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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A MORTE É UM ACTO INCORRECTO ( COM UM ADEUS PARA A PAULA MYRE DORES_17/09/2026

 


Todos os santos dançam ao contrário nos caminhos cruzados que lamentam a sua existência.
Enchem ninhos escuros e perturbam a leitura dos mochos.
Convivo bem com os sons do silêncio e facilmente me alegro com o bailado das estrelas que ilumina a minha sombra.
Uma coragem descalça floresce na minha cabeça com rega não automática.
Navego neste canal comandando uma barca apressada e espero estendido num pano de bilhar uma chamada pré combinada.
Meto na boca sementes inférteis e cuspo balas da mais pura imprudência.
Ato os desacatos e entrego-os na estação dos correios perante o sorriso habitual da senhora do balcão 4.
Até à próxima.
É o que costumamos dizer.
Volto à barca, lubrifico a decência, embalo a vontade com o mais atrevido laço.
Endireito o caminho e cambaleio sonolências.
Ainda não sei para onde vou.
Os tempos já não são o que eram.
Certos frios na minha espinha estão sempre a lembrar-me.
A morte é um acto incorrecto. 



2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA 
#SÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA#
Editora volta d´mar_2018





PEDRA ROLANTE

 


Deslizo num tropel de cornetas envolto 
em falsos pensamentos
 que não posso reparar.
Não sei naquilo que me tornei. 
Não consigo apanhar as silhuetas 
que bailam na minha cabeça, 
e  jogam o mais sujo dos sonhos 
nesta tempestade vestida de fantasmas. 
Quero dançar a beleza do fim do amor. 
Afastem o cheiro das velas queimadas. 
Pretendo outra estrada, novas lembranças, 
desinfetar a escuridão que paira nos meus ombros, 
uma heroína não falsificada, 
um beijo não suplicante, 
qualquer luz que não mostre o caminho mentiroso.
Sim! Tudo!
Tudo foi diferente naquela manhã. 
Voltei a ser o rapazinho a imitar alguém que não eu. 
Pedra rolante, 
choro secreto escondido na mala dos sonhos
que pintam toda a ausência. 
Nada cabe neste bailado de passos perdidos. 
Nem sempre segui os conselhos dos sorrisos desconfiados, 
e, disso ainda não me arrependi.
A glória nunca dormiu ao meu lado. 
Continua a ser a mais cara das aldrabices, 
a única puta desonesta. 
O que faço quando estou só?
Esfrego o cheiro da tua pele nas cordas da minha angústia. 
Ajoelho para beijar o sabor da nostalgia, 
e corro para o riso da tua cocaína. 
Quantas vezes nos prometemos naquele baile de marionetas? 
Dêem-me cicuta! 
Um solo do Ron Wood
Um sniff do Keith Richard !
Estou com sede!
É só para erguer a moral. 
Toda a vez que fico assim, 
ganho a certeza que nem só os pássaros podem voar.
Nunca sonhei com alguém parecido comigo. 
Talvez tenha adormecido com a desgraça desse momento. 
E, como sempre, ninguém ofertou o ventre do conforto.
Suicídio alegre, não enamorado da noite das estrelas livres. 
Mas eu não me importo se o pôr-do-sol não acontecer 
no parapeito do meu optimismo.
Não passo de um tocador de gaita 
com algum jeito para fritar croquetes.
A harmónica dos blues chega com a noite para me acordar. 
Disfarço o convite prometendo-lhe o paraíso do Baudelaire.
As coisas mudaram. 
Em muito destes anos, as flores do mal foram simpática companhia.
Confesso que nem sempre estive atento aos sons do silêncio. 
Era jovem, e apressar os tempos do relógio, distraia-me.
Que alguém me ajude a contar mentiras verdadeiras.
Claro que tenho saudades.
Mas tento não tocar neste chão que grita 
a dureza dos momentos que matam.
Voei alto nas asas do ícaro desenfreado. 
Aterrei no terreiro vizinho da desgraça, 
saltei a negação, enrolei paixões de breves futuros.
Esconde-me no escuro do teu altar 
-ama-me mesmo que não consigas
-molha-me o desejo, mesmo sem beijo. 
Sabemos que o amor é cego 
e nunca ouvirá as nossas desculpas.
Só posso prometer um final feliz 
no satélite das notícias avariadas
Pai meu, não sei onde estás. 
Não preciso da tristeza pintada na lua de Havana 
montada pelos cavaleiros da tormenta 
que desassossega os gemidos das noites sortudas. 
Prometem mudanças, mas só queimam as memórias. 
Roubam tudo nesta mentirosa valsa. 
Até Deus perdeu a esperança na farsa que vos entregou. 
A misericórdia é a mais cotada trapaça 
na bolsa das acções nefastas. 
Tempos sujos!
Se pudesse, rezava por ti. 
Mas não sei ler esta doutrina.
Fico no quarto das memórias coladas. 
Divirto-me neste arco-íris povoado de alegres pirilampos.
Acendo guitarras imaginárias, 
desato os nós que me encaminham para o céu 
que nunca me encontrará. 
Até porque o paraíso está num sossego monstruoso. 
Degustados nas encrencas, 
os usurários deixaram de pagar o condomínio. 
A administração demitiu-se. 
Procuram-se substitutos à altura. 
Os interessados que publiquem o curriculum vitae 
em mensagem privada.
Pretende-se um defunto afável - de fino trato
-humor em mau estado de satisfação.
Em verdade vos cuspo:
O tempo não passa de uma asneira ignobilmente repetida.


