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quarta-feira, 3 de junho de 2026

CONVERSA COM GINSBERG (SEC`ADEGAS _Fábrica de Alternativas_2021Agosto07)

Naquela tarde depois de as manhãs se cansarem, tinha na garganta o “UIVO para tomar o pequeno-almoço. 
Pedi então açúcar mascarado tal era a pena de nunca o ter conhecido. 
Concentrei-me num cosmos surpreendido pela minha curiosidade. 
Lembro-me que era muito novo e mesmo assim já lamentar o facto de não poder falar consigo. 
Nasci adiantado e isso foi-me dando muito trabalho. 
Mas tinha a sua ideia da América e li o “ON THE ROAD” na altura exacta. 
Diziam no escritório onde era paquete, que era excêntrico. 
O irmão e irmãs do meu pai, comentavam que passava a hora do almoço nos bares das putas do Cais do Sodré. 
Coisas da ignorância, como poderiam testemunhar o Madeira Luís e o Hipólito da então livraria Opinião. 
Senhor Allen: não é culpa sua que os quatro psiquiatras, que me escutavam, tinha eu 14 anos achavam que eu pensava diferente dos outros.
Nunca fiquei e o mesmo acontece agora, indiferente àquilo que quero gostar. 
Mas as máquinas IBM não operavam aquilo que a Patsy Southgate tinha escrito no poema. 
Cresci nos corredores do escritório o que convenhamos são copiosamente iguais aos dos supermercados onde ninguém oferece nada em troca da nossa beleza.
Tantas vezes fui alvejado a tiro nas costas por uma vontade não conseguida.
E tanto roubei num supermercado longe da sua Califórnia. 
Não visitei a campa de Apollinaire
Mas estive lá perto. 
E publicaram um poema meu sobre esse senhor. 
Não poderei enviar-lhe um sequer registo de um sonho, só porque de tanto sonhar a memória fica tão chateada que nem a mim me oferece um só.
E voltámos á América. 
E você sabe que é uma palavra em vias de extinção.
E eu sei que você até tentou ser bondoso.
Mas como diz o Frank O´Hara, a indústria pornográfica está em crise.
Nunca estive em Nova York, mas não me custa admitir que no verão em que a beijou ela estaria magnífica.
Depois disso, vermes devoraram a poesia.




2017,mar_.aNTÓNIODEmIRANDA
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Pull My Daisy by Allen Ginsberg, Jack Kerouac and Neal Cassady.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

MILES ABANAVA O TROMPETE #Kind of Blue#

 


Miles abanava o trompete na noite em que a morte subiu ao céu. 
E tocava as notas da estrela-do-mar com sons de fogo-de-artifício.
Os sonhos bailavam no ar, perfumando a lua com os seus sorrisos.
De olhos fechados via-se o impossível e os joelhos tremiam uma dança que ninguém conseguia parar.
Abriam-se assim todos os parêntesis para o acontecer.
Miles dirigia o baile, celebrando na negra pele a arte de mestre-de-cerimónias.
Erguiam-se lágrimas rejubilosas e toda a gente pensava que o mundo teria um final feliz.
Coleccionador de almas deslocadas, descondicionador de sonhos em banho maria e de loucuras torradas num micro ondas ecológico.
Desenhador da não perfeição, mágico com pés de algodão, solitário no infinito especial, cartaz seduzindo ao longo da estrada do paraíso.
Miles tem na cabeça pergaminhos com pautas celestiais e sopros do “únicodeusverdadeiramentevivo”.
Deleitam-se os anjos num “festim nu”, onde bebem o néctar das orquídeas sentimentais.
E é tão perto o inatingível e é tão serena esta mania de sonhar.
Voam pássaros que ninguém lê, desenhando-nos os mais bonitos poemas dos poetas perdidos.
Creio em tudo o que me é possível.
Acredito que estou vivo.
E se deus não estivesse distraído, olhava para o lado para acreditar.
Ergo um salmo num cálice benevolente repleto de sombras que me desconhecem.
E solenemente aviso:
Já tenho poucos milagres disponíveis.

Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
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domingo, 24 de maio de 2026

ANNE WALDMAN LEVOU-ME AOS DEMÓNIOS (Casa Fernando Pessoa, 19Maio2026)

 


Um megafone com fala de anjo 
espalhou o choro sagrado da poesia.
Saído das cinzas, 
ágil como um tiro fugido da alma 
o poema será sempre um punhal. 
O mundo não passa de um 
horóscopo traiçoeiro rezado no santuário dos estupros homicidas.
Contudo, 
afirmam que, o amor está a um beijo de distância,
 embora eu só anseie fugir do abrigo da crueldade, 
feito esboço desconhecido, a baloiçar 
no andaime da incerteza. 
E o rufar do tempo que tudo rouba, 
desliza sem pudor para a desgraça da humanidade.
Triste fama embutida na vexada gratidão, 
esperando as noites sem dias para acordar.
Os sonhos despedem-se do pijama das mentiras.
Quando chegará a hora para abraçar 
a lua da liberdade?

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Alguém desenhou suores loucos 
no tapete dos desejos para o êxtase d
a multidão das almas vazias, 
enquanto os martírios enjoados 
remam para casa e os fantasmas 
que incendiaram 
a paixão no motel dos delírios, 
não cabem na manta da fidelidade.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Convém não faltar ao evento onde 
se comemorará a miséria do futuro.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Levar o que achar que não vai doer. 
Depositar os escombros na ampulheta 
dos prognósticos falsificados.

