Pesquisar neste blogue

terça-feira, 19 de maio de 2026

A FALA DOS SILÊNCIOS

 

Sabemos da fala dos silêncios 
Das danças que nos despem 
Dos passos que nos perderam
O tempo escondeu-nos
Roubou-nos a alma ainda nós 
        Não sabíamos amar

Eramos gigantes aninhados
Em vasos regados por dívidas

        Flores do mal ainda sem poesia
        Aromas corajosos e atrevidos
        À procura da lua seguinte

Cheiros de corpos sem choros
Para recordar

Depois

    Depois assassinámos com
    Todas as letras a mais bela das palavras

SONHO


,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 18 de maio de 2026

LIMPEZA A SECO

 


Escondi os sonhos na mina dos desejos 
perdidos.

Bruni o desconsolo em suaves núpcias.

Salguei a vergonha no poço dos desejos

Tentei embrulhar os soluços que vestiam 
as sombras da tranquilidade.

Arrendei a vontade com juros gratificados.

Mas, ninguém compareceu à minha 
necessidade.

Penhorei a ideia da felicidade 
no congresso da agiotagem.

Sim!

Eu é que fui o farsante da última ceia!

Estava farto dos originais fotocopiados!







,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA

poemanaalgibeira.blogspot.com

A poeta norte-americana Anne Waldman estará na Casa Fernando Pessoa, a 19 de maio, pelas 18h

 Anne Waldman é uma das figuras centrais da poesia norte-americana contemporânea — poeta, performer, ativista e colaboradora próxima de nomes como Allen Ginsberg e William Burroughs, tem sido uma voz determinante da contracultura literária americana desde os anos 60. 
Fundadora da Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, na Naropa University, a sua influência atravessa várias gerações de escritores e artistas.
Esta sessão, organizada pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (ULICES/CEAUL) com o apoio do American Corner, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), inclui leituras por Diana V. Almeida e Elsa Maurício Childs, de uma seleção de poemas de Allen Ginsberg, a partir do mote «O peso do mundo é amor / The weight of the world is love». 
Francisco Rebelo cria o ambiente sonoro para este encontro poético.
𝗔𝗻𝗻𝗲 𝗪𝗮𝗹𝗱𝗺𝗮𝗻 & 𝗢 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗼 𝗺𝘂𝗻𝗱𝗼 𝗲́ 𝗮
𝗺𝗼𝗿


Poemas de Anne Waldman traduzidos para português 
Augúrios Astrais 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Visões! augúrios! alucinações! milagres! êxtases! pelo rio abaixo da América! 
para o velho profeta Allen Ginsberg 
Um X como numa ampulheta. 
Milícias com um megafone no relvado 
Escondam-se, antes de rebentar 
Prognose pela terra, por coisas rastejantes que se escondem 
Numa ciência de areias, numa distopia fascista 
Chorámos na fronteira da crueldade, El Paso 
Chorámos na fronteira da intercetação, Minneapolis 
Um bando de pássaros como intervenção 
Porque eles registam liberdade 
Não te veem 
A tua língua é um grito 
Olha para os teus pés 
Contempla agora a tua palma 
O verso quebrado é um grito 
Uma figura de louça em forma de mão 
Representa o estouro 
Este é o pesadelo 
E todos sintonizados na América 
Como num passo de quadrilha a gingar 
Ágil no gatilho, a nova moda 
Esconder o sinistro cenário 
Antes de chegarem os tanques, gangsters à porta 
Eles falam de Júpiter prestes a expirar 
E do descenso de Vénus 
Inscrição de planetas errantes: para entreter 
Idade da miragem, sem vergonha, exposta 
Sem retorno ao olhar dominante, poupem-nos 
Galileu não teve perdão até 1900 e muitos... 
38 graus a entrar em Carneiro 
A mística empática náiade de Peixes esvanecendo-se 
Lua em Aquário 
& Caranguejo subindo para a alter-idade 
Ó nebulosa profecia, e cá em baixo? 
Ou lua-cheia outonal, serás tu omnisciente? 
Quando avermelham as folhas é um grito 
Ou os fogos escurecendo o infinito 
De Cameron Peak a Williams Fork1 
Chamas imparáveis grassam noite e dia 
Ominosos astros nestes dias, ámens astrais nestes dias 
A cinemática do assalto planetário não ajuda os dias  
As cordas cósmicas delirantes nestes dias 
Invocando os profetas das linhagens, Ginsberg, Snyder, Burroughs 
Guardiões do tarot & as artes mágicas, DiPrima 
O nosso bobo da corte, Corso 
Guerreiro Baraka, voltem a casa 
Da próxima vez, o fogo2 
Eu serei a angélica filha de toda a arte da adivinhação e vou lá 
Chovem cinzas na eficácia da noite, é também o que fazem 
Teoria das curas da Babilónia solar, lunar e planetária 
A recordar o período selêucida e parta, aprende os antigos signos 
1Duas formações geológicas do Colorado que têm sido devastadas por fogos intensos, nomeadamente em 
2020. 
2Alusão a uma antologia de ensaios de James Baldwin, 1963 
Torna-te sintaxe para poetas, gnose para poetas 
Estou na tua estrela noturna agora, na tua estrela felá agora 
E tentamos agora reinar num governo patológico 
Ser decifradores-de-asterismos 
Videntes-do-zodíaco 
Conhecedores-do-tempo 
Vates-da-poesia 
Com o 6 de Paus 
A roda da fortuna chega a girar 
Desafia a incerteza 
Distantes do nosso próprio 
Júpiter gigante de gás 
Vénus pedregosa paisagem calcinada 
Ergue-te num espírito de segurar firme 
Olha para cima torna-te uma miúda do abismo! 
Neste sonho de um horóscopo do mundo 
Um auspício ditoso seria um trono incluindo: 
1) Maquinaria para imitar a meteorologia  
(vamos precisar disto) 
2) Um santuário sem replicantes  
(escondendo a nossa vergonha de os termos sequer inventado) há que manter a conversa e 
o amor 
3) Queremos que o mistério do nosso poder se torne subtérreo 
(cristalomancia ex caelo) (pós-pressa ) 
4) libertar as mulheres e qualquer entidade visionária a gosto 
Lua das Colheitas novamente perto do início da legitimidade 
É preciso colher a safra pela noite dentro 
Safras de dizer como todas as coisas são feitas em parábola 
É preciso safras para a profecia rúnica crescer 
Safras para a disputa de abutres nos apoiar no voto 
Saberia Ormuz por pura omnisciência? 
Estações da noite em estado de repouso? 
A gélida Lua de coração azul ainda pende 
Hão de vir as crianças de coração caloroso 
Após séculos de des-uso, abuso, desespero 
Houve uma categoria 4 que destruiu o milho 
E tivemos o segundo mês mais quente no registo da história do mundo 
E quando abrimos a Reserva Nacional de Vida Selvagem do Ártico ao saque 
Os nossos corações afundaram, quando a tormenta sacudiu a terra 
Um sombrio horóscopo avisou-nos 
Como os cientistas poderiam avisar: “Furacões fantasma e paramilitares” 
morreram eram eram eram então 
Quando eles arrancam os inocentes das ruas 
Morremos com eles 
O que é a pátria? muro dentro de muro? 
Ou quarto das maravilhas? 
O belicoso armamento do reino-divinal aniquila-se a si mesmo 
Vendendo armas aos inimigos 
“Mantém a bolsa e a espada em distintas mãos” 
Não vá a guerra usurpar a terra 
Virar escombro original 
O adepto entrega tudo 
Morre para eles, morre para nós... 
Sincelos humanos atacam e quebram e prendem as pessoas 
Abram as portas, novas fronteiras, ó, eruditos do coração e do céu 
Augúrios astrais, augúrios astrais por estes dias! 
El Salvador, Guantánamo, Líbia, Sudão do Sul, 
Os centros de detenção crescem sobre a terra 
croac croac estranho grito de Seres lançados para os céus sobre as árvores  
ondulantes 
Om Bekandze Maha Bekandze Samud Gate Soha  
Versos de “Howl” e “Kaddish” 
Canto do Buda da Medicina 
Kali Yuga, nyeigme du (Idade da Discórdia), E.U.A., 2026 
Do álbum Astral Omens, 2025. 
//// 
O Manatim / Humanatim 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim movendo-se move-se meigamente 
o manatim pode encontrar-se em canais e áreas costeiras 
o manatim é um animal migratório 
o manatim é meigo e demorado 
o manatim demora-se em rios demorados  
o manatim é totalmente herbívoro 
o manatim do Oceano Índico não tem inimigos naturais 
o manatim não tem inimigos naturais senão o homem desnaturado 
o manatim sofre constantes ameaças humanas desnaturadamente 
o homem com seus barcos & plástico & atitude 
o manatim afoga-se com frequência nas eclusas de canais 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre com frequência nas barragens 
o homem que não dá margem ao manatim nem quer saber se o manatim 
vive se o manatim azar 
o manatim morre em colisão com embarcações 
o homem que não protege o manatim 
será o homem desnaturado um guardião da terra? 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre ao ingerir anzóis 
o homem que desnaturadamente não dá margem 
o manatim morre do lixo e das linhas de monofilamento 
o homem de atitude torpe que não tem utilidade para o manatim 
o manatim morre enganchado em cabos de armadilhas de caranguejo 
o manatim morre por perder o habitat expropriado pelo homem 
estropiado pelo homem, o manatim podia ser propiciado pelo homem 
ó homem propicia o manatim penetra homem no coração do manatim 
uma cria de manatim nasce a cada 2-5 anos 
o manatim está em gestação durante um ano no ventre da manatim 
8400 milhas de águas costeiras dariam para o manatim 
11000 milhas de rios & correntes dariam para o manatim 
10000 milhas de canais poderiam todas servir o manatim 
o manatim tem mais massa cinzenta no cérebro do que o homem 
o manatim tem um pensamento arquivístico talvez mais profundo do que o homem 
os dias antigos do manatim milhares e milhares de anos 
que há na mente manatim, o que é a mente do manatim? 
o manatim não tem inimigos naturais 
o manatim é totalmente herbívoro 
o metabolismo do manatim demora-se, move-se demoradamente 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim move-se demorado nos rios movendo-se demorados o manatim é meigo 
as crias dos manatins podem mamar até aos dois anos 
o manatim aprende tudo com a sua mãe manatim 
a mãe manatim e a cria cantam uma para a outra 
os manatins têm grandes ossos auriculares 
chilros    
   cicios  
  chios de manatim 
o manatim demorando-se move-se meigo 
oscilações do manatim movendo-se entre orelhas de manatim 
orelhas de mãe manatim e de cria manatim 
os manatins são os nossos sirénios, e moram na casa das sereias 
onde estão os santuários humanos para os manatins? 
manatins  
sereias  
nereides cantando demorando-se 
a mãe manatim e a cria em tal união 
a fêmea manatim unida à sua única cria manatim 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim a mover-se na maior meiguice 
Estéreo  
Excerto de Manatee/Humanity, 2009. 
//// 
Tradução de Leonardo Lima e Margarida Vale de Gato 
O casamento o casamento é como dizem é tudo tudo em estéreo estéreo caem caem na 
cama cama pela matina matina porque trabucam trabucam toda a noite. A noite é um 
apartamento. Feito para ser casamento. O casamento é um apartamento & feito para 
pessoas pessoas lá lá entrarem porque quando casam casam o mais provável é haver comida 
comida para comer nas mesas mesas da casa. A casa será o apartamento que é noite noite 
descansada. Lá lá haverá uma cama cama & uma cama cama a mais um lençol lençol limpo 
ou dois dois para hóspedes hóspedes uma toalha a mais. Uma toalha a mais. Como vos 
acolherão? Haverá bebidas bebidas em barda trazidas por hostes de hóspedes hóspedes 
barris barris de licores licores & brandys brandys elixires acres e agridoce garrafa de Merlot 
Merlot café Bustelo. Tomem não me façam essa desfeita. Quando se casarem se casarem 
haverá prendas elegantes para a cozinha cozinha por vezes duas de cada coisa. Cada coisa é 
nova nova a estrear a estrear. Chavenazinhas, uma travessa finlandesa, um relógio, um 
tapete de entrada, obras de Arte. E livros ilustrados de Medicina admirável. Dicionários 
ainda mais magníficos. Quando se casarem se casarem haverá mais lençóis lençóis & toalhas 
toalhas sem sem cessar & quase quase sempre uma mascote de companhia companhia ou 
duas duas. Decerto que precisam de um telefone fixo & de um telemóvel quando se casarem 
se casarem. Duas duas duas duas linhas linhas linhas linhas. Precisam precisam de contas 
contas de e-mail e-mail separadas separadas. Quando se casarem se casarem terão 
conjuntos de coisas coisas, de mais lençóis & toalhas a combinar, terão coisas duplicadas, 
terão apenas uma toalha de mesa. Quando se casarem se casarem serão responsáveis por 
os vizinhos vizinhos vos cumprimentarem. Sorrirão sorrirão em uníssono uníssono ou talvez 
digam ele está bem, ela está bem, ah ile está bem, ah ela está de rastos com gripe, ah ele 
agora está a consolar um viajante cansado vindo do outro lado do Vale. Ela o meu marido 
não tarda nada, ele a minha mulher tá ocupada neste momento, o meu marido elu, a minha 
mulher trans estão muito muito ocupades ocupades neste momento momento neste exato 
momento. Quer dizer tchau, tchau. Quando se casarem se casarem farão farão sexo sexo 
sem demora demora. Terão uma caixa de correio caixa de correio & uma campainha 
campainha. A campainha campainha toca toca ela toca toca de novo uma segunda vez. Não 
têm de atender. Isso é claro pois quando se casam as pessoas pessoas percebem percebem 
que vocês não não têm têm de atender atender uma campainha campainha porque podem 
estar a fazer fazer sexo sexo sem demora demora. Ouvirão tudo duas vezes, pelos seus 
ouvidos & pelos ouvidos do par. Ela ou ele conforme seja seja o caso caso. Ele & ele & ela & 
ela como talvez talvez seja seja o caso caso. Depois de se casarem se casarem podem brincar 
com nomes nomes & chamarem-se outro nome se quiserem. Podem acrescentar um nome, 
ter um nome duplo com um hífen se quiserem. Podem abrir contas conjuntas quando se 
casam. O casamento não é garantia contra uma depressão. Uma evitação não é garantia 
contra nada. O casamento não é garantia contra uma decisão. Uma revolução é uma palavra 
palavra traiçoeira. Pronto, estão prontos prontos? O casamento é mais doce doce do que 
vocês pensam. Pensem. 
Hermenoia: Introdução a Mesopotopia 
//// 
Tradução coletiva de estudantes do curso de Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da 
Universidade de Lisboa, lecionado por Margarida Vale de Gato (2º semestre do ano letivo de 2025
2026.) 
Esta era mundial deveria ter sido candeias & cânticos & invenções & talismãs e intervenção & 
romance & sageza & civilizações & mantras de absurdos & destinos brilhantes & o plano épico 
tornado essencial vontade, vozes, votos. E através das eras um ritual para mergulhares o teu 
coração até te ergueres acima da resistência. E o tempo o teu problema o tempo deveria ter 
sido a tua elevação a tua apoteose fazer poesia de todas as formas e dança dos teus pés na 
corda e na história do espírito, e fios de sistemas abertos e trabalhar para atravessar as muitas 
horas da noite. Decorando, situando as palavras, a lua, o tear a canção & o cantarolar do 
pássaro de volta mais uma vez ao teu coração, humano. Tuas estrofes & voltas & viragens, 
humano. Adormecer sobre a asa, todas as alegres “mancias” — geomancia e qual é a origem 
deste sufixo? E qual é a tua origem na nua claridade do dia no negrume da noite? 
E existência, a continuação de como isto começa. Bicho-carpinteiro. O animal. O humano. Não 
faço ideia. Mas a guerra. 
Um berbere marxista, Santo Agostinho, confessando a sua paixão pela astrologia antes da 
conversão? “Esperava atacar e refutar e cobrir de ridículo todas pessoas dementes que fazem 
a vida com a astrologia”. Ai Jesus. 
Canção d’alba & do amante que parte para meditar pela Segunda Avenida, num velho 
scriptorium. E fazer isto torna-se um ritual e uma profecia para desarmar a morte. E a 
biblioteca que estás a construir são os documentos do tempo sagrado. Serão o medo & a 
paranoia permitidos nos documentos do teu tempo sagrado na Biblioteca da Universidade 
Livre? Documentos para viver, esconder, modelos de como te tornares todos os géneros e 
todos os amantes, ser carinho & empatia na biblioteca sagrada de géneros & amantes. Até ao 
que menos esperas, sem esconderijo agora. Aqui está o teu cartão, o teu cartão dourado para 
a biblioteca dourada de palavras. Para o Arsenal de palavras & livros dos arquivos. Aqui está o 
inventário. Lê. Uma corrida contra o tempo porque estamos em vias de alta velocidade. E eu 
apenas aproveitando o embalo pela Avenida A. 
Todas as pautas, andaimes erguidos nos versos em construção de uma torre num trabalho 
hercúleo de construir e arrasar e construir de novo. Sai do teu poleiro já acabou. Sai que isto 
treme, todas as pedras & os sons da origem. Transitando. 
Pauta 1 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Não prosseguiram novas transmissões. / Mas nós juntámo-nos. / Porque mais próximos do 
fim do mundo? / ou / novo horóscopo de “mundo”…? / Toda a gente pensa que a vida vai 
acabar no nosso tempo de vida, somos os últimos / Um auspício ditoso, uma nova sessão / 
como tornar-se invisível sob vigilância / Estudámos uma insidiosa meditação de trono 
incluindo maquinaria e “mensageiros” cristalinos / todos quitados para imitar e traduzir a 
meteorologia e depois toda a gente acha que és alto manda-chuva / eles podem fazer isso, 
fumo & espelhos / atentos à cinemática de planetas desesperados, / uma fuga da prisão, 
alucinação guiada / ou acordes cósmicos ou cura ou cenas mais práticas / O templo do 
morcego ensinou-nos / mais, aprender a viver perto dos outros de pernas para o ar nos 
augúrios astrais / que já há um século emitiam TU TENS DE ser gentil / estudar estoicamente 
atos divinatórios, esperando as respostas vir mas tu és um veículo-pronto / E outros têm os 
seus propósitos e tu tens de regressar à aterragem lunar uma vez mais / E às técnicas que 
aprendeste no terminal / lá em baixo em Wall Street. 
“Triste fica o deus do rio  
que passa por nós remando” 
in Mesopotopia, 2025



