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quarta-feira, 3 de junho de 2026

CONVERSA COM GINSBERG (SEC`ADEGAS _Fábrica de Alternativas_2021Agosto07)

Naquela tarde depois de as manhãs se cansarem, tinha na garganta o “UIVO para tomar o pequeno-almoço. 
Pedi então açúcar mascarado tal era a pena de nunca o ter conhecido. 
Concentrei-me num cosmos surpreendido pela minha curiosidade. 
Lembro-me que era muito novo e mesmo assim já lamentar o facto de não poder falar consigo. 
Nasci adiantado e isso foi-me dando muito trabalho. 
Mas tinha a sua ideia da América e li o “ON THE ROAD” na altura exacta. 
Diziam no escritório onde era paquete, que era excêntrico. 
O irmão e irmãs do meu pai, comentavam que passava a hora do almoço nos bares das putas do Cais do Sodré. 
Coisas da ignorância, como poderiam testemunhar o Madeira Luís e o Hipólito da então livraria Opinião. 
Senhor Allen: não é culpa sua que os quatro psiquiatras, que me escutavam, tinha eu 14 anos achavam que eu pensava diferente dos outros.
Nunca fiquei e o mesmo acontece agora, indiferente àquilo que quero gostar. 
Mas as máquinas IBM não operavam aquilo que a Patsy Southgate tinha escrito no poema. 
Cresci nos corredores do escritório o que convenhamos são copiosamente iguais aos dos supermercados onde ninguém oferece nada em troca da nossa beleza.
Tantas vezes fui alvejado a tiro nas costas por uma vontade não conseguida.
E tanto roubei num supermercado longe da sua Califórnia. 
Não visitei a campa de Apollinaire
Mas estive lá perto. 
E publicaram um poema meu sobre esse senhor. 
Não poderei enviar-lhe um sequer registo de um sonho, só porque de tanto sonhar a memória fica tão chateada que nem a mim me oferece um só.
E voltámos á América. 
E você sabe que é uma palavra em vias de extinção.
E eu sei que você até tentou ser bondoso.
Mas como diz o Frank O´Hara, a indústria pornográfica está em crise.
Nunca estive em Nova York, mas não me custa admitir que no verão em que a beijou ela estaria magnífica.
Depois disso, vermes devoraram a poesia.




2017,mar_.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com




Pull My Daisy by Allen Ginsberg, Jack Kerouac and Neal Cassady.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

MILES ABANAVA O TROMPETE #Kind of Blue#

 


Miles abanava o trompete na noite em que a morte subiu ao céu. 
E tocava as notas da estrela-do-mar com sons de fogo-de-artifício.
Os sonhos bailavam no ar, perfumando a lua com os seus sorrisos.
De olhos fechados via-se o impossível e os joelhos tremiam uma dança que ninguém conseguia parar.
Abriam-se assim todos os parêntesis para o acontecer.
Miles dirigia o baile, celebrando na negra pele a arte de mestre-de-cerimónias.
Erguiam-se lágrimas rejubilosas e toda a gente pensava que o mundo teria um final feliz.
Coleccionador de almas deslocadas, descondicionador de sonhos em banho maria e de loucuras torradas num micro ondas ecológico.
Desenhador da não perfeição, mágico com pés de algodão, solitário no infinito especial, cartaz seduzindo ao longo da estrada do paraíso.
Miles tem na cabeça pergaminhos com pautas celestiais e sopros do “únicodeusverdadeiramentevivo”.
Deleitam-se os anjos num “festim nu”, onde bebem o néctar das orquídeas sentimentais.
E é tão perto o inatingível e é tão serena esta mania de sonhar.
Voam pássaros que ninguém lê, desenhando-nos os mais bonitos poemas dos poetas perdidos.
Creio em tudo o que me é possível.
Acredito que estou vivo.
E se deus não estivesse distraído, olhava para o lado para acreditar.
Ergo um salmo num cálice benevolente repleto de sombras que me desconhecem.
E solenemente aviso:
Já tenho poucos milagres disponíveis.

Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 24 de maio de 2026

ANNE WALDMAN LEVOU-ME AOS DEMÓNIOS (Casa Fernando Pessoa, 19Maio2026)

 


Um megafone com fala de anjo 
espalhou o choro sagrado da poesia.
Saído das cinzas, 
ágil como um tiro fugido da alma 
o poema será sempre um punhal. 
O mundo não passa de um 
horóscopo traiçoeiro rezado no santuário dos estupros homicidas.
Contudo, 
afirmam que, o amor está a um beijo de distância,
 embora eu só anseie fugir do abrigo da crueldade, 
feito esboço desconhecido, a baloiçar 
no andaime da incerteza. 
E o rufar do tempo que tudo rouba, 
desliza sem pudor para a desgraça da humanidade.
Triste fama embutida na vexada gratidão, 
esperando as noites sem dias para acordar.
Os sonhos despedem-se do pijama das mentiras.
Quando chegará a hora para abraçar 
a lua da liberdade?

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Alguém desenhou suores loucos 
no tapete dos desejos para o êxtase d
a multidão das almas vazias, 
enquanto os martírios enjoados 
remam para casa e os fantasmas 
que incendiaram 
a paixão no motel dos delírios, 
não cabem na manta da fidelidade.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Convém não faltar ao evento onde 
se comemorará a miséria do futuro.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Levar o que achar que não vai doer. 
Depositar os escombros na ampulheta 
dos prognósticos falsificados.

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Chorámos na fronteira da crueldade.
O pesadelo sintonizado no cenário mafioso 
suplicando aos profetasda idade da ilusão,
a torra da patologia dos governos 
que nos atormentam.
No harém das virgens desesperadas,
 um presságio bem-aventurado 
tenta confortar 
estrofes moribundas. 
No luxo de repouso absoluto, 
triste fica a despedida do momento 
que passa por nós ostentando as algemas 
da obscenidade.
Ó augúrios da carnificação, 
a urna dos convites continuam abertos!
Nada temais!
As asas do anjo falido, 
desta vez têm punições para a troca!
Procurem nos delírios da noite abusada, 
o brilho do céu da discórdia!
Sacudam da vossa impotência 
os muros dos mantras absurdos hospedados
na  Pátria desrespeitadora.
Ó eruditos dos aplausos penhorados, 
quando virá o cântico da purificada beleza?
Ó augúrios da imperfeição, 
a urna dos convites continuam à vossa espera!
Basta de massacrar as teclas da fugidia.
 esperança.

        Anne Waldman levou-me aos demónios.


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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FC 1970: Hugo Maia de Loureiro - "Canção De Madrugar"

 https://youtu.be/eCpfwD12QHI?si=QsItfI6Gm4jn0xUM

HOJE TEMOS PARA SI:

 

Bem-vindo ao self-service!
Hoje temos para si:

Sonhos enrolados em nenúfares da mais singela proveniência.
Atitudes mal pensadas enterradas num licor coq au vin.
Seduções panadas em pó de arroz cor-de-rosa.
Subtilezas assinadas pelo fotógrafo oficial.
Comentários jocosos no banho com a Maria.
Capas de revistas sociais com o toque original do forno do presidente.
Um par de pés com meias em perfeito estado de perfuração.
Vol-au-vent de aparas de unhas roídas.
Chalotas picadas sem dor nem piedade.
Pizza na brasa parada.
Fino carpaccio de línguas coscuvilheiras.
Canja de palavras com sílabas trocadas.
Canapés deitados fora de horas.
Cabidela à moda da Octapharma.
Croquetes de fígados maus arrasados em chantilly.
Suspiros abafados em beijos de absinto.
Coalhada de bagas de bacon enfeitadas com banana passa.
Batata-doce energicamente golpeada com chicote de beldroegas.
Vergamota hirta e facilmente insuflável.
Bobó com final de camarão e paródia de farófias.
Brioches na caçarola agilmente temperados em caldo de cálcio.
Empadas embutidas com molho húmido de rabo de boi.
Escabeche assiduamente envinagrado.
Escalopes escamados com toda a decência.
Estofado de obscenidades.
Estrugido cínico de elogios gelatinosos.
Gemadas aromatizadas em açúcar pernicioso.
Batido sempre à mão
Digestões bêbadas com preparado de enxofre.
Charros de erva-doce.

Sirva-se por favor


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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