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Chorámos na fronteira da crueldade.
O pesadelo sintonizado no cenário mafioso 
suplicando aos profetasda idade da ilusão,
a torra da patologia dos governos 
que nos atormentam.
No harém das virgens desesperadas,
 um presságio bem-aventurado 
tenta confortar 
estrofes moribundas. 
No luxo de repouso absoluto, 
triste fica a despedida do momento 
que passa por nós ostentando as algemas 
da obscenidade.
Ó augúrios da carnificação, 
a urna dos convites continuam abertos!
Nada temais!
As asas do anjo falido, 
desta vez têm punições para a troca!
Procurem nos delírios da noite abusada, 
o brilho do céu da discórdia!
Sacudam da vossa impotência 
os muros dos mantras absurdos hospedados
na  Pátria desrespeitadora.
Ó eruditos dos aplausos penhorados, 
quando virá o cântico da purificada beleza?
Ó augúrios da imperfeição, 
a urna dos convites continuam à vossa espera!
Basta de massacrar as teclas da fugidia.
 esperança.

        Anne Waldman levou-me aos demónios.


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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FC 1970: Hugo Maia de Loureiro - "Canção De Madrugar"

 https://youtu.be/eCpfwD12QHI?si=QsItfI6Gm4jn0xUM

HOJE TEMOS PARA SI:

 

Bem-vindo ao self-service!
Hoje temos para si:

Sonhos enrolados em nenúfares da mais singela proveniência.
Atitudes mal pensadas enterradas num licor coq au vin.
Seduções panadas em pó de arroz cor-de-rosa.
Subtilezas assinadas pelo fotógrafo oficial.
Comentários jocosos no banho com a Maria.
Capas de revistas sociais com o toque original do forno do presidente.
Um par de pés com meias em perfeito estado de perfuração.
Vol-au-vent de aparas de unhas roídas.
Chalotas picadas sem dor nem piedade.
Pizza na brasa parada.
Fino carpaccio de línguas coscuvilheiras.
Canja de palavras com sílabas trocadas.
Canapés deitados fora de horas.
Cabidela à moda da Octapharma.
Croquetes de fígados maus arrasados em chantilly.
Suspiros abafados em beijos de absinto.
Coalhada de bagas de bacon enfeitadas com banana passa.
Batata-doce energicamente golpeada com chicote de beldroegas.
Vergamota hirta e facilmente insuflável.
Bobó com final de camarão e paródia de farófias.
Brioches na caçarola agilmente temperados em caldo de cálcio.
Empadas embutidas com molho húmido de rabo de boi.
Escabeche assiduamente envinagrado.
Escalopes escamados com toda a decência.
Estofado de obscenidades.
Estrugido cínico de elogios gelatinosos.
Gemadas aromatizadas em açúcar pernicioso.
Batido sempre à mão
Digestões bêbadas com preparado de enxofre.
Charros de erva-doce.

Sirva-se por favor


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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sábado, 23 de maio de 2026

NOSTALGIA

 


Porque

Tens Sempre de Ficar Triste 

Nesse Destino 

Onde Viajas de Mão Em 

Mão?


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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SOLIDÃO REVISITADA

Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Sem alma nem cor
É a lágrima queimada
Numa vela apagada 
Que nunca soube os cambiantes do amor 
É a mentira forjada
Que tu falas na noite acordada
Quando custa mais a dor
O outro lado faz-te sentir importante
Logo pensas que não és a única
Adias o problema
Para o amanhã que julgas distante
E jogas os desejos envergonhados
Fabricas outro dilema
Agora a felicidade está garantida
Se és loura  também podes ser morena
Envias a fotografia fora de prazo
E o manual de instruções para seres fodida
Agora tens mais um caso
Afinal tinhas razão 
Como é bom ser apetecida
Estás a começar a ter sorte
Hoje adiaste a morte
Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Contínua ausência de amor.


Outubro27.2006,aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 22 de maio de 2026

OS ÚLTIMOS POETAS


Jorradas no chão,

lambendo lâminas enrouquecidas,
as estrelas solitárias
no picnic dos anjos da boa vontade,
cantam só para mim prosas simpáticas.
E no meio dos últimos poetas,
há um sax que grita
rejeitando toda a clemência.
E aparecem palavras que cortam,
e com este sangue abençoado,
serão escritos poemas
onde o tempo não pousa.
Continua o assassínio
nestas ruas envergonhadas,
de gente com alma
que só quer uma oportunidade.
E as feridas nunca serão curadas,
e os gritos arrumados no monte da ingratidão.
Sepulcros remexidos no meio de orações breves,
tão curtas como a circunstância
de só terem tentado viver.
E os últimos poetas
 soltam a poesia de todos os medos,
com todas as cores.
Na marcha fúnebre que os acompanha,
pensam com a esperança possível,
na sagrada indiferença
com que são considerados.
Os últimos poetas vão assim morrendo.
            E mostram rosários
                    de nenhum arrependimento.






,2017mai,aNTÓNIODEmIRANDA

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

O TERÇO DAS PENITÊNCIAS

 


Sou aquilo que de mim nem sempre me apetece. 
Assim como uma salada de ossos momentaneamente desocupados. 
Perspicaz imolador de anúncios, repetidamente a amassar o descalabro para o arrecadar num cântaro de cinzas. 
E, numa piscadela furtiva, saúdo a velha pele, cúmplice de parábolas nem sempre bem-intencionadas. 
[Assinámos um pacto anti tirania]. 
Dizem que anda por aí a surfar numa padiola perante uma quadrilha de olhares invejosos. 
O terceiro segredo jaz num apocalipse intervencionado por lápis de cera. 
O tempo não o deixa mentir! 
Ameaça- o com uma enérgica tempestade de pó dos livros. 
A alameda da felicidade foi raptada, segundo o relatório das notícias da raiva. 
E no lugar onde o nada não termina, estende-se a toalha para o manhoso piquenique onde é proibido ler poesia. 
Não nasci para dormir com a tristeza nem uso no pescoço o terço das penitências. 
Sei que a traição do silêncio se esconde na varanda dos ocasos. 
Na esquina da impossível espera, tenho na mira o nojo delicadamente calibrado apesar da miopia entregue por anos maus conselheiros. 
Enviadas pelos mensageiros da sagrada esperança, memórias agradecidas desaguam no cais da minha gratidão. 
Então, ergo para o céu desgostos sem fim. 
Mãos sujas que nomes poderão chamar? 
Na certeza de todos os enganos, longos dias poderão tornar as horas mais desalentadas. Até porque na dor do desejo, 
a beleza será sempre uma actividade inflacionária.

