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sexta-feira, 23 de maio de 2025

DIZ-ME O TEU NOME

 


Eu sei que não é fácil quando a tua história está impressa numa tampa de esgoto feita de ferro dúctil como a vontade inútil que foste vomitando neste tempo que sempre te venceu. E o caminho que pensas que escreveste com palavras floridas não é mais do que um lugar raras vezes desentupido por uma máquina que sempre prometeu iria secar a tua dor. Nada disto foi possível até porque a verdade nunca quis saber de ti. Eu também penso que não é fácil dar as costas a quem só te quis enganar. Menos fácil ainda, é sentir a desigualdade da importância que te penhoraram. E os sonhos que pintavam a felicidade são agora chorados por pássaros de plástico, num quarto forrado com grades que nunca conseguiste abrir.
Eles dizem-se admirados. 
Contrataram o melhor pintor, mas nunca se lembraram de ti.
Eu sei que não é fácil tentar libertar um sonho constantemente vigiado que impede momento após dia, tocar a hipótese de contares unicamente contigo.
Estás fora! Até mesmo do zero.
Escondem-te numa cama de percevejos e fazem-te querer que nada mais poderá haver.
Só te posso dizer 
que aqui ainda se encontram 
algumas estrelas.
Diz-me o teu nome.
Falarei com elas.


2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA
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CASCATA DOS SONHOS

 


Estou a chegar

Que ninguém roube as notícias 
da tua espera

Achar-me-ás cansado
talvez já lento, nos gestos que reclamam o teu abraço

(Posso confessar que não foi verdadeiramente fácil limar as folhas do tempo que às escondidas escreviam poemas nos sorrisos dos corações solitários)

Não fales a ninguém da miséria que entrego a mim próprio quando me escondo no camarim dos anjos da desolação

Desculpa a audácia de entregar-te sementes de poesia

[Rasguei o plano B].






,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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3 CONVERSAS PARA O POEMA DO AMOR POSSÍVEL

 


1
Tatuámos o desejo
nas algemas da ternura
e o amor possível
não as abriu.
2
Drive me!
Drive me baby!
I like the way you do.
Take me!
Take me baby!
I wanna do bad things with you.
3
As promessas indicadas
no código de barras
abrangem a pequenez
da nossa intenção.


CONCLUSÃO FINAL
Por ti,
neste encontro nunca acontecido,
entonteço na sombra do candeeiro
que sempre me engana
quando tento abrir a tua porta.




2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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ANTES

 


Antes do arco-íris apagar o céu e escrever nas teias da memória obscenidades com a lógica do tempo, há que cortar o que dizemos, mais ou menos, em pedaços iguais.
Antes que o sol nos cegue a vista e a vida lavre caminhos errados, é necessário um esforço atrevido e uma boca que beije sem medo, na breve visita aos sítios onde moramos.
Antes de desistirmos nesta maneira sempre fugidia, há que respeitar a coragem daqueles que ousaram a diferença que nunca navegámos.
Antes de a luz apagar este projecto sempre ausente, há que pensar neste olvido total que nos faz um tempo perene, muitas vezes ovacionado nas campanhas promocionais.
Antes que o sagrado se despeça 
deste puzzle encardido, 
há que sumir depressa, 
lágrima a lágrima, 
gota a gota encharcada 
com o nojo que nos repete.
Antes do céu,
cuspir passo a passo
na nossa vergonha.





2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 18 de maio de 2025

sexta-feira, 16 de maio de 2025

NENHUM PROFETA DISSE ISTO

 


Não me julguem insano. 
São tão poucas as palavras 
e a vontade de as escrever
que me dão a traição do cansaço 
com que já não me abraço 
agora que os dias fogem de mim 
para darem longos passeios no parque.
Amo de ti de mim 
serpente perfumada 
paga a contragosto num cartão de crédito 
que tanto seca o meu gostar.
Não quero ser difícil 
nem pretendo a facilidade, 
mas eu às vezes choro tanto sem me lembrar 
e lembro-me de muito sem ser capaz de chorar 
e isso só me mete nos caminhos
(como o Tomás costuma dizer) 
da harmonia dos desequilíbrios.

Nem todos os dias têm de ser cruéis.

Nenhum profeta disse isto
o que por si só já é importante.




,2016,06.aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 13 de maio de 2025

A FÚRIA DA FOME

 
Pão nosso porque nunca está na mesa?