,2021Novembro_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

ESPALHAR A BELEZA NO ARCO-ÍRIS

 

Já posso secar o tempo
e rasgar na pele
as solidões do teu perfume.

A cicatriz que me entregaste
uiva nas noites vestidas
pela tua ausência.

Espero outras asas
que nos separem
da confusão que juntamos.

Cortar-te,
e espalhar os pedaços,
é a solução mais viável,
que desejo nunca
esquecer.


,2020Set_aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 15 de setembro de 2026

A ONDA SENTIMENTAL OCASIONALMENTE CHEGADA DE UMA GARRAFA DE BOURBON

 


Olhas para a manhã, céu vermelho nos olhos, tentas acreditar que afinal o destino é aquele percevejo que percorre a parede sul do quarto mil vezes por dia ou mais. Saco de viagem na pele, a estrada continua a ser o lugar preferido. 
Alvejado no desejo por vozes invejosas, uma catarata emotiva convida a última ceia para a apresentação do almanaque do “Único e Verdadeiro Deus Vivo”. 
Cogumelos são porreiros e continuam a amar onde lhes é possível. 
Óptimo, disseste! Óptimo, respondi. 
Verdadeiramente sinto-me assim quando a tentação começa a bailar na algibeira. 
“A Onda Sentimental Ocasionalmente Num Trago de Bourbon”:
O nosso amor é diferente, tão diferente, diferente que o algo que nos une, são exactamente as mortalhas. Porque te amo e não acredito no amor, Porque te quero e odeio a possessão, porque desejo-te e logo me farto, Porque tive de mudar três vezes de caneta para escrever isto…Por favor, não me acredites! (Amor é tirar macacos do nariz e depositá-los no colarinho do gajo que não gramas). O suicídio não tem dor! Se a vida corre sem problemas, suicida-te! Se vai mal, deves fazer o mesmo. Eu continuo a mijar no Tejo! Quando oferecem… exigem! E a sedução nunca terá de ser um roubo. Nb: aqui o contrário não é recíproco. Wake up in the morning, red sky into your head. 
Bem-disposto, penso defecar na algibeira do ministro. Tudo em mim e em relação a qualquer governo, é sinistro. Só vivo o momento! Nunca os espaços limitados pelos ponteiros do relógio. 
Quando o acordar e as suas paredes nuas desenham uma única saída: a futilidade do quotidiano. Olhas para a manhã e lês nas rugas da decepção, aquilo que querem fazer de ti:
Patenteado; registado: Numerado: Dirigido: Legislado: Regulamentado: Parqueado: Doutrinado: Prejudicado: Controlado: Calculado: Depreciado: Etiquetado: Censurado: Comandado: Anotado: Recenseado: Tarifado: Selado: Medido: Avaliado: Licenciado: Autorizado: Rotulado: Admoestado: Impedido; Desenformado: Impotente: Corrigido: Fodido e Mal pago: Vendido: Parvo!
Não sei, nem me interessa o que poderá advir de uma qualquer dinastia de espelhos bafientos…











,2026Set_Vila Chã_ aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CONSELHOS SEM CONSERTO

 


Se a voz fosse escrita 

Para que a vontade deixasse a esquisitice 


Se o futuro não fosse intrujice 

Quando o presente fugisse 

Até “ao resto que se lixe” 


Talvez a verdade 

Não fosse lá grande chatice


E, se o céu não fosse redondo, 

Onde se esconderiam tantas mentiras?


Toda a gente, 

E eu também não, 

Pensa no verbo que não prescreve


O tempo

Esse infindável rolo de papel higiénico 

Ilustrado pelos filósofos da eucaristia domesticada, tenta animar 

uma Desleixada conveniência


Está na hora de mandar enterrar 

Os acertos do relógio


Eu fico-me pelos restauros 

Dos conselhos sem conserto. 



2026Ago29_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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CONTAS DO SUMIR

 


Enlaçado na velha oliveira, 
o último poema cata memórias 
antes da apanha das contas do sumir. 

Na panela das histórias, 
gotas de gratidão confortam memórias 
onde gatos com olhos de peixes domingueiros,
 oferecem abraços há muito escondidos.

E, 
todos sabemos que o respeito publicitado na tv, 
será continuamente coisa de somenos…  



,2026 Set8_Vila Chã_ aNTÓNIODEmiRANDA
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A SOMBRA DO SILÊNCIO