2025Mai._aNTÓNIODEmIRANDA
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A FALA DO ESPELHO (1)

 


O que imaginam de mim 
Naturalmente 
não me diz respeito!

Não sou nada 

E tu…

Ninguém.
  
Afinal somos dois



,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
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quarta-feira, 20 de maio de 2026

CALMA CONSELHEIRA

 
Quando danças nas cordas da minha guitarra, 
os passos são as notas que invento, 
mesmo sabendo o nada que tenho 
para te encontrar. 

        Não há consolo nas memórias 
        que não se escrevem, 
        nem nas histórias dos pássaros 
        que desistiram de voar.

Aqui, 
no alpendre da calma conselheira, 
olho para um céu cheio de esperas
e desenho nas sombras,
nomes que nunca irão chegar.





,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA
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NADA FOI ESCOLHIDO


Vive-se a esperar.

Morre-se na demora.

Chega-se sem dar por ela,
ao pote das cinzas da memória.

Nada foi escolhido.



,2020Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
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terça-feira, 19 de maio de 2026

A PRETO E BRANCO

 


Não sei o que o amor tem a ver a com isto. 
Balbuciou enquanto discretamente mirava 
a  fotografia onde estava uma cara 
que de todo não lhe era estranha. 
Ajeitou a combinação 
e compôs com uma malícia atrevida 
o olhar com que acabava de o comer. 
Correu as meias como tinha visto no filme italiano.
A preto e branco 
onde aquelas cenas ficam para sempre na memória. 
Retocou os lábios 
com a cor que o grande Miró lhe oferecera. 
Deixou propositadamente a calcinha para o fim. 
Não fosse o diabo apetece-la.


,2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA
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A FALA DOS SILÊNCIOS

 

Sabemos da fala dos silêncios 
Das danças que nos despem 
Dos passos que nos perderam
O tempo escondeu-nos
Roubou-nos a alma ainda nós 
        Não sabíamos amar

Eramos gigantes aninhados
Em vasos regados por dívidas

        Flores do mal ainda sem poesia
        Aromas corajosos e atrevidos
        À procura da lua seguinte

Cheiros de corpos sem choros
Para recordar

Depois

    Depois assassinámos com
    Todas as letras a mais bela das palavras

SONHO


,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 18 de maio de 2026

LIMPEZA A SECO

 


Escondi os sonhos na mina dos desejos 
perdidos.

Bruni o desconsolo em suaves núpcias.

Salguei a vergonha no poço dos desejos

Tentei embrulhar os soluços que vestiam 
as sombras da tranquilidade.

Arrendei a vontade com juros gratificados.

Mas, ninguém compareceu à minha 
necessidade.

Penhorei a ideia da felicidade 
no congresso da agiotagem.

Sim!

Eu é que fui o farsante da última ceia!

Estava farto dos originais fotocopiados!







,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA

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A poeta norte-americana Anne Waldman estará na Casa Fernando Pessoa, a 19 de maio, pelas 18h

 Anne Waldman é uma das figuras centrais da poesia norte-americana contemporânea — poeta, performer, ativista e colaboradora próxima de nomes como Allen Ginsberg e William Burroughs, tem sido uma voz determinante da contracultura literária americana desde os anos 60. 
Fundadora da Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, na Naropa University, a sua influência atravessa várias gerações de escritores e artistas.
Esta sessão, organizada pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (ULICES/CEAUL) com o apoio do American Corner, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), inclui leituras por Diana V. Almeida e Elsa Maurício Childs, de uma seleção de poemas de Allen Ginsberg, a partir do mote «O peso do mundo é amor / The weight of the world is love». 
Francisco Rebelo cria o ambiente sonoro para este encontro poético.
𝗔𝗻𝗻𝗲 𝗪𝗮𝗹𝗱𝗺𝗮𝗻 & 𝗢 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗼 𝗺𝘂𝗻𝗱𝗼 𝗲́ 𝗮
𝗺𝗼𝗿


