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sábado, 21 de outubro de 2023

O PREGOEIRO ENGANOU-SE NO LOTE

 


A arte de amar debaixo de uma mesa 
de Ping Pong escutando 
o testículo esquerdo a ser ripostado
por uma raquete empunhando 
um Rolex apodrecido, comprado 
por pura vaidade num leilão de arte 
extemporânea.
O pregoeiro enganou-se no lote.


2016,09aNTÓNIODEmIRANDA


O CHÁ DA FUTILIDADE

 


O meu amor come sushi e rega-o com mijito
E eu sinto-me beatificado no meio deste 
cozido à portuguesa. 
Obrigado meu bem pelo teu zumbar 
de mosca bêbada.
Temos um mundo tão belo 
e um caminho com tanta luz 
para iluminar a nossa estupidez.
Abençoadas sejam as nossas crianças 
tão parecidas com os filhos 
dos três mosqueteiros quando bebem 
o chá da futilidade.


2016,09aNTÓNIODEmIRANDA


NUNCA SORRIO PARA MIM DESCONFIADO

 


De onde saio?
Do tempo infame ou terei de continuar no corredor das fintas curtas e golpes de rins vendidos em qualquer talho? Mastigo sem gosto a sopa de letras que não sei ler e nos passos em cima da linha, alinho contradições que só a mim dizem respeito. Longe, naquele lugar que às vezes encontro e que de tanto o achar, o desencontro, procuro uma lucidez que não me dê muito trabalho. Sento-me na paragem da espera do tempo, agarro o fôlego e envio para o céu códigos escritos com a nuvem dos cigarros que fumo. É sempre necessário admitir que nem tudo o que me seduz é ouro. Já tenho a pele com a certeza do couro e demasiadas pulseiras antagónicas para soletrar penas nunca cumpridas.
O bom filho a casa rouba e a mais não é obrigado. 
Sou um desalinhado com algum jeito para centrar exacto o esférico em direcção à cobiça adversária. Os estúpidos  não compreendem os meus contrários, e assumo quando me apetece, que a minha aspiração na vida nunca foi corriqueira. 
Gosto do que sou amo o que gosto mas isso é tão banal que nem importância lhe dou.
Finjo que não ouço mas nunca me esqueço.
Aqueço o espelho para que o vapor não mude a risca do meu penteado.
Nunca sorrio para mim desconfiado 
e não confio absolutamente nada 
num relógio que admita enfeitar o meu pulso.



,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA


NA CAMA DA POESIA

 


Na cama da poesia
nunca se dorme
sem sonhar.

E é assim,
que o poeta descansa
enquanto as palavras
enfeitam os sons do silêncio
e pintam caminhos
a condizer com a maginação.

&
o poeta,
assiste a isto tudo,
nem sempre
com um sorriso
nos lábios.



2017,jul_aNTÓNIODEmIRANDA 


SILÊNCIO VERMELHO

 


Infernos íntimos sem ponto de fuga. 
Há quem nunca tenha saboreado 
o significado da esperança. 
Construímos ninhos noutros corpos, 
com  a mão que treme quando te tiro a roupa, 
fazendo da pele uma luva qualquer, 
que lentamente enternece todo o amor solitário, 
entre paredes que miram o nosso voo, 
como se fosse secreto este desejo. 
Ninguém verá a nossa máscara. 
São tão pontuais estes dias 
que a pausa não pode acontecer. 
O que impede outros passos? 
Quero que continues a vir todas as tardes 
e dizer-me este silêncio vermelho das rosas. 
Quando partiremos a jarra com este cheiro 
bolorento, onde murcham as outras flores?



2015aNTÓNIODEmIRANDA


VULGARIDADE DE BASE

 


Não podes conduzir o meu desgosto nem sequer impregnar qualquer sentido para além de toda a espera com que me construo. Não vivo a consignação. São repetidos e sem nenhum gosto estes gemidos com que cozinho multiplicações de somenos importância. Sente-se o teu olhar bafiento mal escondido nas lentes escuras que reflectem o leque da mentira. Não são assim os dias que acordo quando agarro as possibilidades que me compõem. Não é o teu trote de hospedeira nem o  cheiro de um perfume imbecil que me incomodam. A nulidade é o fruto que trazes sempre na mão como se a felicidade tivesse hora para acontecer. Não interessa o tamanho quando a intenção é sempre menor. Deitas o tempo do nunca num depósito que ninguém esvazia. E ao volante do cabriolet nem o trânsito diriges. Constróis uma área inactiva onde passos ensaiados marcam a nudez de um rasto gasto pela tua constante agressão. Seria mais fácil uma opção mesmo violenta para que a dor também não fosse passageira. Estou no autocarro, numa fila alheia à minha vontade, envolto em conversas sem circunstância e dedos riscando no teclado palavras demasiado fáceis de escrever. 
Quanto mais dias nos dá o tempo, mais significados nos rouba.
E isto não é uma vulgaridade de base.



2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA


LIVRO ABERTO

 


Raparigas que tenham uma certa necessidade,
se forem de maior idade, 
podem contar com a ajuda solidária 
da bicha solitária: um bom édredon
cortejado pelas melhores penas,
um gravador de som
com os gemidos da antiga Atenas,
sonhos com eczemas,
sapateados grelhados
e palmas com salero nupcial,
acordeão electrónico para os ouvidos 
mais acordados e chicuelinas 
servidas num rodízio à descrição.
Caso continue a contrariedade 
pomos à vossa inteira disposição 
uma limonada diurética,
genuinamente asséptica com  sabor programado
a lingerie ainda por lavar.
Cuidamos de vós com toda a devoção
caramelizada e desinfectada 
numa lavagem automática.
Arrendamos emoções 24 horas por noite.
Valide a sua sanidade.
O que sobrar é connosco.
Confie em nós!
Somos um livro aberto!
… Embora com todas as páginas multadas.


2016,09aNTÓNIODEmIRANDA