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terça-feira, 30 de junho de 2026

& O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU

 


*Luz seca corta o céu 
em bocados de desespero*

* Fugir sem sair*

*Morrer abraçado a um grito* 

*Chorar numa cama de sombras vadias*

 *Humedecer a tristeza* 

*Acordar a espera* 

*Distrair a angústia* 

*Agarrar a fisga* 

*Rezar o último segundo* 

*Queimar o prazo da validade* 

*Regar ausências* 

*Explodir frequentemente* 

*Enraivecer* 

*Conferir*

*Suturar esperanças*

*Despoletar por aí*



,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

LISBOA, QUE TRISTE FADO TE ABALROA

 


Até quando permitiremos que nos mandem à merda com sorrisos patetas? O Pessoa do Chiado está farto, cansado & chateado. Enoja tanta fotografia de quem dele nem sequer leu um verso. Isto é uma porra, diz a velhota sem lugar no autocarro. Os pastéis de Belém já não são lugar para ninguém e o pasteleiro batoteiro sorri contente por enganar tanta gente. O de Santa Justa, sempre acima e abaixo, aguarda consulta e está com um feitio filha da puta. O Castelo de icterícia amarelada, acha isto uma chachada e já não tem sexo com a namorada. O pastel de bacalhau com queijo enjoa o Tejo. O tuk tuk é um preservativo com rodas e espia sem vergonha as travessas de Lisboa. E as Colinas estafadas brincam às escondidas no cemitério dos Prazeres. Imbecis com mapas na mão e mochilas anti-refugiados, palram desalmadamente, e nipónicos atónicos vomitam sushis digitais com ténis de alta cilindrada, made numa Alemanha com incoerências nas emissões de CO2.E Tintins e Milous com pele vermelha tipo camarão do Lidl, com os testículos a abanar, bebem Stella Artois e fingem que são cães a mijar. E Asterixes e Obelixesavec alors cependant” nas calçadas da Graça, sujam a sombra do Limoeiro, intrigam o cruzamento e o sinaleiro, e uma santa que dantes Luzia. Santiago Alquimista, muralha com triste vista e o fado amestrado no clube de Alfama. Lisboa, não digas mal de quem te ama, nem daquele que não te magoa, que chora por ti na Madragoa, e lava uma saudade sempre suja, estendida na noite, disfarçado nos abraços do cacilheiro que só a ti pode podem pertencer. Despeço-me de ti sem adeus num entardecer que arrefece e vai enfeitando esta morte anunciada com que te sonho.
Adeus meu amor. Está escrito numa velha bóia.



,2016,06aNTÓNIODEmIRANDA
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MARMITA VAZIA

 


Sustento

Azedado

Ganha

Pão

Ultrajado


,2022Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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A GATA LUA



 A lua come pampo.

O dono não é grande ponto.

E quem o ouvir falar não terá qualquer dúvida 

que há imbecis menos burros.

O interessante nunca será uma qualidade 

da cretinice.

A lua come pampo.

Observa todo o movimento.

Mia. 

Às vezes mia tanto, 

não será só fome, 

mas vejo ali um lamento.

Mia a lua e come pampo.

Tanto, tanto.

Mas afinal qual é o espanto?

Não sei que sabores terá 

depois da nossa partida.



Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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A HIPOTÉTICA IMPORTÂNCIA



Não podes conduzir o meu gostar 
nem coordenar o modo como detesto. 
As minhas intenções poderão não ser pacíficas 
e a minha disposição 
é situação que não comando.
Vamos pensar numa coisa mais simples:
Ficas como estás!
Eu sou como vou.
Assim experimentaremos 
a hipotética importância 
que continuará longe de nós.














2016,10aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 28 de junho de 2026

A CALDEIRADA

 


Para ele nunca havia impedimentos.

Era assim que dizia.

Embora a caldeirada 

de lâmpadas fundidas,

lhe provocasse 

uma nada dignificante azia.



,2019nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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DESASSOSSEGO

 
Eu Só Queria Ser Alguém
Mais Do Que Nem,
Só Eu....

Para Ser Ninguém
Ou Alguém
Mais Diferente Que Eu.
E Eu
Como Se Fosse Alguém
Sem Chegar A Ser Ninguém.
Porque É assim
Que Eu Nunca
Me chego.
Alguém Ser
Mais Que Ninguém
É Um Desassossego.

 
2016,11aNTÓNIODEmIRANDA
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ELA COSTUMAVA GOSTAR DE MIM!

...até que descobriu quem eu 
era.
Dizia-me que tinha um olhar triste, 
mas que poderia fazer 
qualquer coisa mais profícua 
para me alegrar.
Remédio santo!
8 dias depois, 
foi constituída arguida, 
(com notícias nos rodapés de todos os noticiários), em 72 mil situações de inadaptação sexual. 
Convém dizer, que na última benção, 
o papa não esteve presente.
Não estava na disposição de perder 
aquele blowjob (broche em português), 
há muito prometido pela Gioconda. 
Educado e agradecido, como sempre, enviou uma calorosa mensagem ao glorioso, para assinalar o 37.

