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domingo, 24 de maio de 2026

ANNE WALDMAN LEVOU-ME AOS DEMÓNIOS (Casa Fernando Pessoa, 19Maio2026)

 


Um megafone com fala de anjo 
espalhou o choro sagrado da poesia.
Saído das cinzas, 
ágil como um tiro fugido da alma 
o poema será sempre um punhal. 
O mundo não passa de um 
horóscopo traiçoeiro rezado no santuário dos estupros homicidas.
Contudo, 
afirmam que, o amor está a um beijo de distância,
 embora eu só anseie fugir do abrigo da crueldade, 
feito esboço desconhecido, a baloiçar 
no andaime da incerteza. 
E o rufar do tempo que tudo rouba, 
desliza sem pudor para a desgraça da humanidade.
Triste fama embutida na vexada gratidão, 
esperando as noites sem dias para acordar.
Os sonhos despedem-se do pijama das mentiras.
Quando chegará a hora para abraçar 
a lua da liberdade?

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Alguém desenhou suores loucos 
no tapete dos desejos para o êxtase d
a multidão das almas vazias, 
enquanto os martírios enjoados 
remam para casa e os fantasmas 
que incendiaram 
a paixão no motel dos delírios, 
não cabem na manta da fidelidade.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Convém não faltar ao evento onde 
se comemorará a miséria do futuro.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Levar o que achar que não vai doer. 
Depositar os escombros na ampulheta 
dos prognósticos falsificados.

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Chorámos na fronteira da crueldade.
O pesadelo sintonizado no cenário mafioso 
suplicando aos profetasda idade da ilusão,
a torra da patologia dos governos 
que nos atormentam.
No harém das virgens desesperadas,
 um presságio bem-aventurado 
tenta confortar 
estrofes moribundas. 
No luxo de repouso absoluto, 
triste fica a despedida do momento 
que passa por nós ostentando as algemas 
da obscenidade.
Ó augúrios da carnificação, 
a urna dos convites continuam abertos!
Nada temais!
As asas do anjo falido, 
desta vez têm punições para a troca!
Procurem nos delírios da noite abusada, 
o brilho do céu da discórdia!
Sacudam da vossa impotência 
os muros dos mantras absurdos hospedados
na  Pátria desrespeitadora.
Ó eruditos dos aplausos penhorados, 
quando virá o cântico da purificada beleza?
Ó augúrios da imperfeição, 
a urna dos convites continuam à vossa espera!
Basta de massacrar as teclas da fugidia.
 esperança.

        Anne Waldman levou-me aos demónios.


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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FC 1970: Hugo Maia de Loureiro - "Canção De Madrugar"

 https://youtu.be/eCpfwD12QHI?si=QsItfI6Gm4jn0xUM

HOJE TEMOS PARA SI:

 

Bem-vindo ao self-service!
Hoje temos para si:

Sonhos enrolados em nenúfares da mais singela proveniência.
Atitudes mal pensadas enterradas num licor coq au vin.
Seduções panadas em pó de arroz cor-de-rosa.
Subtilezas assinadas pelo fotógrafo oficial.
Comentários jocosos no banho com a Maria.
Capas de revistas sociais com o toque original do forno do presidente.
Um par de pés com meias em perfeito estado de perfuração.
Vol-au-vent de aparas de unhas roídas.
Chalotas picadas sem dor nem piedade.
Pizza na brasa parada.
Fino carpaccio de línguas coscuvilheiras.
Canja de palavras com sílabas trocadas.
Canapés deitados fora de horas.
Cabidela à moda da Octapharma.
Croquetes de fígados maus arrasados em chantilly.
Suspiros abafados em beijos de absinto.
Coalhada de bagas de bacon enfeitadas com banana passa.
Batata-doce energicamente golpeada com chicote de beldroegas.
Vergamota hirta e facilmente insuflável.
Bobó com final de camarão e paródia de farófias.
Brioches na caçarola agilmente temperados em caldo de cálcio.
Empadas embutidas com molho húmido de rabo de boi.
Escabeche assiduamente envinagrado.
Escalopes escamados com toda a decência.
Estofado de obscenidades.
Estrugido cínico de elogios gelatinosos.
Gemadas aromatizadas em açúcar pernicioso.
Batido sempre à mão
Digestões bêbadas com preparado de enxofre.
Charros de erva-doce.

