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quinta-feira, 30 de julho de 2026

COMO SER ANJO


 
 
 





BANDEIRAS ROTAS

 


Naquele tempo, quando os dias não eram mentiras, e contavam-se histórias no carrossel sem mudança da hora, quando a oralidade ainda não era um gatafunho, e os fósforos não queimavam o desejo, e a memória nunca ficava na jaula, não se dava a mínima importância à conversa folhada.
Depois apareceu a fónix renascida, fala da treta, alpista fumada, bosta multifacetada em elogios mais mentirosos, do que a minha autobiografia sem nexo.
Por favor, não abalem o flirt do perdedor.
Ele só nos quer amaciar, neste composto de nódoas sem fim à vista.
Eu desconfio, e sempre, daqueles que se embrulham em bandeiras rotas.






2018Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 29 de julho de 2026

CREIO

 


Acredito na salvação. Não na minha, pois não tenho interesse nisso. Creio em tudo o que não me perturbe, em certas bondades infectadas nos cabides que amparam a cerca das felicidades vindouras. Nas ideias inúteis deitadas ao abandono. Em solidões choradas nas bag in box 5lts, com origem nas regiões das carícias nunca encontradas. Creio nos lugares que enganam certos passos, na bíblia sagrada escrita pelos pastores da noite, que ainda esperam núpcias prometidas, no não sentido das coisas verdadeiramente importantes, na redundância das hipóteses não concordantes, e no vazio que não queima o significado dos instantes atrevidos. Acredito no ouro que marca a pele, no sorriso sem palestra e nas intenções não pacíficas. Creio algumas vezes em mim, claro está, nem sempre até ao fim. Creio na tolerância da intolerância, na alquimia, nunca em demasia, e sobretudo em qualquer perspectiva anacrónica que não infecte excessivamente a minha cronologia.


2018Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 28 de julho de 2026

BLOW JOB

Não falava inglês!
Fiz um desenho
&

Lá nos entendemos.
Dicionário?
Para quê?



2018Set_aNTÓNIODEmIRANDA
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BARBA SURREALISTA

 

Este não se cansa.
Dá horas para roubar tempo.
Cada vez gosto menos desta simpatia. 
Resta-me confiar na memória, 
vomitar o que não presta,
 e limpar, se me aprouver, 
as lentes que têm gravadas calendários que não vivi.
Os jardins do paraíso fartaram-se das boas intenções. 
A Eva continua linda e convenceu o Adão a vestir calções. 
A parra foi levada para Marte, 
e consta-se que está contente com o novo parceiro. 
Noé, finalmente rebitou a arca nos estaleiros de Porto Brandão. 
A ferrugem já dificultava aquela estúpida crença. 
Tem sido visto por aí, 
um cabeludo com barba surrealista, 
que agora é confundido por um outro qualquer. 
Comenta-se que o transplante poderia ter corrido menos mal...
Moral da história:
ele há coisas que nem Ele imaginava.


2018Set_aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 26 de julho de 2026

ONDAS CURTAS_FREQUÊNCIA MODERADA

 


Horas fora do sono, naufrágios atrasados, chás desencontrados, índices da massa corporal defeituosamente calculados, notícias sem a última data, nem digno tempo de antena, e a minha pena que de tão mal acondicionada, não consegue esculpir o acto da minha condição.
Multado em contramão nesta esfera com olhos de fera e um tímido pedido escrito numa pétala de alumínio, oferecida por um teimoso desconhecido vendedor de flores tardias. Um cálice com álcool não adamado e um par de cordões para atarem aquilo que vai caindo dos bolsos. Remorsos à medida, pintados com o giz do alfaiate, tesoura com as mãos do Eduardo a traçarem o meu juízo. E eu, satisfeito por tanta deferência, mostro orgulhoso o atestado da minha urgência, que afinal só quer ser feliz. Não é para aqui chamado o nariz curioso, nem o olhar guloso com que costumava tocar os collants rendados a bilros, misturados com os espirros da primeira-dama do fulano que nunca tive em apreciável estima.
Estou só!
E só continuo, mas nem por isso mais aliviado.
Quero: 
um sossego que não me engane , nem acalme, nem roube o alvoroço que me comporta. Um copo de vinho servido com dupla personalidade, com bolhas de histórias bonitas, mesmo que não encantem os pássaros que me ignoram. E um pau de canela mesclado de ignorância e uma nuvem de importância naturalmente descongelada. 
Qualquer coisa de borracha, com pernas, mamas, vagina com sorriso de latex num olhar vermelho de namorada e um preservativo conhecedor de algumas boas maneiras para não magoar a orfandade. 
E um vácuo singelo com salpicos de amarelo, enlatado num ramo de hortelã com o trago do cardo para fazer qualquer coisa de útil a outros que não a mim. Uma resma de papel de formato educado, uma caneta de tinta não permanente, um aparo decente de 14K com letra de alecrim. Uma desidratação imbuída de tracção às quatro vontades, um sótão harmonioso para aconchegar as memórias que pretendo conservar em molho picante. Uma escada em caracol com degraus não muito morosos e  sorrisos radiosos que dignifiquem  a sensibilidade de qualquer pasta dentífrica. Um final feliz nada oneroso, um gume amistoso, atento, não pode ser lento e um corte vaidoso que não me deixe ficar mal, qualquer que seja a circunstância. Tenho cartão de crédito internacionalmente reconhecido e fichas em bom estado de conservação, para trocar numa roleta russa, jogada como deve ser.
A vida é um casino. Há que ter todo o cuidado com as slot machines desconfiadas.
Bebo lentamente o roncar deste relógio amestrado com sentidos contrários.
Até quando?
Ainda não fizemos essa aposta.


2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA
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