2019mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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DELÍCIA

 


Deliciosamente
Como se fosse urgente
Abraçava o teu sonho
No meu sexo morno
Quente  Quente
Queimávamos então
Artifícios de amor

Embora lá fora
Continuassem a afirmar
Que toda a esperança é legítima.







,aNTÓNIODEmIRANDA
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BAYONNE,77

 

Lia panfletos em Bayonne

no meio da ponte Marengo

desafiando os gorilas do batalhão de choque.

Otaegui e Garmendia, continuavam na cadeia, 

e, na tarde daquele sábado, 

cantou-se a alma Euskadi 

no  “Le Guernika”.

Continuo a admirar esta gente brava.


,2019nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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CONTAMOS O TEMPO DE UM MODO ERRADO

 


Contamos o tempo de um modo errado. 
Um dia a mais ou a menos não deixa de ser um dia.
A não ser que acreditemos na cretinice de enganar o tempo. É certo que os relógios das marcas conceituadas permitem outras nuances aos seus proprietários: lifting botox detox, plásticas onanismos eclesiásticos e abortos com certificado de aforro.
É certo que a maioria das grandes cópulas acontecem enquanto os cornudos preocupados com a ausência da consorte adiantavam os minetes dando corda ao relógio que as respectivas lhes ofereceram. 
Também é verdade que estes aparelhos atrasam estrategicamente para não atrapalhar o desenvolvimento de uma actividade sexual fora do horário habitual.
O pinante aproveita o tempo.
A pinada geme contente.
O pinado espera sossegado.
Abre a cama, afasta o lençol, 
humilha a  almofada, 
farto de ser enganado.


2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA
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ALMA LUSA

 


No genuflexório desta Pátria
abafo a triste sensação
amarrotada na ilusão
de tentar gostar de ti

                    Alma lusa
                            Que me partiste 
                                        Nunca esperes 
                            Fazer
                                        De mim
                            O teu
                                        Pedinte
                            Exemplar




,2019mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 27 de junho de 2026

DIETA






A dieta sexual
A crise do hemorroidal
O tempo de antena no telejornal...

O culto do banal
A extravagância oral
A diarreia da assembleia
A discussão acalorada
Do projecto derrotado
O ministro
O presidente
O deputado

E o povo a ser enganado.
É mentira ?



 
,aNTÓNIODEmIRANDA
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FAÇA COMO LHE APETECER

 


Alma deserta
deseja conhecer ajuda
sigilosa.
Condições de higiene
devidamente asseguradas.
Conjugação de artemísias,
amarrações na cabeceira do catre,
algemas forradas
e lubrificantes previamente
testados.
Organização sexual configurada
e cientificamente certificada.
Garantia de plena satisfação,
obedecendo aos critérios mais exigentes.
Horário a combinar.
Faça como lhe apetecer.
Aguardo a sua visita.
Não se vai arrepender.


,2017,mar_.aNTÓNIODEmIRANDA
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NUVENS ARGUTAS ABRAÇAM SOMBRAS IMPRUDENTES

 

Este é o tempo que apaga memórias confortadas por orações dos afectos a fingir, 
da coragem que afirmam peremptoriamente indisponível. 
Este é o tempo que não deseja outra coisa senão sacudir-se a si próprio. 
Roupagem bimba & tola, 
pautas de decadência, 
senilidade estampada nos rostos desocupados. 
É este o tempo dos revolucionários retardados, masoquistas arrependidos, 
sofredores por antecipação, 
intelectuais ocasionais, 
da tolerância acidental. 

Odeio esta possibilidade.
 
Tenho na algibeira orações rotas, 
acenos roucos e cansados de opções congeladas.
 
A saída de emergência 
há muito que deixou de funcionar.
 
Direi mesmo que a competência, 
na prateleira mais mentirosa da loja da ignorante conveniência, 
aguarda pacientemente 
a chegada de algum crédulo...   

Nuvens argutas, 
abraçam sombras imprudentes.


,2022Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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MÃOS SUJAS QUE NOMES PODERÃO LAVAR?

 


Construíram uma ponte 
para as desculpas sem fim 
se divertirem.

Uma pista
 para a hipocrisia aterrar.

Uma alfândega 
sem impostos para a barbárie.


Mãos sujas 
que nomes poderão lavar?



,2020Julho_aNTÓNIODEmIRANDA
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MANIAS DE PROFETA

 Poderei não ser um bom 

discípulo,

mas, 

tenho a certeza
 
que sou o único que 

LHE vende o ópio 

em fascículos abençoados.