Sobre os participantes


Anne Waldman publicou o seu primeiro livro de poesia em 1968, On the Wing, e em 1973 a antologia de poemas escolhidos, Life Notes, seguido pelo “mini-clássico” Fast Speaking Woman, primeiro em 1978, depois em 1996, pela mítica editora de Lawrence Ferlinghetti, City Lights. Entre as suas obras mais recentes, aliando o longo fôlego e experimentalismo dos “outriders” em campo aberto a uma investigação das maneiras de nos relacionarmos entre géneros e espécies, contam-se Manatee / Humanity (Penguin Books, 2009), Bard, Kinetic (Coffee House Press, 2022) e Mesopotopia (2025). Ativista por várias causas, como o feminismo, o antinuclear e a luta contra a indústria fóssil e as alterações climáticas, integrou o movimento Occupy Art. Co-fundou com Allen Ginsberg e Diane diPrima a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics at Naropa University, a primeira universidade de inspiração budista no Ocidente, e é também uma das mentoras do Poetry Project at St. Mark’s Church in-the-Bowery.

Diana V. Almeida, doutorada em Literatura e Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lecionou no ensino superior entre 1997 e 2020. Corpo Contingente: 3 Ensaios Feministas está prestes a sair (Húmus). Cosmos e casas (Urutau, 2021) e The Least Gesture (Dancing Girl Press, 2026) reúnem alguns dos seus poemas e fotografias. O Compasso do Amor: Guia para Alinhamento Interior (Edições Mahatma, 2025) propõe reflexões e exercícios para uma vida mais radiosa. Facilita desde 2014 o Escrever o Coração, unindo criatividade e mindfulness. Agora, dedica-se à escrita, à tradução, à fotografia e à magia.