Poemas de Anne Waldman traduzidos para português 
Augúrios Astrais 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Visões! augúrios! alucinações! milagres! êxtases! pelo rio abaixo da América! 
para o velho profeta Allen Ginsberg 
Um X como numa ampulheta. 
Milícias com um megafone no relvado 
Escondam-se, antes de rebentar 
Prognose pela terra, por coisas rastejantes que se escondem 
Numa ciência de areias, numa distopia fascista 
Chorámos na fronteira da crueldade, El Paso 
Chorámos na fronteira da intercetação, Minneapolis 
Um bando de pássaros como intervenção 
Porque eles registam liberdade 
Não te veem 
A tua língua é um grito 
Olha para os teus pés 
Contempla agora a tua palma 
O verso quebrado é um grito 
Uma figura de louça em forma de mão 
Representa o estouro 
Este é o pesadelo 
E todos sintonizados na América 
Como num passo de quadrilha a gingar 
Ágil no gatilho, a nova moda 
Esconder o sinistro cenário 
Antes de chegarem os tanques, gangsters à porta 
Eles falam de Júpiter prestes a expirar 
E do descenso de Vénus 
Inscrição de planetas errantes: para entreter 
Idade da miragem, sem vergonha, exposta 
Sem retorno ao olhar dominante, poupem-nos 
Galileu não teve perdão até 1900 e muitos... 
38 graus a entrar em Carneiro 
A mística empática náiade de Peixes esvanecendo-se 
Lua em Aquário 
& Caranguejo subindo para a alter-idade 
Ó nebulosa profecia, e cá em baixo? 
Ou lua-cheia outonal, serás tu omnisciente? 
Quando avermelham as folhas é um grito 
Ou os fogos escurecendo o infinito 
De Cameron Peak a Williams Fork1 
Chamas imparáveis grassam noite e dia 
Ominosos astros nestes dias, ámens astrais nestes dias 
A cinemática do assalto planetário não ajuda os dias  
As cordas cósmicas delirantes nestes dias 
Invocando os profetas das linhagens, Ginsberg, Snyder, Burroughs 
Guardiões do tarot & as artes mágicas, DiPrima 
O nosso bobo da corte, Corso 
Guerreiro Baraka, voltem a casa 
Da próxima vez, o fogo2 
Eu serei a angélica filha de toda a arte da adivinhação e vou lá 
Chovem cinzas na eficácia da noite, é também o que fazem 
Teoria das curas da Babilónia solar, lunar e planetária 
A recordar o período selêucida e parta, aprende os antigos signos 
1Duas formações geológicas do Colorado que têm sido devastadas por fogos intensos, nomeadamente em 
2020. 
2Alusão a uma antologia de ensaios de James Baldwin, 1963 
Torna-te sintaxe para poetas, gnose para poetas 
Estou na tua estrela noturna agora, na tua estrela felá agora 
E tentamos agora reinar num governo patológico 
Ser decifradores-de-asterismos 
Videntes-do-zodíaco 
Conhecedores-do-tempo 
Vates-da-poesia 
Com o 6 de Paus 
A roda da fortuna chega a girar 
Desafia a incerteza 
Distantes do nosso próprio 
Júpiter gigante de gás 
Vénus pedregosa paisagem calcinada 
Ergue-te num espírito de segurar firme 
Olha para cima torna-te uma miúda do abismo! 
Neste sonho de um horóscopo do mundo 
Um auspício ditoso seria um trono incluindo: 
1) Maquinaria para imitar a meteorologia  
(vamos precisar disto) 
2) Um santuário sem replicantes  
(escondendo a nossa vergonha de os termos sequer inventado) há que manter a conversa e 
o amor 
3) Queremos que o mistério do nosso poder se torne subtérreo 
(cristalomancia ex caelo) (pós-pressa ) 
4) libertar as mulheres e qualquer entidade visionária a gosto 
Lua das Colheitas novamente perto do início da legitimidade 
É preciso colher a safra pela noite dentro 
Safras de dizer como todas as coisas são feitas em parábola 
É preciso safras para a profecia rúnica crescer 
Safras para a disputa de abutres nos apoiar no voto 
Saberia Ormuz por pura omnisciência? 
Estações da noite em estado de repouso? 
A gélida Lua de coração azul ainda pende 
Hão de vir as crianças de coração caloroso 
Após séculos de des-uso, abuso, desespero 
Houve uma categoria 4 que destruiu o milho 
E tivemos o segundo mês mais quente no registo da história do mundo 
E quando abrimos a Reserva Nacional de Vida Selvagem do Ártico ao saque 
Os nossos corações afundaram, quando a tormenta sacudiu a terra 
Um sombrio horóscopo avisou-nos 
Como os cientistas poderiam avisar: “Furacões fantasma e paramilitares” 
morreram eram eram eram então 
Quando eles arrancam os inocentes das ruas 
Morremos com eles 
O que é a pátria? muro dentro de muro? 
Ou quarto das maravilhas? 
O belicoso armamento do reino-divinal aniquila-se a si mesmo 
Vendendo armas aos inimigos 
“Mantém a bolsa e a espada em distintas mãos” 
Não vá a guerra usurpar a terra 
Virar escombro original 
O adepto entrega tudo 
Morre para eles, morre para nós... 
Sincelos humanos atacam e quebram e prendem as pessoas 
Abram as portas, novas fronteiras, ó, eruditos do coração e do céu 
Augúrios astrais, augúrios astrais por estes dias! 
El Salvador, Guantánamo, Líbia, Sudão do Sul, 
Os centros de detenção crescem sobre a terra 
croac croac estranho grito de Seres lançados para os céus sobre as árvores  
ondulantes 
Om Bekandze Maha Bekandze Samud Gate Soha  
Versos de “Howl” e “Kaddish” 
Canto do Buda da Medicina 
Kali Yuga, nyeigme du (Idade da Discórdia), E.U.A., 2026 
Do álbum Astral Omens, 2025. 