,2020Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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UM NOME SEM - MEMÓRIA

 

Sou a tua sombra - Diz a velha mania
Tento mais uma vez - Quebrar a mentira do Espelho -
Não compreendo - Reclama o sorriso com lábios de  Sangue
Deixa-me ser o Alpendre - Uma vontade lacrada na flor que
Secaste - Qual brisa na manhã nunca
Acontecida - Ou uma chuva que me traga o cheiro da tua - Maçã
Um traço riscado na janela - Mesmo com um nome sem - Memória
Se não acordar
É porque o sonho não 
Aconteceu


,2020Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 26 de junho de 2026

JÁ NÃO TENHO ESGOTO PARA TANTA MERDA

 

Assinalarei a minha presença 

Com a ausência da disponibilidade 

Para vos aturar



,2020Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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LEVEM-ME ATÉ À BELEZA MAIS PRÓXIMA

 


Satisfaçam a minha alma.
Deixem uma agonia perfeita, 
os sonhos que me roubaram, 
o nome com que me engano, 
só um dia bom embrulhado 
nos abraços verdadeiros, 
mesmo um momento 
que me faça esquecer de mim mesmo.
Um desassossego, 
para fingir que não escuto 
uma consciência apodrecida.
Um sopro que afaste esta tristeza 
sem luar para desaguar.
Leio nas veias um apelo 
que não conheço indicado 
pela sombra dos passos que perdi.
Estúpida memória que aperta os braços, 
fazendo de mim o mendigo 
dos afectos que há muito deixaram 
de me impressionar.
Percorro-me nesta corrente de lágrimas, 
agarrado ao laço da angústia, 
enquanto choro versos à deriva.
Ergo para o céu todas as iras, 
esfrego no peito cheiros de nojo, 
ajoelho e entrego com a nulidade da fé, 
a bênção dos dias felizes.
No conforto deste canto 
nada mais me apetece pensar.
E também não quero falar disso!
É sempre o mesmo pecado 
que teima em deitar-se comigo.



,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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NAQUELA NOITE E NOS PESADELOS SEGUINTES

 


Nos tempos com asas para o fim  voa 
distante o caminho do amparo nem sempre 
com elevados índices de consideração. 
Dizem impostor este teimoso capricho do 
acordar.
(Quem me dera a mim outro mundo neste 
fraco viver). 
Certos futuros nunca caberão na minha
bossa.
Guerreiros desleixados combatem a 
velhacaria do destino.
Dizem-nos muito bons. 
(eu é que não tenho jeito para gostar 
dessa merda). 
A paciência que exibo mudou de capoeira. 
Um homem não treme 
(ideia estupidamente absurda) 
do bobo do leme. 
Olá musas desencantadas. 
Deixai de andar desvairadas à procura 
do enfermo remo. 
Ai agora é que  tremo qual rena 
num trenó na atarefada entrega da nostalgia.
Ó besta quadrada  tendência desembestada
(árdua missão naufragada 
num impiedoso autoclismo), 
quando deixarás de importunar o peluche
que precisa de exílio? 
No caminho da memória 
escondo as fraldas da lucidez 
limada num ribombar ensurdecedor 
que atrapalha o ânimo que me entende.

                                        Mas não é essa a essência que procuro.


,2024Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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quinta-feira, 25 de junho de 2026

JÁ NÃO IMAGINO EMBEBEDAR-ME EM SAINT GERMAIN

 


Não me apetece falar da solidão 
dos dias futuros. 

Não sei como pedir desculpa 
a este tempo 
envernizado por suores frios. 

Não quero chorar no saco cama puído, 
onde guardei muito daquilo 
que realmente me amou. 

E, esta memória que continua a mentir, 

esta teimosia no aconchego dos ossos, 
esta angústia que viaja sempre pelo corpo, 
não são mais do que a oração 
que infecta o estar.

Era tão fácil rezar sem incomodar 
a minha ira. 

Estrelas preguiçosas, 
prometem o conforto 
do meu contentamento.

Não, não fui abandonado.

Olham-me grafitis que não entendo.





,2020abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO

 

