualística: café, pergunta, papo furado e informações criptografadas. No restante do tempo, a rotina de hotéis e trens. A história trata de um homem solitário (Isaach De Bankolé) que vai à Espanha, com o propósito de cumprir ordens sem muito questionar. Sua eficiência é o que interessa, e ele está interessado em fazer seu trabalho da forma mais discreta possível. Entre encontros com intermediários, com quem troca caixas de fósforos, conversas sobre assuntos banais. Embora a imagem de Isaach De Bankolé inspire certo respeito, medo e periculosidade, ele nunca usa de violência. Ele pouco fala, embora sempre seja questionado sobre seus interesses por aqueles que encontra: artes, ciência, música, sexo? Aquele homem não se interessa por nada e é como se estivesse deliberadamente perdido dentro de uma lógica que não lhe pertence.

Mais um anti-gênero de Jarmusch, dessa vez flertando com o cinema fantástico. Por mais que isso possa parecer atípico, o novo filme de Jarmusch trata sobre vampiros. E se a vida finita já era tediosa, imagine se você estiver vivo há séculos, sem data para morrer. É o caso de Adão e Eva, um casal de vampiros que se relacionam há séculos, alheios à humanidade, mas verdadeiras esponjas de toda a arte produzida nesses séculos. A rotina vampiresca, às voltas com personagens periféricos inconvenientes, violência pontual e contemplação da vida urbana noturna de maneira cíclica, assim como denota o início com zenitais circulares, constrói um panorama da vida ocidental – obsessão frequente do diretor ao demonstrar as relações de indivíduos com sua cultura, costumes e crenças. Os vampiros bíblicos de Jarmusch são assim como os humanos que emulam e por eles são emulados: tecnológicos e místicos, “na moda” e nostálgicos, brutais e sofisticados, filmados não em conflito entre trevas e luz, como as unidades cromáticas do casal protagonista parece dar a entender, mas com a naturalidade da instância do presente.