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sábado, 7 de fevereiro de 2026

AS HORAS DOURADAS


Não tenho medo dos caminhos novos, 
aqueles que afinal tiram a casca dos dias bolorentos.
Anseio a novidade com marés de suaves tons 
do vermelho das sementes de romã.
Começo neste sol, 
todos os abraços que ofereço ao mundo, 
mesmo que o mundo que me desgraça, 
não seja o lugar que pretendo.
Ficámos os dois apertados num umbigo mentiroso, que teimosamente pinta uma cor, 
que cada vez nos separa mais.
Sentados neste banco sem jardim, 
avivámos angústias bordadas em ponto-morto.
Claro que seria muito melhor, 
que o amor que nos ignora, 
pudesse pelo menos, 
olhar com a última ternura, 
a flor que há tanto tempo temos para lhe oferecer.
Mas há tarefas demasiadamente compridas, 
e a nossa esperança, é agora, 
uma hipótese seriamente comprometida.
Amamo-nos esporadicamente, 
mas mesmo assim, nunca em vão.
Deixo-te um até logo, 
alinhavado sem qualquer promessa que não nos respeite.
E se é verdade que os dias passam, 
compete-nos dourar as horas que os fizeram felizes.
Um sonho, 
mesmo não lembrado, 
poderá ter sido uma probabilidade engraçada.

,2018Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

ENQUANTO O DIABO APURA O MOLHO…

 


A liberdade chegará, disse-me um anjo com pena suspensa . 
As suas asas de fantasma feriam um céu de pássaros pasmados, abrigados num guarda-vento friorento. 
Pairavam num horizonte descabido, as crónicas do exílio anunciado.
Uma tempestade de conceituada ingerência, fermentou no oráculo dos créditos, fatias douradas com a ficção publicitada nas embalagens das bebidas energéticas.
Um drone habilmente disfarçado de trovão, destruiu todas as expectativas desleais. 
O fantasma cansou-se das asas, a liberdade conseguiu um novo patrocinador, e dizem as más línguas, jamais voltará a ser uma ideia confrangedora. 
O céu está á venda em retalhos de credibilidade, como sempre duvidosa. 
A tempestade é a agência de viagens mais solicitada. 
O trovão, nos intervalos da merditação, é accionista maioritário do grupo ecuménico que gere o banco de esperma da organização mundial da imbecilidade.


,2019mar_aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

DEVOÇÃO




A sociedade nunca me respeitou.
Fingiu sempre tolerar-me
Com tantas promessas mentirosas

À espera da minha conversão
Ao seu constante falhanço.
Mas,
Eu só caí na tentação
De tornar possível
A condição
De ser feliz.
Caminho nunca fácil
Para quem tenta viver no modo “errado”.
Rezei
Com a mais possível devoção
Para que eles morressem,
Mas Ele nunca foi meu amigo.
Fartei-me da sua boa intenção.
Não se pode confiar
Em alguém sempre distraído.
Só comi
Hóstias roubadas na sacristia,
Era muito novo
Mas agora sei
Porque aquela mulher gemia.
Era muito novo
E eles já acreditavam
Na minha inocência.
Depois disseram-me,
Como se eu acreditasse
Que deus não dorme.
Mas foi assim que julguei
Que era bom ser padre.
Só que...
Não funcionou a devoção.
Não me sinto culpado
Porque sei que o requerimento
Do meu não arrependimento
Foi entregue P.M.P. no céu,
Embora o porteiro exageradamente bêbado
O tivesse confundido
Com uma mortalha para um charro.

Alguém levou a minha alma
Sem prévio aviso.

Às vezes penso que a sinto
Assassinada por aí
Em forma de graffiti.


.2014aNTÓNODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

DO PASSADO NÃO SE LIMPAM AS NÓDOAS

 


Há uma passagem sem retorno abandonada 
pelo brilho do céu arrependido. 
Porca ilusão, consciência conspurcada 
na traidora celebração do momento. 
Vida com vista para o precipício 
como se fora castigo hospedado 
na bandeja dos vendavais. 
Sou assim, exactamente como 
o que não pretendo, verso mentido 
nas palavras que não quis abraçar. 
Amargura escondida na demência 
das horas sem ouvidos para me atender. 
Fila única, 
Sentido contrário, 
Feliz aniversário, 
Onda curta morta 
Na curva da auspiciosa sorte. 
Vou caminhando ao invés 
dos canteiros do suplício, 
ramalhete escondido no almofariz 
da realidade virtual. 
E, assim confronto indesejáveis artroses 
alojadas numa robusta indelicadeza. 
O que espero, 
não sei nem me importa! 
Imagino uma opção condigna do meu pensar, 
assim como qualquer coisa parecida 
com aquilo que pretendo, 
dado que não acredito no saber absoluto.
Um gume eficaz, 
um laço pegado ao abraço 
para depois poisar no regaço daquela virgem 
artisticamente adorada no Balneário Municipal 
da República da Pudicícia. 
É bem verdade que hoje o dia está difícil. 
Raptaram os sonhos num raid manhoso 
e as manhãs prometedoras 
esqueceram-se de aparecer. 
Por mim bastaria uma realização onanista 
em modo de “câmara lenta” 
sem discursos de circunstância. 
E, sobretudo nada de lembranças pindéricas 
nem alusões inoportunas. 
Nem sequer um aplauso enlatado, 
daqueles expostos nas montras 
da inútil conveniência. 
Mas o que me oferecem 
é uma amnistia congelada 
com sabores bolorentos. 