Orai por nós:
Os desertores da infâmia Os que com sangue regam gota a gota as rosas com espinhos arrependidos Os que estão sempre prontos para cair na tentação Os que só ajoelham para determinada posição Os pervertidos da glória Os travestidos da memória Os que continuam a sonhar com outra coisa Os que não fazem outra coisa senão sonhar Os que teimam em tapar o buraco da camada do ozono com bolas de naftalina Os que só pensam em introduzir no buraco do Osório Os que se vendem mesmo por preço irrisório Os sérios Os graves Os desanimados Os ridículos Os burlescos Os grotescos Os cómicos Os bizarros Os pífios Os tolos Os engraçados Os gozados Os satíricos Os negligenciados Os caricatos Os disformes Os velhacos
ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO
Os preocupados sem destino Os desocupados no futuro Os medíocres Os que escrevem arritmias nos murais das redes sociais Os que injectam doses optimistas Os que mantêm teimosamente ventríloquos tresloucados e entopem artérias com todos os sentidos proibidos Os que amam nos tempos difíceis Os que dormem na vertical Os que morrem à pressa Os que demoram a viver Os que nos aborrecem sordidamente Os que usam nós de gravata completamente desafinados
ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO
Os mal-educados Os analistas do fluído vaginal Os que pedem sempre desculpa numa frequência imoderada Os indiferentes Alguns indigentes Os menos inteligentes A carpideira A moçoila namoradeira O petiz aprendiz Os que não corroem a corrupção Os fatídicos Os distraídos Os mal dizentes Os mordedores de inveja Os sábios sem nexo Os que não têm de nós boas ideias Os que fugiram à boleia e voltaram de táxi O difícil sem fácil Os pensamentos mal frequentados Os esquisitos Os requentados Os esquentados Os bons e os malvados Os putativos Os inerentes A barata no topo do bolo O engraçado que só é tolo A dignificação A insubmissão A sublimação A efervescência O esturro do tacho Quem se deixa ser capacho
ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO
A sílaba mal colocada O ponto sem nó A exclamação desfocada Os desarrumados mentais E também os sentimentais Os que confundem bóbós com papos de anjo O padre que diz que perdoa O pecado que não magoa Os curandeiros mal tratados Os políticos menstruados O deputado marmanjo Os que tomam conta de nós Os que às vezes odeiam e arrefecem na fogueira sacrifícios a um deus desconhecido Os autoclismos desprezados Os desenganados do amor O amor não reconhecido Os epitáfios não lidos
ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO
Os incautos Os perdulários Os inaptos Os inadaptados Os adoptados Os arautos Os anormais Os colegiais  Os coloquiais Os que gritam Tony faz-me um filho mesmo sabendo que eu só me chamo António Os que me pedem a camisola não se importando com o frio que depois teria Os agradecimentos Os sentimentos As mulheres mal-aventuradas e também as desgraçadas As menos interessantes As de ventre inchado As desconfiadas Os epicentros  Os retábulos Os oráculos Os oratórios Os sacrários  Os dromedários Os anjos sem cabecinha e com asas de cebolada Os conventos  As Carmelitas As recolhidas  As não escolhidas As que f…. às escondidas As noviças As nabiças As metediças As mestiças As clandestinas e as Dominicanas As virgens imaculadas As louras As oxigenadas As infectadas As perfuradas Os eclesiásticos da parábola do falo Os escondidos e azeiteiros A serenidade embutida nas alas psiquiátricas Os obscenos Os Helénicos Os frenéticos Os morenos Os patéticos Os evangélicos
ORAI POR NÓS, MAS NÃO PERCAM MUITO TEMPO
A beleza da incerteza As musas mediáticas e as dores ciáticas A visita guiada A colaboração A pena  A temperatura amena O turismo sexual O casamento conveniente  A proposta indecente O anel de diamante As bodas de fígado A foto à la minute O minete feito à pressa O linguado desajeitado O orgasmo não adquirido Os onanismos coerentes As práticas indecentes O resto que nunca interessa A faca na liga  A cintura descaída O peito flácido A ária do Plácido O domingo soalheiro  O furo no mealheiro O jet leg  O jet set  A “cinc à sec” Os astronautas e argonautas Os anabolizantes e fertilizantes
Os debutantes e os não principiantes A família que não escolhemos A paciência que não pudemos A fodação Internacional A importância do espanador Os suicídios que estão para vir Os que gastam a vida a carpir
Orai agora por mim.
Aquele que nunca será o vosso salvador.


,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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COMO É DIFERENTE O CHEIRO DESTE MIJO!

 Nada sei disso!
Daquilo que dizem fácil.
Mas não enxergo na minha horta existencial o difícil.
Visto os dias com outros pormenores
que me desenham um Basquiat sempre hábil.
Pinto o meu gosto encharcando um grafiti movimentado pela vontade de ser quem sou.
Sentado nas escadas, enroscado nos degraus que me marcam, arranjo ½ quilo de feijão verde para uma sopa com todos os desejos permitidos.
E tempero esta malícia com o suave sangue que molha os golpes dos meus medos.
Em boa verdade, ainda não sou um exímio afiador de angústias.
Poderei tentar outra alegria mas a minha tristeza é muitas vezes o mais importante.
Jean Michel sorri com um osso que roubou ao cão que confiadamente frequentava a # factory #.
Joe Dallesandro com pénis desenhados nos ténis descalços, pinta na seringa delinquências # gourmet #.
Irei mudar de sopa e afastar educadamente as pevides com as cores do Miró.
Também já não sinto os degraus.
& alguém roubou a minha roupa!
Coisas dos artistas.
Mas é só neles que eu confio.
A guia do museu tirou-me a fotografia.
Neguei-lhe o autógrafo.
Já nada estranho nestes tempos.
Fui jantar à Trindade!
Como é diferente o cheiro deste mijo!