Sirva-se por favor


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 23 de maio de 2026

NOSTALGIA

 


Porque

Tens Sempre de Ficar Triste 

Nesse Destino 

Onde Viajas de Mão Em 

Mão?


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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SOLIDÃO REVISITADA

Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Sem alma nem cor
É a lágrima queimada
Numa vela apagada 
Que nunca soube os cambiantes do amor 
É a mentira forjada
Que tu falas na noite acordada
Quando custa mais a dor
O outro lado faz-te sentir importante
Logo pensas que não és a única
Adias o problema
Para o amanhã que julgas distante
E jogas os desejos envergonhados
Fabricas outro dilema
Agora a felicidade está garantida
Se és loura  também podes ser morena
Envias a fotografia fora de prazo
E o manual de instruções para seres fodida
Agora tens mais um caso
Afinal tinhas razão 
Como é bom ser apetecida
Estás a começar a ter sorte
Hoje adiaste a morte
Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Contínua ausência de amor.


Outubro27.2006,aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 22 de maio de 2026

OS ÚLTIMOS POETAS


Jorradas no chão,

lambendo lâminas enrouquecidas,
as estrelas solitárias
no picnic dos anjos da boa vontade,
cantam só para mim prosas simpáticas.
E no meio dos últimos poetas,
há um sax que grita
rejeitando toda a clemência.
E aparecem palavras que cortam,
e com este sangue abençoado,
serão escritos poemas
onde o tempo não pousa.
Continua o assassínio
nestas ruas envergonhadas,
de gente com alma
que só quer uma oportunidade.
E as feridas nunca serão curadas,
e os gritos arrumados no monte da ingratidão.
Sepulcros remexidos no meio de orações breves,
tão curtas como a circunstância
de só terem tentado viver.
E os últimos poetas
 soltam a poesia de todos os medos,
com todas as cores.
Na marcha fúnebre que os acompanha,
pensam com a esperança possível,
na sagrada indiferença
com que são considerados.
Os últimos poetas vão assim morrendo.
            E mostram rosários
                    de nenhum arrependimento.






,2017mai,aNTÓNIODEmIRANDA

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

O TERÇO DAS PENITÊNCIAS

 


Sou aquilo que de mim nem sempre me apetece. 
Assim como uma salada de ossos momentaneamente desocupados. 
Perspicaz imolador de anúncios, repetidamente a amassar o descalabro para o arrecadar num cântaro de cinzas. 
E, numa piscadela furtiva, saúdo a velha pele, cúmplice de parábolas nem sempre bem-intencionadas. 
[Assinámos um pacto anti tirania]. 
Dizem que anda por aí a surfar numa padiola perante uma quadrilha de olhares invejosos. 
O terceiro segredo jaz num apocalipse intervencionado por lápis de cera. 
O tempo não o deixa mentir! 
Ameaça- o com uma enérgica tempestade de pó dos livros. 
A alameda da felicidade foi raptada, segundo o relatório das notícias da raiva. 
E no lugar onde o nada não termina, estende-se a toalha para o manhoso piquenique onde é proibido ler poesia. 
Não nasci para dormir com a tristeza nem uso no pescoço o terço das penitências. 
Sei que a traição do silêncio se esconde na varanda dos ocasos. 
Na esquina da impossível espera, tenho na mira o nojo delicadamente calibrado apesar da miopia entregue por anos maus conselheiros. 
Enviadas pelos mensageiros da sagrada esperança, memórias agradecidas desaguam no cais da minha gratidão. 
Então, ergo para o céu desgostos sem fim. 
Mãos sujas que nomes poderão chamar? 
Na certeza de todos os enganos, longos dias poderão tornar as horas mais desalentadas. Até porque na dor do desejo, 
a beleza será sempre uma actividade inflacionária.

2025Mai._aNTÓNIODEmIRANDA
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