//// 
O Manatim / Humanatim 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim movendo-se move-se meigamente 
o manatim pode encontrar-se em canais e áreas costeiras 
o manatim é um animal migratório 
o manatim é meigo e demorado 
o manatim demora-se em rios demorados  
o manatim é totalmente herbívoro 
o manatim do Oceano Índico não tem inimigos naturais 
o manatim não tem inimigos naturais senão o homem desnaturado 
o manatim sofre constantes ameaças humanas desnaturadamente 
o homem com seus barcos & plástico & atitude 
o manatim afoga-se com frequência nas eclusas de canais 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre com frequência nas barragens 
o homem que não dá margem ao manatim nem quer saber se o manatim 
vive se o manatim azar 
o manatim morre em colisão com embarcações 
o homem que não protege o manatim 
será o homem desnaturado um guardião da terra? 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre ao ingerir anzóis 
o homem que desnaturadamente não dá margem 
o manatim morre do lixo e das linhas de monofilamento 
o homem de atitude torpe que não tem utilidade para o manatim 
o manatim morre enganchado em cabos de armadilhas de caranguejo 
o manatim morre por perder o habitat expropriado pelo homem 
estropiado pelo homem, o manatim podia ser propiciado pelo homem 
ó homem propicia o manatim penetra homem no coração do manatim 
uma cria de manatim nasce a cada 2-5 anos 
o manatim está em gestação durante um ano no ventre da manatim 
8400 milhas de águas costeiras dariam para o manatim 
11000 milhas de rios & correntes dariam para o manatim 
10000 milhas de canais poderiam todas servir o manatim 
o manatim tem mais massa cinzenta no cérebro do que o homem 
o manatim tem um pensamento arquivístico talvez mais profundo do que o homem 
os dias antigos do manatim milhares e milhares de anos 
que há na mente manatim, o que é a mente do manatim? 
o manatim não tem inimigos naturais 
o manatim é totalmente herbívoro 
o metabolismo do manatim demora-se, move-se demoradamente 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim move-se demorado nos rios movendo-se demorados o manatim é meigo 
as crias dos manatins podem mamar até aos dois anos 
o manatim aprende tudo com a sua mãe manatim 
a mãe manatim e a cria cantam uma para a outra 
os manatins têm grandes ossos auriculares 
chilros    
   cicios  
  chios de manatim 
o manatim demorando-se move-se meigo 
oscilações do manatim movendo-se entre orelhas de manatim 
orelhas de mãe manatim e de cria manatim 
os manatins são os nossos sirénios, e moram na casa das sereias 
onde estão os santuários humanos para os manatins? 
manatins  
sereias  
nereides cantando demorando-se 
a mãe manatim e a cria em tal união 
a fêmea manatim unida à sua única cria manatim 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim a mover-se na maior meiguice 
Estéreo  
Excerto de Manatee/Humanity, 2009. 
//// 
Tradução de Leonardo Lima e Margarida Vale de Gato 
O casamento o casamento é como dizem é tudo tudo em estéreo estéreo caem caem na 
cama cama pela matina matina porque trabucam trabucam toda a noite. A noite é um 
apartamento. Feito para ser casamento. O casamento é um apartamento & feito para 
pessoas pessoas lá lá entrarem porque quando casam casam o mais provável é haver comida 
comida para comer nas mesas mesas da casa. A casa será o apartamento que é noite noite 
descansada. Lá lá haverá uma cama cama & uma cama cama a mais um lençol lençol limpo 
ou dois dois para hóspedes hóspedes uma toalha a mais. Uma toalha a mais. Como vos 
acolherão? Haverá bebidas bebidas em barda trazidas por hostes de hóspedes hóspedes 
barris barris de licores licores & brandys brandys elixires acres e agridoce garrafa de Merlot 
Merlot café Bustelo. Tomem não me façam essa desfeita. Quando se casarem se casarem 
haverá prendas elegantes para a cozinha cozinha por vezes duas de cada coisa. Cada coisa é 
nova nova a estrear a estrear. Chavenazinhas, uma travessa finlandesa, um relógio, um 
tapete de entrada, obras de Arte. E livros ilustrados de Medicina admirável. Dicionários 
ainda mais magníficos. Quando se casarem se casarem haverá mais lençóis lençóis & toalhas 
toalhas sem sem cessar & quase quase sempre uma mascote de companhia companhia ou 
duas duas. Decerto que precisam de um telefone fixo & de um telemóvel quando se casarem 
se casarem. Duas duas duas duas linhas linhas linhas linhas. Precisam precisam de contas 
contas de e-mail e-mail separadas separadas. Quando se casarem se casarem terão 
conjuntos de coisas coisas, de mais lençóis & toalhas a combinar, terão coisas duplicadas, 
terão apenas uma toalha de mesa. Quando se casarem se casarem serão responsáveis por 
os vizinhos vizinhos vos cumprimentarem. Sorrirão sorrirão em uníssono uníssono ou talvez 
digam ele está bem, ela está bem, ah ile está bem, ah ela está de rastos com gripe, ah ele 
agora está a consolar um viajante cansado vindo do outro lado do Vale. Ela o meu marido 
não tarda nada, ele a minha mulher tá ocupada neste momento, o meu marido elu, a minha 
