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domingo, 6 de junho de 2021

TENHO SAUDADES DE SER FELIZ

 

Por vezes,


escrevo


lágrimas.


2019ago_aNTÓNIODEmIRANDA


UBER EATS

 Chegou ao céu
&
ordenou 
que pintassem outro
azul.
Mandou
alcatifar
o lado direito,
usou
o ambientador 
dos cheiros esquisitos,
&
encomendou pela
UBER EATS
uma salada de preces
com molho despreocupado.
Sentou-se
na poltrona da paciência
e começou a jogar
aos milagres cruzados.
Mais tarde,
ceou uma sopa de letras
não purificadas.
Como sempre,
antes de se deitar,
desligou o chuveiro
das notícias incómodas.



,2019_ jan_aNTÓNIODEmIRANDA


WHISKEY BLUES

 

Sou o gajo que te ama às escondidas,
abafando a vergonha de não gostares de mim.
São só lágrimas que te procuram,
e ciúmes, quando danças com outro,
que não eu.
És a minha sombra,
na noite que tudo promete.
Cuida do meu dormir,
cansado de tanto
desejo.



,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA


sábado, 5 de junho de 2021

SOU EU_ MADALENA ÁVILA

E assim se jantou. 04Junho - Adega Típica de Algés

 


VOAR CONTRA O DESTINO

 

Elevar o veneno.   
Traço para aspirar.  
Encher  
o balde. 
Sujar até atingir o zero.
Entrelaçar genitais burgueses. 
Sentado num charro de erva, 
com um índio que parece um anjo, 
cujo primeiro acto de traição foi o ter nascido. 
Estou em guerra com toda a contemplação, 
e contento-me em fumar a minha alma nesta alucinação não odiosa. 
Quebrar o estado de sítio estampado numa frigideira com banha de porco. 
Corpos fritos, atados com arame, 
no anexo da podridão. 
E aterrar sempre fora da pista, 
numa capotagem perfeita.  
Saquear os fornos do pão sangrento. 
Ungir a loucura 
e santificar todos os beijos 
no altar dos enlevos não mentirosos.
Ó cogumelo celestial, 
estou louco por chegar até ti, 
e sair deste voo de excrementos pisados. 
Descalço ao som da bateria do Max Roach, c
urvo-me perante toda a ousadia,  
e carrego no botão do gancho do umbigo, 
uma dose anímica  de alegria em conserva.  
E procuro na pedreira, 
a esmeralda preferida da primeira dor 
que pretendo esculpir. 
Estrondo paralisado no rabo da sombra, 
imaginação de veludo pregada com laços. 
Abandono a faixa da rodagem correcta, 
e distribuo autógrafos escondidos 
nas sandwiches da realidade confrangedora. 
Princípios rígidos, desdenhosos, 
atirados à poeira. 
Rendição agachada, zombies maltratados com anúncios encharcados na testa, 
amontoam-se na prateleira dos delírios 
prontos para o banho da guilhotina.
É chegado o tempo de esmaltar as orações recolhidas, 
e voar contra o destino. 

,2019_ jan_aNTÓNIODEmIRANDA


segunda-feira, 31 de maio de 2021

MEMÓRIAS DE UMA BEATNIK


Eu e a Diane Di Prima
Num quarto escuro
E com a televisão apagada.
Não me lembro!
Será que foi mentira?
Queimámos artifícios de poemas,
e com a ajuda das barbas do Allen,
escalámos uma parede do Chelsea Hotel.
Lá para os lados de Brooklyn,
Timothy Leary procurava fósforos ungidos,
para aquecer a neve que lhe fugia dos pés.
Em Central Park,
esquilos simpáticos ofereciam rugas do velho jazz,
embrulhadas em papel de amendoim.
O sol acordou tarde naquele dia.
Tinha estado numa jam com Charlie Parker.
Eu e a Diane Di Prima
Num quarto escuro.
Há invenções
que me permitem
o sonho. 



,2017mai,aNTÓNIODEmIRANDA