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domingo, 16 de agosto de 2026

AMAR A POESIA NOS SOLUÇOS DA MEMÓRIA

 


Eu e a cabeça fora de mim

oferecendo lágrimas limpas

ao apressado lavrar do tempo.


Não precisamos de Pátrias

para salvar o lugar que amamos.


E na casa dos sonhos por nascer,

para sempre será proibido 

beijar a posteridade.


E no adeus das palavras escondidas,

a mais ousada intenção

repousa no comprimido oferecido

pela simpatia do poema.


Até porque na última noite

abracei um poeta.





,2026Ago_ aNTÓNIODEmiRANDA
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COMO VELAS ACESAS ACARICIANDO O VENTO

 

Na falésia das ideias

Despe-se a vida

No lento caminhar

Fora das vistas da crueldade do tempo

Nas asas de Ícaro

Deveria assim ser amada toda a tristeza

Porque a vida

Mesmo fora do sonho

Nunca será para ser morrida

E, na serenata das saudades

Jamais serão admitidos queixumes.


,2026Jul_ aNTÓNIODEmiRANDA
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CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA

 


No concílio económico já tudo tinha sido roubado
O velho caminho já não me acompanha ao bar. 
As palavras estão difíceis. 
O momento tarda em chegar, 
e a chuva que molha o pára-brisas da bondade
já deixa no patamar da possível esperança aplausos falseados.
Flores desfalcadas regam a varanda dos despojos.
Um céu vazio diz que me espera.
Depois desta farsa quem mais poderei assassinar?
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA
 
Mas não sei onde se apagaram os sonhos ou em que feira foram lembrados.
Esse lugar não existe, assegura o relato do tempo não ardiloso.
Assim desce a vontade até ao fim do coração no desencontro inacabado.
A misericórdia é a mais cruel das lisonjas.
E ele disse" o paraíso não passa de uma promoção mentida em primeira mão.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
De joelhos não contes que apareça.
Mesmo no fim (cada vez mais repetido), sempre foi deste modo que mantive a esperança nesta vivida e (nem sempre apetecida) espera.
O miar do gato malvado amorosamente assanhado pousou no focinho e pintou na alma a acalmia que julguei não possível.
Agora sou um patudo orgulhoso que nunca se esquece de virar as folhas que sobram deste calendário. 
A alegria continuará a ser para todo o sempre aquela pedra rolante cuspindo no recanto da miséria.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
O que de mim gostava foi para a enfermaria das palavras cruzadas.
Os lábios escorrem as memórias na areia, onde envergonhados, os nomes, procuram a fuga possível.
Asas bonitas vestem combinações da boa-esperança confortando o abrigo da almejada possibilidade, enquanto pássaros solidários ensaiam um hipotético bailado, para que a tristeza finalmente não se torne a mais fértil certeza. 
Mas neste defunto mundo a única verdade apodrece numa retoma em permanente leilão.
Toda a gente chora nas infinitas traições entregues “à la minuta”.
Prédicas erguidas para o mais sangrento dos deuses pasmam no hipócrita consternação dos "inocentes".
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
Quem poderá respeitar as bombas que lhes vendemos?
A covardia será sempre um acto que jamais se cansa de ser celebrado.
Ó vida, dizes por aí que o "show" não pode parar.
Até porque a humanidade cedo demais assassinou o respeito que nos é devido.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
Como se uma tempestade acampasse no meu travesseiro e o sono que dela fugiu escrevesse acenos obscenos na agenda do despertar.
Não!
Não preciso de outra Ressurreição!
(Já tenho o “GPS” do paraíso artificial).
Olá!
Há por aí alguém que não me conheça?
Nosso Senhor!
(Malvado insidioso).
Que pena tenho que isso aconteça.
CÃO OBSERVANDO O MUNDO SENTADO NO SOFÁ DA FÁBRICA 
E neste sentir demasiado cansado a procurar o botão do autoclismo, benzo sermões fictícios.