mulher trans estão muito muito ocupades ocupades neste momento momento neste exato 
momento. Quer dizer tchau, tchau. Quando se casarem se casarem farão farão sexo sexo 
sem demora demora. Terão uma caixa de correio caixa de correio & uma campainha 
campainha. A campainha campainha toca toca ela toca toca de novo uma segunda vez. Não 
têm de atender. Isso é claro pois quando se casam as pessoas pessoas percebem percebem 
que vocês não não têm têm de atender atender uma campainha campainha porque podem 
estar a fazer fazer sexo sexo sem demora demora. Ouvirão tudo duas vezes, pelos seus 
ouvidos & pelos ouvidos do par. Ela ou ele conforme seja seja o caso caso. Ele & ele & ela & 
ela como talvez talvez seja seja o caso caso. Depois de se casarem se casarem podem brincar 
com nomes nomes & chamarem-se outro nome se quiserem. Podem acrescentar um nome, 
ter um nome duplo com um hífen se quiserem. Podem abrir contas conjuntas quando se 
casam. O casamento não é garantia contra uma depressão. Uma evitação não é garantia 
contra nada. O casamento não é garantia contra uma decisão. Uma revolução é uma palavra 
palavra traiçoeira. Pronto, estão prontos prontos? O casamento é mais doce doce do que 
vocês pensam. Pensem. 
Hermenoia: Introdução a Mesopotopia 
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Tradução coletiva de estudantes do curso de Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da 
Universidade de Lisboa, lecionado por Margarida Vale de Gato (2º semestre do ano letivo de 2025
2026.) 
Esta era mundial deveria ter sido candeias & cânticos & invenções & talismãs e intervenção & 
romance & sageza & civilizações & mantras de absurdos & destinos brilhantes & o plano épico 
tornado essencial vontade, vozes, votos. E através das eras um ritual para mergulhares o teu 
coração até te ergueres acima da resistência. E o tempo o teu problema o tempo deveria ter 
sido a tua elevação a tua apoteose fazer poesia de todas as formas e dança dos teus pés na 
corda e na história do espírito, e fios de sistemas abertos e trabalhar para atravessar as muitas 
horas da noite. Decorando, situando as palavras, a lua, o tear a canção & o cantarolar do 
pássaro de volta mais uma vez ao teu coração, humano. Tuas estrofes & voltas & viragens, 
humano. Adormecer sobre a asa, todas as alegres “mancias” — geomancia e qual é a origem 
deste sufixo? E qual é a tua origem na nua claridade do dia no negrume da noite? 
E existência, a continuação de como isto começa. Bicho-carpinteiro. O animal. O humano. Não 
faço ideia. Mas a guerra. 
Um berbere marxista, Santo Agostinho, confessando a sua paixão pela astrologia antes da 
conversão? “Esperava atacar e refutar e cobrir de ridículo todas pessoas dementes que fazem 
a vida com a astrologia”. Ai Jesus. 
Canção d’alba & do amante que parte para meditar pela Segunda Avenida, num velho 
scriptorium. E fazer isto torna-se um ritual e uma profecia para desarmar a morte. E a 
biblioteca que estás a construir são os documentos do tempo sagrado. Serão o medo & a 
paranoia permitidos nos documentos do teu tempo sagrado na Biblioteca da Universidade 
Livre? Documentos para viver, esconder, modelos de como te tornares todos os géneros e 
todos os amantes, ser carinho & empatia na biblioteca sagrada de géneros & amantes. Até ao 
que menos esperas, sem esconderijo agora. Aqui está o teu cartão, o teu cartão dourado para 
a biblioteca dourada de palavras. Para o Arsenal de palavras & livros dos arquivos. Aqui está o 
inventário. Lê. Uma corrida contra o tempo porque estamos em vias de alta velocidade. E eu 
apenas aproveitando o embalo pela Avenida A. 
Todas as pautas, andaimes erguidos nos versos em construção de uma torre num trabalho 
hercúleo de construir e arrasar e construir de novo. Sai do teu poleiro já acabou. Sai que isto 
treme, todas as pedras & os sons da origem. Transitando. 
Pauta 1 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Não prosseguiram novas transmissões. / Mas nós juntámo-nos. / Porque mais próximos do 
fim do mundo? / ou / novo horóscopo de “mundo”…? / Toda a gente pensa que a vida vai 
acabar no nosso tempo de vida, somos os últimos / Um auspício ditoso, uma nova sessão / 
como tornar-se invisível sob vigilância / Estudámos uma insidiosa meditação de trono 
incluindo maquinaria e “mensageiros” cristalinos / todos quitados para imitar e traduzir a 
meteorologia e depois toda a gente acha que és alto manda-chuva / eles podem fazer isso, 
fumo & espelhos / atentos à cinemática de planetas desesperados, / uma fuga da prisão, 
alucinação guiada / ou acordes cósmicos ou cura ou cenas mais práticas / O templo do 
morcego ensinou-nos / mais, aprender a viver perto dos outros de pernas para o ar nos 
augúrios astrais / que já há um século emitiam TU TENS DE ser gentil / estudar estoicamente 
atos divinatórios, esperando as respostas vir mas tu és um veículo-pronto / E outros têm os 
seus propósitos e tu tens de regressar à aterragem lunar uma vez mais / E às técnicas que 
aprendeste no terminal / lá em baixo em Wall Street. 
“Triste fica o deus do rio  
que passa por nós remando” 
in Mesopotopia, 2025



