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sábado, 30 de novembro de 2019

QUE DEUS ME ASSOE! (Eu moro em Mitraflores)

Sem pressa, enrolo-me na viagem desta pedra. Peço para sentar-se na minha cabeça e aconchegar palavras que querem fugir dos desgostos da memória. Navegar no prometedor entardecer, comer luas com colheres de prata, e, celebrar cortesmente a noite especial. Enterro beijos no fim do fundo, enrodilho uma corda ácida na vagina da angústia, até naufragar a normalidade, no copo da derradeira esperança.
Admirar o silêncio.
Aplaudir com luvas de cerimónia, a escorregadela triunfante na passadeira do triunfo dos porcos.
Que deus me assoe!
(Eu moro em Mitraflores).
Admito não ser digno de tanta compaixão.
Sou um mero executante, do êxtase mirabolante, desta miopia cada vez mais enfadonha. Sensível ao tacto, atrevido no acto, assíduo enjoado e maldizente das Black Fridays. Nasci assim, feito numa ementa limitada. Naquele tempo as virgens não usavam cuecas, e as putas, depois de foderem os apóstolos, enfeitavam altares nas horas de folga. Os sacristãos eram pagos a tempo e horas, perante a inveja do corcunda de Notre-Dame, que, peremptoriamente afirmava que a sua, tinha mais 2,5 cm do que o dedo indicador do Nelson Ned. 
Vejam bem o desplante deste artista! 
Ainda o grande Pedro Álvares Cabral, frequentava as primeiras aulas de surf na piscina do Sport Algés e Dafundo. O que uma mentira pode fazer! Estou é mesmo preocupado com os peixes do aquário Vasco da Gama! 
Dizem-me que ele morreu arrependido depois da cagada do Oeiras Valley ! É possível que sim. Mas, o Isaltado de Oeiras, quando esteve no estágio da Carregueira, não teve tempo para estudar o assunto?



,2019nov22_aNTÓNIODEmIRANDA

SONO CARAMELIZADO

Tenho sonhos estranhos,
contou a ideia cansada.
E assim adormeceram,
abraçados num sono 
caramelizado
de pipocas
extenuadas.




,2019nov24_aNTÓNIODEmIRANDA

PERDA DE TEMPO

Dia após tempo,

cultiva o vazio 

para o amanhã 

das raízes sem presente.




,2019nov24_aNTÓNIODEmIRANDA

ELA DIZ:

não me conheço, neste corpo queimado por infindáveis alucinações, que não deixam descansar esta inquietação. 
Ignoro-me, num subúrbio desleixado, 
sempre à procura do afecto perdido. 
Varro soluços para a vala da identidade.

Ele  diz:
o direito a ser feliz fugiu para o canto da sereia, que nunca aparece. Um abraço doce daria jeito. Um beijo aquecido numa nuvem de algodão. 
Um solo na guitarra do Ron Wood. 
Um cumprimento do riff do Keith Richard. 
E, sobretudo, um passeio sem cadafalsos.

Ela diz:
perdi-me  naquela luz, no sabor da refeição branca, na promessa adiada, no gostar de pensar em ti.

Ela molha-me os ombros, 
e respira lágrimas que ainda não sabe, 
são só nossas.







,2019nov22_aNTÓNIODEmIRANDA

CRUZ

Tivemos os sonhos errados.
Os culpados foram os avisos 
que não lemos.
Esperei por ti na encruzilhada,
apertando a mão
daquele que enganou o perdão.
Tentamos secar o pranto que nos afastou,
amaldiçoando o caminho do diabo,
como se ele fosse o culpado
da nossa distracção.
Eu sem ti, continuo, 
mesmo quando matreiramente foges, 
para abraços que te animam.
Haverá alguma cruz
que carregue as nossas dúvidas?
Procuremos algo de bom,
que corte sem ferir, 
esta mania de gostar,
alheia à pretensa bondade dos imbecis.
Para então dizer:
nada fizemos em vão.



,2019nov22_aNTÓNIODEmIRANDA

A RECEITA (Trumpperware)

Cozinhar para mim, só pode ser um enorme prazer. Permite-me comer aquilo que me apetece. Quando não estiver para aí virado, fujo do fogão. Nunca cozinho o mesmo prato da mesma maneira. Altera o tempero, e, sobretudo a minha disposição. Dizem que o faço bem, mas, a grande verdade, é que o contrário nunca aceitaria. Tenho dias em que as coisas fluem como devem ser, mas, aqueles que recordo, são os que correm melhor. Portanto, após os elogios do prato que saborearam, QUANDO ME PEDEM A RECEITA, eu, na minha humilde qualidade de fazedor de qualquer coisa parecida com cozinhar, limpo a gordura das orelhas, disfarço o cuspo das mãos, retiro as lentes do tacho, engrosso a calda com pelo menos 3 macacos do nariz, introduzo um ramo de cabelos aconchegados com o creme de bacamarte, e, com a sinceridade possível, peço ao inquisidor para anotar no papel:
UMA CEBOLA!
TIRA A CASCA!
BOTA A CASCA NO LIXO!
PICA A CEBOLA ATÉ A FACA GEMER!!!
&…
Então e agora?
Bota o picado num trumpperware
e enfia-o no frigorifico.
Nunca se sabe o dia de amanhã.



,2019nov22_aNTÓNIODEmIRANDA

VELHO TRUQUE

Sou a pegada de um vagabundo 
na procura dos sorrisos do teu 
olhar. 
Entrego-me nesta carta 
com todos os erros 
que não prometo repetir.
É tão rápida esta fuga, 
que nem a sombra irá lembrar.
Sorriso pousado na malga,
passeio a vida numa trela, 
entrelaçada com os ases do 
destino.
Velho truque.



,2019nov24_aNTÓNIODEmIRANDA