Horas fora do sono, naufrágios atrasados, chás desencontrados, índices da massa corporal defeituosamente calculados, notícias sem a última data, nem digno tempo de antena, e a minha pena que de tão mal acondicionada, não consegue esculpir o acto da minha condição.
Multado em contramão nesta esfera com olhos de fera e um tímido pedido escrito numa pétala de alumínio, oferecida por um teimoso desconhecido vendedor de flores tardias. Um cálice com álcool não adamado e um par de cordões para atarem aquilo que vai caindo dos bolsos. Remorsos à medida, pintados com o giz do alfaiate, tesoura com as mãos do Eduardo a traçarem o meu juízo. E eu, satisfeito por tanta deferência, mostro orgulhoso o atestado da minha urgência, que afinal só quer ser feliz. Não é para aqui chamado o nariz curioso, nem o olhar guloso com que costumava tocar os collants rendados a bilros, misturados com os espirros da primeira-dama do fulano que nunca tive em apreciável estima.
Estou só!
E só continuo, mas nem por isso mais aliviado.
Quero:
um sossego que não me engane , nem acalme, nem roube o alvoroço que me comporta. Um copo de vinho servido com dupla personalidade, com bolhas de histórias bonitas, mesmo que não encantem os pássaros que me ignoram. E um pau de canela mesclado de ignorância e uma nuvem de importância naturalmente descongelada.
Qualquer coisa de borracha, com pernas, mamas, vagina com sorriso de latex num olhar vermelho de namorada e um preservativo conhecedor de algumas boas maneiras para não magoar a orfandade.
E um vácuo singelo com salpicos de amarelo, enlatado num ramo de hortelã com o trago do cardo para fazer qualquer coisa de útil a outros que não a mim. Uma resma de papel de formato educado, uma caneta de tinta não permanente, um aparo decente de 14K com letra de alecrim. Uma desidratação imbuída de tracção às quatro vontades, um sótão harmonioso para aconchegar as memórias que pretendo conservar em molho picante. Uma escada em caracol com degraus não muito morosos e sorrisos radiosos que dignifiquem a sensibilidade de qualquer pasta dentífrica. Um final feliz nada oneroso, um gume amistoso, atento, não pode ser lento e um corte vaidoso que não me deixe ficar mal, qualquer que seja a circunstância. Tenho cartão de crédito internacionalmente reconhecido e fichas em bom estado de conservação, para trocar numa roleta russa, jogada como deve ser.
A vida é um casino. Há que ter todo o cuidado com as slot machines desconfiadas.
Bebo lentamente o roncar deste relógio amestrado com sentidos contrários.
Até quando?
Ainda não fizemos essa aposta.
2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com
Multado em contramão nesta esfera com olhos de fera e um tímido pedido escrito numa pétala de alumínio, oferecida por um teimoso desconhecido vendedor de flores tardias. Um cálice com álcool não adamado e um par de cordões para atarem aquilo que vai caindo dos bolsos. Remorsos à medida, pintados com o giz do alfaiate, tesoura com as mãos do Eduardo a traçarem o meu juízo. E eu, satisfeito por tanta deferência, mostro orgulhoso o atestado da minha urgência, que afinal só quer ser feliz. Não é para aqui chamado o nariz curioso, nem o olhar guloso com que costumava tocar os collants rendados a bilros, misturados com os espirros da primeira-dama do fulano que nunca tive em apreciável estima.
Estou só!
E só continuo, mas nem por isso mais aliviado.
Quero:
um sossego que não me engane , nem acalme, nem roube o alvoroço que me comporta. Um copo de vinho servido com dupla personalidade, com bolhas de histórias bonitas, mesmo que não encantem os pássaros que me ignoram. E um pau de canela mesclado de ignorância e uma nuvem de importância naturalmente descongelada.
Qualquer coisa de borracha, com pernas, mamas, vagina com sorriso de latex num olhar vermelho de namorada e um preservativo conhecedor de algumas boas maneiras para não magoar a orfandade.
E um vácuo singelo com salpicos de amarelo, enlatado num ramo de hortelã com o trago do cardo para fazer qualquer coisa de útil a outros que não a mim. Uma resma de papel de formato educado, uma caneta de tinta não permanente, um aparo decente de 14K com letra de alecrim. Uma desidratação imbuída de tracção às quatro vontades, um sótão harmonioso para aconchegar as memórias que pretendo conservar em molho picante. Uma escada em caracol com degraus não muito morosos e sorrisos radiosos que dignifiquem a sensibilidade de qualquer pasta dentífrica. Um final feliz nada oneroso, um gume amistoso, atento, não pode ser lento e um corte vaidoso que não me deixe ficar mal, qualquer que seja a circunstância. Tenho cartão de crédito internacionalmente reconhecido e fichas em bom estado de conservação, para trocar numa roleta russa, jogada como deve ser.
A vida é um casino. Há que ter todo o cuidado com as slot machines desconfiadas.
Bebo lentamente o roncar deste relógio amestrado com sentidos contrários.
Até quando?
Ainda não fizemos essa aposta.
2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com