Elsa Maurício Childs estudou Línguas e Literaturas Modernas e cofundou e dirigiu a escola Verdes Anos. É cofundadora do Projeto Eco e fundadora do InVerso (que dirige), coletivos de Teatro Playback com particular foco no trabalho na área da saúde mental e dos direitos humanos. É Formadora Acreditada de Teatro Playback, pelo Centre for Playback Theatre, em Nova Iorque. É professora da Escola Ibérica de Teatro Playback, com quem começou a sua formação em Playback no início de 2017, e membro da Direção da Associação Ibérica de Teatro Playback. É cofundadora e membro da Direção da Corda Teatro e do grupo feminista Eufémias, que programa o Festival Eufémia, em torno das questões de identidade, género e resistência nas artes performativas.

Francisco Rebelo, nasceu em Coimbra em 1963. Iniciou a sua formação musical na Escola de Jazz do Hot Club de Portugal. Em 1995, formou a banda Cool Hipnoise; em 2000, os Spaceboys. Entre 1999 e 2003, trabalhou como produtor e técnico na Galeria ZDB. Atualmente, integra os grupos Orelha Negra, Cais Sodré Funk Connection, Micro Audio Waves e Fogo-Fogo. Em 2026, vai lançar um LP de spoken word em parceria com o poeta Tiago Gomes. Tem colaborado com diversos artistas, como Jorge Palma, Nuno Rebelo, Rádio Macau, Branko, Valete ou Lura. É também produtor e formador (Restart, OPA-Sons da Lusofonia).




PRET À PORTER

 


Que sonho pode ter medida
Ou ousadia para nele caber?
O que valem as horas
Gastas na angústia escusada?
Abraços frios
Serão sempre melhores que os fingidos
Aborrecidos tornam-se
Os soluços tingidos.
Às palavras de circunstância
Nunca lhes dei
A mínima importância.
Sentimentos adulterados
Serão sempre escusados.
Preocupação fictícia
Sempre me deu cuidado:
Causa-me icterícia.
De qualquer modo,
Obrigado!

(Não acreditem:
Só estou a fingir
Que sou educado).


2014_set_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 17 de maio de 2026

OLEIO O FIEL COM UM AFTER SHAVE

 

O que me dói é a balança.
Com os pratos tenho uma boa conivência.
Só temo, devo dizer não exageradamente,
que o meu optimismo
não enferruje algum contrapeso distraído.
Oleio o fiel com um after shave
comprado numa loja de  conveniência
tão bêbada como a minha identidade.
Pobre da minha guitarra
que geme mais do que aquilo
que sofro.






2016,10aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com



sexta-feira, 15 de maio de 2026

LUTAR PELO CÉU NAS ASAS DESTE VOO MENTIROSO

 


Não me interessa se alguma memória deixarei. 
Tento não desiludir o convite para a viagem 
que o nascer me entregou. 
Revejo-me nos abraços da solidão ancorada 
com suaves beijos de tolerância. 
Velho agora, 
(como me mira o espelho enrugado), 
embeveço neste odor de hortelãs taradas, 
estendo-me num colchão de chá, 
esperando o fingir de um qualquer adormecer. 
Continuo a morrer sempre que não importa 
a maneira como acordo. 
Calçar a esperança ainda é um exercício 
que não me mente. 
Mas as horas deste relógio são mais atrevidas 
que o tempo que desejo. 
Então enleio-me neste poço de mentiras  
que não consigo rasgar.




,2022Jul_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O CHÁ DA FUTILIDADE

O meu amor come sushi e rega-o com mijito
E eu sinto-me beatificado no meio 
deste cozido à portuguesa.

Obrigado meu bem pelo teu zumbar 
de mosca bêbada.

Temos um mundo tão belo 
e um caminho com tanta luz
para iluminar a nossa estupidez.

Abençoados sejam as nossas crianças

tão parecidos com os filhos dos três mosqueteiros
quando bebem o chá da futilidade.

 
2016,09aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com