Só quero que as minhas lágrimas beijem a sua serenidade.
Não me apetece pensar. Depois morrer, e se possível, sem dar conta. Imaginar! Devagar! Sentar! Exasperar até amolecer a pedra da esperança! Divagar! Ousar! Mentir à crueldade da verdade! Esperar! Cada vez mais distante o tentar! Voltar! Para o nada até acontecer! Diz: vagar! Olhar no sentido ausente! Gritar no ébrio eco! Sentar! Atar! Desatar! Enrolar! Disfarçar! Atender a chamada! Fingir! Tingir o optimismo com disfarces anónimos! Anodizar! Entardecer! Emoldurar! Queimar o tempo que já não nos respeita! Rezar! Pecar! Queimar o prejuízo! Sentar! Sorrir! Quilhar até mais não o lamento entregue pela conveniência do propalado juízo! Apunhalar a puta da sorte que nos pariu! Embebedar a dor com finos repastos de hipocrisia! Juntar! Amolgar! Afiar! Partir! Despedir! Amanhecer depois de morrer! Sair antes do afligir! Erguer o sorriso enfeitado na derradeira palavra! E o adeus tocado na cara para um olhar maior do que a ternura! E a memória a sorrir para disfarçar o chorar! “e um sótão de batatas e uma pipa de vinho e uma pia de azeite e uma queijeira de queijos na vida do Vale Grande”! (assim lembrou a Senhora Odete).
Tudo vai com os sonos!
Nunca me desapontou! Nem um reparo para recordar nos 45 anos de amizade! Claro que para sempre irei chorar a sua partida! Não passo de um simples gajo que tanto aprendeu com a sua sabedoria! E no tempo que abraçamos, mesmo sabendo que o outono fugia das folhas do calendário, tínhamos sempre um cálice de respeito para celebrar tanta cumplicidade! Não se preocupe! Continuarei a cuidar da sua filha! Mais do que uma promessa, para sempre será este, o meu único modo de vida! Esta coisa do tempo acabará por ser uma grade fadigas, e eu que tanto gostaria que o contrário muitas vezes acontecesse! Dispor simpatias na horta do paraíso, apanhar uns regalos na eira das bondades, distribuir afectos no jardim das delícias…como gostaria que por aqui estivesse! Mas, por favor, não ligue ao meu egoísmo! Ambos sabemos que os diamantes não são eternos! Mas, como poderei contrariar esta teimosia de sonhar que continua a exigir que desanque o momento da partida? O Kiko, o nosso cão tão mimado pela sua atenção, manda um abraço! Estará à sua espera! Comprei-lhe uma coleira a condizer com seu sorriso!
Tudo vai com os sonos!
Não ligue a estas lágrimas! Nunca mais aprendo a chorar como deve ser! Que patetice havia de me ocorrer! Que tempo este, minha estimada amiga! As cores estão diferentes! Mas, eu sei que a esperança ainda navega na barca do amor eterno! Aqui sentado na fila da espera, revejo 45 anos! Do cuidado que sempre manifestou para todos aqueles que tiveram o privilégio de a conhecer! Estou aqui na sua aldeia que tanto gosto! Visto uma tristeza amigável! E a senhora tanto a merece! Obrigado por ser a mão da mulher que tanto amo! Não! Não se trata de pieguice! Por aí fala-se dos dias futuros, mas digo-lhe que tal não passa de uma anomalia gerada por expectativas doentias! Muitas vezes, e lembro-me perfeitamente, nas nossas conversas comentamos essas mentiras!
Tudo vai com os sonos!
Olá!
Estará alguém por aí?
Quebrem-me as correntes da memória!
Ninguém quer saber das ideias que incendeiam o este pensar!
Confortavelmente cínico, um acervo de intenções avariadas, aponta no obituário certidões de ausências! Nada tenho a declarar! Dispenso a oferta dos heróis de banda-mal-desenhada! Nada mais importa! Nada se comparará com você!
Admito que sou aquele cujos sonhos se vão desertando!
Apesar disso, jamais desistirei!
Tudo vai com os sonos!
2026Ago25_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
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