Mas, eu só preciso de uma vitamina simpática. 

E tu? 
Porque esperas? 

Morres nesse dano sem fim.







2026Jan_aNTÓNIODEmiRANDA
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A CONTRIÇÃO DA VOZ DO DONO



Só lhe falta saber escrever, 
para que, 
com a convicção possível, 
afirmarem: 

Agora sim!

Estamos na presença do verdadeiro 
Pateta!

(confortável, 
o poeta sorri
nas pautas dos 

Grandes Momentos De Pinotecnia)
...





2026Jan_aNTÓNIODEmiRANDA
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sábado, 31 de janeiro de 2026

MUDAS A FOTO, NÃO ENGANAS O PERFIL

 

Preocupam-me todos os sistemas totalitários, e sobretudo não quero que me gele a vontade de brindar com sangue a morte de todos os monstros do mundo. É infinita a distância que nos separa. Estes ideais inquietos, causam-me a angústia de que nada vai mudar. Estão mais altos do que nunca, os velhos muros do ódio. Tenho gravadas nas mãos, as marcas de frias grades onde escorrem poemas com o sabor do tempo. O que falta? O único minuto, deserto, sempre deserto de esperança. Serão agora ainda mais difíceis os sorrisos que ancoravam com toda a cumplicidade, vagas não exageradas de optimismo. De nada valeram os gestos ensaiados. A mentira mais fingida foi sempre maior que o cenário disponível. Toda a evidência encharcou a metáfora. Talvez não custasse muito destilar outras frequências. O tudo e o nada será sempre a medida exacta. Aqui a dúvida não passa de um intercâmbio de palavras. Apostamos a fatalidade numa bolsa com o crash há demasiado tempo preparado. Há ainda quem pense que o dow jones foi o primeiro guitarrista dos Rolling Stones. Eu diria: é preciso não acreditar na inteligência do ar condicionado. Garanto-vos a inexistência de cobardias honrosas, e, as verdades que nos querem impingir não passam de uma imitação adulterada de pechisbeque. Não há ponto razoável para acreditar em virtudes tísicas. São sempre indigestas as discussões estéreis. Olhamos para o céu mentindo copiosamente na vontade de lá chegar. Há imaginações com demasiada cinza.

.2015aNTÓNIODEmIRANDA 

#Livraria Buenos Aires# - Editora Tea For One / 2015Março




sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E EU AINDA NÃO SOU ANJO no livro #Livraria Buenos Aires# - Editora Tea For One / 2015Março

 

E EU AINDA NÃO SOU ANJO
Para os que comemoram aniversários clandestinos debaixo dos viadutos, ouvindo sinfonias estereofónicas de claxons e que conhecem de cor as influências dos fluídos do trânsito no comportamento das pessoas. Para aqueles que ainda têm a coragem de assumir a diferença cada vez mais etiquetada com heterónimos de loucura. Para os que rezam em silêncio desfilando entre os dedos rosários de lágrimas e, ajoelhados em soluços de desespero, esperam ainda com a esperança possível, aparições dos anjos do néon.
EU AINDA NÃO SOU ANJO
Para os que constroem a poesia com o amargo optimismo de experiências repetidas e que, sobretudo, sobretudo não lamentam , não invejam a maldita sorte dos poetas malditos :
Visões do apocalipse
Tentações demoníacas
Desolação
E EU AINDA NÃO SOU ANJO !
VIVA LA MUERTE !
Os duendes de Somorra invadiram as autoestradas deste inferno com sorrisos malignos de arco -íris.
Para aqueles que ignoram as constantes tentações do deus publicidade e fumam orgulhosamente beatas anónimas, marimbando-se nas marcas, e ainda para os que olham as montras sem qualquer laivo de cobiça, manifestando delicadamente a sua indiferença pelo Yves Saint-Laurent.
Para os guerrilheiros da angústia, que atacam a normalidade com raids ritmados de swing e destroem horários com metralhadoras de coragem.
E EU AINDA NÃO SOU ANJO !
Para os que gastam o tempo antes que o tempo os gaste e sorriem às estátuas com sorrisos cheios de cumplicidade 
Para os que lavam as horas em retretes repletas de relógios, para que o despertar não tenha o sabor inglório da obrigação digital. 
Para os que se deitam na praia desenhando na areia voos obscenos de gaivotas e desfilam sonhos de m`água e que compreendem docemente os queixumes do mar e choram no silêncio soluços da ausência.
Para os que acordam sempre
do mesmo lado 
da mesma maneira 
devorando avidamente croissants recheados com perfumes da Dior e devoram avidamente o nosso tédio, cuspindo depois as algemas da nossa escravidão.
Para que os vagabundos tenham pena de nós, da nossa impotência, da nossa burguesia, das nossas aspirações, dos nossos projectos, da nossa incoerência, do nosso medo e, sobretudo, sim sobretudo, para que lamentem :
A nossa falta de coragem que sempre desculpamos com a sorte
porque gastamos a vida na margem dum rio que se chama morte.

aNTÓNIODEmIRANDA