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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

PORQUE AS FERIDAS AINDA ARDEM

Nem todo o amor é uma causa perdida, e dizem que há sempre um pronto-socorro para lhe acudir.
Claro que não é assim, mas também ninguém leva a mal.
Não se voa com a asa ferida, assim como os sapatos assentes no chão, não sacodem a poeira das ausências.
É morosa esta espera de te querer.
O tempo está preso num atilho, e sente-se a aflição das horas vadias, que dele querem sair.
Há um ponto de fuga pintado desdenhosamente pelas luvas de um guardião, feitas com as peles que assassinaram.
Não sou tu!
E tu não me tens já no olhar.
Sorrimos neste abraço desabrigado, espalhando cinzas para regar as memórias que nos mentiram.
Porque as feridas ainda ardem.



2017set_aNTÓNIODEmIRANDA

PARA QUE CONSTE

1
Nunca encontrei a vergonha
que pretendiam
que sentisse.
2

Dou graças a mim,
por aquilo que sou.
Mesmo assim.
continua a dar-me muito trabalho.

2017set_aNTÓNIODEmIRANDA

LIXO

Há coisas para resolver.
Não apresso o tempo, não dou corda aos dias,

talvez num sábado à tarde renove a razão.
E a razão, muitas vezes, é coisa de momento.

Aqueço a garganta no fogo-de-santelmo
e unto as mãos com a cinza
que marca o outono desprezível.
Ilustro o telejornal
só com notícias da minha sabedoria,
e,
no nevoeiro que ilumina as botas,
escrevo botões que não sei coser.
Não procuro explicações

para aquilo que não pretendo conhecer.
Há muito tempo que não uso esse relógio.

 2017set_aNTÓNIODEmIRANDA