   2016,10aNTÓNIODEmIRANDA
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“PEACEMAKER”


Gostaria de mostrar que não há nenhuma
marca de pedra no meu coração.
O “peacemaker” estava errado,
o aparelho cansado
e a prova de esforço correu desenfreada.
Tive todo o cuidado,
a educação atempadamente esmerada,
mas como sabes,
há muitas coisas a que não ligo nada.
A morte é a única divindade que me atende.
Não quero desventrar anjos inocentes.
Até porque há ainda tanto filho da puta para morrer.
Para esses, tenho para entrega imediata,
arritmias em óptimo estado de conservação.
(Portes pagos pelo destinatário).

nb: não atendo números privados




.2015aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 24 de junho de 2026

A GAIVOTA MORREU PASMADA NO AREAL

Agora sou um apêndice a descansar na prateleira x de uma qualquer estante no museu nacional da ternura amiga. 
Sou mostrado em aplicações com detalhes da minha não autoria. 
Uma relação sem causa nem efeito. 
O que condiz comigo não tem qualquer avaliação. 
Sou agora a espécie com agente de todo o tempo sem verdade, escrevendo os dias difíceis aparamentados nos corredores onde não tenho lugar. 
Tudo é tão longe nestas selfies mal paridas com que pensamos ilustrar a saudade que já não nos pertence. 
O mais que nos interessa não passa de um lugar onde penduramos desejos, um foyer descamisado com um cabide com o número previamente determinado.
Convite de uma promoção tão enganosa como a falta de interesse com que nos esquecemos. 
Voltem sempre, é o habitual agradecimento daqueles que fazem de nós pacóvios. 
Esta é a viagem inútil, do imenso roubo que nos dobrou a espinha, tornando-nos fantasmas sem a alegria da ficção.
Oh terra minha, que tanto me atraiçoas, não me consideres ainda tua pertença. 
Não posso cantar-te nem nos cânticos paridos com prantos de alguém que gentilmente ousou acreditar em ti. 
Nada sei do teu carma, nem do marujo que o enterneceu.
A gaivota morreu pasmada no areal.

2016,11aNTÓNIODEmIRANDA
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MANTENHO O INQUEBRANTÁVEL DESEJO DE:

. niquelar a tua alcatra 
, saborear passionalmente a calma inquietante
, desempanar a cultura macilenta
, pisar uma casca de banana presunçosa
, maltratar perguntas inconvenientes
, embalsamar ideias fraudulentas
. libertar qualquer coração forreta parido 
numa caixa multibanco
. envolver numa salada de cãibras a mentira imoderada de satisfazer a sensualidade
. enaltecer sempre uma possibilidade
que nunca assumirei.





,2020Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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SENILIDADE

 


De qualquer modo,
agradecido pelos vossos 
conselhos.

São sempre úteis 
para a manutenção
 da minha senilidade.





,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 23 de junho de 2026

GOD "SLOWHAND”

 


Deus 

Entregou 

Mão 

Ao 

Eric Clapton


E o Júbilo do Paraíso


Fechou para Orações de Contemplação


,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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segunda-feira, 22 de junho de 2026

JUST ONE MORNING

 


One morning
just one morning
without lies and empty dreams.
Why you leave me  baby?
Don`t you know
I can't keep losing you?
Now i`m a lonely and sad man
with a bloody soul
to play this blues.
One morning
just one morning 
that`s all i beg to you




,2020Jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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MISE-EN-SCÈNE



Era para ser como no cinema 
mas o filme não esperou por nós

Sentado na ausência do sonho
o realizador fugiu para outro casting

A cadeira deslizou em câmara ardente 
à procura do argumento


,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 21 de junho de 2026

PASSEVITE

 


Logo 

Depois
Amanhã
Lá  se verá

        Peggy Sue casou-se
            Marlon Brando morreu
                Nicolas Cage continua vivo
E eu 
        de quando em vez
finjo que não estou por aqui
a tentar libertar-me das trelas 
da memória
feito idiota ambulante
        Há quem assegure que os sonhos
têm qualquer coisa de fascinante
        Fazer acontecer algo de diferente?
A juventude 
É tão confusa 
Como a velhice
.





,2026_Jun _aNTÓNIODEmiRANDA
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E FOI ASSIM QUE NOS SAUDAMOS

 


O Tempo Não Tem 

Todo O Mundo

Para Nós



,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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Amy Winehouse - You Know I'm No Good / AMY W.


AMY W.
 


            No último degrau do sonho que deixaste, 
doí-me demasiado o não poder ouvir-te, 
e o meu coração é um copo de vinho 
que nunca molhou o teu penteado. 

            O mundo sempre aborrecido, 
desprezou o teu olhar de sereia atrevida, 
navegando o tempo que não te quis merecer.
 
            As boas estrelas voltam ao sonho, 
acompanhadas de um sax que grita ajoelhado, 
o tímido amor de só te querer beijar. 

