Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 26 de junho de 2026

NAQUELA NOITE E NOS PESADELOS SEGUINTES

 


Nos tempos com asas para o fim  voa 
distante o caminho do amparo nem sempre 
com elevados índices de consideração. 
Dizem impostor este teimoso capricho do 
acordar.
(Quem me dera a mim outro mundo neste 
fraco viver). 
Certos futuros nunca caberão na minha
bossa.
Guerreiros desleixados combatem a 
velhacaria do destino.
Dizem-nos muito bons. 
(eu é que não tenho jeito para gostar 
dessa merda). 
A paciência que exibo mudou de capoeira. 
Um homem não treme 
(ideia estupidamente absurda) 
do bobo do leme. 
Olá musas desencantadas. 
Deixai de andar desvairadas à procura 
do enfermo remo. 
Ai agora é que  tremo qual rena 
num trenó na atarefada entrega da nostalgia.
Ó besta quadrada  tendência desembestada
(árdua missão naufragada 
num impiedoso autoclismo), 
quando deixarás de importunar o peluche
que precisa de exílio? 
No caminho da memória 
escondo as fraldas da lucidez 
limada num ribombar ensurdecedor 
que atrapalha o ânimo que me entende.

                                        Mas não é essa a essência que procuro.


,2024Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quinta-feira, 25 de junho de 2026

COMO É DIFERENTE O CHEIRO DESTE MIJO!

 Nada sei disso!
Daquilo que dizem fácil.
Mas não enxergo na minha horta existencial o difícil.
Visto os dias com outros pormenores
que me desenham um Basquiat sempre hábil.
Pinto o meu gosto encharcando um grafiti movimentado pela vontade de ser quem sou.
Sentado nas escadas, enroscado nos degraus que me marcam, arranjo ½ quilo de feijão verde para uma sopa com todos os desejos permitidos.
E tempero esta malícia com o suave sangue que molha os golpes dos meus medos.
Em boa verdade, ainda não sou um exímio afiador de angústias.
Poderei tentar outra alegria mas a minha tristeza é muitas vezes o mais importante.
Jean Michel sorri com um osso que roubou ao cão que confiadamente frequentava a # factory #.
Joe Dallesandro com pénis desenhados nos ténis descalços, pinta na seringa delinquências # gourmet #.
Irei mudar de sopa e afastar educadamente as pevides com as cores do Miró.
Também já não sinto os degraus.
& alguém roubou a minha roupa!
Coisas dos artistas.
Mas é só neles que eu confio.
A guia do museu tirou-me a fotografia.
Neguei-lhe o autógrafo.
Já nada estranho nestes tempos.
Fui jantar à Trindade!
Como é diferente o cheiro deste mijo!

   2016,10aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


 
 
 
 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A GAIVOTA MORREU PASMADA NO AREAL

Agora sou um apêndice a descansar na prateleira x de uma qualquer estante no museu nacional da ternura amiga. 
Sou mostrado em aplicações com detalhes da minha não autoria. 
Uma relação sem causa nem efeito. 
O que condiz comigo não tem qualquer avaliação. 
Sou agora a espécie com agente de todo o tempo sem verdade, escrevendo os dias difíceis aparamentados nos corredores onde não tenho lugar. 
Tudo é tão longe nestas selfies mal paridas com que pensamos ilustrar a saudade que já não nos pertence. 
O mais que nos interessa não passa de um lugar onde penduramos desejos, um foyer descamisado com um cabide com o número previamente determinado.
Convite de uma promoção tão enganosa como a falta de interesse com que nos esquecemos. 
Voltem sempre, é o habitual agradecimento daqueles que fazem de nós pacóvios. 
Esta é a viagem inútil, do imenso roubo que nos dobrou a espinha, tornando-nos fantasmas sem a alegria da ficção.
Oh terra minha, que tanto me atraiçoas, não me consideres ainda tua pertença. 
Não posso cantar-te nem nos cânticos paridos com prantos de alguém que gentilmente ousou acreditar em ti. 
Nada sei do teu carma, nem do marujo que o enterneceu.
A gaivota morreu pasmada no areal.

2016,11aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 23 de junho de 2026

GOD "SLOWHAND”

 


Deus 

Entregou 

Mão 

Ao 

Eric Clapton


E o Júbilo do Paraíso


Fechou para Orações de Contemplação


,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISE-EN-SCÈNE



Era para ser como no cinema 
mas o filme não esperou por nós

Sentado na ausência do sonho
o realizador fugiu para outro casting

A cadeira deslizou em câmara ardente 
à procura do argumento


,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 21 de junho de 2026

PASSEVITE

 


Logo 

Depois
Amanhã
Lá  se verá

        Peggy Sue casou-se
            Marlon Brando morreu
                Nicolas Cage continua vivo
E eu 
        de quando em vez
finjo que não estou por aqui
a tentar libertar-me das trelas 
da memória
feito idiota ambulante
        Há quem assegure que os sonhos
têm qualquer coisa de fascinante
        Fazer acontecer algo de diferente?
A juventude 
É tão confusa 
Como a velhice
.





,2026_Jun _aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

E FOI ASSIM QUE NOS SAUDAMOS

 


O Tempo Não Tem 

Todo O Mundo

Para Nós



,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

Amy Winehouse - You Know I'm No Good / AMY W.


AMY W.
 


            No último degrau do sonho que deixaste, 
doí-me demasiado o não poder ouvir-te, 
e o meu coração é um copo de vinho 
que nunca molhou o teu penteado. 

            O mundo sempre aborrecido, 
desprezou o teu olhar de sereia atrevida, 
navegando o tempo que não te quis merecer.
 
            As boas estrelas voltam ao sonho, 
acompanhadas de um sax que grita ajoelhado, 
o tímido amor de só te querer beijar. 

            No teu céu, estará à espera 
um cálice sempre cheio de saudade.

            Aqui, vou rasgando aqueles aplausos 
que tanto te enganaram.



2017set_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


https://youtu.be/b-I2s5zRbHg 

Roger Waters & Mona Miari – Comfortably Numb Re-Imagined (Official Music Video)

 https://youtu.be/WBmrT3uqmeM

quarta-feira, 17 de junho de 2026

SURPRESAS INESGOTÁVEIS

 


        Samsung 

        in 

            the 

                    way… 



,2026Jun_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

PACTO MENTIROSO

 


Cá estou para desmascarar 
a mentira da minha cabeça.
Sim!
Aldrabei na maioria das confissões.
    O pacto com a consciência encomendada 
nunca funcionou!
(Era só para ver o vosso sorriso).
    Talvez enforcar uma ou outra lágrima,
rebentar a alcofa dos falhanços
e encaixilhar esta treta na terrina dos desconsolos.
    Adoptar um anjo 
e adaptar-me às suas carências.
    Mas, isto sou eu!
No canto das suposições 
a confortar certas teimosias.



,2026_Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 16 de junho de 2026

REQUIEM POR TODOS OS POETAS DESCALÇOS

 


Nada
Para além
De um bolso
Repleto de sonhos
Uma prática
Quotidiana
Abusivamente
Condicionada
A um certo
Ritmo de consumo
De posições
Motivadas
Pelo próprio sistema
Ou
Uma traição consciente
Mas sempreTraição a mim mesmo.
Não !
Não quero ser
Dos que ficaram pelo caminho.
O poema ...
O poema é a pena
De eu não ter pena
De escrever o poema.