2025Fev05_aNTÓNIODEmIRANDA
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(Começado a ser escrito em Fev01 , durante um concerto na Fábrica de Alternativas_Algés)

NA VARANDA DOS OCASOS

 


Adeus ó vida. Vou fugir.
Já não conto os passos. É só isso. 
Nada mais tenho para falar.
Desejaria amar-te mais do que a verdadeira possibilidade, mas este assassinato resgatado da desilusão, rouba dia após dia pingos da esperança restante. Rasguei a rendição da dor. Nada já sou naquilo que atrevi ousar. Nem sequer a simples ideia das possíveis opções. Já não atendo a audácia do voo que até então adormecia na inocência que supostamente me baptizou. E na valsa da tristeza, amada nos sonhos de areia, gentis abraços da guitarra amiga mostravam espelhos do mais autêntico alento.
Não! Não! Não!
Não fui eu quem traiu a generosidade.
A ignorância, bordada na almofada da contagem final, segura a mão do anjo clandestino erguendo um ronco para anunciar o prognóstico dos dias que nunca mais conseguirei abraçar. Já só sobra o cheiro do sonho prometido. 
A porta está aberta. Mas o pesadelo dorme no infinito tempo dos perdedores. Não posso sentar-me e simplesmente esperar.
Na varanda dos ocasos desfila o ramalhete da agonia a caminho do vale do silêncio habitado pela crueldade infligida.


,2024Set03_Vila Chã _aNTÓNIODEmIRANDA
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O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA ILUSÃO

 


Construímos Relógios, Riscamos Calendários, Trocamos Promessas, Cânticos & Invenções & Talismãs & Vaticínios optimistas.
Mas, o tempo não nos liga nenhuma. 
A noite é uma songamonga onde se celebra a insidiosa reflexão no apartamento da alucinação. 
(velha mania destilada no alambique das fraudes).
Uma nova sessão de vaidades & acordes, mentidos na fuga dos martírios dirigida cor um qualquer Qristo sebáceo, aguarda os profetas da mudança, que na gentileza da oração pronto-socorro, cumprimentam as vontades obedientes penduradas na clausura do manicómio.
No mausoléu da hipocrisia a urna dos hóspedes ensaiados esperando o embalo dos aplausos, elogia os mensageiros das promessas repletas de morte. 
(Anunciado no Boletim Neurológico Nacional)! 
E, se os pensamentos honestos pudessem ser vistos, provavelmente seriam colocados na guilhotina da mesquinhez.
Vivemos no muro dentro de muro. 
Fugir é fácil.
Difícil é continuar em liberdade.



2026,Ago_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 15 de agosto de 2026

AUTO-ESTRADA ‘64 ( para Foguito, o cão que mijou nas botas da tropa.’76)

 


    Quando olho em volta e sinto-me longe do lugar onde gostaria de estar, não perco tempo a pensar se esse sítio na realidade existe. Foda-se! Não tenho culpa que o meu esperma originasse um saco de viagem. Na verdade, embora esteja apaixonado pela auto-estrada 64, não vejo nisto uma solução. Tudo começou quando cheguei a casa para jantar e vi pessoas estranhas sentadas à mesa. Elas tinham flores na cabeça, eu sentei-me numa lata de sardinhas & disseram: está louco, temos a certeza. Olhei para o prato e vi que alguém estava lá a acampar. Tirei um macaco do nariz & ele satisfeito, disse: uff! (até que enfim!). Senti-me aliviado, arrotei. Olhei para o chão: o boneco do mosaico estava a engraxar-me as botas! Pelo seu olhar, logo percebi: que bem que arrotas.
    Mas eu, algumas vezes sinto-me como um arco-íris ou como um cogumelo & quando olho em volta e sinto-me longe daquilo que desejo, logo penso que nem todas as pessoas se deviam ejacular. Bolas! Não tenho culpa que o meu esperma originasse um saco de viagem. Forniquei a família depois da sua primeira masturbação colectiva. Sinceramente irritou-me o cheiro do sémen então derramado. Demasiadamente! Abusivamente igual ao cheiro da merda. Além disso, é sempre tempo de partir. 
Recuso a paragem porque a sombra acabará por me trair. Cago nos contratos da única maneira possível: adiando-os. 
Corri os quatro cantos do mundo (é esta a prova de que ele realmente não é redondo), escrevi á Rommy Schneider (da qual ainda hoje espero resposta),forniquei nos wc´s dos comboios, passei tardes em Victoria Station a conversar com um índio mexicano que me ofereceu um cogumelo sagrado. Lavei os pés em muitos jardins de renome e importância histórica. Lembrei-me amiúde do conforto de uma cama. Evitei muitas vezes a memória da saudade.
& foi então que apareceste. 
Sinceramente duvidei que fosses tu, embora nunca te tivesse visto. Mas havia qualquer coisa no ar, inclusive as pessoas ficaram espantadas por terem a possibilidade de admirar um arco-íris em plena estação. Fiquei louco, muito louco & por isso beijei-te loucamente. Sim! Cago perfeitamente que me chamem machista ou homossexual, mas apaixonei-me por ti! Como pode alguém apaixonar-se por uma auto-estrada? Conhecendo-a!
Não acredito no valor relativo das palavras, (aliás o único que podem possuir). Odeio a palavra possessão!
Bem sei que caminhamos de mãos dadas através destas florestas de betão armado, provas evidentes de um urbanismo paranóico, onde raramente o pôr-do-sol acontece. Paris Bruxelas Amesterdão Colónia Hamburgo Copenhague Estocolmo Oslo Londres Belfast Biarritz Vitória Barcelona Lisboa, onde o sexo se vende em garrafas. 
(O de qualidade superior, enlatado). Os dentes dos caracóis estão expostos nas conferências e servem para coçar os cornos das pessoas que se sentem com capacidade para os possuir. 
Todos! Burocratas, políticos, capitalistas, imperialistas artistas e poetas a fingir! As mãozinhas das crianças têm muita procura no mercado: ajudam a tirar a merda dos narizes. Para o sarro da cabeça, ainda não há cura, apesar do esforço de um qualquer champô despudoradamente publicitado.
Vá lá… enrabem-se com os vossos poderosos canhões! Dêem às bombas a mesma utilidade que os supositórios vos oferecem! Se tal fizerem, verão que isto ficará um pouco melhor. Quem julgam que são! Onde pensam que estão? Superstars! Estou farto, mesmo muito cansado de vocês. Sei muito bem que as oportunidades que mentirosamente me oferecem, têm um único objectivo: o meu falhanço. Também sei que irei cair. Mas será de um modo diferente.