            No teu céu, estará à espera 
um cálice sempre cheio de saudade.

            Aqui, vou rasgando aqueles aplausos 
que tanto te enganaram.



2017set_aNTÓNIODEmIRANDA
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https://youtu.be/b-I2s5zRbHg 

Roger Waters & Mona Miari – Comfortably Numb Re-Imagined (Official Music Video)

 https://youtu.be/WBmrT3uqmeM

quarta-feira, 17 de junho de 2026

SURPRESAS INESGOTÁVEIS

 


        Samsung 

        in 

            the 

                    way… 



,2026Jun_aNTÓNIODEmiRANDA
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PACTO MENTIROSO

 


Cá estou para desmascarar 
a mentira da minha cabeça.
Sim!
Aldrabei na maioria das confissões.
    O pacto com a consciência encomendada 
nunca funcionou!
(Era só para ver o vosso sorriso).
    Talvez enforcar uma ou outra lágrima,
rebentar a alcofa dos falhanços
e encaixilhar esta treta na terrina dos desconsolos.
    Adoptar um anjo 
e adaptar-me às suas carências.
    Mas, isto sou eu!
No canto das suposições 
a confortar certas teimosias.



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terça-feira, 16 de junho de 2026

REQUIEM POR TODOS OS POETAS DESCALÇOS

 


Nada
Para além
De um bolso
Repleto de sonhos
Uma prática
Quotidiana
Abusivamente
Condicionada
A um certo
Ritmo de consumo
De posições
Motivadas
Pelo próprio sistema
Ou
Uma traição consciente
Mas sempreTraição a mim mesmo.
Não !
Não quero ser
Dos que ficaram pelo caminho.
O poema ...
O poema é a pena
De eu não ter pena
De escrever o poema.

Mas ...

Não te chateies :
Eu
Sou
O único poeta
Que
Pode mijar
Na tua algibeira.


, aNTÓNIODEmIRANDA,
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segunda-feira, 15 de junho de 2026

A MANHÃ QUE SEMPRE CHORAVA

 

A manhã que sempre chorava 
quando matava a noite, 
e congelava a alegria para
 uma melhor ocasião. 
Empacotava as lágrimas 
para mais tarde oferecer. 
Ponteiros deitados no naufrágio 
das horas da ilusão, 
acordavam relógios desonestos.
Nada para recordar o chão sagrado 
que varria  os passos, 
que para o nada se dirigiam. 
A raiva sossegava ruidosamente 
neste vagar desastrado. 
A salvação possível 
arquivava denúncias anónimas, 
e poetas descalços, 
entregavam salmos, 
num recital de memórias envergonhadas.
A manhã que sempre chorava 
quando matava a noite, 
escondia-se com um choro tímido, 
no corredor das palavras ainda não dissolvidas.
Paredes sem sorrisos emoldurados, 
pintavam algumas gotas de chuva, 
para que os pássaros das asas feridas, 
não morressem à sede.
Espera aí!
Não vás já!
Era assim a despedida
.

2018Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 14 de junho de 2026

A NAVALHA



 A beleza passava sempre ao lado. 
No bornal da fome, 
ilustrado com fotos da terra dos sonhos caídos, 
vadiava a angústia de todas as horas. 
Martelava a saudade no banco
 da estação de Santa Apolónia, 
e escondia o regresso no miolo da broa, 
tão dura como a sua solidão. 
Sabia de cor todos os horários, 
que um bilhete certa vez sonhado
 no único sono bonito lhe prometera.
Na camarata, lia às escondidas, 
postais tristes que nunca teve coragem 
de meter no marco do correio.
A manhã seguinte, 
era o único castigo que o mantinha por cá. 
E a navalha, 
a sua fiel companheira,
 só se deitava após o seu adormecer.
Na enxerga, 
nunca houve lugar para sonhar.



2018Set_aNTÓNIODEmIRANDA
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RECUSO SIGNIFICAR A VIDA NUMA REDACÇÃO DE FRACASSOS


Dá-me 5 minutos. 
Tal coisa nunca me pede a vida. 
Conheço a discrepância dos nossos relógios, relembro algumas afinidades que nos cosem, 
as peles que juntamos no tempero deste desembolso, os falhanços escondidos, 
as derrotas da esperança.
Não sei onde param os pássaros vermelhos, 
onde naufragou a ousadia que alegremente pintávamos nas grades da cidade grande.
Nada libertamos, 
senão a comodidade da mesquinha revolta.
Não quero tempo para dourar a pílula das angústias.
Dá-me sangue para escrever, 
palavras inúteis no chão 
que imaginei sagrado.
Fujo das ruas de gente sonâmbula, 
tropeçando de copo na mão, 
à procura da sarjeta mais próxima.

Perguntam se tenho saudades.

Detesto essa hipótese.


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sábado, 13 de junho de 2026

NO DIA EM QUE COMEÇAR A GOSTAR DISTO, DEIXO DE CÁ VIR.