Mas ...

Não te chateies :
Eu
Sou
O único poeta
Que
Pode mijar
Na tua algibeira.


, aNTÓNIODEmIRANDA,
poemanaalgibeira.blogspot.com



segunda-feira, 15 de junho de 2026

A MANHÃ QUE SEMPRE CHORAVA

 

A manhã que sempre chorava 
quando matava a noite, 
e congelava a alegria para
 uma melhor ocasião. 
Empacotava as lágrimas 
para mais tarde oferecer. 
Ponteiros deitados no naufrágio 
das horas da ilusão, 
acordavam relógios desonestos.
Nada para recordar o chão sagrado 
que varria  os passos, 
que para o nada se dirigiam. 
A raiva sossegava ruidosamente 
neste vagar desastrado. 
A salvação possível 
arquivava denúncias anónimas, 
e poetas descalços, 
entregavam salmos, 
num recital de memórias envergonhadas.
A manhã que sempre chorava 
quando matava a noite, 
escondia-se com um choro tímido, 
no corredor das palavras ainda não dissolvidas.
Paredes sem sorrisos emoldurados, 
pintavam algumas gotas de chuva, 
para que os pássaros das asas feridas, 
não morressem à sede.
Espera aí!
Não vás já!
Era assim a despedida
.

2018Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


domingo, 14 de junho de 2026

A NAVALHA



 A beleza passava sempre ao lado. 
No bornal da fome, 
ilustrado com fotos da terra dos sonhos caídos, 
vadiava a angústia de todas as horas. 
Martelava a saudade no banco
 da estação de Santa Apolónia, 
e escondia o regresso no miolo da broa, 
tão dura como a sua solidão. 
Sabia de cor todos os horários, 
que um bilhete certa vez sonhado
 no único sono bonito lhe prometera.
Na camarata, lia às escondidas, 
postais tristes que nunca teve coragem 
de meter no marco do correio.
A manhã seguinte, 
era o único castigo que o mantinha por cá. 
E a navalha, 
a sua fiel companheira,
 só se deitava após o seu adormecer.
Na enxerga, 
nunca houve lugar para sonhar.



2018Set_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com




RECUSO SIGNIFICAR A VIDA NUMA REDACÇÃO DE FRACASSOS


Dá-me 5 minutos. 
Tal coisa nunca me pede a vida. 
Conheço a discrepância dos nossos relógios, relembro algumas afinidades que nos cosem, 
as peles que juntamos no tempero deste desembolso, os falhanços escondidos, 
as derrotas da esperança.
Não sei onde param os pássaros vermelhos, 
onde naufragou a ousadia que alegremente pintávamos nas grades da cidade grande.
Nada libertamos, 
senão a comodidade da mesquinha revolta.
Não quero tempo para dourar a pílula das angústias.
Dá-me sangue para escrever, 
palavras inúteis no chão 
que imaginei sagrado.
Fujo das ruas de gente sonâmbula, 
tropeçando de copo na mão, 
à procura da sarjeta mais próxima.

Perguntam se tenho saudades.

Detesto essa hipótese.


,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sábado, 13 de junho de 2026

NO DIA EM QUE COMEÇAR A GOSTAR DISTO, DEIXO DE CÁ VIR.

 

- foi recentemente referenciado, como um dos três piores tocadores de guitarra da actualidade. Qual o seu comentário?

- devo confessar que foi uma pequena desilusão. E afirmo peremptoriamente que irei continuar a trabalhar, para atingir o primeiro lugar no pódio. Aquele que almejo nesta árdua tarefa de enferrujar as cordas de uma qualquer guitarra, onde ponha as mãos.

- portanto ficou triste.

- claro. Tinha essa expectativa. Até porque considero que o gajo das castanholas era muito pior do que eu. Mas nestas coisas o júri é impregnável. Contudo, a esperança não morre aqui. E como mau perdedor que sou, aconselhei-o a ter cuidado com as amígdalas. Não vá o diabo aquece-las…  

- nota-se no seu tocar uma acentuada tendência seminal repetitiva. Quer falar sobre isso?

- comecei a tocar guitarra, porque sempre achei que era menos doloroso do que descascar favas. A minha influência mais marcante, e ouso agora confessá-lo, é a quantidade de gelo que meto num copo com whisky de má qualidade.

- como acontece o alinhamento dos temas?

- não é importante. Devido ao efeito da carga etílica e outros derivados, chegamos à conclusão que os ensaios são depois das actuações.

- qual a sua relação com o êxito?

- umbilicalmente detestável. Embora deva dizer, “off record”, evidentemente, que os nossos vídeos no youporn, superaram as expectativas mais estúpidas. Vale o que vale. E de facto, não vale grande coisa.

- e agora, uma nota final. Planos para o futuro?

- no dia em que começar a gostar disto, deixo de cá vir.


2018Out_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quinta-feira, 11 de junho de 2026

POEMA PARA LISA FISCHER

 


        Ela 

            Canta 

        Com 

                                

            Fala 

                        Dos 

                                Anjos



,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com




MEMORIAL DO MOSTEIRO

 


Deixem as freiras pinar 

Que não faltarão 

Anjinhos no altar 


,2026Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 10 de junho de 2026

PÁTRIA CATAPLANA DE ANGÚSTIAS

 


Onde está a minha cabeça?
Para onde navegam os sonhos que tanto prometeram?
Continuo a magoar a única vontade que me assiste.
Esperam de mim o quê?
Uma marionete manipulada pela pulhice?
Das vezes em que dormi com a vergonha na cama, 
cortei os beijos da fome na assassina madrugada.
E tu, velha memória, sê o meu amparo, 
eu que já tropeço nos abraços entregues 
pelas nada eloquentes pancados do relógio.
E vós, monges da constelação do sagrado sossego, 
largai para sempre o crepúsculo do jamais!
Bem-vindos ao programa da higienização social!
O mundo é fantasticamente um absurdo!
Sem aviso prévio, 
e num striptease desnecessário, 
presenteia-nos com um erro de cálculo  
maldosamente cozido na algibeira da realidade.
Entretanto um raio de harmonia 
perfura a solidão para que sejam graciosos 
todos os instantes da paixão.



,2026_10 Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

NÃO ME APETECE DEIXAR DE SER FELIZ

 


Afastem de mim essa pena.
Não pretendo usá-la.
Sei que jamais serei a tal estrela,
até porque nunca invejei o seu fulgor.
        Tenho um céu diferente 
para a jornada que me acompanha, 
onde espero abraçar os verdadeiros poetas.
        Assim a ideia me ajude.
Não passa de uma medida vã 
a espera que nunca se chega 
a alcançar.
        Despe-se o alento na colheita da esperança 
com lábios que tocam memórias amarelecidas 
na pedra fria.
        Veste-se a vida no lesto caminhar 
fora das vistas da maldade do tempo, 
enquanto se pede ao vento da mudança 
que não se esqueça de amainar 
o que resta da alegria.

Gostava que estivesses aqui!

Mas… quem és?
            Nunca celebramos a mais ínfima partícula 
da amizade.

Fica como estás!

(Isto é, se alguma vez exististe!)