… Da invenção do homem

Depois do homem, o único ser abominável que conheço, é exactamente o homem. 
Inteligência? Estupidez? Honestidade? Moral? Trabalho? Escola? Educação? Família? Posição social? Deus?
Vegetem, vegetem, vegetem. Mastiguem à vontade os vossos complexos. Experimentem, experimentem, cada vez mais e mais. Vocês nunca se fartam, tenho a certeza. Ser controlado? Recenseado? Etiquetado? Notado? Tarimbado? Selado? Normalizado? Isso vocês não admitem nem saber porquê. 
    Construam! Produzam cada vez mais e mais hospitais manicómios escolas, porque num futuro cada vez mais presente, serão essas as únicas instituições que terão alguma utilidade. Adorem! Louvem, idolatrem cada vez mais e mais o poder. 
    Coloquem-no numa estante e limpem-lhe o pó todos os dias: poluindo, limpa-se a contaminação. É esse o vosso lema.
    Que me interessa ler jornais que me sujam as mãos e tentam fazer o mesmo à minha cabeça?
    Estou farto! Cada vez mais cansado e não me dirijo a vocês com qualquer réstia de esperança.
Sou porco! Suficientemente porco para defecar na vossa presunção.
    Mas tu nunca mais chegas e eu continuo a pensar. Aliás, é aquilo que me faz hesitar. Vem! Vem depressa, pois embora acredite que o suicídio não tenha dor, sou demasiado covarde para o tentar. Toca-me apalpa-me penetra-me. Faz com que eu te sinta. Nunca disse isto a ninguém, mas a verdade é que estou apaixonado por ti. Mas, tu nunca mais chegas, lembras-te? Então demos as mãos de mãos dadas, apertámos o coração e beijámos sítios que depois nos proibiram de pisar. Como vês, aquilo que eu te disse, confirmou-se. Ser diferente implica estar sujeito a duas atitudes: marginalizam-nos ou tentam devorar-nos. Não me perguntes porquê, bem sabes que não suporto questões banais,
Era mesmo necessário a separação? Disse-te para me veres quando desejasses, mas tarda o teu chegar.
… Não vi monstros coloridos, mas senti-me apertado, farto banal. 
Desejei-te da maneira que tu ainda não compreendeste, ou talvez ainda não sentiste & posso dizer que foi a primeira vez que isto me sucedeu. 
Senti a crueldade a estupidez a futilidade da existência das distâncias e isso foi o suficiente para me fazer pensar que tu realmente existias. A morfina como sempre ajudou, pelo menos da maneira que eu desejei. Surgiste mais calma, exactamente como quando julguei ter uma alucinação ao olhar-te pela primeira vez. Fecha os olhos. É melhor que não me vejas. Não! Não é que esteja com mau aspecto mas acima de tudo neste momento estou fodido. O desejo não deveria existir!
Então eles entraram. Porcos palhaços, justamente como porcos palhaços porcos. Aí senti que não me podia masturbar. Inútil! Tudo é inútil quando sentimos a necessidade da coerência, quando perguntamos a nós mesmos o que fazer quando vemos um monte enorme de trampa e nem sequer temos uma pá impregnada de batota para a destruir. Quando temos uma prova da inutilidade do pénis e da vagina, quando olhamos para uma pessoa, (sim pessoa!) e sentimos a sua dentadura beliscando o nosso corpo, quando estendemos um cigarro com o intencional desejo de uma bala, quando nos olham e sinceramente somos obrigados a sorrir todo o nojo, quando nos dizem adeus & logo pensamos que eles nunca ali estiveram presentes, quando somos obrigados a abrir os arquivos da puta da memória em busca de recordações susceptíveis de nos fazerem ausentar, mesmo que seja por um só momento.
Mas o que é isto? Não, não é uma fórmula1. Odeio descaradamente a publicidade. Isto? Ou aquilo, foi uma bad. Vocês são todos uns filhos da puta. Mas eu tive consciência de que isso tinha de acontecer.
Bad trip, fizeste desaparecer o cogumelo que até então tinha no estômago, a aura que há muito tempo contornava o meu corpo. É isso tudo o que lamento. Yah! Mete-o no cú.
Continuamos de mãos dadas. Não sei por quantos quilómetros, mas…
Vamos desejar ser odiados! Imediatamente!
Quando olho em volta e sinto-me longe do lugar onde gostaria de estar, não perco tempo a pensar se esse lugar na realidade existe. Que o meu esperma dê origem a um saco de viagem!

