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domingo, 25 de outubro de 2026

O MUNDO É UM LUGAR CIUMENTO

 



Nada sabemos dos sarilhos enrodilhados que nos fazem andar à nora.
Horas sem vagares, qual destino mastigado na crueldade da esperança.
Foge o tempo na lentidão do acontecer. Pinta-se a vida no caldo das colheres aquecidas, e, na carruagem dos avisos ignorados, há um alerta desesperado:
Para a sua segurança, não se pendure na janela da curiosidade.
O mundo é um lugar ciumento. 
O sindicato dos crápulas gere os assassínios consagrados nas reuniões das termas da batota E no assobio dos desgostos, a lâmina dos cortes malvados empunha num gesto amargurado, a chama da ingratidão. Volta-se ao nível zero do princípio que nada acolhe.
O mundo é o asilo do resto da ilusão. 
Na cama dos diamantes de sangue, a voz que nos deita, tem vergonha do falhanço da humanidade.
O mundo é um orfanato sem lápides para mentir. 
E aquele preto deitado no passeio erguendo o orgulho para um telemóvel imaginário, ignora a indiferença, espalhando na nossa burguesa indignação, olhares impressos num pacote de vinho barato. O que nos une? A tempestade que nos entrega a estranha forma no viver. Aquele que à entrada da estação do metro,  louvava com palavras absurdas, a compaixão de um tal Senhor que dizem existir, mas que continua a tardar tal aparecer. E os passos dos repetidos cansaços, sorriem para sombras sem amparo possível. Serviço ocasional para encores amestrados agradecendo a teia de aplausos entregues à consignação. 
O mundo é um lugar ciumento.
Visitar o céu num risco implacável ditado pela malvadez. E um quarto empestado de beliches, colchões de memórias choradas por gente que reza nas lágrimas o enxovalho do dia-a-dia. 
O mundo é lugar de insultos.
E aquele olhar que já perdeu a conta da afronta com que é chamado.
Será sempre assim porque a maldade não tem fim e todos sabemos que as promessas só se cumprem nas intenções. E estátuas ajoelhadas na podridão do mundo, semeiam com pressa de partir o conforto ainda possível. Sentado no patamar do futuro ajustável, o veneno do mundo mente sempre que invoca a indignação. Continua o zero do nada que entrega. Debaixo da angústia nada poderá ser lembrança. Fantasmas chorosos pintam no nevoeiro convites para a pousada da felicidade. Mas aqui, no tapete de cartão deitam-se anos tão tristes como a puta da desilusão. 
O mundo é uma tesoura sempre pronta para cortar a planície dos sonhos. 
Outra vida noutra vida é o que ousaríamos prometer, mas nesta terra sempre mentida, se outro sonho voasse na perfeita ilusão, talvez o cansaço parasse sem renda nem trespasse. 
O mundo é um lugar perigoso.
Gostava que estivesses aqui. Não imaginam como estou farto dessa conversa! Pensas que a dor onde me visto, caberá algum dia na mentira do paraíso? Não me vejas como o crédulo que julgas existir. Estou tão vivo como a vontade que tenho de te matar! Que culpa terá o destino quando não cansam de o torturar?

Quanto ao mundo… a história nunca o absolverá.



2026Out24_aNTÓNIODEmiRANDA
Nascido na Fábrica de Alternativas
poemanaalgibeira.blogspot.com


sábado, 24 de outubro de 2026

A COR DO DESEJO

 


Adeus amor.

Teria sido lindo

Se tivesse nos meus olhos

Um tempo

Que me desse o momento

Da cor dessa dor

Que só o desejo pode pintar.

Há quem diga

Que amar

É um verbo 

Com tempos difíceis.



2014aNTÓNIODEmIRANDA


4º ANDAR

O patamar do 4º andar faz-me cócegas
Não sei como lá chegar
A minha private cleaner tem vertigens.
Prometi-lhe meias de vidro com ligas
E costura exterior para perfumar
As suas suaves coxas.
Mas ela sempre difícil
Deixou-me rouco
Com a sua desconfiada convicção.
Alimentei que não era maldosa a minha ideia.
Prometi-lhe a tal pizza,
Num elaborado italiano
Capaz até de convencer
O sinaleiro mais bailarino.
Respondeu com aquele brilho nos olhos:
Onde é que ele está?
Dirigi-me à roulotte mais próxima
e engoli uma bifana entardecida.
Enviou-me um sms escrito à pressa
Com um alfabeto longe de mim.
Adormeci ingloriamente
Na noite ingratamente habitual.


,2016,04aNTÓNIODEmIRANDA

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A ARTE DE MERDITAR

 

Enjoou do lótus
e escolheu o Ferrari.
O Datsun tri S
roído de inveja
arranhou com a 4ª
todos os sentidos proibidos.
O incenso
indisposto
optou por queimar-lhe
o único pau da inteligência.
Encontrou a alma gémea 
numa  cabeça de fósforo
com saudades do último
mantra em Paris.

,2016,04.aNTÓNIODEmIRANDA

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A ATRACÇÃO FATAL

Vou apanhar ovelhas negras no céu.
As estrelas estão à deriva
nas prateleiras do supermercado.
Desço a rua de costas voltadas para a sorte
e tropeço em azares não sinalizados.
Estranho o que me acontece.
É tão ausente daquilo que me apetece.
Piso pedras de gelo
e à noite enrolo-me num novelo
para que o depois de amanhã
não me arrefeça.
Prendo-me no quarto buraco
do cinto,
apertando rugas que
nem por isso respeito.
E sopro a atracção fatal
de continuar o muito pouco
do que de mim vai ficando



Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A BALADA INCOMPLETA DE JURUMIAS TEMTEM

 Jurumias dizia
Nunca tive um dia
Sem alegria
Quão feliz
Ele não se sabia
Desabafava com os seus feijões
Ignorando desenfreadamente outros sabores
Jurumias mentia
Quando na carta escrevia
Nunca tive um dia
Sem alegria
Agarrado à telefonia
Fingia que ria
Quão triste
Só ele se sabia.

,2016,aNTÓNIODEmIRANDA