Maldita seja a fome que em nada te incomoda

A desdita de cada dia nos dai hoje

Santificada seja a vossa mentira
aqui na vida como na miséria

Perdoai-nos as nossas ofensas 
assim como nós perdoamos 
a quem nos tem desgraçado

Não nos deixeis cair em lamentação
mas livrai-nos do Mal 
de em vós termos acreditado




,2023Jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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A DESILUSÃO SOBRANTE

 


Alvejar as ideias

Trasladar os epitáfios repetidos 

Esgrimir na ponta e mola figuras de estalo
Admitir qualquer consolo
mesmo o mais fortuito

E engalanar a ausência da beleza com atributos não sofisticados

Ter a fé possível neste esconjuro de suposições tardias

E espetar com a devida esperança espinhos de água & sal

Molhar desregradamente 
a desilusão sobrante
e esperar que nos venha cair no pranto 
qualquer dose de alegria 
ainda que seja breve o instante

Descolar é preciso

Atear o desejo
é uma necessidade 
que não podemos fingir







,2018jan_aNTÓNIODEmIRANDA
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A FUGA PARA O EGIPTO

 


A virgem fugiu com o menino 
para o Egipto, 
num tuk tuk.

O jumento, que não era burro, 
delicadamente   recusou       este tour.

José o atónito,  mirou o incógnito.
Herodes desesperado,
deitou fora o gps.









,2015aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 10 de maio de 2025

The Rolling Stones - Sweet Virginia 1995 BEST VERSION

BLOW WIND BLOW BLOW BACK MY FRIEND TO ME

 


Gosto sempre de ti!
Que mais poderei dizer,
quando só consigo escrever, até logo?
As coisas, aquelas que ainda são importantes,
por vezes não me transmitem muita tranquilidade.
Claro que sei que os anos vão enchendo um vazio que começa a preocupar-me.
Talvez sejam coisas próprias da tristeza que não há muito tempo, julgava não caberia em mim.
Pendurar poemas e passar palavras a ferro com a devida delicadeza, não deixará nunca de ser uma solução temporária. Outros dias vão amanhecer com noites de escuros diferentes que nos irão soletrar memórias que julgávamos esquecidas. Mas mesmo sabendo alguma coisa da não felicidade, tentamos à nossa maneira encontrar presentes para embelezar o passe social. Tenho o chão a fugir, e escrevo com um pau de giz, na mais cruel tempestade, e estou preparado para continuar a fingir que tudo não passa de uma nuvem passageira.
Mergulho num mar que não sei se é azul, e também ignoro o tipo de algodão que poderá secar as últimas lágrimas.
Não gosto do acordar com poemas que me faltam.
Blow wind blow. 
Blow back my friend to me.

,2016,06.aNTÓNIODEmIRANDA
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ADULAÇÃO

 


Soltaram os imbecis.
Andam por aí espalhados com doutoramentos dourados 
e abusam nada preocupados dos pesticidas.
Enjaulados nas palavras, 
reúnem-se em alcateias
 onde vomitam ideias 
que nem eles entendem.
Fingem-se amigos, pobres mendigos, 
no meio da cerveja.
Pensam que inventam, 
mas só jumentam e batem palmas 
para sacudir o tédio das mãos.
São exageradamente simpáticos 
e sorriem abraçados a esta tendência 
sem inteligência com beijos que andam 
de cara em cara. 
Tiram fotos para uma telenovela 
para mais tarde criticar. 
Amam-se enganosamente num gosto 
tão defecado e adulam-se como se isso fosse 
o mais natural acreditar.
E agora aplaudem-se bestas 
comodamente instaladas no recanto
 dos indignos.
Estou além deste propósito 
e propositadamente não consigo gostar.
Estou além da simpatia fingida.
E tenho amigos.



2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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MOSTO

 


Bebo dum trago o teu mosto 
na adega de um velho Agosto 
com a luz de um luar humedecido.
Abro-te a casta 
como se a uva 
fosse unicamente um desejo de nós.
Podámos o amor na estação sincera.
Até então, 
nada sabíamos dos danos colaterais.
Dissemos o amar-te-ei 
sempre na forma do calendário 
onde o sarro nunca muda.