…Do chuto

    Heroína nas veias, cocaína na cabeça, sol espreguiçando-se no parapeito dos meus olhos, speed nas minhas mãos o brilho reflecte-se no meu cérebro. Acontece o silêncio. O único que aceito. Mas o ruído torna-se audível embora eu queira acreditar que daí nada poderá surgir. A hora do lobo. O gesto não foi consequência do pensamento e sinto que dum momento para o outro, estou cercado de espelhos que não me mostram o personagem que eu quero. O delírio deixa de sofrer alterações e tudo volta à normalidade. Uma rotina que acima de tudo continua a limitar-me. Ámen!
O arco-íris é a alucinação dos pobres!
Daqueles que apelidam de loucos, os que se apaixonam por uma auto-estrada. Daqueles que tomando “Dietilamida do Ácido Lisérgico”, pensam poder sentir o amanhecer na cabeça, comunicar com seres extra ou não terrestres, utilizar nas suas deslocações sempre denunciadas pela sua própria limitação, naves espaciais & depois desiludidos porque nada disto acontece, atiram-se do rés do chão e geralmente conseguem fisicamente não morrer, ou formam normalmente a nova polícia. 
Oferecem-me um prazer indiscutível: a banhada.
Que faço eu aqui?
Estou no intervalo de um filme. Recusei ser mais um artista nesse elenco.
É duro! Bem sei que é duro de dizer, mas nunca amei em vão. Tão pouco poderei colher os frutos dum possível fracasso. Continua-se a dar demasiada importância às palavras & por isso mesmo as contradições continuam a existir. Eu acabei agora mesmo de ler as instruções referentes ao uso do tampax: sinto-me menstruado e continuo a queimar as etiquetas dos cigarros & o telefone teima em acordar-me todas as manhãs.
Não é preciso ser meteorologista para saber de que lado sopra o vento. Não sei se alguma vez te disse isto, mas continua a não te importares.
Depois! Bem, depois uma beata apagada um charro na boca uma grande pedrada & logo pensas que a solução está na química. Também costumas politi-falar, mas estás certo: Rússia e América afinal são duas formas de poder & o poder só serve para nos foder. 
Eu? Bom, eu continuo a querer matar-te.
… Drogo-me, drogo-me não! Fico porreiro sempre que tenho oportunidade & meter-te o dedo no ânus, já não me dá prazer! Bem sabes que não posso dizer o que acontece quando um homem ama uma mulher, tal como considero nula a existência de todos os poetas & não me agrada nada que os submarinos soviéticos continuem na minha banheira. & porque te beijei e nos meus lábios nasceu uma borbulha, a partir de então prometi não beijar nunca mais o teu corpo, excepto na...boca. 
Além de mais que interesse me dá o acordar todos os dias, se vejo paredes nuas ou miseravelmente enfeitadas, com uma única saída: a futilidade do quotidiano.