Sobre os participantes


Anne Waldman publicou o seu primeiro livro de poesia em 1968, On the Wing, e em 1973 a antologia de poemas escolhidos, Life Notes, seguido pelo “mini-clássico” Fast Speaking Woman, primeiro em 1978, depois em 1996, pela mítica editora de Lawrence Ferlinghetti, City Lights. Entre as suas obras mais recentes, aliando o longo fôlego e experimentalismo dos “outriders” em campo aberto a uma investigação das maneiras de nos relacionarmos entre géneros e espécies, contam-se Manatee / Humanity (Penguin Books, 2009), Bard, Kinetic (Coffee House Press, 2022) e Mesopotopia (2025). Ativista por várias causas, como o feminismo, o antinuclear e a luta contra a indústria fóssil e as alterações climáticas, integrou o movimento Occupy Art. Co-fundou com Allen Ginsberg e Diane diPrima a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics at Naropa University, a primeira universidade de inspiração budista no Ocidente, e é também uma das mentoras do Poetry Project at St. Mark’s Church in-the-Bowery.

Diana V. Almeida, doutorada em Literatura e Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lecionou no ensino superior entre 1997 e 2020. Corpo Contingente: 3 Ensaios Feministas está prestes a sair (Húmus). Cosmos e casas (Urutau, 2021) e The Least Gesture (Dancing Girl Press, 2026) reúnem alguns dos seus poemas e fotografias. O Compasso do Amor: Guia para Alinhamento Interior (Edições Mahatma, 2025) propõe reflexões e exercícios para uma vida mais radiosa. Facilita desde 2014 o Escrever o Coração, unindo criatividade e mindfulness. Agora, dedica-se à escrita, à tradução, à fotografia e à magia.

Elsa Maurício Childs estudou Línguas e Literaturas Modernas e cofundou e dirigiu a escola Verdes Anos. É cofundadora do Projeto Eco e fundadora do InVerso (que dirige), coletivos de Teatro Playback com particular foco no trabalho na área da saúde mental e dos direitos humanos. É Formadora Acreditada de Teatro Playback, pelo Centre for Playback Theatre, em Nova Iorque. É professora da Escola Ibérica de Teatro Playback, com quem começou a sua formação em Playback no início de 2017, e membro da Direção da Associação Ibérica de Teatro Playback. É cofundadora e membro da Direção da Corda Teatro e do grupo feminista Eufémias, que programa o Festival Eufémia, em torno das questões de identidade, género e resistência nas artes performativas.

Francisco Rebelo, nasceu em Coimbra em 1963. Iniciou a sua formação musical na Escola de Jazz do Hot Club de Portugal. Em 1995, formou a banda Cool Hipnoise; em 2000, os Spaceboys. Entre 1999 e 2003, trabalhou como produtor e técnico na Galeria ZDB. Atualmente, integra os grupos Orelha Negra, Cais Sodré Funk Connection, Micro Audio Waves e Fogo-Fogo. Em 2026, vai lançar um LP de spoken word em parceria com o poeta Tiago Gomes. Tem colaborado com diversos artistas, como Jorge Palma, Nuno Rebelo, Rádio Macau, Branko, Valete ou Lura. É também produtor e formador (Restart, OPA-Sons da Lusofonia).




PRET À PORTER

 


Que sonho pode ter medida
Ou ousadia para nele caber?
O que valem as horas
Gastas na angústia escusada?
Abraços frios
Serão sempre melhores que os fingidos
Aborrecidos tornam-se
Os soluços tingidos.
Às palavras de circunstância
Nunca lhes dei
A mínima importância.
Sentimentos adulterados
Serão sempre escusados.
Preocupação fictícia
Sempre me deu cuidado:
Causa-me icterícia.
De qualquer modo,
Obrigado!

(Não acreditem:
Só estou a fingir
Que sou educado).


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domingo, 17 de maio de 2026

OLEIO O FIEL COM UM AFTER SHAVE

 

O que me dói é a balança.
Com os pratos tenho uma boa conivência.
Só temo, devo dizer não exageradamente,
que o meu optimismo
não enferruje algum contrapeso distraído.
Oleio o fiel com um after shave
comprado numa loja de  conveniência
tão bêbada como a minha identidade.
Pobre da minha guitarra
que geme mais do que aquilo
que sofro.






2016,10aNTÓNIODEmIRANDA
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sexta-feira, 15 de maio de 2026

LUTAR PELO CÉU NAS ASAS DESTE VOO MENTIROSO

 


Não me interessa se alguma memória deixarei. 
Tento não desiludir o convite para a viagem 
que o nascer me entregou. 
Revejo-me nos abraços da solidão ancorada 
com suaves beijos de tolerância. 
Velho agora, 
(como me mira o espelho enrugado), 
embeveço neste odor de hortelãs taradas, 
estendo-me num colchão de chá, 
esperando o fingir de um qualquer adormecer. 
Continuo a morrer sempre que não importa 
a maneira como acordo. 
Calçar a esperança ainda é um exercício 
que não me mente. 
Mas as horas deste relógio são mais atrevidas 
que o tempo que desejo. 
Então enleio-me neste poço de mentiras  
que não consigo rasgar.




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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O CHÁ DA FUTILIDADE

O meu amor come sushi e rega-o com mijito
E eu sinto-me beatificado no meio 
deste cozido à portuguesa.

Obrigado meu bem pelo teu zumbar 
de mosca bêbada.

Temos um mundo tão belo 
e um caminho com tanta luz
para iluminar a nossa estupidez.

Abençoados sejam as nossas crianças

tão parecidos com os filhos dos três mosqueteiros
quando bebem o chá da futilidade.

 
2016,09aNTÓNIODEmIRANDA
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MORRER É UM JOGO COMPLICADO

 


Morrer é um jogo complicado.
Queima a flor que tanto nos entonteceu, 
e não há rega para a sua ausência. 
É um arrefecimento a pronto pagamento 
depois de tantas prestações pagas a um tributo 
que sempre nos ignorou. 
Mas a vida, de cada vez que a respirámos, 
é uma traição ignóbil, 
sempre pronta a roubar aquilo que gostámos. 
Depois os dias que sobram fazem de nós os invernos, 
onde enroupados nas fotografias, 
contemplamos memórias que definham 
o correr do nosso tempo. 
E é tão lindo o que gostámos 
e de tão querido, embrulhámos no lenço da saudade, 
todos os momentos que nos fazem felizes. 
Esta realidade é uma conspiração abrasiva, a
busa sempre de nós, 
aqueles que sempre acreditam 
que este jogo sempre será a mais miserável das batotas. 
            Eu também já não dou ao tempo
            a importância que ele não me merece. 
            Estou farto do seu modo de me cansar!