 

- foi recentemente referenciado, como um dos três piores tocadores de guitarra da actualidade. Qual o seu comentário?

- devo confessar que foi uma pequena desilusão. E afirmo peremptoriamente que irei continuar a trabalhar, para atingir o primeiro lugar no pódio. Aquele que almejo nesta árdua tarefa de enferrujar as cordas de uma qualquer guitarra, onde ponha as mãos.

- portanto ficou triste.

- claro. Tinha essa expectativa. Até porque considero que o gajo das castanholas era muito pior do que eu. Mas nestas coisas o júri é impregnável. Contudo, a esperança não morre aqui. E como mau perdedor que sou, aconselhei-o a ter cuidado com as amígdalas. Não vá o diabo aquece-las…  

- nota-se no seu tocar uma acentuada tendência seminal repetitiva. Quer falar sobre isso?

- comecei a tocar guitarra, porque sempre achei que era menos doloroso do que descascar favas. A minha influência mais marcante, e ouso agora confessá-lo, é a quantidade de gelo que meto num copo com whisky de má qualidade.

- como acontece o alinhamento dos temas?

- não é importante. Devido ao efeito da carga etílica e outros derivados, chegamos à conclusão que os ensaios são depois das actuações.

- qual a sua relação com o êxito?

- umbilicalmente detestável. Embora deva dizer, “off record”, evidentemente, que os nossos vídeos no youporn, superaram as expectativas mais estúpidas. Vale o que vale. E de facto, não vale grande coisa.

- e agora, uma nota final. Planos para o futuro?

- no dia em que começar a gostar disto, deixo de cá vir.


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quinta-feira, 11 de junho de 2026

POEMA PARA LISA FISCHER

 


        Ela 

            Canta 

        Com 

                                

            Fala 

                        Dos 

                                Anjos



,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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MEMORIAL DO MOSTEIRO

 


Deixem as freiras pinar 

Que não faltarão 

Anjinhos no altar 


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quarta-feira, 10 de junho de 2026

PÁTRIA CATAPLANA DE ANGÚSTIAS

 


Onde está a minha cabeça?
Para onde navegam os sonhos que tanto prometeram?
Continuo a magoar a única vontade que me assiste.
Esperam de mim o quê?
Uma marionete manipulada pela pulhice?
Das vezes em que dormi com a vergonha na cama, 
cortei os beijos da fome na assassina madrugada.
E tu, velha memória, sê o meu amparo, 
eu que já tropeço nos abraços entregues 
pelas nada eloquentes pancados do relógio.
E vós, monges da constelação do sagrado sossego, 
largai para sempre o crepúsculo do jamais!
Bem-vindos ao programa da higienização social!
O mundo é fantasticamente um absurdo!
Sem aviso prévio, 
e num striptease desnecessário, 
presenteia-nos com um erro de cálculo  
maldosamente cozido na algibeira da realidade.
Entretanto um raio de harmonia 
perfura a solidão para que sejam graciosos 
todos os instantes da paixão.



,2026_10 Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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NÃO ME APETECE DEIXAR DE SER FELIZ

 


Afastem de mim essa pena.
Não pretendo usá-la.
Sei que jamais serei a tal estrela,
até porque nunca invejei o seu fulgor.
        Tenho um céu diferente 
para a jornada que me acompanha, 
onde espero abraçar os verdadeiros poetas.
        Assim a ideia me ajude.
Não passa de uma medida vã 
a espera que nunca se chega 
a alcançar.
        Despe-se o alento na colheita da esperança 
com lábios que tocam memórias amarelecidas 
na pedra fria.
        Veste-se a vida no lesto caminhar 
fora das vistas da maldade do tempo, 
enquanto se pede ao vento da mudança 
que não se esqueça de amainar 
o que resta da alegria.

Gostava que estivesses aqui!

Mas… quem és?
            Nunca celebramos a mais ínfima partícula 
da amizade.

Fica como estás!

(Isto é, se alguma vez exististe!)




,2026_Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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terça-feira, 9 de junho de 2026

américa

 


estás conspurcada de acções

de vitórias fabricadas

de esperanças vendidas

e pelo nojo daqueles

que te amaram


as tuas bibliotecas

cheiram a sangue



( e digo - te desde já

que não existem índios na lua )



74mar.aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 8 de junho de 2026

VISTORIA

 


Todas as manhãs, três corvos visitam 
num bailado despreocupado a cerejeira
.
Invejo a sabedoria de tal atrevimento, 
quando no bico das suas conquistas, 
exibem alegremente a gloriosa façanha.
 
Despedem-se num grasnar gozador 
deixando no céu rasgos de contentamento.
Nada lamento!
Também gosto de cerejas.
Mas, (cá no meu intimo), 
penso que, por sinal de respeito, 
deveriam deixar umas simples amostras 
para a concorrência. 
(Estou certo que os melros não se importariam).
Chego à cama e desenho na almofada 
elogios para a liberdade que permite qualquer voar.