    … De um país por mim lamentado

    Aqui perco-me com dias iguais descoloridos aqui a alegria dá lugar a um lamento constante aqui a ânsia da liberdade é a sucessão das horas dias anos aqui o grito de revolta é mudo aqui o sorrir é mecânico como mecanizados são todos os gestos aqui o obedecer é o contestar silencioso, nas costas de quem nos manda, com um sorriso nos lábios, aqui o estudar é futuro como posição social, aqui a esperança é sempre uma palavra agredida pela ridicularia dos homens, aqui o amor é o jogo de cama inventado pela sociedade num momento de ócio, aqui não haverá memória para dias felizes.
Não me sigas! Eu também estou perdido. E vocês não digam que estou errado! Era jovem quando saí de casa.
… Da negação do existir
Sou filho da guerra do ódio da miséria e do pecado que não fiz minha irmã é a noite que nunca mais termina é a dor inventada a boca asquerosa que não pensa nem sabe aquilo que diz minha vida são as grades que eu como os covardes não consigo quebrar os meus braços são tenazes que apertam os meus desejos e destroem a minha ânsia de amar os meus olhos são a alegria simulada de uma ambição frustrada que eu teimo ainda em pensar os meus beijos são despejos manias fumo exibição o meu pensamento é tempo é o vento da vida que eu não vivi sou homem objecto sou produto para consumir sou futuro sem presente sou a negação do existir.
… O tempo morreu, mas o cerco aperta-se a fuga é eminente a ambição desapareceu. Merda é o poema! Contudo é urgente libertar o sol para que as estrelas possam de novo dançar. Que os pássaros ensinem o mundo a amar.

    … amor às 6 da tarde

    Ela Movia-se como um anjo Levei-a ao restaurante chinês E comemos amor
Com a face Bastante rosada Falei-lhe do Nevoeiro de Lisboa Contrastando fortemente Com o sol radioso de Londres Ela riu-se E eu Perguntei-lhe Se já tinha visto algum santo Cortar as unhas Chamou-me doido E foi à casa de banho Arrancar o penso higiénico Tirei a bota do pé esquerdo Para ver as horas Ela, admirada Perguntou-me porque não usava O relógio no pulso. Disse-lhe que não tinha braços.
Levei-a ao restaurante chinês E comemos amor
Gostas de mim? Gosto Porquê? 
Ezra Pound é fantástico
Amas-me? Amo-te Porquê?
Os Estados Unidos estão em decadênCIA
Queres-me? Quero-te Porquê?
Na Rússia não há páginas amarelas
Desejas-me? Desejo Porquê?
Sou parvo
Mas Ela movia-se como um anjo
E dizia que odiava o sistema Mas prazer e amor
Continuavam a ser esquema.

  …Mas

A vida é bela, passada à janela vendo a Manela chupando um pau de canela olhando para a panela, no mar: uma caravela e a prima da Manela também é bela. Olha, lá vem ela. Como é bela a vida a Manela vista de uma janela.
… A desculpa
Não tenho o direito de vos chamar porcos estúpidos e maus. Nem lamento sentir que são isso tudo & muito mais.
… De um happening sobrenatural em Lisboa
3 três Submarinos Soviéticos 
Juntaram-se No Aqueduto Das Águas Livres
Para Fazerem 1 um Piquenique
& Devoraram 1 um Destroyer Americano

        … De um requiem por todos os poetas descalços

Nada! Para além dum bolso repleto de sonhos. Duma prática quotidiana abusivamente condicionada por um certo ritmo de consumo, de posições motivadas pelo próprio sistema. Ou uma traição consciente mas sempre traição a mim mesmo. Não! Não quero ser dos que ficaram pelo caminho. Poema é a pena de eu não ter pena de escrever o poema.
Mas, não te chateies: 
Eu sou o único poeta que pode mijar na tua algibeira.



,1976_aNTÓNIODEmIRANDA
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ROLLING STONES - DOWN IN THE BOTTOM (live)

https://youtu.be/YjAMhWwDry0?si=jXvIZDnVSRAov0Dt