Só resta de ti o vazio e
o espaço que ele já não ocupa. Não há lugar para tentativas,
tudo foi bem entendido. A memória foi embora levada pelo estafeta da
desolação. Já não me é estranha esta solidão. A vida é como
uma folha de cálculo :não se pode errar as fórmulas. Sentado,
comtemplando o circo dos porcos, espero a ajuda do sacana por mim
inventado. Não consigo ainda compreender as piadas estúpidas dos
palhaços mascarados, numa tentativa inútil de disfarçar a sua
condição. Estendo-me num banco do jardim, fecho os olhos e pinto o
sol de vermelho, esperando que qualquer pássaro curioso, não borre
o meu quadro. Evidentemente não resisto á lambidela do cão.
Ausento-me o possível. Atenção o sonho que quero vai começar. Eu
sei que mais ninguém o vai ver. Estou num picnic celestial. Como
sempre deus está ausente ! Ontem deitou-se tarde : esteve a ouvir
Stones com um amigo. Gosto do sabor destas nuvens embora ninguém me
tenha avisado que Groucho Marx continua a fumar charutos de erva.
Miró diverte-se a pintar o fumo. Harpo ri harpamente. Bogart não
pára de beijar a Lauren Bacall. Marlon Brando penhorou o óscar para
comprar terra para os índios.
Hoje há mil festas por
minuto. Desta vez vou tocar com Muddy Waters e John Lee Hooker. A
minha guitarra está ansiosa e a harmónica está a ferver. Porra,
amei a vida toda para este momento ! Jim Morrison vai ter de esperar.
Janis Joplin comeu um dos meus poemas e olha-me com malícia.
Pergunto-lhe se quer mais Michael Karoli não consegue esconder a
surpresa e toca beatnickcamente “ you doo right ”. Não tive
vergonha e declarei-me á Amy Winehouse : I know, you´re good
.Adormecerei dançando apaixonadamente com um anjo : CAN - Tango
Whiskeyman Obrigado cogumelo mágico
Foi com o maior prazer e satisfação, que tivemos esta conversa. Os nossos agradecimentos e um grande abraço para vocês. VIVA A MÚSICA! Permitam-me um agradecimento especial ao grande amigo, Armando José Garcia Machado!
E
o teu amigo especial é a tua sombra nos momentos em que invejas o
conforto da casa
Esse conforto desconfiado que te fez pegar na mala e largar A tua
alma é um saco de viagem repleto de sonhos que nunca te vão
abandonar Agora és uma solidão não sozinha nunca igual à que vez
nos olhos apressados dos que sem qualquer sentido caminham para o
mesmo lugar É a hora do lobo Onde o sol mal disposto e cansado vai
enganar a lua E o teu amigo especial É a tua sombra nos momentos
feitos de esperança Às vezes com lágrimas de choro Com o sabor da
hipótese nunca negada Nunca é tarde para se viver aquilo que ainda
não aconteceu Agora que a noite caiu e o polegar é o teu anjo da
guarda Há um frio que te deseja e abraça o corpo Há uma espera
imaginada Agora qualquer beijo seria bem-vindo Qualquer tronco de
árvore no jardim será a tua cama Agora que rogas no teu único
silêncio um soluço que nem de saudade já é Agora onde todos os
minutos te custam a adormecer e o medo habitual vai fazer-te
companhia Agora que te apetecia chorar mas falta-te a vontade Agora
não podes parar É a vida feita saudade E há sempre um carro que
policia com olhos curiosos Que te impedem de dormir Abeiram-se de
ti pensam que te estão a acordar E pedem uma qualquer identidade
Menos aquela te pertence Partem para voltar Voltar sempre mais cedo
do que era imaginável Estão ali olhando para ti Vigiando a tua
diferença que os atrai Agora todas as estrelas que tu não vais
sonhar Foram dormir Deixaram-te sozinho e não te iluminam o tecto É
sempre longe qualquer desejo Nem um cão está tão abandonado Logo
quando o frio for mais forte Terás pensado Mais um dia Afinal sou
um gajo com sorte E vais tomar o banho habitual Numa qualquer casa
de banho de estação Lavando a tua sujidade em suaves prestações
Então esperarás como sempre Por alguém sempre ausente Que
continuará a não te estender a mão São fáceis todos os sorrisos
É normal a indiferença com que passam por ti Amanhã Hoje nada
será diferente Mas tu tens o teu caminho para uma alma enorme Que
impede de seres tal gent Nunca foram perfeitos os caminhos Nunca
foi aceite a tua necessidade E a tua consciência sempre foi
confundida Adormeces com uma faca na mão sabendo que em caso de
necessidade Nem sequer vais ter tempo para a usar Educadamente dizes
boa noite ao clochard Ele farto de ti Saúda-te com um peido
Uma
satisfação inconseguida de escrever. Palavras. Agora são 3 e ½ da
manhã e o meu cão, amigo solidário, lambe os tomates com a única
intenção de não me deixar adormecer. Somei mais um dia. Tudo
tentei para que não fosse igual às horas de um outro qualquer, que
pensava que eram importantes. A importância, como dizem os
malabaristas, é fundamental. Os feios também ingenuamente pensam o
mesmo. Os distraídos, tardiamente ou quase sempre nunca, darão por
ela. Os meteorologistas riscam tanto os mapas e, surpreendidos com
tanta imaginação, perdem o fio à meada, do tempo não percebem
nada, mas prevêem as mentiras mais sensíveis. Isto é :se chover a
chuva pode molhar, senão, utilize á mesma o chapéu pois coisa boa
não irá cair do céu, avisam com a veracidade possível uma
eventual e acentuada diarreia nos pombos, que, inadvertidamente com
a merda que fazem, alteram o vermelho de qualquer semáforo bem
comportado. Como sempre o governo estará atento. Isto sim, é uma
importância sebosamente impregnada de toda a nulidade.
Aqui
está! Esta mania de riscar palavras, é um exercício difícil.
Conheço poucas letras. Aprendi alguma coisa na escola. Mas foi mais
tarde que fui conhecendo as coisas que realmente me ensinaram.
Igenericamente fui um bom aluno. A consciência do que aprendi
tornou-me um aprendiz incómodo. Era muito novo, mas nunca achei
grande piada aos livros de cowboys. Para além dos erros
ortográficos, achava estranho, bizarro mesmo, o facto dos índios
serem sempre os maus do filme. A américa, ainda não deu por ela.
São
4 da manhã.
O
kiko ressona.
O
relógio da cozinha funciona.
Resta-me
convencer a minha cabeça que não são estas as horas convenientes
para escrever qualquer coisa de sensato.
O meu cão está a ficar velho. Cada vez ouve menos e manifesta uma grande vontade para me chatear o juízo. Provavelmente morrerá antes de mim. Nestas coisas deus nunca foi justo. Andamos devagar. Ele senta-se demasiadas vezes no pouco caminho que percorre. Eu impaciente digo-lhe : pá, tens que andar mais um bocado. Está surdo olha para mim e diz-me que entende o que eu acabei de dizer. Teimosamente é ele que conduz o passeio com as pausas que quer com o ritmo que consegue. Mas com toda a amizade possível. Mija aqui snifa ali, por vezes pára, abana a cauda numa coisa que eu não entendo, num cheiro que não cheiro e eu penso, está contente , cheira-lhe a menina. O meu cão é o cão que mais blues ouve no mundo. Claro que adormece, ressona enquanto eu toco aquela coisa que mesmo não ouvindo, vai entendendo.