2026_Vila Châ_Jun_aNTÓNIODEmiRANDA
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A CADEIRA

             Se o universo não fosse adverso e tivesse ao menos uma cadeira decente para assistir ao embargo da ambiguidade eu passaria as manhãs tranquilas ousando acariciar palavras e não recusando o seu real significado.

            Se o inverso fosse mais que contrário e coubesse assim no meu imaginário, eu sentado nessa cadeira abençoaria todas as pontes para que a distância não fosse tão presente. Mas sequelas indignas molham-me com suores inflamados e enganadoramente penso que aquela cadeira continua à minha espera.





,2016,04.aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 7 de junho de 2026

A4

 


Às vezes penso que tenho na mão a pedra para acertar naquele mundo sempre tão pequeno que cabe numa folha A4 reduzida à expressão das incapacidades primárias. 
Relego as sugestões com alternativas pacíficas, num verde harmonioso com sinal profusamente difundido para ninguém pisar.
Não sou ingénuo!
Mesmo distraído não sou estúpido!
Não repito a asneira!
Não ponho nada no assador onde não possa apartar percevejos julgados mais espertos do que o hipotético mais eficaz dos insecticidas.
Não perco tempo, não creio em fés que não tenham o meu consentimento.
Nem sempre acredito na minha totalidade.
Mas nunca admito outra possibilidade.
Portanto, 
não me acordem quando se forem embora.
Prazer em conhecê-los.
Admito que o erro foi meu.






,2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 6 de junho de 2026

AINDA HÁ MUITOS POETAS DISTRAÍDOS

 


Coloco a cabeça no lugar 
e perfumo os sovacos como aprendi na televisão. 
E num estrugido feito em chama lenta, 
salteio palavras que nunca escreverei. 
A conexão entre o meu cérebro 
e o aparo da caneta, tem muitas vezes falhas no servidor. 
Tente outra vez. 
Está escrito na mensagem que não solicitei. 
Desligue e volte a ligar. 
Como se isso fosse fácil. 
Mas eu só sou um poeta 
sem a mínima ambição tecnocrata.
Não uso máquina de barbear 
nem frequento as lavagens automáticas 
para aparelhagens dentárias.
Sou mais pela utilização da insensatez 
que sabiamente me afasta 
das bermas da normalidade.
Bebo pouco zelo no whisky
e amparo o guarda-chuva
para jogar pénis de mesa.
Dobro folhas dos livros
com a pacífica intenção de as violar.
Organizo estes crimes na perfeição
e alfabeticamente desenho  um conspirativo manual
cientificamente guardadona prateleira 
F, do corredor O, nível D, Sector A.
Por acaso, não tem tido lá grande procura.
Ainda há muitos poetas distraídos.


Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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A NOITE CAI NESTE MUNDO DESABRIGADO

 


Que poemas poderei escrever, eu o miserável não arrependido, anónimo sobrevivente desta infâmia incólume, que queima a chuva que agarro com estas mãos prenhes de promessas inocentes. Alguém me valha no meu querer de não me salvar, com que humedeço lágrimas do céu que me agradecem o breve instante do arranhão onde guardo todos os beijos. Que escrevo eu, sonhador de tantos rebanhos? Amai-vos aos poucos com letras de sangue nestas palavras lambidas que escorrem pelo poema. Estado liquido, lacre queimado em todas as vírgulas, seladas gota a gota neste bico de bunsen. 
Tenho nas mãos a bíblia da sobrevivência avariada, uma chamada nunca atendida, suspensórios ilusórios e uma fisga sem pontaria, amiga da rota de colisão. Embrulho-me na razão excluída, no hat-trick fora de jogo com trivela mal parida, bandeira ferida e olhos aos molhos vendidos como couves na mercearia onde os nabos não conseguem sacudir a água do capote. Câmara retardada, lente constipada, transformadas em bolas de Berlim, percorrem ano após ano o santuário onde os anjos não querem dormir. Ok, Marta! Já o tenho seguro!
E caminho com um jerrican de 5 litros.
 Desculpa, já não me porto como dantes.
Longos dias têm horas indecentes, marés estupidamente teimosas e sonhos banhados em canelas açucaradas. Triste tempero em algodão hidrófilo, só para afinar os ponteiros do relógio que fugiu daquela feira.
Impulsos sonolentos não acordam os obstruídos mentais.
A noite cai neste mundo desabrigado com vidas de partidas choradas. 
De nada servem os poemas. 
E arrependimentos como habitualmente 
sem significado, devem ficar na tecla do voltar atrás, como é nossa usual conveniência. Recostados no controle do saldo do cartão de crédito, amanhã iremos ser de certeza moderados no fútil consumo, respeitando assim um minuto de insolvência. 




,2017,mai_.aNTÓNIODEmIRANDA
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SOUBESSE TOCAR PIANO...