,2016,06.aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 4 de maio de 2025

CANTATA DA XANA

 


Obrigado por terem vindo: ( cantata da Xana ) para os imbecis :
A vossa presença continua a ser o meu maior handicap :
Sei que não é politicamente correcto mas não comungamos a mesma falta de ética :
Tenho voos soldados numa discopatia : mutilam a simpatia :  dificultam a empatia : alojam-se em folhas de azia onde minto palavras que não sei escrever Aleijamento local / hostel (como agora se vomita) : em pranchas de banda desenhada : ferro em câmara ardente ao redor da fogueira das vaidades : Um corte sui generis, a modos que na vertical eloquente vontade : arrefecida bondade só na horizontal imaginada : explosão fatal : morte anunciada no telejornal : onda de solidariedade a pedido do governo : tal peido fedorento : discurso nojento :  voto do jumento como sempre a desculpar-se com a puta que nos partiu : A ignorância é como um penico :  Mesmo vazio ocupa espaço : E continuará para todo o sempre a cheirar mal : 
: Muita eloquência para a minha indecência...



2025Mai03_F.A._aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 3 de maio de 2025

NÃO PARO DE PENSAR EM TI Ó MAL-AMADA LIBERDADE

 


                Escondido na oficina dos 
enganos 
observo anos que voam no meu 
tempo.

                A verdade nunca me atraiçoa 
e a vontade permanece inabalável.

                Sonhos que não abandonarei 
deitam-se tranquilamente nos 
nossos abraços.

                Lembro-me sem 
arrependimentos daquilo que gosto.

          E esta á a prescrição que amo 
obedecer.

                Não paro de pensar em ti 
ó mal-amada liberdade







2025Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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OUTROS CORPOS ME HABITAM COM IDEIAS QUE ESCREVEM

 


Um sonho perfeito. 
        Só um sonho perfeito 
sem a coragem lascada 
nas falsas promessas da absolvição. 
        Gelado de angústias mergulhado 
no oásis das solidões. 
        Lembranças desfocadas 
fugindo das gavetas das almas 
inquietas. 
        Só um sono mais que completo 
deitado no vulcão 
dos abraços por entregar.
        Um duelo ao enternecer, 
qual arrepio, doce, frio, arrebatador, 
angustiado, ressuscitado 
num qualquer poema. 
        Teorema, telefonema 
chamada sem destinatário.
        Apenas um anseio perfeito
 nunca vestido de pijamas 
entediados.
        Chama corajosa
entregue porta a porta
a quem não importa 
liberto da taxa da aldrabice.




2025Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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ÍNDOLE AGONIZADA

 


Tão longe me vou ficando

            Alma chorada neste jogo 
desgostoso

            Acena na esquina

Presentes agarrados

Às tristezas ignoradas






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UMA ARANHA ATERROU NO MEU DEVANEIO

 


Ela, que não a outra,
 farta do espelho mentiroso, 
aspirou a triste história e perguntou:

                Tanto calor no teu meio? 

Nada receies. 
                            Irei baixar a temperatura 
do forno. 

                                Não! 

Deixa estar!

                            Amo a febre do teu 
termómetro.







2025Abr05_aNTÓNIODEmIRANDA
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GUISADO EM PONTO DE CRUZ

 


Isto não vai nada bem!

                Quem te pregou na cruz?

Aquele filho da puta 

                Que não gosta de cuscuz.



2025Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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AMAR-ME DESDE SEMPRE FOI UM JOGO PERDIDO

 


Não sei quem nos perdeu 
no verso fugido do Orfeu.
 
    Nada de mim agora sou 
nem sequer a vã esperança 
num amor que não apodreça 
na nuvem do reino dos burlões.

    Em qualquer lugar em que nos escondamos 
os deuses fornecedores da miséria sem vergonha 
cortarão a vida num lento gotejar, 
distribuindo nojentos bocados aos obreiros do horror.

    Se uma lágrima se esquecesse 
de entregar a angústia que não foge…







2025Abr05_aNTÓNIODEmIRANDA
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A SAUDADE MORA NA CURVA DA AUSÊNCIA

 


Sentado no catavento da memória 
acaricio uma voz interior 
abandonada no cacifo das águas-ardentes. 

Valsa da invenção 
Vazio infinito 
Voo rasante 
Viagem solitária para uso particular 
banhada na travessa dos postais tristes.

Manipuladora da ignorância 
estufa do canto confrangedor 
regado por um conta gotas 
com perfumes de gasolina.

                                                        Onde 
                                                                Foste?








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