,2026_Jun_Vila Chã_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 9 de junho de 2026

américa

 


estás conspurcada de acções

de vitórias fabricadas

de esperanças vendidas

e pelo nojo daqueles

que te amaram


as tuas bibliotecas

cheiram a sangue



( e digo - te desde já

que não existem índios na lua )



74mar.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 8 de junho de 2026

VISTORIA

 


Todas as manhãs, três corvos visitam 
num bailado despreocupado a cerejeira
.
Invejo a sabedoria de tal atrevimento, 
quando no bico das suas conquistas, 
exibem alegremente a gloriosa façanha.
 
Despedem-se num grasnar gozador 
deixando no céu rasgos de contentamento.
Nada lamento!
Também gosto de cerejas.
Mas, (cá no meu intimo), 
penso que, por sinal de respeito, 
deveriam deixar umas simples amostras 
para a concorrência. 
(Estou certo que os melros não se importariam).
Chego à cama e desenho na almofada 
elogios para a liberdade que permite qualquer voar.






2026_Vila Châ_Jun_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

A CADEIRA

             Se o universo não fosse adverso e tivesse ao menos uma cadeira decente para assistir ao embargo da ambiguidade eu passaria as manhãs tranquilas ousando acariciar palavras e não recusando o seu real significado.

            Se o inverso fosse mais que contrário e coubesse assim no meu imaginário, eu sentado nessa cadeira abençoaria todas as pontes para que a distância não fosse tão presente. Mas sequelas indignas molham-me com suores inflamados e enganadoramente penso que aquela cadeira continua à minha espera.





,2016,04.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 7 de junho de 2026

A4

 


Às vezes penso que tenho na mão a pedra para acertar naquele mundo sempre tão pequeno que cabe numa folha A4 reduzida à expressão das incapacidades primárias. 
Relego as sugestões com alternativas pacíficas, num verde harmonioso com sinal profusamente difundido para ninguém pisar.
Não sou ingénuo!
Mesmo distraído não sou estúpido!
Não repito a asneira!
Não ponho nada no assador onde não possa apartar percevejos julgados mais espertos do que o hipotético mais eficaz dos insecticidas.
Não perco tempo, não creio em fés que não tenham o meu consentimento.
Nem sempre acredito na minha totalidade.
Mas nunca admito outra possibilidade.
Portanto, 
não me acordem quando se forem embora.
Prazer em conhecê-los.
Admito que o erro foi meu.






,2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


sábado, 6 de junho de 2026

AINDA HÁ MUITOS POETAS DISTRAÍDOS

 


Coloco a cabeça no lugar 
e perfumo os sovacos como aprendi na televisão. 
E num estrugido feito em chama lenta, 
salteio palavras que nunca escreverei. 
A conexão entre o meu cérebro 
e o aparo da caneta, tem muitas vezes falhas no servidor. 
Tente outra vez. 
Está escrito na mensagem que não solicitei. 
Desligue e volte a ligar. 
Como se isso fosse fácil. 
Mas eu só sou um poeta 
sem a mínima ambição tecnocrata.
Não uso máquina de barbear 
nem frequento as lavagens automáticas 
para aparelhagens dentárias.
Sou mais pela utilização da insensatez 
que sabiamente me afasta 
das bermas da normalidade.
Bebo pouco zelo no whisky
e amparo o guarda-chuva
para jogar pénis de mesa.
Dobro folhas dos livros
com a pacífica intenção de as violar.
Organizo estes crimes na perfeição
e alfabeticamente desenho  um conspirativo manual
cientificamente guardadona prateleira 
F, do corredor O, nível D, Sector A.
Por acaso, não tem tido lá grande procura.
Ainda há muitos poetas distraídos.


Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

A NOITE CAI NESTE MUNDO DESABRIGADO

 


Que poemas poderei escrever, eu o miserável não arrependido, anónimo sobrevivente desta infâmia incólume, que queima a chuva que agarro com estas mãos prenhes de promessas inocentes. Alguém me valha no meu querer de não me salvar, com que humedeço lágrimas do céu que me agradecem o breve instante do arranhão onde guardo todos os beijos. Que escrevo eu, sonhador de tantos rebanhos? Amai-vos aos poucos com letras de sangue nestas palavras lambidas que escorrem pelo poema. Estado liquido, lacre queimado em todas as vírgulas, seladas gota a gota neste bico de bunsen. 
Tenho nas mãos a bíblia da sobrevivência avariada, uma chamada nunca atendida, suspensórios ilusórios e uma fisga sem pontaria, amiga da rota de colisão. Embrulho-me na razão excluída, no hat-trick fora de jogo com trivela mal parida, bandeira ferida e olhos aos molhos vendidos como couves na mercearia onde os nabos não conseguem sacudir a água do capote. Câmara retardada, lente constipada, transformadas em bolas de Berlim, percorrem ano após ano o santuário onde os anjos não querem dormir. Ok, Marta! Já o tenho seguro!
E caminho com um jerrican de 5 litros.
 Desculpa, já não me porto como dantes.
Longos dias têm horas indecentes, marés estupidamente teimosas e sonhos banhados em canelas açucaradas. Triste tempero em algodão hidrófilo, só para afinar os ponteiros do relógio que fugiu daquela feira.
Impulsos sonolentos não acordam os obstruídos mentais.
A noite cai neste mundo desabrigado com vidas de partidas choradas. 
De nada servem os poemas. 
E arrependimentos como habitualmente 
sem significado, devem ficar na tecla do voltar atrás, como é nossa usual conveniência. Recostados no controle do saldo do cartão de crédito, amanhã iremos ser de certeza moderados no fútil consumo, respeitando assim um minuto de insolvência. 




,2017,mai_.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

SOUBESSE TOCAR PIANO...


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

AFINAL NÃO SOU ATEU!

 

Afinal não sou ateu!

Acredito piamente em mim.

Não sou fã da solicitude nem de escrotos 

entupidos por falta de amparo. 

Gosto das fagulhas que desentopem 

qualquer esperança digna desse nome.

Claro que no que toca a sexo, 

ainda não dou a vez a ninguém.

Retoca-se assim a intenção 

e varejo as ideias que nico, 

como se fosse os mais bem educado 

dos mamíferos. 

As alvíssaras repousam delicadamente 

em fotos post mortem

à procura de melhores épocas.



