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terça-feira, 9 de junho de 2026

américa

 


estás conspurcada de acções

de vitórias fabricadas

de esperanças vendidas

e pelo nojo daqueles

que te amaram


as tuas bibliotecas

cheiram a sangue



( e digo - te desde já

que não existem índios na lua )



74mar.aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A CADEIRA

             Se o universo não fosse adverso e tivesse ao menos uma cadeira decente para assistir ao embargo da ambiguidade eu passaria as manhãs tranquilas ousando acariciar palavras e não recusando o seu real significado.

            Se o inverso fosse mais que contrário e coubesse assim no meu imaginário, eu sentado nessa cadeira abençoaria todas as pontes para que a distância não fosse tão presente. Mas sequelas indignas molham-me com suores inflamados e enganadoramente penso que aquela cadeira continua à minha espera.





,2016,04.aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 7 de junho de 2026

A4

 


Às vezes penso que tenho na mão a pedra para acertar naquele mundo sempre tão pequeno que cabe numa folha A4 reduzida à expressão das incapacidades primárias. 
Relego as sugestões com alternativas pacíficas, num verde harmonioso com sinal profusamente difundido para ninguém pisar.
Não sou ingénuo!
Mesmo distraído não sou estúpido!
Não repito a asneira!
Não ponho nada no assador onde não possa apartar percevejos julgados mais espertos do que o hipotético mais eficaz dos insecticidas.
Não perco tempo, não creio em fés que não tenham o meu consentimento.
Nem sempre acredito na minha totalidade.
Mas nunca admito outra possibilidade.
Portanto, 
não me acordem quando se forem embora.
Prazer em conhecê-los.
Admito que o erro foi meu.






,2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 6 de junho de 2026

AINDA HÁ MUITOS POETAS DISTRAÍDOS

 


Coloco a cabeça no lugar 
e perfumo os sovacos como aprendi na televisão. 
E num estrugido feito em chama lenta, 
salteio palavras que nunca escreverei. 
A conexão entre o meu cérebro 
e o aparo da caneta, tem muitas vezes falhas no servidor. 
Tente outra vez. 
Está escrito na mensagem que não solicitei. 
Desligue e volte a ligar. 
Como se isso fosse fácil. 
Mas eu só sou um poeta 
sem a mínima ambição tecnocrata.
Não uso máquina de barbear 
nem frequento as lavagens automáticas 
para aparelhagens dentárias.
Sou mais pela utilização da insensatez 
que sabiamente me afasta 
das bermas da normalidade.
Bebo pouco zelo no whisky
e amparo o guarda-chuva
para jogar pénis de mesa.
Dobro folhas dos livros
com a pacífica intenção de as violar.
Organizo estes crimes na perfeição
e alfabeticamente desenho  um conspirativo manual
cientificamente guardadona prateleira 
F, do corredor O, nível D, Sector A.
Por acaso, não tem tido lá grande procura.
Ainda há muitos poetas distraídos.


Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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A NOITE CAI NESTE MUNDO DESABRIGADO

 


Que poemas poderei escrever, eu o miserável não arrependido, anónimo sobrevivente desta infâmia incólume, que queima a chuva que agarro com estas mãos prenhes de promessas inocentes. Alguém me valha no meu querer de não me salvar, com que humedeço lágrimas do céu que me agradecem o breve instante do arranhão onde guardo todos os beijos. Que escrevo eu, sonhador de tantos rebanhos? Amai-vos aos poucos com letras de sangue nestas palavras lambidas que escorrem pelo poema. Estado liquido, lacre queimado em todas as vírgulas, seladas gota a gota neste bico de bunsen. 
Tenho nas mãos a bíblia da sobrevivência avariada, uma chamada nunca atendida, suspensórios ilusórios e uma fisga sem pontaria, amiga da rota de colisão. Embrulho-me na razão excluída, no hat-trick fora de jogo com trivela mal parida, bandeira ferida e olhos aos molhos vendidos como couves na mercearia onde os nabos não conseguem sacudir a água do capote. Câmara retardada, lente constipada, transformadas em bolas de Berlim, percorrem ano após ano o santuário onde os anjos não querem dormir. Ok, Marta! Já o tenho seguro!
E caminho com um jerrican de 5 litros.
 Desculpa, já não me porto como dantes.
Longos dias têm horas indecentes, marés estupidamente teimosas e sonhos banhados em canelas açucaradas. Triste tempero em algodão hidrófilo, só para afinar os ponteiros do relógio que fugiu daquela feira.
Impulsos sonolentos não acordam os obstruídos mentais.
A noite cai neste mundo desabrigado com vidas de partidas choradas. 
De nada servem os poemas. 
E arrependimentos como habitualmente 
sem significado, devem ficar na tecla do voltar atrás, como é nossa usual conveniência. Recostados no controle do saldo do cartão de crédito, amanhã iremos ser de certeza moderados no fútil consumo, respeitando assim um minuto de insolvência. 




,2017,mai_.aNTÓNIODEmIRANDA
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SOUBESSE TOCAR PIANO...


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

AFINAL NÃO SOU ATEU!

 

Afinal não sou ateu!

Acredito piamente em mim.

Não sou fã da solicitude nem de escrotos 

entupidos por falta de amparo. 

Gosto das fagulhas que desentopem 

qualquer esperança digna desse nome.

Claro que no que toca a sexo, 

ainda não dou a vez a ninguém.

Retoca-se assim a intenção 

e varejo as ideias que nico, 

como se fosse os mais bem educado 

dos mamíferos. 

As alvíssaras repousam delicadamente 

em fotos post mortem

à procura de melhores épocas.



2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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