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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TESTE DA FUTILIDADE

 


Antes que a morte anoiteça a vida, antes que o tempo queime o último passeio, antes que o saber se canse das dúvidas, há que tentar iludir o sorriso enforcado nesta ilusão abraçada aos ponteiros desonestos.
Choro contigo - sonho antigo - tingido de revolta amestrada.
Ainda ando por aqui.
Tentei fugir mas não imaginas o quão furioso fiquei, quando vi o anúncio da minha morte colado na montra do hipermercado. 
Foda-se!
Logo num hipermercado?
Ideias frouxas só poderão ser enfeitadas por flores murchas.
Nada entendo da ligação preciosa que me ofereces.
Escorrego repetidamente no pesadelo ambulante da tua cataplana de abraços. Danço-te em segredo neste smoking envergonhado, que mesmo assim não consegue disfarçar as rugas da traição do tempo.
Escondo-me neste pânico de perder o único amor que nunca me defraudou.
Gostava tanto de te encontrar - só que o tempo não consegue fugir desta mentira.
Perdi a sombra que iluminava a estrela do meu desatino - gritei num céu abandonado - lavado por anjos que prometeram  enforcar a saudade.
Lágrimas deslizando num tubo de ensaio inquieto, exibem a faca do tempo que penaliza a realidade, e entontece as palavras que já não conseguem salvar momentos aleijados.
Olho para o vento e na sombra do medo, golpeio o seu passar.
Ambos precisamos de adiar o lustro que nos mostra usados.
Nunca fui de dar o peito às balas!
Tudo o que preciso para uma vida saudável?
É não dar confiança à morte.
Vou por aí. 
Por vezes fugindo de lá - sem nunca me achar.
Adormecer fantasmas é uma grande trabalheira.
Só pretendo viajar à volta do meu conforto.
Nada sou, nem a pena desta fuga constante - abraçada a um verbo passageiro - demasiado cansado.
Estou abusivamente enjoado do elogio bajulatório marinado na patetice de um clister qualquer.

Sim!
Assumo! 
Enterrei a malga das conveniências.




,2022Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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VIDA DE PUTICE

 


No seu olhar escorria a tristeza
Mesmo quando tentava 
Escrever uma carta à morte

Mas o sossego tardava
E as notícias que lhe entregavam
Vinham de um paraíso desanimado

Queria deixar aquela vida 
Mas toda a gente mentia 
Quando diziam que era fácil

Partia sem vontade de voltar
Àquele estranho lugar
Que só enganava o caminho







,2022Fev_aNTÓNIODEmIRANDA
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TIVE UM DIA OCUPADO

 


Imagino que acordei. 
Habitualmente golpeei a angústia 
no usual bálsamo rançoso.
Aplainei a torrada pornográfica oferecida na amiga campanha do supermercado de fama incinerada. 
Passei a ferro a indecência, 
alisei alguns malabarismos, 
fiz um guisado de gorgulhos, 
convidei o presidente, 
(cagamos  na respectiva selfie), 
e demos um amistoso aperto de mãos 
num caloroso microondas. 
Fiz uma salada de putas publicitadas na TV. 
Atravessei a linha, 
refoguei medos, 
e numa cebolada esperançada, 
mandei à merda as recomendações do costume. 
Não estou com disposição para remendar dissabores.
Tive um dia ocupado. 



,2022Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 15 de fevereiro de 2026

REDUNDÂNCIA ABUNDANTE

 


Aquele olhar virulento 

Agoirava uma auspiciosa 

Infecção









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QUIPROQUÓ

 


Se alguma vez 

Julguei 

Que só eu pensei 

Certo, 

De todas 

Elas 

Me 

Esqueci.



,2022Jul_aNTÓNIODEmIRANDA
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NADA ME DIZ A IMPORTÂNCIA DA EXTRAVAGÂNCIA DA INOPERÂNCIA

 Uma vez noutra vez sem nada para haver. 
Talvez um anjo vadio, o tal das asas ousadas para a vida atrevida, que mesmo assim na tristeza padece, qual ferida nunca curada que noutra vida acontece no sono que adoece no cansado desafio.
Naquela tarde onde dormi com a mentira do céu, estafado de estar sentado à direita de um inoportuno desconhecido, roubei corajosamente o décimo primeiro "mentimento". 
Julguei assim aliviar o infeliz espólio da humanidade. 
De nada valeu esta reles intenção.
Não é fácil desencaminhar o mau feitio deste olfato, surripiado no balcão das malícias desconfiadas.
Noites em lume brando, desencontros na cabeça, nada quero deste dia, pedindo que o amanhã seja diferente. Nada de bandeiras bordadas com desculpas estupidamente repetidas.
Corre o mundo para longe à procura do lugar perdido, levando consigo a manta dos murmúrios da roubada memória, enquanto um adeus desengonçado tenta disfarçar a pressa do tão vergonhoso abandono.
Ficamos por aí, à deriva no cais das cicatrizes, completamente desinteressados da chegada do embaixador da horta dos suspiros.
E, nesse longe cada vez mais galopante, agarrados à crina da boa-esperança, aplaudimos (assim ordena a má-educação), o mentiroso comité das Boas-Idas.

Por cá, nesta onda de lamentos agitados na proa do desavindo destino, brindamos ao tempo que fica com flores de sangue temperadas com o sal deste mar que nos desonra. 
Corre o lugar à procura do mundo, que, como é sabido, já não nos acolhe.

Assim, mesmo que seja proibido, 
temperai a possível esperança.

Eu? 

Ainda fico cá hoje à cata de alguma bondade na vida.






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sábado, 14 de fevereiro de 2026

TV (b)ANAL

 


Assim me despeço renovando 
os votos de uma digna putrefacção 

Escusado será dizer
Que é um prazer
A companhia com que continuam 
a distinguir-me 

Um Bem-Haja pela vossa incineração




,2022Jul_aNTÓNIODEmIRANDA
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