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sexta-feira, 24 de abril de 2026

MANIFESTO (1981)

 


Na minha cabeça há uma cidade
No meu quarto uma cadeia
Nem aquilo que odeio
Consigo destruir

                    Não falo de coragem
Mesmo quando maliciosamente
Me bates com o batom
&
Nem Miró
Teria cores
Para pintar os teus olhos.

                    Não quero mudar nada
Nem mesmo o sótão da minha
Memória.
Nem mesmo este sorriso
Com o qual
Tanto te desejo
Como te odeio.

                    Desta vez,
Vou fazer o meu inventário:
57 Quilos de má disposição
½ Litro de esperma tipo h2so4
Um metro e sessenta e 6 de
Decadência
100 Anos de solidão
Hálito duvidoso
Sorriso nuclear
Não sei se a minha equivalência
Em lixo vale um saco de adubo
Da pior qualidade.
Quilómetros e quilómetros de apatia
Cinquenta doses de fingimento
Um milhão de desgostos
Ritmo normal de ejaculações
Coração em 2ª mão
Fígado emprestado
Olhar cansado
Memória fresca
Pensamento muito pouco usado
Inteligência não acreditada
Sangue misturado
Futuro? Nenhum
Solução? Nenhuma
Soluços? Poucos
Quase sempre menstruado
Órgãos genitais para troca.
Antitudo
Mas contudo
A mordidela não é venenosa.
As restantes intenções
São pacíficas.
Note bem:
Estes dados
Foram emprestados
Com a convicção que o meu
Equilíbrio instável permite.

                                    Por favor:

                                        EMBRULHE - ME
                                                                            E
                                        LEVE - ME CONSIGO
.



81jan.ANTÓNIODEmIRANDA
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quinta-feira, 23 de abril de 2026

6 PRANTOS INACABADOS

 


1_ 

Se quiseres saber de mim poderás falar com o vento. 
Costumo andar onde não fogem as sombras, agarrado ao consolo das asas vagabundas.

2_ 

Não me olhes assim.
Nasci em 55 e continuo à espera da sorte. 
Todos os dias aponto os números da lotaria, 
tento a simpatia, claro está, 
com o habitual gosto de azia, 
mas a fortuna não me conhece. 
Fartei-me de ser bom rapaz, 
depois de ter emprestado a alma 
embrulhada em delírios desonestos. 
Vomitei pizzas no azar da fome na 
“Grand Place”, desejei o calor dos lençóis 
naquele jardim de “Vitoria-Gasteiz”, 
e lavei muitas vezes os testículos 
nos wc´s dos comboios.

3_ 

Pensava que ser feliz seria a coisa mais normal, 
mas a despedida do dia sem nunca me convidar, 
fazia de mim o órfão mais abandonado.

4_ 

Parece que tudo se esconde na minha cabeça! 
Mas, estou de partida 
nesta mala cheia de abandonos. 
O cérebro, escondido num tubo de ensaio, 
só quer mentir naquela análise 
demasiado curiosa para incomodar 
a minha intimidade. 
Guardo comigo uma luz branca
fora das lágrimas do olhar, 
um caminho amigo do vagar dos passos, 
só para inventar dias que ainda não conheço.

5_ 

Nunca me preocupei com o futuro!
Não tenho seguro para o tempo seguinte. 
Sou um analfabeto continuamente 
desinteressado pelo vazio das ideias 
que só ocupam espaço. 

6_ 

Ok!
Está tudo bem!
Mas,
não faço parte desta banda. 


2019ago_aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 22 de abril de 2026

HISTÓRIA DO COELHO QUE NÃO CONHECE A ALICE

 


E eu no país já sem maravilhas,

Mato-desato-x-acto-farto de esperar_

Desespero concreto _

Presente mais que deserto 

Movido na sorte moribunda_

Esperança ardilosa_ 

Queda ansiosa para o deus 

Que que só pode oferecer 

O refúgio do medo.

A condição humana 

Frequentemente atravessada 

Por interrogações anormais,

Continua a esperar. 

Mas…

O momento 

É agora.


,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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DESENHAR A SOLIDÃO NO JOGO DE SOMBRA

 


                                Talvez o Pouco 
                                            Chegasse
                                            Se o Nada 
                                            Bastasse.

                                Talvez o Sonho 
                                            Não Acabasse 
                                Para a Alma Desavinda
                                            Que na Tristeza Existe.

                                Talvez  
                                        O
                                            Abraço 
                                Viesse

Para que a Vida 
Acontecesse.




,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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PORQUE O MUNDO SÓ ACABA HOJE

 


A manhã acordará como sempre,
abraçada à golpeada esperança.
Não importará nunca a consciência 
depositada num naufrágio não 
reciclável.
O pensar que nos acorrenta, 
é um pesar silencioso,
qual nuvem persistente que subjuga 
a ânsia de gostar.

Somos os maiores 
e nada mais para além disso!

(até porque a realidade que nos palmilha
é infinitamente tacanha
para a importância que vestimos).

Nunca traí a expectativa.
Sismos de esperança,
quando habitarem o estado divinal,
poderão argumentar essa mentira. 
Irei ao fundo do mundo
a não ser que a voz não enlouqueça 
esse caminho  
.




,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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NÃO ME LEMBRO DE TI MAS ÉS CAPAZ DE TER RAZÃO

 


Estavas magnífico, 
estendido naquela toalha de mármore, 
quando os anjos desceram do hospício 
e autografaram com aplausos, 
a ausência do curioso fantoche. 
(o inútil entregador de condolências).

Lá, no longe de todos os lugares, 
uma cítara apaixonada 
recitava sorrisos embrulhados nos poemas.

E na lonjura da quinta das lágrimas, 
alguém ostentando a safira dos desejos, 
pintava nas nuvens lápides da consolação… 

Em Rilhafoles, 
pássaros dos tristes voos 
espalhavam a notícia:

[ Caixão não vais fugir de mim. 
Serás paixão até ao fim








,2026Abr_aNTÓNIODEmiRANDA
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terça-feira, 21 de abril de 2026

PÊSSEGAS NA LAVANDARIA

 


Uma matilha de     hot-dogs     esfomeados 
aterrou no balcão     da     hamburgueria. 
Aproveitaram a ocasião 
para uma breve     sessão de Flash Mob
Alfinetes     desinfectados 
picaram entranhas     desafinadas 
perante o inconcebível     espanto 
das testemunhas do senhor     jeová.
Sorrisos escalados     premiaram 
a presença dos peregrinos                                                             da santificação adulterada.
Todos os abrenúncios 
        devidamente benzidos, 
    emporcaram aquele rio, 
    que só queria fugir da maré do azar.
Distante, o céu risca no     sol, 
um alfabeto que     ninguém     lê.
Na lavandaria, 
    pêssegas impacientes, 
lamentam em uníssono, 
                    as cópulas ausentes.






2018Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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