2016,08aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 3 de junho de 2026

CONVERSA COM GINSBERG (SEC`ADEGAS _Fábrica de Alternativas_2021Agosto07)

Naquela tarde depois de as manhãs se cansarem, tinha na garganta o “UIVO para tomar o pequeno-almoço. 
Pedi então açúcar mascarado tal era a pena de nunca o ter conhecido. 
Concentrei-me num cosmos surpreendido pela minha curiosidade. 
Lembro-me que era muito novo e mesmo assim já lamentar o facto de não poder falar consigo. 
Nasci adiantado e isso foi-me dando muito trabalho. 
Mas tinha a sua ideia da América e li o “ON THE ROAD” na altura exacta. 
Diziam no escritório onde era paquete, que era excêntrico. 
O irmão e irmãs do meu pai, comentavam que passava a hora do almoço nos bares das putas do Cais do Sodré. 
Coisas da ignorância, como poderiam testemunhar o Madeira Luís e o Hipólito da então livraria Opinião. 
Senhor Allen: não é culpa sua que os quatro psiquiatras, que me escutavam, tinha eu 14 anos achavam que eu pensava diferente dos outros.
Nunca fiquei e o mesmo acontece agora, indiferente àquilo que quero gostar. 
Mas as máquinas IBM não operavam aquilo que a Patsy Southgate tinha escrito no poema. 
Cresci nos corredores do escritório o que convenhamos são copiosamente iguais aos dos supermercados onde ninguém oferece nada em troca da nossa beleza.
Tantas vezes fui alvejado a tiro nas costas por uma vontade não conseguida.
E tanto roubei num supermercado longe da sua Califórnia. 
Não visitei a campa de Apollinaire
Mas estive lá perto. 
E publicaram um poema meu sobre esse senhor. 
Não poderei enviar-lhe um sequer registo de um sonho, só porque de tanto sonhar a memória fica tão chateada que nem a mim me oferece um só.
E voltámos á América. 
E você sabe que é uma palavra em vias de extinção.
E eu sei que você até tentou ser bondoso.
Mas como diz o Frank O´Hara, a indústria pornográfica está em crise.
Nunca estive em Nova York, mas não me custa admitir que no verão em que a beijou ela estaria magnífica.
Depois disso, vermes devoraram a poesia.




2017,mar_.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com




Pull My Daisy by Allen Ginsberg, Jack Kerouac and Neal Cassady.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

AMAI COMO O OUTRO DIZ QUE AMOU

 


Candelabro incendiando um epitáfio escrito com nuvens de incenso e uma Ave-maria retardada no aviário do Freixial. Frangos com certificado de pédicure e joelhos sangrados nas mais estúpidas promessas. Eu estou aqui, aviso, para vender o vosso perdão. Criaturas lindas, formosas vaidosas e não seguras. Mas hipoteco--vos uma música do sétimo dia com variações culturais de índole sexual, dignas da vossa imundice orada por mim, para o jeito que vos aprouver. Vós sérias e honradas, que tanto acreditais na virgindade anal dos vossos maridos, amai como o outro diz que amou e nunca tenhais vergonha dos sonhos húmidos que o pastor enganador vos provocou. Ele o felizardo só estava no sitio certo para medir a vaginal temperatura da vossa curiosidade. Assim na terra, como no céu e na minha aldeia também.







2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 27 de maio de 2026

MILES ABANAVA O TROMPETE #Kind of Blue#

 


Miles abanava o trompete na noite em que a morte subiu ao céu. 
E tocava as notas da estrela-do-mar com sons de fogo-de-artifício.
Os sonhos bailavam no ar, perfumando a lua com os seus sorrisos.
De olhos fechados via-se o impossível e os joelhos tremiam uma dança que ninguém conseguia parar.
Abriam-se assim todos os parêntesis para o acontecer.
Miles dirigia o baile, celebrando na negra pele a arte de mestre-de-cerimónias.
Erguiam-se lágrimas rejubilosas e toda a gente pensava que o mundo teria um final feliz.
Coleccionador de almas deslocadas, descondicionador de sonhos em banho maria e de loucuras torradas num micro ondas ecológico.
Desenhador da não perfeição, mágico com pés de algodão, solitário no infinito especial, cartaz seduzindo ao longo da estrada do paraíso.
Miles tem na cabeça pergaminhos com pautas celestiais e sopros do “únicodeusverdadeiramentevivo”.
Deleitam-se os anjos num “festim nu”, onde bebem o néctar das orquídeas sentimentais.
E é tão perto o inatingível e é tão serena esta mania de sonhar.
Voam pássaros que ninguém lê, desenhando-nos os mais bonitos poemas dos poetas perdidos.
Creio em tudo o que me é possível.
Acredito que estou vivo.
E se deus não estivesse distraído, olhava para o lado para acreditar.
Ergo um salmo num cálice benevolente repleto de sombras que me desconhecem.
E solenemente aviso:
Já tenho poucos milagres disponíveis.

Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 24 de maio de 2026

ANNE WALDMAN LEVOU-ME AOS DEMÓNIOS (Casa Fernando Pessoa, 19Maio2026)

 


Um megafone com fala de anjo 
espalhou o choro sagrado da poesia.
Saído das cinzas, 
ágil como um tiro fugido da alma 
o poema será sempre um punhal. 
O mundo não passa de um 
horóscopo traiçoeiro rezado no santuário dos estupros homicidas.
Contudo, 
afirmam que, o amor está a um beijo de distância,
 embora eu só anseie fugir do abrigo da crueldade, 
feito esboço desconhecido, a baloiçar 
no andaime da incerteza. 
E o rufar do tempo que tudo rouba, 
desliza sem pudor para a desgraça da humanidade.
Triste fama embutida na vexada gratidão, 
esperando as noites sem dias para acordar.
Os sonhos despedem-se do pijama das mentiras.
Quando chegará a hora para abraçar 
a lua da liberdade?

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Alguém desenhou suores loucos 
no tapete dos desejos para o êxtase d
a multidão das almas vazias, 
enquanto os martírios enjoados 
remam para casa e os fantasmas 
que incendiaram 
a paixão no motel dos delírios, 
não cabem na manta da fidelidade.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Convém não faltar ao evento onde 
se comemorará a miséria do futuro.
É chegado o momento da partida!
O caminho é para os audazes.
Levar o que achar que não vai doer. 
Depositar os escombros na ampulheta 
dos prognósticos falsificados.

            Anne Waldman levou-me aos demónios.

Chorámos na fronteira da crueldade.
O pesadelo sintonizado no cenário mafioso 
suplicando aos profetasda idade da ilusão,
a torra da patologia dos governos 
que nos atormentam.
No harém das virgens desesperadas,
 um presságio bem-aventurado 
tenta confortar 
estrofes moribundas. 
No luxo de repouso absoluto, 
triste fica a despedida do momento 
que passa por nós ostentando as algemas 
da obscenidade.
Ó augúrios da carnificação, 
a urna dos convites continuam abertos!
Nada temais!
As asas do anjo falido, 
desta vez têm punições para a troca!
Procurem nos delírios da noite abusada, 
o brilho do céu da discórdia!
Sacudam da vossa impotência 
os muros dos mantras absurdos hospedados
na  Pátria desrespeitadora.
Ó eruditos dos aplausos penhorados, 
quando virá o cântico da purificada beleza?
Ó augúrios da imperfeição, 
a urna dos convites continuam à vossa espera!
Basta de massacrar as teclas da fugidia.
 esperança.

        Anne Waldman levou-me aos demónios.


