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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CEMITÉRIO SEM LÁGRIMAS

 


Deixei de abandonar memórias, 
fustigar corações tatuados,
nos sorrisos que pretendiam enganar a desilusão. 
Cortei-me nos modos possíveis, 
menti algumas maneiras, 
mas, o sangue preso nos pulsos 
queria a liberdade de um só momento, 
de uma única altura, 
que rasgasse a correia demasiadamente atada 
a uma vontade que não posso admitir. 
Estranha forma de vida, 
esta que recusa ensinar o meu morrer.
Pássaros bêbados acompanham-me até à cama. 
Não fazem perguntas estranhas 
nem comentam a beleza do meu triste choro. 
Nada encontro neste outono 
que não se cansa de me procurar. 
Deixa sangrar. A raiva tem o nosso nome, 
e a razão está cansada das lisonjas. 
Não passo de um simples curioso, 
agrafado ao que resta deste apagão. 
Cansa-me esta coreografia, 
amorosamente com sabor a pecado.
Equívoco continuo,
ilustrado nestes defeitos encadernados.






,2021Dezembro_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 2 de novembro de 2025

COM QUE ENTÃO DIZES QUE SOU POETA!

 


E eu aqui, sentado na despedida da memória, a desviar o degrau da desilusão. Tenho nos dedos todas as palavras que não quero. Uma ardilosa ferida salpica os passos que penteiam o inconveniente convite. Falo-lhe deste cansaço num envergonhado supor, só para disfarçar a dor que me despede. Não acredito nas promessas oferecidas pela sombra desconfiada.
Mereço outro tipo de indignação.
COM QUE ENTÃO DIZES QUE SOU POETA!
Esta alma já não me habita. Um velho caminho acompanha o meu alento. Uma fúria inconsolável sacode o coração de pedra que não pára de chorar gotas de zombies caídas dos crucifixos mal-educados.
COM QUE ENTÃO DIZES QUE SOU POETA!
Todas as possibilidades fora de mim não têm de ser um filme. Eu apenas tento sobreviver fora da aberrante léria cultural dos nomeados pelos ministérios reguladores do narcisismo literário.
(herança apodrecida no corredor dos ornamentos contaminados do museu da pobreza poética).
Nunca renego a lucidez insubmissa que celebra a contrafacção dos propósitos inúteis.
COM QUE ENTÃO DIZES QUE SOU POETA!
Agora arranho sonhos vazios que só falam mentiras.



,2024Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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SAUDADE NÃO DECLARADA

 


Será verdade que um dia me verás com a distância dos anos, com que o tempo apagou todos os momentos, não restando sequer uma das palavras que ousámos dizer. Secaremos histórias num estendal de saudade não declarada. Já não somos peças imprescindíveis ao nosso inocente jogo. Só estas horas nos toleram, fazendo assim acontecer noites de quase perfeita anonímia.







2015aNTÓNIODEmIRANDA
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TALHO E DELICADEZAS

 


Ser calista foi meu sonho 

Mas não foi esse o meu fado 

Fui parvo e só por isso 

Entreguei-me ao imprevisto 

E comecei a andar desconfiado

Não chorem por mim, não chorem 

E também não tenham dó 

Ao princípio custou um bocado 

Mas agora que estou habituado

Nunca mais me senti só




,2024Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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LÁPIDE PREMATURA...

 




quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Indiara Sfair e Tiago Juk - Cocaine by J.J. Cale

ESTRELAVA NO CÉU BEIJOS AGRADECIDOS

 
Não passo de um ruído espalhado pela vida, que, mesmo no paraíso precisa de amigos.
E no alarido de um coração picado há um cavalo que foge da sela que o quer trair. 
Subtrai a ternura suicidante que lhe apaga a chama efémera e num grito desenfreado salta a angústia como se fosse arte poética. 
E agora cansado chora o libelo da maldição que o fez prender. 
Saltou o mais que pode a cerca que lhe toldava o horizonte e só agora pode beber num gole total a imensidão que lhe vendaram. 
Feito poeta e na ausência do juízo normal aquece no galope sonhos há muito guardados. 
Aparece de quando em vez nas quintas-feiras da poesia possível e fingindo que não chora, abraça qualquer presença. 
Na forja que lhe derrete a alma espalha todos os poemas que cabem no seu mundo. 
Apenas um sossego aqui na terra depois deste deus louco irmão de todas as morfinas e crítico apreciável dos benefícios da marijuana, longe da masturbação das agulhas beijando na fornicação a cara sem sangue que desliza pela parede riscos indolores de uma salvação com doses para uma semana. 
Pedaços que exibe na mão foram um poema nunca sujo, escrito em moedas que mancharam a carne que pensava o amava. 
E agora não consegue saltar os muros do sonho neste cenário de bêbados circuncisados. 
Nesta escrita de raposa com a permanente promessa de não ganhar qualquer Grammy, perde-se nesta sensata e inútil razão que se perpetua na pele. 
Deus não existe! 
O diabo é que às vezes se esquece de ser mau! 
O inferno é aquecido por um micro-ondas. 
E as formigas diligentes lêem notícias sem sabor. Dizzy e Parker sabem do que fala. 
E eu não minto tanto assim. 
Naquele tempo Nina Hagen vagueava pelo Harlem e beijava todos os pretos que tinha no coração. 
Miles tinha escrito nas bochechas que a infância nem sempre é um acto saudável. 
Berry no seu “Duck Walk” olhava docemente para certas teenagers que fingiam ter “Sexteen”.
Ás vezes sentia no corpo um fato que pertence a outro, quando o dia lhe corria tal mal contrariando a mais optimista previsão do relatório do tempo. 
Era quando o vento fugia da morte e empurrava esta mania de pensar que sabia quem foi. 
E molhado por esta invenção, entregava ao deus- trará, protocolos falsamente assinados da sua presença. 
O gato de Ferlinguetti poderá testemunhar a afluência inaudita na agência de turismo onde costumava urinar. 
O calor do seu orgasmo aumentou a temperatura do deserto que foi a cama que nunca cheirou a sua solidão. 
Eram noites sem janelas onde a memória acaba por fugir. 
E assassinam gemidos de guitarra sangrando o ventre até aos dedos que só a queriam acariciar. Agarrava os blues do Mississipi e snifava o pó dos velhos “Vinyls” que podaram a sua juventude. Retornava á velha casa e beijava o som roufenho que chorava naquele velho gira-discos, só para voltar a escutar de novo aquela música.
No caminho de volta encenava estrelas e falava com todas as palavras possíveis. 
Estrelava no céu beijos agradecidos.   



,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
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