2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE

 


Vejo a fome distribuída em longas filas. Máscaras com um choro envergonhado. Olhares perdidos na lama da desilusão. Não é minha esta paisagem, esta certeza que já nada abriga. Um saco de lágrimas. É o que tenho para oferecer ao caixote solidário.

A fome não quer mais a morte.

Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos da aproximação desconfiada. Olho para os rostos, mas, não tenho memória para gostar. Passa por mim um cão. Não abana o rabo, simplesmente ignora-me, obedecendo à vontade do olfacto, farejando a ausência do vírus. Tornei-me num eu sem mim. Alojei-me no lugar que partiu, despido de qualquer lembrança. Sigo descalço para a fonte dos ocasos.  Desejo uma coisa estranha.
Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço. A gravação não funciona. A fita iludiu a cassete. Ignoro o convite da porta. Estou confortavelmente fechado nos golpes das curiosidades que não me aliciam. Escondi os cadeados da ousadia. Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos. Desconheço quem irá suicidar-me, depois de embriagar o desalento.

A fome não quer mais a morte.

Isto não está a correr bem.
Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta, mas, o ar condicionado não funciona, e a vontade vai-se finando.

A fome não quer mais a morte.

Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito. Atiro a má disposição para as persianas. Dou voltas enroladas neste sofá, escrito com recordações pantanosas. Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal. Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida. Convivo bem com os arautos da tempestade. Abraço-me nos seus gritos. Agora já nada me custa. Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados, que não compreendem o apelo ao perdão. Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério. Já escrevi o meu elogio fúnebre. E, ele não comporta mais palavras.

A fome não quer mais a morte.

Andei tanto aos tombos que nem me lembro das paredes que sangrei. Bebi nas noites longas, o amparo que tudo prometia. Beijei noivas hesitantes, conspurquei os futuros mais risonhos. Continuo a levantar-me num acordar alegre. Tiro a ramela dos olhos, pisco os olhos para o gajo do espelho, alvejamo-nos no ritual costumeiro. Despedimo-nos delicadamente. Sento-me na sanita para aliviar a vontade.
 
A fome não quer mais a morte.

Diz a canção que preciso de alguém para amar. A melhor oração para um defunto. Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas, que não me respeitem. Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões, do jackpot das hipóteses aputalhadas, dos conselhos respeitáveis que constantemente batem à porta. Viajo nos lugares que não conheço. Tenho saudades de ti, velho amigo. 

A fome não quer mais a morte.

Onde teremos andado, agora que não encontro o nosso passar? 
Quando voltaremos a beber o som daquele sax que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo? Paramos nesta página.


,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA,
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OBRIGADO E ATÉ BREVE

Não te falo das rosas porque tu és 
a flor mais lindamente bordada
que me aquece os dias e enche a madrugada,
qual ramo desejado no amanhecer
com que tento sofregamente acariciar outras mãos.
Temos chuva no cardápio e malmequeres no jardim.
Mandasse eu só um pouco na vida 
e o resto não seria assim.
Nem no facebook me sinto abençoado.
Por isso, 
ama-me na tenda com um chá de hortelã sofisticada,
toca-me nas cruzes,
apaga as luzes que a espondilose quer dormir.
Deixa entrar eu meto devagar
numa frequência modelada 
ao correr das horas
sem desvio nas manobras d
os trabalhos em execução.
Bermas com supressão e alterações
sonoras,poderão acontecer.

Prometemos ser transitórios.

                Obrigado e até breve.



2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
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Parabéns. Abraço Grande.


terça-feira, 12 de maio de 2026

COM TODO O NOJO PARA UM IGNÓBIL

 

    V erme
        E mbusteiro
            N éscio
                T raste
                    U ltrajante
                        R ato
                            A rruaceiro

 


2026Fev_aNTÓNIODEmiRANDA
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CARNE PICADA

 


Enrola-me pela manhã
docemente até ao fim do dia.
Quero que me mates
até os ossos se tornarem fiambre.
Ama-me no chão,
faz de mim o mais vil tostão
um chá de um Judas pestilento,
canta-me numa canção de 
azar, só para acreditarem
que gostas de mim.
Enrola-me num cartucho
como se guardasses a
mais preciosa iguaria.
E oferece-me sofregamente
quando te apetecer.
Estou aqui,
abaixo do zero mais que finito
com arpejos do bolero
onde uma loura sem vergonha,
cavalgou nas minhas ancas
arfando palavras
roubadas dos meus poemas.
Enrola-me de manhã mesmo só um bocado,
no mais fino brocado para fingir a alegria.
Enrola-me agora,
pela noite fora
até fazeres das minhas costas
um ossário defeituoso.


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
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segunda-feira, 11 de maio de 2026

TENHO INVEJA DA COZINHA DE MANHUFE

À 2ª os museus estão fechados.
É o nosso dia favorito para o piquenique das confidências.
Olho para o Amadeo e falo-lhe da Vieira que tive nas mãos. 

Fita-me abrindo os olhos no meio daquela partida de xadrez, como que a dizer:

és um gajo sortudo.
Relembro a memória

e agarro o repolho vermelho do
Eduardo Luíz.
Há que ter calma.
Só quero saborear aquele verde “pistache” do Mário Botas.
Sorrimos um para o outro.
Gosto da nossa malandragem, aponta ele.
Ok.
Tenho inveja da cozinha de Manhufe, atirei eu, em forma de convite.
Timidamente escondeu-se na viola,

e ofereceu ao céu as cores que lhe faltavam.
Os galgos farejaram o nosso delírio e deitaram-se com o único deus que os soube criar.
Amadeo, saiu da tela, limpou os pés no pincel, e levou a cabeça do Santa-Rita para o passeio das horas sem tempo.


2018Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
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