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

FC 1970: Hugo Maia de Loureiro - "Canção De Madrugar"

 https://youtu.be/eCpfwD12QHI?si=QsItfI6Gm4jn0xUM

HOJE TEMOS PARA SI:

 

Bem-vindo ao self-service!
Hoje temos para si:

Sonhos enrolados em nenúfares da mais singela proveniência.
Atitudes mal pensadas enterradas num licor coq au vin.
Seduções panadas em pó de arroz cor-de-rosa.
Subtilezas assinadas pelo fotógrafo oficial.
Comentários jocosos no banho com a Maria.
Capas de revistas sociais com o toque original do forno do presidente.
Um par de pés com meias em perfeito estado de perfuração.
Vol-au-vent de aparas de unhas roídas.
Chalotas picadas sem dor nem piedade.
Pizza na brasa parada.
Fino carpaccio de línguas coscuvilheiras.
Canja de palavras com sílabas trocadas.
Canapés deitados fora de horas.
Cabidela à moda da Octapharma.
Croquetes de fígados maus arrasados em chantilly.
Suspiros abafados em beijos de absinto.
Coalhada de bagas de bacon enfeitadas com banana passa.
Batata-doce energicamente golpeada com chicote de beldroegas.
Vergamota hirta e facilmente insuflável.
Bobó com final de camarão e paródia de farófias.
Brioches na caçarola agilmente temperados em caldo de cálcio.
Empadas embutidas com molho húmido de rabo de boi.
Escabeche assiduamente envinagrado.
Escalopes escamados com toda a decência.
Estofado de obscenidades.
Estrugido cínico de elogios gelatinosos.
Gemadas aromatizadas em açúcar pernicioso.
Batido sempre à mão
Digestões bêbadas com preparado de enxofre.
Charros de erva-doce.

Sirva-se por favor


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sábado, 23 de maio de 2026

NOSTALGIA

 


Porque

Tens Sempre de Ficar Triste 

Nesse Destino 

Onde Viajas de Mão Em 

Mão?


,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

SOLIDÃO REVISITADA

Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Sem alma nem cor
É a lágrima queimada
Numa vela apagada 
Que nunca soube os cambiantes do amor 
É a mentira forjada
Que tu falas na noite acordada
Quando custa mais a dor
O outro lado faz-te sentir importante
Logo pensas que não és a única
Adias o problema
Para o amanhã que julgas distante
E jogas os desejos envergonhados
Fabricas outro dilema
Agora a felicidade está garantida
Se és loura  também podes ser morena
Envias a fotografia fora de prazo
E o manual de instruções para seres fodida
Agora tens mais um caso
Afinal tinhas razão 
Como é bom ser apetecida
Estás a começar a ter sorte
Hoje adiaste a morte
Só te resta o teclado & o monitor
E alguém estranho diz-se igual a ti
É a solidão revisitada
Contínua ausência de amor.


Outubro27.2006,aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sexta-feira, 22 de maio de 2026

OS ÚLTIMOS POETAS


Jorradas no chão,

lambendo lâminas enrouquecidas,
as estrelas solitárias
no picnic dos anjos da boa vontade,
cantam só para mim prosas simpáticas.
E no meio dos últimos poetas,
há um sax que grita
rejeitando toda a clemência.
E aparecem palavras que cortam,
e com este sangue abençoado,
serão escritos poemas
onde o tempo não pousa.
Continua o assassínio
nestas ruas envergonhadas,
de gente com alma
que só quer uma oportunidade.
E as feridas nunca serão curadas,
e os gritos arrumados no monte da ingratidão.
Sepulcros remexidos no meio de orações breves,
tão curtas como a circunstância
de só terem tentado viver.
E os últimos poetas
 soltam a poesia de todos os medos,
com todas as cores.
Na marcha fúnebre que os acompanha,
pensam com a esperança possível,
na sagrada indiferença
com que são considerados.
Os últimos poetas vão assim morrendo.
            E mostram rosários
                    de nenhum arrependimento.






,2017mai,aNTÓNIODEmIRANDA

poemanaalgibeira.blogspot.com

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O TERÇO DAS PENITÊNCIAS

 


Sou aquilo que de mim nem sempre me apetece. 
Assim como uma salada de ossos momentaneamente desocupados. 
Perspicaz imolador de anúncios, repetidamente a amassar o descalabro para o arrecadar num cântaro de cinzas. 
E, numa piscadela furtiva, saúdo a velha pele, cúmplice de parábolas nem sempre bem-intencionadas. 
[Assinámos um pacto anti tirania]. 
Dizem que anda por aí a surfar numa padiola perante uma quadrilha de olhares invejosos. 
O terceiro segredo jaz num apocalipse intervencionado por lápis de cera. 
O tempo não o deixa mentir! 
Ameaça- o com uma enérgica tempestade de pó dos livros. 
A alameda da felicidade foi raptada, segundo o relatório das notícias da raiva. 
E no lugar onde o nada não termina, estende-se a toalha para o manhoso piquenique onde é proibido ler poesia. 
Não nasci para dormir com a tristeza nem uso no pescoço o terço das penitências. 
Sei que a traição do silêncio se esconde na varanda dos ocasos. 
Na esquina da impossível espera, tenho na mira o nojo delicadamente calibrado apesar da miopia entregue por anos maus conselheiros. 
Enviadas pelos mensageiros da sagrada esperança, memórias agradecidas desaguam no cais da minha gratidão. 
Então, ergo para o céu desgostos sem fim. 
Mãos sujas que nomes poderão chamar? 
Na certeza de todos os enganos, longos dias poderão tornar as horas mais desalentadas. Até porque na dor do desejo, 
a beleza será sempre uma actividade inflacionária.

2025Mai._aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

A FALA DO ESPELHO (1)

 


O que imaginam de mim 
Naturalmente 
não me diz respeito!

Não sou nada 

E tu…

Ninguém.
  
Afinal somos dois



,2026Maio_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

quarta-feira, 20 de maio de 2026

CALMA CONSELHEIRA

 
Quando danças nas cordas da minha guitarra, 
os passos são as notas que invento, 
mesmo sabendo o nada que tenho 
para te encontrar. 

        Não há consolo nas memórias 
        que não se escrevem, 
        nem nas histórias dos pássaros 
        que desistiram de voar.

Aqui, 
no alpendre da calma conselheira, 
olho para um céu cheio de esperas
e desenho nas sombras,
nomes que nunca irão chegar.





,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira,blogspot.com

NADA FOI ESCOLHIDO


Vive-se a esperar.

Morre-se na demora.

Chega-se sem dar por ela,
ao pote das cinzas da memória.

Nada foi escolhido.



,2020Mar_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


terça-feira, 19 de maio de 2026

A PRETO E BRANCO

 


Não sei o que o amor tem a ver a com isto. 
Balbuciou enquanto discretamente mirava 
a  fotografia onde estava uma cara 
que de todo não lhe era estranha. 
Ajeitou a combinação 
e compôs com uma malícia atrevida 
o olhar com que acabava de o comer. 
Correu as meias como tinha visto no filme italiano.
A preto e branco 
onde aquelas cenas ficam para sempre na memória. 
Retocou os lábios 
com a cor que o grande Miró lhe oferecera. 
Deixou propositadamente a calcinha para o fim. 
Não fosse o diabo apetece-la.


,2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

A FALA DOS SILÊNCIOS

 

Sabemos da fala dos silêncios 
Das danças que nos despem 
Dos passos que nos perderam
O tempo escondeu-nos
Roubou-nos a alma ainda nós 
        Não sabíamos amar

Eramos gigantes aninhados
Em vasos regados por dívidas

        Flores do mal ainda sem poesia
        Aromas corajosos e atrevidos
        À procura da lua seguinte

Cheiros de corpos sem choros
Para recordar

Depois

    Depois assassinámos com
    Todas as letras a mais bela das palavras

SONHO


,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 18 de maio de 2026

LIMPEZA A SECO

 


Escondi os sonhos na mina dos desejos 
perdidos.

Bruni o desconsolo em suaves núpcias.

