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domingo, 14 de agosto de 2022

A FUGA PARA O EGIPTO

A virgem fugiu com o menino para o Egipto,
num tuk tuk.

O jumento, que não era burro,
delicadamente recusou este tour.

José atónito, 
mirou o incógnito.

Herodes desesperado,
deitou fora o gps.




.2015aNTÓNIOdemIRANDA

FRACASSOS PINTADOS


Fracassos doloridos pintados em versos hábeis,
onde lemos suposições cheias de cinzas,
 ironias absurdas com inocências irrespiráveis.
A vontade não alcança tanta pequenez.
Os limites são formas sem cor, dilatam-nos as veias. ...
Não faz sentido tanta procura da razão.
Temos a febre e esta geralmente não nos consegue.
Caminhamos com sapatos ao pescoço,
e procuramos esta conveniência em feiras,
onde se vendem nuvens em forma de couve-flor.



.2015aNTÓNIODEmIRANDA

Algures, em Lisboa.


BORIS não é ( le) VIAN (o)

BORIS não é ( le) VIAN (o)
Claro que há abraços que choram.
Temos noites que queimam a lua quando ela consegue esconder o último negativo do medo. Um banco sentado no jardim, sorri para “As Formigas” que escutam a velha canção. Tapámos o espanto que nos adoça a boca, já limpa dos lábios de vinho. A sina envelhecida, mesmo falida, brinca na “Erva Vermelha”, como se o “Outono” só acontecesse em “Pequim”. Boris está atento à música do Vian, lá no clube onde toda a gente “Cospe...
na sua própria “Campa”. Sullivan, mastiga a pastilha requentada, e num hino para os desertores da felicidade mentirosa, espalha no Boulevard de Saint Michel, teclas de um acordeão abandonado pintadas com “Blues para um gato preto”.
Alguém continua a morrer fora da notícia.
Claro que há sorrisos que mentem.
& o pavor, no verbo da ousadia ausente, tem no tempo sempre presente, “O arranca corações”.
 
2018Jul_aNTÓNIODEmIRANDA
 
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A MORTE NÃO ACABA AQUI

 
I
Cuida de mim disse o futuro enlutado no testamento – toma conta de todas as vírgulas – dos choros que escondeste – mesmo dos pecados a fingir – dos abraços falsamente coloridos – das opções hipoteticamente honestas – das orações fraudulentas que falharam o meu adormecer
Tem cuidado com a minha debilidade sentimental - com a inconstância da felicidade engolida em amargos travos de solidão
Cuida de mim - Estou confortavelmente só neste monte vestido de ruídos que acariciam a encruzilhada onde o diabo benzeu a cruz - Abandonei-me neste hangar de pássaros machucados - gritos sem som deitados no cobertor da minha angústia - Treme tudo nesta voz - gotas de frio nojento aconchegados na bandeja - A serena manhã espera por mim - 
É tarde para adormecer - 
Sempre! Sempre cedo para despertar - 
Enrolo horas na espera dos dias fictícios -
A morte não acaba aqui
II
Talvez um dia seja feliz, disse a voz que arranhou a porta do céu.
A beleza zangou-se com a impaciência, e espalha um sentido vazio, diluído em lágrimas de chantilly certificado. 
Cânticos de júbilo arredondam copas de árvores cansadas de tanta seca. 
Aqui, no lugar de nenhures, caiam-se sorrisos plantados no musgo. 
Vai longe o tempo que nunca nos encontrou, aqui, neste céu sem ninguém para saudar. 
Leva-me contigo, pousa a velha e cansada voz nos meus cabelos. 
Tanto que gostava de encaminhar o teu brilho, mas a luz que pintei fugiu da tela, e, sem me avisar, riscou do calendário o dia seguinte. Deixou uma estrela que devora paixões. 

O que é feito de ti? 
Diz a alma gentil que fingiste.

,2020Ago_aNTÓNIODEmIRANDA

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

UM ESTRONDO NÃO INVENTARIADO


Costumava escrever com palavras de sangue coalhado, os duelos que ganhou naquela varanda fugida do véu. Não falhava um episódio da série preferida, e saboreava aquela carne picada dos mortos saltimbancos, com cicatrizes iguais ao medo que o agasalhava. A ementa saudável jazia no vazio daquele restaurante de garfos sem nome, e colheres litografadas na fome, que queriam, clandestina. Um osso de áspero apetite, uma lágrima salgada no caixão da sobremesa, um pénis devoluto, farto de não ser usado, uma sopa de dentes temperada com a piorreia, a granada escondida na panela aquecida num fogo dorminhoco, e um prato sem nada para encher. Bombas preenchiam o vazio da noite só com sonhos proibidos, porque o cansaço era mais eficaz do que o sono. Uma terrina mergulhada por dedos, mesmo sem a ténue esperança de matar o desejo. As mãos atadas para uma reza sem ocasião, abraçavam a morte amofinada pelo desespero. Sorrisos hipnóticos, encenados por luvas brancas no circo do palácio das fantasias. E o cerzir, não muito conseguido, das ideias que procuravam outra realidade.
Nada receies, dizia o medo que não querias perceber.
Um estrondo não inventariado.

2018Mai_aNTÓNIODEmIRANDA