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sábado, 18 de abril de 2026

DESENHAR A SOLIDÃO NO JOGO DE SOMBRA

 



Talvez o Pouco 

Chegasse

Se o Nada Bastasse.


Talvez o Sonho Não Acabasse 

Para a Alma Desavinda

Que na Tristeza Existe.


Talvez o Abraço Viesse

Para que a Vida não 

Chorasse.










,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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ANJOS TOCANDO FLAUTA

Tinha na mão as violetas mais lindas.
Humedecido no olhar,
moldava-as com todo o cuidado.
Não fosse o mundo mudar-lhes a cor.
Sorridente,
sentado no banco que espreitava o mar,
pintava na cabeça de marinheiro, viagens.
Tinha no desejo uma ida destemida
e não era só sonho era uma vontade apetecida.
E olhava para mais do mais além
procurando a mania
que só a espuma enferrujava.
E ria. Ria muito alto,
nunca em sobressalto
para tudo o que avistava.
É bom ser assim.
Pensou consigo.
Gostar, caminhar no sonho
em que só ele cabia.
E gostava.
Gostava tanto daquela espuma,
dos salpicos da bruma
onde se alcança o imaginar.
Depois com o fim da tarde,
vieram os pássaros, velhos conhecidos
com nomes que ele gostava de inventar.
Era aquele o momento em que os anjos tocavam flauta.
E começou a andar na direcção que tinha aprendido.


,2016,06.aNTÓNIODEmIRANDA


quinta-feira, 16 de abril de 2026

CIDADE SUJA ( PARA FERREIRA GULLAR )

Cidade de abutres
Porca manhosa tinhosa
Cidade triste e alegre
Maliciosa
Insidiosa
Desesperante
Frustrante
Inimiga do amigo
Maltrata o sem abrigo
Cidade sem cor
 Ódio e amor
Paixão silenciosa
Violenta
Tarde cinzenta
Não ouves quem te fala
Não sorris a quem te cumprimenta
Cidade do frio
Não aqueces o rio
Não apaixonas quem te ama
Louca dos mais loucos
Amor apetecido
Esquecido numa cama
Coração arrefecido
Onde se esconde a minha alma
Percorro as tuas ruas
Beijo as estátuas nuas
Choro o porquê de não conseguir amar-te
E durmo nos teus jardins
Abraçando a estrela que me acalma
Já não consigo pintar
A tua beleza
Sei a cor da tua tristeza
Mas os meus olhos
Já nada querem ver
Serei eu a rasgar o teu véu
De noiva feita puta
Que já ninguém desfruta
Na alquimia do desejo
"Finita império
Abraça-me no el último tango:
( não me queiras
Não te quero
Nada me deste
Nada te pedi
Não te engano
Quero outra
Não creias por isso
Que te traí
O único beijo que me deste
Foi aquele que não te pedi
)

Cidade suja
Favela chic
Zombies junkies
Corruptos
Corrompidos
Suicídios
Violadores pedófilos
Doutores neuróticos
Mulheres desesperadamente solitárias
Olhares pedintes
Carências afectivas
Á espera de serem fodidas
Sugerindo a dificuldade
Mentindo a idade
Castrando o desejo
Por agora só a intenção envergonhada
Talvez um beijo
E barcos cansados
Adormecendo no tejo
Virgens arrependidas
Santos enforcados
Orações ridículas
Homens enganados
Soluços rasurados
Cidade que não é minha
Cheia de amantes ausentes
Sons de pássaros menstruados
Paixão clandestina
Sonhos delinquentes
Bebedeiras copos doentes
Sombras de fantasmas envergonhados
Cantando a canção do malandro
Espiões
Normalizadores do comportamento social
Odores desodorizados
Hipocondríacos distraídos
Bandidos surpreendidos
Sonhadores arrependidos
Confundidos
Enganos inteligentes
Adolescentes surpreendentes.
Traço no espelho
Sem risco
Leva-me ao riso que eu gosto
E eu sei que ninguém me conduz
Neste caminho da felicidade
Gostava que estivesses aqui
Comigo
Sem o teu medo
Não irei contar nunca o nosso segredo
Os golpes na pele do nosso enredo
As razões não explicáveis
As alegrias pendentes
Os soluços acontecidos
Projectos esquecidos
Dejectos à mesa servidos
Inaptos
Fingindo-se sensatos…
Ninguém me ajuda
Ninguém está atento
Ao meu salvamento emocional
E eu sei que não se pode manter uma promessa
.


,2010 Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 14 de abril de 2026

NA HORA DO PITÉU ABOCANHEI A QUESTÃO CELESTIAL

 


Se um dia pudesse, 
na janela do sonho, 
queimar datas mentirosas 
e fugir do templo 
das promessas infelizes, 
para danificar eficazmente 
a cruz do futuro maltratado, 
navegar na ideia favorável, 
e então pagar com um mísero trocado 
a inquestionável subtileza deste perder, 
onde a absurda memória 
açoita o meu nome.

Mas aqui  
onde a memória não prescreve,
não  existe ninguém  a não ser 
traficantes de solidões enlatadas.
Nada mais poderia ser tão correcto 
no santuário dos sorridentes 
malabaristas dos enganos 
sem fim à vista.

Acredita-me!
Hoje não consigo inventar mais 
mentiras…



,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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DECLARAÇÃO INTIMISTA

 


Continuo a gostar do
 “My Way” do Sid Vicious.

                Estamos Juntos! 
Ainda não sei quando.

Degusto com todo o enlevo 
o “African Reggae”.

Embora a Nina Hagen
tenha escondido 
o poema que imaginei.

Continuo à espera do 
White Rabbit”.

            Mas a Grace Slick 
não me liga nenhuma!

Tomei o comprimido 
que o médico não receitou.

Observam-me 
com um hálito estranho.

Não sei porquê…





,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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NÃO FIQUES TRISTE!

 


Ele partiu e eu por enquanto fiquei.
Enxertei a alma no saguão da memória.
Sabe-se que quando se desiste 
tudo irá desaparecer. 
A qualidade há muito que deixou de ser primordial. 
Tudo começa na seiva e só se cumpre na partilha. 
Aparece a recordação enterrada nas floreiras das tristes pétalas contadas no calendário. 
Pingas do sangue dizem que gostam de mim. 
Verdade que logo esqueço. 
Era bom se acreditasse, 
mas desse gostar não padeço. 
Para longe fugiu o momento 
mais apressado do que o acontecer. 
Mas irá alguém conseguir chegar 
ao canto da cotovia? 
E o sábio mocho, 
já sem lentes mentirosas, 
acampa o cansaço no poste, 
abrindo as asas para aconchegar 
o refúgio da calma noite. 
Rasgo o livro dos significados aldrabados. 
O carteiro só me entrega condolências 
da gente que se ausentou.
 Enche a caixa do correio 
com convites que não posso recusar. 
No vale dos cavaleiros do vento, 
penso seriamente que, 
se não passasse de uma estátua, 
juro que tentaria abraçá-los.

Não fiques triste! 

A merda deste mundo continuará 
sem a nossa nefasta
 contribuição.


,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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segunda-feira, 13 de abril de 2026

“ROCK ME BABY”

 


Reservei a noite sem fim 

para ti.
                Faz comigo o que 
te aprouver antes da música 
acabar.

Apaga o medo.
Sei o segredo.

Aquece a chama.

Deita-te até ao fim.

E na lua sem traições, 
abraça a almofada do desejo.

E na bandeja dos beijos
oferecidos pelo ballet da mariposa, 
sonha que existimos.

Enche o cálice do claro despertar 
dos gentis sons do mundo 
que agora é nossa pertença.

Até ao fim!

Mesmo que digam
que a luz se apagou.


,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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