Salguei a vergonha no poço dos desejos

Tentei embrulhar os soluços que vestiam 
as sombras da tranquilidade.

Arrendei a vontade com juros gratificados.

Mas, ninguém compareceu à minha 
necessidade.

Penhorei a ideia da felicidade 
no congresso da agiotagem.

Sim!

Eu é que fui o farsante da última ceia!

Estava farto dos originais fotocopiados!







,2022Mai_aNTÓNIODEmIRANDA

poemanaalgibeira.blogspot.com

A poeta norte-americana Anne Waldman estará na Casa Fernando Pessoa, a 19 de maio, pelas 18h

 Anne Waldman é uma das figuras centrais da poesia norte-americana contemporânea — poeta, performer, ativista e colaboradora próxima de nomes como Allen Ginsberg e William Burroughs, tem sido uma voz determinante da contracultura literária americana desde os anos 60. 
Fundadora da Jack Kerouac School of Disembodied Poetics, na Naropa University, a sua influência atravessa várias gerações de escritores e artistas.
Esta sessão, organizada pelo Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (ULICES/CEAUL) com o apoio do American Corner, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), inclui leituras por Diana V. Almeida e Elsa Maurício Childs, de uma seleção de poemas de Allen Ginsberg, a partir do mote «O peso do mundo é amor / The weight of the world is love». 
Francisco Rebelo cria o ambiente sonoro para este encontro poético.
𝗔𝗻𝗻𝗲 𝗪𝗮𝗹𝗱𝗺𝗮𝗻 & 𝗢 𝗽𝗲𝘀𝗼 𝗱𝗼 𝗺𝘂𝗻𝗱𝗼 𝗲́ 𝗮
𝗺𝗼𝗿


