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quinta-feira, 14 de maio de 2026

MORRER É UM JOGO COMPLICADO

 


Morrer é um jogo complicado.
Queima a flor que tanto nos entonteceu, 
e não há rega para a sua ausência. 
É um arrefecimento a pronto pagamento 
depois de tantas prestações pagas a um tributo 
que sempre nos ignorou. 
Mas a vida, de cada vez que a respirámos, 
é uma traição ignóbil, 
sempre pronta a roubar aquilo que gostámos. 
Depois os dias que sobram fazem de nós os invernos, 
onde enroupados nas fotografias, 
contemplamos memórias que definham 
o correr do nosso tempo. 
E é tão lindo o que gostámos 
e de tão querido, embrulhámos no lenço da saudade, 
todos os momentos que nos fazem felizes. 
Esta realidade é uma conspiração abrasiva, a
busa sempre de nós, 
aqueles que sempre acreditam 
que este jogo sempre será a mais miserável das batotas. 
            Eu também já não dou ao tempo
            a importância que ele não me merece. 
            Estou farto do seu modo de me cansar!



2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE

 


Vejo a fome distribuída em longas filas. Máscaras com um choro envergonhado. Olhares perdidos na lama da desilusão. Não é minha esta paisagem, esta certeza que já nada abriga. Um saco de lágrimas. É o que tenho para oferecer ao caixote solidário.

A fome não quer mais a morte.

Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos da aproximação desconfiada. Olho para os rostos, mas, não tenho memória para gostar. Passa por mim um cão. Não abana o rabo, simplesmente ignora-me, obedecendo à vontade do olfacto, farejando a ausência do vírus. Tornei-me num eu sem mim. Alojei-me no lugar que partiu, despido de qualquer lembrança. Sigo descalço para a fonte dos ocasos.  Desejo uma coisa estranha.
Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço. A gravação não funciona. A fita iludiu a cassete. Ignoro o convite da porta. Estou confortavelmente fechado nos golpes das curiosidades que não me aliciam. Escondi os cadeados da ousadia. Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos. Desconheço quem irá suicidar-me, depois de embriagar o desalento.

A fome não quer mais a morte.

Isto não está a correr bem.
Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta, mas, o ar condicionado não funciona, e a vontade vai-se finando.

A fome não quer mais a morte.

Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito. Atiro a má disposição para as persianas. Dou voltas enroladas neste sofá, escrito com recordações pantanosas. Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal. Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida. Convivo bem com os arautos da tempestade. Abraço-me nos seus gritos. Agora já nada me custa. Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados, que não compreendem o apelo ao perdão. Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério. Já escrevi o meu elogio fúnebre. E, ele não comporta mais palavras.

A fome não quer mais a morte.

Andei tanto aos tombos que nem me lembro das paredes que sangrei. Bebi nas noites longas, o amparo que tudo prometia. Beijei noivas hesitantes, conspurquei os futuros mais risonhos. Continuo a levantar-me num acordar alegre. Tiro a ramela dos olhos, pisco os olhos para o gajo do espelho, alvejamo-nos no ritual costumeiro. Despedimo-nos delicadamente. Sento-me na sanita para aliviar a vontade.
 
A fome não quer mais a morte.

Diz a canção que preciso de alguém para amar. A melhor oração para um defunto. Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas, que não me respeitem. Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões, do jackpot das hipóteses aputalhadas, dos conselhos respeitáveis que constantemente batem à porta. Viajo nos lugares que não conheço. Tenho saudades de ti, velho amigo. 

A fome não quer mais a morte.

Onde teremos andado, agora que não encontro o nosso passar? 
Quando voltaremos a beber o som daquele sax que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo? Paramos nesta página.


,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA,
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terça-feira, 12 de maio de 2026

COM TODO O NOJO PARA UM IGNÓBIL

 

    V erme
        E mbusteiro
            N éscio
                T raste
                    U ltrajante
                        R ato
                            A rruaceiro

 


2026Fev_aNTÓNIODEmiRANDA
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segunda-feira, 11 de maio de 2026

TENHO INVEJA DA COZINHA DE MANHUFE

À 2ª os museus estão fechados.
É o nosso dia favorito para o piquenique das confidências.
Olho para o Amadeo e falo-lhe da Vieira que tive nas mãos. 

Fita-me abrindo os olhos no meio daquela partida de xadrez, como que a dizer:

és um gajo sortudo.
Relembro a memória

e agarro o repolho vermelho do
Eduardo Luíz.
Há que ter calma.
Só quero saborear aquele verde “pistache” do Mário Botas.
Sorrimos um para o outro.
Gosto da nossa malandragem, aponta ele.
Ok.
Tenho inveja da cozinha de Manhufe, atirei eu, em forma de convite.
Timidamente escondeu-se na viola,

e ofereceu ao céu as cores que lhe faltavam.
Os galgos farejaram o nosso delírio e deitaram-se com o único deus que os soube criar.
Amadeo, saiu da tela, limpou os pés no pincel, e levou a cabeça do Santa-Rita para o passeio das horas sem tempo.


2018Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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NÃO IMPORTA SER FAMOSO

Não pratico a necessidade genital da beleza,
mas afirmo com toda a franqueza,
que alguma dela é necessária.
Não será esta razão um válido argumento para um filme porno.
Não me comove pensar saber o tão pouco que conheço.
Talvez exista uma ideia naquelas palavras que mais nos custam dizer.
As outras, aquelas que compramos, usamo-las como se fossem sagradas.
Então, ficamos apreensivos quando minuto a minuto, elas são contadas.
Não importa ser famoso.
É 
este o conforto que delicadamente as pantufas nos revelam.
Depois, damos passos em volta,
tendo todo o cuidado para não tropeçar no cinto do roupão.



.2015aNTÓNIOdemIRANDA
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sábado, 9 de maio de 2026

OLHO O CÉU E BENZO O SILÊNCIO

 


Sim!

Admito!

Tivemos uma pequena conversa

E se a dor se finar

Na hora que não nasceu

Digam à sorte malvada

Que quem morreu

Ainda não fui eu!

Vai-se caindo a amolecer a partida

Ao ritmo das pancadas do relógio 

A vida foi gasta a sacudir o pó 

dos magoados anos 

Num chegar que nunca me alcançou



,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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AS PORTAS DO CÉU

Fala com ele!
Disseram-me que nem sempre está ocupado.
Cuidado!
Não atende números anónimos,
nem responde a mensagens.
Claro que te tens portado bem,
não é?
Tens tratado com todo o respeito o próximo,
ou é só quando estás distraído?
Toma atenção!
Ele tudo vê.
Queixas-te da fome?
É coisa que ele não aprecia.
Choca-te a miséria?
É melhor mudares de cenário.
A injustiça está sempre presente?
Não digas blasfémias.
Reza à hora certa.
Não renegues o chicote.
Mantem-te ajoelhado.
É assim que ele quer.
Não encontras as portas do céu?
Não te incomodes.
Foram pintadas e colocadas noutro lugar.
Ele está enrascado.
Nada lhe disseram.


,2019abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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