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terça-feira, 28 de abril de 2026

“A ANGÚSTIA DAQUELE QUE NASCEU ANTES DE MORRER” Para o Changuito. (A minha escandilose não permite como desejaria, beijar o sagrado da tua sombra).

Naquele tempo estavam doze poemas e um intelecualóide a copo, que só por milagre escapou à sincronizada operação da brigada de trânsito. Furioso, o comandante propôs-se castigar o resto da humanidade.
Alguém ironicamente bêbedo, lá do alto do seu filme, balbuciava sem a menor convicção:
Perdoa-me pai! A culpa é tua! Eles só fazem o que sabem.
Ferlinguetti no preâmbulo da leitura do poema “a angústia daquele que nasceu antes de morrer”, tentava convencer os demais, que a poesia só pode ser dita por alguns. Corso, incorrigivelmente narcotizado, limpava a boca a haikus que lhe sabiam a hambúrguer de peyote. Kerouac, sentado no canto do meio, rezava e chorava com cara de Ginsberg, agarrado ao último rolo de papel higiénico. Di Prima, estava com muita vontade, mas ninguém ali, mostrou o mínimo interesse numa demostração grátis de um superior blowjob. Paul Carroll, tinha na mão as três dimensões do retrato do pai, mas só conseguia ver dois minúsculos pês (pele, picha & ossos).
Um ovni aterrou disfarçadamente em cima do gira discos e todos puderam ouvir aquela música.
Como eu gostaria de ter estado presente.
 
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A CONDIÇÃO DO POETA

 


Andamos para aqui a sarapintar vírgulas num papel qualquer.
Sabes, os poetas não têm uma fama lá muito aconselhável.
Há quem diga que têm na alma um teclado de uma máquina de escrever. 
E não são muito rígidos na escolha das palavras adequadas.
Às vezes pintam imagens estranhas, como se falassem com elas.
Abusam constantemente nas cargas etílicas.
Têm sempre uma pressa urgente.
E lavam pouco os pensamentos.
Enfeitam com um laço as ilusões,
ouvem outras vozes frequentemente
e são geralmente doidos por um par de asas.
São singelos na leitura de cartografias,
aparecem tímidos nas fotografias,
e passam muitas tardes a corrigir epitáfios.
E beatificamente despedem-se com a bênção habitual:
Que deus vos acompanhe,
porque eu já não sei o caminho.
Aqueles, ditos subversivos,
apostam sempre na barata tonta,
e lisonjeiam com desdém matraquilhos curiosos
que vomitam sílabas mal cheirosas.
Os poetas não são assim,
mas também nunca poderiam ser o contrário.
Têm ritmos de alquimia,
e, sentados, tentam colorir outro cenário.
Pensam que falam como as pessoas,
discutem amiúde anatomias sintéticas,
descansam os olhos com atitudes patéticas, e sorriem como se fizessem parte do mundo.
Cultivam simpatias incompreensíveis,
dão longos passeios envoltos num manto de nevoeiro, chamando alguém em forma de estátua, de Sebastião.
Odeiam parapeitos supersticiosos, e escorrem por uma corda fictícia até pisarem os pés da lua.
Dois poetas nunca se encontram, 
mas abraçam-se com um código secreto, 
e sabem de cor a maliciosa palavra-chave.
Os poetas têm importâncias não definidas,
e sangram como crianças,
pelo poema que nunca poderão escrever.
Vivem em forma de tempestade, 
o tempo que constantemente lhes foge.
Cavalgam como um puro-sangue, 
mas enganam-se sempre na corrida.
Sabem que não há futuro na poesia,
mas, enquanto poetas acreditam 
na sua eventualidade.
Há quem diga que não são normais! 
Até mesmo difíceis!
Têm sempre um copo na mão,
Donde bebem sessões contínuas de dignidade.
Nunca renegam a condição de ser poeta.



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domingo, 26 de abril de 2026

BLUES PARA 6ª FEIRA À NOITE

Tudo mais do que o mundo, foi o que me prometi enquanto todas as tardes eram passadas em buracos. Desci tantas ruas às cambalhotas trauteando “I`m a rolling stone”. Perdia-me assim do olhar das pessoas e salvava a pele com esta minha alma. Tinha estampado nos olhos um sorriso indiferente enquanto pensava no “Leave me alone”.Cuidava de mim assim nesta “Worried life”. Pisava esta encruzilhada, embrulhado no “Crossroads” cantada por um velho amigo preto. E quando chegava à realidade não faltava nunca a lembrança do “ I got the key to the highway”. Ficava calmo desejando um amanhã mais depressa. A minha mãe dizia que era uma música muito triste enquanto me penteava uma cabeleira com mais de quatro anos. Continuei a prometer-me muito mais. E este mundo já não cabia em mim. Mas era sempre o mesmo acordar e eu fazia disto um desafio à minha medida. “Dark clouds rollin`” nunca foi uma preocupação importante. “I`m a king bee” acompanhava-me no primeiro cigarro da manhã. E chegava à hora habitual, à secretária do costume com um autógrafo personalizado desodorizando no escritório “I can`t get no satisfaction”. Era uma pedra rolante ainda não tendo provado o amargo sabor do “Love in vain”. Da janela chegava-me um convite que me acendia o dia: “Born to be wild”. Saía com toda a pressa inventando desculpas porque estava à minha espera um jamaicano um tal de Jimmy Cliff com a tal promessa do “Wild world”.
Todos a bordo! “That`s Alright
Eu sou o vosso “Hootchie coochie man”.
Blues! Apanhei este vício e escondi-o para sempre nas minhas veias.
I`m in the mood” ! “I`m ready” !
Blow wind blow. Blow back my baby to me”.

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EU BEM TE AVISEI!

 


Eu bem te avisei!
Os poetas escrevem com palavras mentirosas. 
Pensam enquanto riem e nesse riso fingido, 
não têm tempo para emendar o que não foi sentido. 
Desenham a tristeza em folhas frias e limpam lágrimas escondidas nas caixas de pó de arroz. 
Avermelham os olhos pintados cirurgicamente 
em frente de espelhos convenientes.
Acendem o cigarro com voz de catarro,
e entram no filme levando no braço 
a gabardine do Humphrey Bogart.
Num olhar pretensamente descomprometido, 
imaginam a amplitude
da costura daquelas meias de renda.
Os poetas escrevem as palavras possíveis
dos poemas mentirosos.
E a sua almofada preferida é forrada 
com papel mata-borrão, 
para que os sonhos que não querem ter, 
não incomodem a sua fantasia.
    Os poetas não têm culpa da inveja de Deus.
Eu bem te avisei!
Vou desligar esta chamada
com número anónimo.



,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA
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