Poemas de Anne Waldman traduzidos para português 
Augúrios Astrais 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Visões! augúrios! alucinações! milagres! êxtases! pelo rio abaixo da América! 
para o velho profeta Allen Ginsberg 
Um X como numa ampulheta. 
Milícias com um megafone no relvado 
Escondam-se, antes de rebentar 
Prognose pela terra, por coisas rastejantes que se escondem 
Numa ciência de areias, numa distopia fascista 
Chorámos na fronteira da crueldade, El Paso 
Chorámos na fronteira da intercetação, Minneapolis 
Um bando de pássaros como intervenção 
Porque eles registam liberdade 
Não te veem 
A tua língua é um grito 
Olha para os teus pés 
Contempla agora a tua palma 
O verso quebrado é um grito 
Uma figura de louça em forma de mão 
Representa o estouro 
Este é o pesadelo 
E todos sintonizados na América 
Como num passo de quadrilha a gingar 
Ágil no gatilho, a nova moda 
Esconder o sinistro cenário 
Antes de chegarem os tanques, gangsters à porta 
Eles falam de Júpiter prestes a expirar 
E do descenso de Vénus 
Inscrição de planetas errantes: para entreter 
Idade da miragem, sem vergonha, exposta 
Sem retorno ao olhar dominante, poupem-nos 
Galileu não teve perdão até 1900 e muitos... 
38 graus a entrar em Carneiro 
A mística empática náiade de Peixes esvanecendo-se 
Lua em Aquário 
& Caranguejo subindo para a alter-idade 
Ó nebulosa profecia, e cá em baixo? 
Ou lua-cheia outonal, serás tu omnisciente? 
Quando avermelham as folhas é um grito 
Ou os fogos escurecendo o infinito 
De Cameron Peak a Williams Fork1 
Chamas imparáveis grassam noite e dia 
Ominosos astros nestes dias, ámens astrais nestes dias 
A cinemática do assalto planetário não ajuda os dias  
As cordas cósmicas delirantes nestes dias 
Invocando os profetas das linhagens, Ginsberg, Snyder, Burroughs 
Guardiões do tarot & as artes mágicas, DiPrima 
O nosso bobo da corte, Corso 
Guerreiro Baraka, voltem a casa 
Da próxima vez, o fogo2 
Eu serei a angélica filha de toda a arte da adivinhação e vou lá 
Chovem cinzas na eficácia da noite, é também o que fazem 
Teoria das curas da Babilónia solar, lunar e planetária 
A recordar o período selêucida e parta, aprende os antigos signos 
1Duas formações geológicas do Colorado que têm sido devastadas por fogos intensos, nomeadamente em 
2020. 
2Alusão a uma antologia de ensaios de James Baldwin, 1963 
Torna-te sintaxe para poetas, gnose para poetas 
Estou na tua estrela noturna agora, na tua estrela felá agora 
E tentamos agora reinar num governo patológico 
Ser decifradores-de-asterismos 
Videntes-do-zodíaco 
Conhecedores-do-tempo 
Vates-da-poesia 
Com o 6 de Paus 
A roda da fortuna chega a girar 
Desafia a incerteza 
Distantes do nosso próprio 
Júpiter gigante de gás 
Vénus pedregosa paisagem calcinada 
Ergue-te num espírito de segurar firme 
Olha para cima torna-te uma miúda do abismo! 
Neste sonho de um horóscopo do mundo 
Um auspício ditoso seria um trono incluindo: 
1) Maquinaria para imitar a meteorologia  
(vamos precisar disto) 
2) Um santuário sem replicantes  
(escondendo a nossa vergonha de os termos sequer inventado) há que manter a conversa e 
o amor 
3) Queremos que o mistério do nosso poder se torne subtérreo 
(cristalomancia ex caelo) (pós-pressa ) 
4) libertar as mulheres e qualquer entidade visionária a gosto 
Lua das Colheitas novamente perto do início da legitimidade 
É preciso colher a safra pela noite dentro 
Safras de dizer como todas as coisas são feitas em parábola 
É preciso safras para a profecia rúnica crescer 
Safras para a disputa de abutres nos apoiar no voto 
Saberia Ormuz por pura omnisciência? 
Estações da noite em estado de repouso? 
A gélida Lua de coração azul ainda pende 
Hão de vir as crianças de coração caloroso 
Após séculos de des-uso, abuso, desespero 
Houve uma categoria 4 que destruiu o milho 
E tivemos o segundo mês mais quente no registo da história do mundo 
E quando abrimos a Reserva Nacional de Vida Selvagem do Ártico ao saque 
Os nossos corações afundaram, quando a tormenta sacudiu a terra 
Um sombrio horóscopo avisou-nos 
Como os cientistas poderiam avisar: “Furacões fantasma e paramilitares” 
morreram eram eram eram então 
Quando eles arrancam os inocentes das ruas 
Morremos com eles 
O que é a pátria? muro dentro de muro? 
Ou quarto das maravilhas? 
O belicoso armamento do reino-divinal aniquila-se a si mesmo 
Vendendo armas aos inimigos 
“Mantém a bolsa e a espada em distintas mãos” 
Não vá a guerra usurpar a terra 
Virar escombro original 
O adepto entrega tudo 
Morre para eles, morre para nós... 
Sincelos humanos atacam e quebram e prendem as pessoas 
Abram as portas, novas fronteiras, ó, eruditos do coração e do céu 
Augúrios astrais, augúrios astrais por estes dias! 
El Salvador, Guantánamo, Líbia, Sudão do Sul, 
Os centros de detenção crescem sobre a terra 
croac croac estranho grito de Seres lançados para os céus sobre as árvores  
ondulantes 
Om Bekandze Maha Bekandze Samud Gate Soha  
Versos de “Howl” e “Kaddish” 
Canto do Buda da Medicina 
Kali Yuga, nyeigme du (Idade da Discórdia), E.U.A., 2026 
Do álbum Astral Omens, 2025. 
//// 
O Manatim / Humanatim 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim movendo-se move-se meigamente 
o manatim pode encontrar-se em canais e áreas costeiras 
o manatim é um animal migratório 
o manatim é meigo e demorado 
o manatim demora-se em rios demorados  
o manatim é totalmente herbívoro 
o manatim do Oceano Índico não tem inimigos naturais 
o manatim não tem inimigos naturais senão o homem desnaturado 
o manatim sofre constantes ameaças humanas desnaturadamente 
o homem com seus barcos & plástico & atitude 
o manatim afoga-se com frequência nas eclusas de canais 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre com frequência nas barragens 
o homem que não dá margem ao manatim nem quer saber se o manatim 
vive se o manatim azar 
o manatim morre em colisão com embarcações 
o homem que não protege o manatim 
será o homem desnaturado um guardião da terra? 
o homem que não dá qualquer margem ao manatim 
o manatim morre ao ingerir anzóis 
o homem que desnaturadamente não dá margem 
o manatim morre do lixo e das linhas de monofilamento 
o homem de atitude torpe que não tem utilidade para o manatim 
o manatim morre enganchado em cabos de armadilhas de caranguejo 
o manatim morre por perder o habitat expropriado pelo homem 
estropiado pelo homem, o manatim podia ser propiciado pelo homem 
ó homem propicia o manatim penetra homem no coração do manatim 
uma cria de manatim nasce a cada 2-5 anos 
o manatim está em gestação durante um ano no ventre da manatim 
8400 milhas de águas costeiras dariam para o manatim 
11000 milhas de rios & correntes dariam para o manatim 
10000 milhas de canais poderiam todas servir o manatim 
o manatim tem mais massa cinzenta no cérebro do que o homem 
o manatim tem um pensamento arquivístico talvez mais profundo do que o homem 
os dias antigos do manatim milhares e milhares de anos 
que há na mente manatim, o que é a mente do manatim? 
o manatim não tem inimigos naturais 
o manatim é totalmente herbívoro 
o metabolismo do manatim demora-se, move-se demoradamente 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim move-se demorado nos rios movendo-se demorados o manatim é meigo 
as crias dos manatins podem mamar até aos dois anos 
o manatim aprende tudo com a sua mãe manatim 
a mãe manatim e a cria cantam uma para a outra 
os manatins têm grandes ossos auriculares 
chilros    
   cicios  
  chios de manatim 
o manatim demorando-se move-se meigo 
oscilações do manatim movendo-se entre orelhas de manatim 
orelhas de mãe manatim e de cria manatim 
os manatins são os nossos sirénios, e moram na casa das sereias 
onde estão os santuários humanos para os manatins? 
manatins  
sereias  
nereides cantando demorando-se 
a mãe manatim e a cria em tal união 
a fêmea manatim unida à sua única cria manatim 
o manatim encontra-se em rios rasos movendo-se demorados 
o manatim move-se nos estuários move-se nas baías de água salgada 
o manatim a mover-se na maior meiguice 
Estéreo  
Excerto de Manatee/Humanity, 2009. 
//// 
Tradução de Leonardo Lima e Margarida Vale de Gato 
O casamento o casamento é como dizem é tudo tudo em estéreo estéreo caem caem na 
cama cama pela matina matina porque trabucam trabucam toda a noite. A noite é um 
apartamento. Feito para ser casamento. O casamento é um apartamento & feito para 
pessoas pessoas lá lá entrarem porque quando casam casam o mais provável é haver comida 
comida para comer nas mesas mesas da casa. A casa será o apartamento que é noite noite 
descansada. Lá lá haverá uma cama cama & uma cama cama a mais um lençol lençol limpo 
ou dois dois para hóspedes hóspedes uma toalha a mais. Uma toalha a mais. Como vos 
acolherão? Haverá bebidas bebidas em barda trazidas por hostes de hóspedes hóspedes 
barris barris de licores licores & brandys brandys elixires acres e agridoce garrafa de Merlot 
Merlot café Bustelo. Tomem não me façam essa desfeita. Quando se casarem se casarem 
haverá prendas elegantes para a cozinha cozinha por vezes duas de cada coisa. Cada coisa é 
nova nova a estrear a estrear. Chavenazinhas, uma travessa finlandesa, um relógio, um 
tapete de entrada, obras de Arte. E livros ilustrados de Medicina admirável. Dicionários 
ainda mais magníficos. Quando se casarem se casarem haverá mais lençóis lençóis & toalhas 
toalhas sem sem cessar & quase quase sempre uma mascote de companhia companhia ou 
duas duas. Decerto que precisam de um telefone fixo & de um telemóvel quando se casarem 
se casarem. Duas duas duas duas linhas linhas linhas linhas. Precisam precisam de contas 
contas de e-mail e-mail separadas separadas. Quando se casarem se casarem terão 
conjuntos de coisas coisas, de mais lençóis & toalhas a combinar, terão coisas duplicadas, 
terão apenas uma toalha de mesa. Quando se casarem se casarem serão responsáveis por 
os vizinhos vizinhos vos cumprimentarem. Sorrirão sorrirão em uníssono uníssono ou talvez 
digam ele está bem, ela está bem, ah ile está bem, ah ela está de rastos com gripe, ah ele 
agora está a consolar um viajante cansado vindo do outro lado do Vale. Ela o meu marido 
não tarda nada, ele a minha mulher tá ocupada neste momento, o meu marido elu, a minha 
mulher trans estão muito muito ocupades ocupades neste momento momento neste exato 
momento. Quer dizer tchau, tchau. Quando se casarem se casarem farão farão sexo sexo 
sem demora demora. Terão uma caixa de correio caixa de correio & uma campainha 
campainha. A campainha campainha toca toca ela toca toca de novo uma segunda vez. Não 
têm de atender. Isso é claro pois quando se casam as pessoas pessoas percebem percebem 
que vocês não não têm têm de atender atender uma campainha campainha porque podem 
estar a fazer fazer sexo sexo sem demora demora. Ouvirão tudo duas vezes, pelos seus 
ouvidos & pelos ouvidos do par. Ela ou ele conforme seja seja o caso caso. Ele & ele & ela & 
ela como talvez talvez seja seja o caso caso. Depois de se casarem se casarem podem brincar 
com nomes nomes & chamarem-se outro nome se quiserem. Podem acrescentar um nome, 
ter um nome duplo com um hífen se quiserem. Podem abrir contas conjuntas quando se 
casam. O casamento não é garantia contra uma depressão. Uma evitação não é garantia 
contra nada. O casamento não é garantia contra uma decisão. Uma revolução é uma palavra 
palavra traiçoeira. Pronto, estão prontos prontos? O casamento é mais doce doce do que 
vocês pensam. Pensem. 
Hermenoia: Introdução a Mesopotopia 
//// 
Tradução coletiva de estudantes do curso de Mestrado em Tradução da Faculdade de Letras da 
Universidade de Lisboa, lecionado por Margarida Vale de Gato (2º semestre do ano letivo de 2025
2026.) 
Esta era mundial deveria ter sido candeias & cânticos & invenções & talismãs e intervenção & 
romance & sageza & civilizações & mantras de absurdos & destinos brilhantes & o plano épico 
tornado essencial vontade, vozes, votos. E através das eras um ritual para mergulhares o teu 
coração até te ergueres acima da resistência. E o tempo o teu problema o tempo deveria ter 
sido a tua elevação a tua apoteose fazer poesia de todas as formas e dança dos teus pés na 
corda e na história do espírito, e fios de sistemas abertos e trabalhar para atravessar as muitas 
horas da noite. Decorando, situando as palavras, a lua, o tear a canção & o cantarolar do 
pássaro de volta mais uma vez ao teu coração, humano. Tuas estrofes & voltas & viragens, 
humano. Adormecer sobre a asa, todas as alegres “mancias” — geomancia e qual é a origem 
deste sufixo? E qual é a tua origem na nua claridade do dia no negrume da noite? 
E existência, a continuação de como isto começa. Bicho-carpinteiro. O animal. O humano. Não 
faço ideia. Mas a guerra. 
Um berbere marxista, Santo Agostinho, confessando a sua paixão pela astrologia antes da 
conversão? “Esperava atacar e refutar e cobrir de ridículo todas pessoas dementes que fazem 
a vida com a astrologia”. Ai Jesus. 
Canção d’alba & do amante que parte para meditar pela Segunda Avenida, num velho 
scriptorium. E fazer isto torna-se um ritual e uma profecia para desarmar a morte. E a 
biblioteca que estás a construir são os documentos do tempo sagrado. Serão o medo & a 
paranoia permitidos nos documentos do teu tempo sagrado na Biblioteca da Universidade 
Livre? Documentos para viver, esconder, modelos de como te tornares todos os géneros e 
todos os amantes, ser carinho & empatia na biblioteca sagrada de géneros & amantes. Até ao 
que menos esperas, sem esconderijo agora. Aqui está o teu cartão, o teu cartão dourado para 
a biblioteca dourada de palavras. Para o Arsenal de palavras & livros dos arquivos. Aqui está o 
inventário. Lê. Uma corrida contra o tempo porque estamos em vias de alta velocidade. E eu 
apenas aproveitando o embalo pela Avenida A. 
Todas as pautas, andaimes erguidos nos versos em construção de uma torre num trabalho 
hercúleo de construir e arrasar e construir de novo. Sai do teu poleiro já acabou. Sai que isto 
treme, todas as pedras & os sons da origem. Transitando. 
Pauta 1 
Tradução de Diana V. Almeida e Margarida Vale de Gato 
Não prosseguiram novas transmissões. / Mas nós juntámo-nos. / Porque mais próximos do 
fim do mundo? / ou / novo horóscopo de “mundo”…? / Toda a gente pensa que a vida vai 
acabar no nosso tempo de vida, somos os últimos / Um auspício ditoso, uma nova sessão / 
como tornar-se invisível sob vigilância / Estudámos uma insidiosa meditação de trono 
incluindo maquinaria e “mensageiros” cristalinos / todos quitados para imitar e traduzir a 
meteorologia e depois toda a gente acha que és alto manda-chuva / eles podem fazer isso, 
fumo & espelhos / atentos à cinemática de planetas desesperados, / uma fuga da prisão, 
alucinação guiada / ou acordes cósmicos ou cura ou cenas mais práticas / O templo do 
morcego ensinou-nos / mais, aprender a viver perto dos outros de pernas para o ar nos 
augúrios astrais / que já há um século emitiam TU TENS DE ser gentil / estudar estoicamente 
atos divinatórios, esperando as respostas vir mas tu és um veículo-pronto / E outros têm os 
seus propósitos e tu tens de regressar à aterragem lunar uma vez mais / E às técnicas que 
aprendeste no terminal / lá em baixo em Wall Street. 
“Triste fica o deus do rio  
que passa por nós remando” 
in Mesopotopia, 2025



