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sábado, 4 de julho de 2026

OS VELHOS “BLUES” VÊM À VARANDA CONTAR HISTÓRIAS

 


Sentem-se abandonados.
Falam agora das noites que não conseguem dormir.
Dos sonhos que já não voam ao sábado 
e das raparigas sempre a fugir da cabeça. 
E o convite do céu, 
quando adormece nas manhãs do sol ansioso 
e vai libertar os desejos dos anzóis, 
oferece a paz para adormecer
 na serenidade da fala dos anjos.
Escrevem um adeus 
só para disfarçar a terrível saudade 
com que desenham a despedida. 
E na velha harmónica choram o amor 
num longo e apetecido abraço 
para aconchegar o desejo, 
e bebem o travo da beleza imaginada. 
E pedem desculpa pela anomalia 
que ainda ousa abraçar a ilusão.
São difíceis estes tempos 
confinados no mais estranho 
dos sentimentos.




,2026Jun_ aNTÓNIODEmiRANDA
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MUITA FERRUGEM NESTE CAMINHO

 


E a esperança a dançar no vazio da cidade, 
confortando a ousadia entorpecida 
no colo da mala das lágrimas.
Mais um sonho perdido no cais que nunca visitei. 
Toda a vez que tentei 
desencaminhar a memória 
a inveja do calendário rasgava as folhas da folia.
Aqui no bar, 
ainda ouço os gritos daquela guitarra 
beijando acordes bem-intencionados 
a festejar o caminho para casa.
Mas não sei o que farei 
com este desconforto 
regado com o perfume das flores sujas.
Tenho uma guerra na minha pele 
e tudo o que perco não consigo esquecer.
E a melodia inquieta 
descansa na aflição da almofada 
onde brinca o sono que não apetece.
Um bailado de sombras 
tenta em vão animar a noite 
com propostas repetidas.
Mas a maré triste não se deixa enganar.
Tudo vai parar à encruzilhada 
onde o sorridente  convite  da pedra fria, 
promete a viagem… 


                                Cada um com o seu xaile 
            para o baile da preocupação.



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SONHOS ENCENADOS NA BANHEIRA DAS ILUSÕES

 


Se me queres espera mais um 
pouco

Se me desejas não mintas

Desconheço a certeza das horas
e continuo a não conceber 
as demoras do acontecer

Há um certo charme que a solidão 
entrega na esponja suja 
pelos bairros da miséria

Só mais um copo sempre com o vazio 
de uma qualquer amizade

Hoje acordei assim...

Será  o amanhã diferente?

Há muito que não caminho 
com o incómodo de certas 
mentiras. 




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sexta-feira, 3 de julho de 2026

POR VEZES O PASSADO APARECE SEM SER CONVIDADO

 


Desse-me o tempo outros nomes 
para sossegar a memória
Outros dias sem cansar a vida
Outro ser sem deve nem haver
E o acordar sem dias para riscar
E um aplauso sem efeitos whatsapp
Desse-me o alento outro compasso 
juízo mesmo em esquisso
para não sentir a alma numa sépia desgostada
Desse-me o tempo outras lembranças paridas
longe do turbilhão das doridas ausências
Desse-me o tempo outro intento
 para crucificar o céu da Discórdia.



,2026Jun_ aNTÓNIODEmiRANDA
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FRITAR A VOSSA IMBECILIDADE

 


Não sei se o nojo chega ou será suficiente 
o afinar da corda da garganta para encantar 
o piar de algum nó enrouquecido.
Sinto-me como um touro enraivecido 
traído covardemente por um qualquer 
peão de brega estupidamente entusiasmado 
pelos berros da multidão tresmalhada 
atirando ramos de flores e chapéus ocos.
As voltas à arena salteadas com música 
do mais desafinado respeito nunca serão 
dignas de qualquer sangue.
Só poderá ter valor a liberdade 
que não condena vontades diferentes.
Estou a aprender 
e com toda a pressa 
a fritar a vossa imbecilidade







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quinta-feira, 2 de julho de 2026

ATENDIMENTOS APENAS COM AGENDAMENTO PRÉVIO

 


Ventos inquietos abençoam a história 
com bocejos de gratidão.
Oferecem o anjo das asas desfalcadas 
para o verdadeiro armistício das mentes ferrugentas. 
Encenam um salva-vidas sem janelas, 
para a bebedeira do Infame D. Henrique, 
navegar no ópio do gamanço.
Uma meia dose, mesmo surripiada,
da sanidade não conformista, 
seria a opção verdadeiramente credível
E porque não, 
um cutelo eficaz, 
um Si(m) Bemol não desanimado, 
para descarrilar a tristeza.
(Peço que avisem a entidade patronal, 
que de nada sou culpado da falência 
desta demente realidade).
E, se houver um adeus envergonhado, 
a sua timidez deverá para sempre ser respeitada!
Eu, 
apenas dei uns míseros trocados ao diabo 
para publicitar a alma numa honesta feira da ladra!



,2026Jun_ aNTÓNIODEmiRANDA
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quarta-feira, 1 de julho de 2026

PRAÇA MARQUÊS DE POMBAL – PARAGEM DO AUTOCARRO 748

 

Foge o tempo alourando chocalhos, sacudindo memórias no triste oásis das ideias feridas. 
Sou um mártir desocupado esculpido em culpas inúteis, vagarosamente arrependidas neste concurso de sóis encardidos. 
Carrego aos ombros uma misericórdia banal. 
Dei 1 € a alguém que nunca tinha visto. 
(Falou de um sem-abrigo, que depois de tantas horas a pedir, foi a primeira, a moeda que lhe entreguei). 
Educadamente mencionou uma qualquer sabedoria. 
Retorqui com a palavra respeito.
PRAÇA MARQUÊS DE POMBAL 
– PARAGEM DO AUTOCARRO 748
Claro que olhamos um para o outro. 
Mesmo assim, não aclaramos a distância.
Ela pegou num pequeno caderno e desenhou as ideias que a cabeça queria que pintasse. 
Tentei, mas não consegui disfarçar a curiosidade. 
A elegância do seu caminhar, (assim como um voo de pássaro ferido), esboçava o bailado do anjo da desolação que espalhava as mais tristes lágrimas de um qualquer desgosto. 
Ali estava eu. 
Perfume de merda aconchegado ao rosto, a puta da esperança matinal para o dia perfeito, as desculpas formatadas para o falhanço do costume. 126 m2 + garagem, contas do condomínio em dia, seguros atempadamente pagos, 74 camisas+32 pólos+8 fatos com gravatas a condizer + champô contra a caspa, sabonetes certificados. 
Não quero falar das angústias auto conformistas. 
Sei o nojo que sou, mas o pior é que domino a batota que o indulta.
PRAÇA MARQUÊS DE POMBAL 
– PARAGEM DO AUTOCARRO 748
HORAS:16,52
Ela, por fim, olhou.
Desta vez a minha trapaça envergonhou – me.
Quando cheguei a casa, 
reguei a consciência na máquina de ignorar silêncios que já não conseguem chorar.



,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA