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sexta-feira, 15 de maio de 2026

LUTAR PELO CÉU NAS ASAS DESTE VOO MENTIROSO

 


Não me interessa se alguma memória deixarei. 
Tento não desiludir o convite para a viagem 
que o nascer me entregou. 
Revejo-me nos abraços da solidão ancorada 
com suaves beijos de tolerância. 
Velho agora, 
(como me mira o espelho enrugado), 
embeveço neste odor de hortelãs taradas, 
estendo-me num colchão de chá, 
esperando o fingir de um qualquer adormecer. 
Continuo a morrer sempre que não importa 
a maneira como acordo. 
Calçar a esperança ainda é um exercício 
que não me mente. 
Mas as horas deste relógio são mais atrevidas 
que o tempo que desejo. 
Então enleio-me neste poço de mentiras  
que não consigo rasgar.




,2022Jul_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O CHÁ DA FUTILIDADE

O meu amor come sushi e rega-o com mijito
E eu sinto-me beatificado no meio 
deste cozido à portuguesa.

Obrigado meu bem pelo teu zumbar 
de mosca bêbada.

Temos um mundo tão belo 
e um caminho com tanta luz
para iluminar a nossa estupidez.

Abençoados sejam as nossas crianças

tão parecidos com os filhos dos três mosqueteiros
quando bebem o chá da futilidade.

 
2016,09aNTÓNIODEmIRANDA
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MORRER É UM JOGO COMPLICADO

 


Morrer é um jogo complicado.
Queima a flor que tanto nos entonteceu, 
e não há rega para a sua ausência. 
É um arrefecimento a pronto pagamento 
depois de tantas prestações pagas a um tributo 
que sempre nos ignorou. 
Mas a vida, de cada vez que a respirámos, 
é uma traição ignóbil, 
sempre pronta a roubar aquilo que gostámos. 
Depois os dias que sobram fazem de nós os invernos, 
onde enroupados nas fotografias, 
contemplamos memórias que definham 
o correr do nosso tempo. 
E é tão lindo o que gostámos 
e de tão querido, embrulhámos no lenço da saudade, 
todos os momentos que nos fazem felizes. 
Esta realidade é uma conspiração abrasiva, a
busa sempre de nós, 
aqueles que sempre acreditam 
que este jogo sempre será a mais miserável das batotas. 
            Eu também já não dou ao tempo
            a importância que ele não me merece. 
            Estou farto do seu modo de me cansar!



2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE

 


Vejo a fome distribuída em longas filas. Máscaras com um choro envergonhado. Olhares perdidos na lama da desilusão. Não é minha esta paisagem, esta certeza que já nada abriga. Um saco de lágrimas. É o que tenho para oferecer ao caixote solidário.

A fome não quer mais a morte.

Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos da aproximação desconfiada. Olho para os rostos, mas, não tenho memória para gostar. Passa por mim um cão. Não abana o rabo, simplesmente ignora-me, obedecendo à vontade do olfacto, farejando a ausência do vírus. Tornei-me num eu sem mim. Alojei-me no lugar que partiu, despido de qualquer lembrança. Sigo descalço para a fonte dos ocasos.  Desejo uma coisa estranha.
Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço. A gravação não funciona. A fita iludiu a cassete. Ignoro o convite da porta. Estou confortavelmente fechado nos golpes das curiosidades que não me aliciam. Escondi os cadeados da ousadia. Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos. Desconheço quem irá suicidar-me, depois de embriagar o desalento.

A fome não quer mais a morte.

Isto não está a correr bem.
Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta, mas, o ar condicionado não funciona, e a vontade vai-se finando.

A fome não quer mais a morte.

Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito. Atiro a má disposição para as persianas. Dou voltas enroladas neste sofá, escrito com recordações pantanosas. Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal. Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida. Convivo bem com os arautos da tempestade. Abraço-me nos seus gritos. Agora já nada me custa. Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados, que não compreendem o apelo ao perdão. Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério. Já escrevi o meu elogio fúnebre. E, ele não comporta mais palavras.

A fome não quer mais a morte.

Andei tanto aos tombos que nem me lembro das paredes que sangrei. Bebi nas noites longas, o amparo que tudo prometia. Beijei noivas hesitantes, conspurquei os futuros mais risonhos. Continuo a levantar-me num acordar alegre. Tiro a ramela dos olhos, pisco os olhos para o gajo do espelho, alvejamo-nos no ritual costumeiro. Despedimo-nos delicadamente. Sento-me na sanita para aliviar a vontade.
 
A fome não quer mais a morte.

Diz a canção que preciso de alguém para amar. A melhor oração para um defunto. Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas, que não me respeitem. Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões, do jackpot das hipóteses aputalhadas, dos conselhos respeitáveis que constantemente batem à porta. Viajo nos lugares que não conheço. Tenho saudades de ti, velho amigo. 

A fome não quer mais a morte.

Onde teremos andado, agora que não encontro o nosso passar? 
Quando voltaremos a beber o som daquele sax que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo? Paramos nesta página.


,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA,
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OBRIGADO E ATÉ BREVE

Não te falo das rosas porque tu és 
a flor mais lindamente bordada
que me aquece os dias e enche a madrugada,
qual ramo desejado no amanhecer
com que tento sofregamente acariciar outras mãos.
Temos chuva no cardápio e malmequeres no jardim.
Mandasse eu só um pouco na vida 
e o resto não seria assim.
Nem no facebook me sinto abençoado.
Por isso, 
ama-me na tenda com um chá de hortelã sofisticada,
toca-me nas cruzes,
apaga as luzes que a espondilose quer dormir.
Deixa entrar eu meto devagar
numa frequência modelada 
ao correr das horas
sem desvio nas manobras d
os trabalhos em execução.
Bermas com supressão e alterações
sonoras,poderão acontecer.

Prometemos ser transitórios.

                Obrigado e até breve.



2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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Parabéns. Abraço Grande.


terça-feira, 12 de maio de 2026

COM TODO O NOJO PARA UM IGNÓBIL

 

    V erme
        E mbusteiro
            N éscio
                T raste
                    U ltrajante
                        R ato
                            A rruaceiro

 


2026Fev_aNTÓNIODEmiRANDA
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CARNE PICADA

 


Enrola-me pela manhã
docemente até ao fim do dia.
Quero que me mates
até os ossos se tornarem fiambre.
Ama-me no chão,
faz de mim o mais vil tostão
um chá de um Judas pestilento,
canta-me numa canção de 
azar, só para acreditarem
que gostas de mim.
Enrola-me num cartucho
como se guardasses a
mais preciosa iguaria.
E oferece-me sofregamente
quando te apetecer.
Estou aqui,
abaixo do zero mais que finito
com arpejos do bolero
onde uma loura sem vergonha,
cavalgou nas minhas ancas
arfando palavras
roubadas dos meus poemas.
Enrola-me de manhã mesmo só um bocado,
no mais fino brocado para fingir a alegria.
Enrola-me agora,
pela noite fora
até fazeres das minhas costas
um ossário defeituoso.


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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