Sobre os participantes


Anne Waldman publicou o seu primeiro livro de poesia em 1968, On the Wing, e em 1973 a antologia de poemas escolhidos, Life Notes, seguido pelo “mini-clássico” Fast Speaking Woman, primeiro em 1978, depois em 1996, pela mítica editora de Lawrence Ferlinghetti, City Lights. Entre as suas obras mais recentes, aliando o longo fôlego e experimentalismo dos “outriders” em campo aberto a uma investigação das maneiras de nos relacionarmos entre géneros e espécies, contam-se Manatee / Humanity (Penguin Books, 2009), Bard, Kinetic (Coffee House Press, 2022) e Mesopotopia (2025). Ativista por várias causas, como o feminismo, o antinuclear e a luta contra a indústria fóssil e as alterações climáticas, integrou o movimento Occupy Art. Co-fundou com Allen Ginsberg e Diane diPrima a Jack Kerouac School of Disembodied Poetics at Naropa University, a primeira universidade de inspiração budista no Ocidente, e é também uma das mentoras do Poetry Project at St. Mark’s Church in-the-Bowery.

Diana V. Almeida, doutorada em Literatura e Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lecionou no ensino superior entre 1997 e 2020. Corpo Contingente: 3 Ensaios Feministas está prestes a sair (Húmus). Cosmos e casas (Urutau, 2021) e The Least Gesture (Dancing Girl Press, 2026) reúnem alguns dos seus poemas e fotografias. O Compasso do Amor: Guia para Alinhamento Interior (Edições Mahatma, 2025) propõe reflexões e exercícios para uma vida mais radiosa. Facilita desde 2014 o Escrever o Coração, unindo criatividade e mindfulness. Agora, dedica-se à escrita, à tradução, à fotografia e à magia.

Elsa Maurício Childs estudou Línguas e Literaturas Modernas e cofundou e dirigiu a escola Verdes Anos. É cofundadora do Projeto Eco e fundadora do InVerso (que dirige), coletivos de Teatro Playback com particular foco no trabalho na área da saúde mental e dos direitos humanos. É Formadora Acreditada de Teatro Playback, pelo Centre for Playback Theatre, em Nova Iorque. É professora da Escola Ibérica de Teatro Playback, com quem começou a sua formação em Playback no início de 2017, e membro da Direção da Associação Ibérica de Teatro Playback. É cofundadora e membro da Direção da Corda Teatro e do grupo feminista Eufémias, que programa o Festival Eufémia, em torno das questões de identidade, género e resistência nas artes performativas.

Francisco Rebelo, nasceu em Coimbra em 1963. Iniciou a sua formação musical na Escola de Jazz do Hot Club de Portugal. Em 1995, formou a banda Cool Hipnoise; em 2000, os Spaceboys. Entre 1999 e 2003, trabalhou como produtor e técnico na Galeria ZDB. Atualmente, integra os grupos Orelha Negra, Cais Sodré Funk Connection, Micro Audio Waves e Fogo-Fogo. Em 2026, vai lançar um LP de spoken word em parceria com o poeta Tiago Gomes. Tem colaborado com diversos artistas, como Jorge Palma, Nuno Rebelo, Rádio Macau, Branko, Valete ou Lura. É também produtor e formador (Restart, OPA-Sons da Lusofonia).