Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

À VOSSA CONSIDERAÇÃO


 . Mais vale perder a vida num segundo
                  do que viver a morte num 
                   minuto.
. A morte é uma possibilidade que nunca ponho de lado.
. É preciso tirar  tempo
            ao tempo
            antes que o tempo
            nos roube
            o momento.
. Abanar o capacete irrita a caspa.
. Dizem-me um ser difícil.
         Garanto que a minha grande dificuldade
          não é essa hipótese
. O que julgamos saber não presta.
            Conhecer é que é importante.
. Navegar à minha maneira?
           Como?
           Só apanho gigabites falsificados.
. Prometo-vos um atestado comprovativo de falta de assiduidade mental.

2017,ago_aNTÓNIODEmIRANDA

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

JAZ O TEMPO NUMA INDÚSTRIA PESADA

Jaz o tempo numa indústria pesada,
onde todas as ocasiões são pintadas
com a esperança suja.
Dizem-nos para termos cuidado
com a alta tensão in-civilizada,
não vá o diabo tecê-las,
quando deus se esquecer de ser mau.
Só precisamos do pão para a boca,
embora a falta imensa do que sentimos
seja a única realidade presente.
Precisamos avidamente de gestos amigos
e atitudes respeitosas.
De tentações que nos percam
de vez em quando.
De fotografias que nos confortem
e de todas as sabedorias
que nos tornem capazes.
Precisamos de uma utilidade
sem consignação.


2016,08aNTÓNIODEmIRANDA

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

"O CAPTAIN! MY CAPTAIN!"

Tantos medos nos tiraste
da poesia emplumada
castrada por tanto pó
numa escrita absurda
Nefasto conceito
cultivado em academias
chocadeiras do embrião
decadente
Tu mostraste
que a força do poema
não tem guarida
nem suporta
o tédio absurdo do caixão
Palavras libertas
empurram finalmente
outras portas
Tenhamos somente
coragem para nelas tocar.
Que se ame
aqueles que sangram as palavras:
Os Poetas
Nunca os que corrompem
o verdadeiro sentido da poesia
secando a falta da alma
num estendal vazio
"O Captain! My Captain!"




2016,03aNTÓNIODEmIRANDA



VEJO NOS OLHOS OUTRO MUNDO

Vejo nos olhos outro mundo.
Uso lentes de cotão oftalmológico, o que não é lógico para quem pensa que poderá realizar aquilo que esqueceu.
Agarro os bocados de vidro esborrachados na palma da mão e recorto-os como lembranças que nenhum turista compreende.
Estendo esta visão numa banca, na esquina da curiosidade mais frequentada.
Doce ideia caramelizada em formas de pó de arroz, cuidadosamente embalada em caixas de melancolia regional, com pré impressão de qualidade da edição limitada, assinada e lamentada pelo autor, que de tanto desespero, ainda conseguiu fugir a nado para uma "private gemes session" nos banhos púdicos da vergonha alheia.
Alheia à sua vontade, circulam por aí, os panfletos mais enganosos publicitando uma qualquer pousada da felicidade.
A felicidade está cada vez mais gasta e é justo admitir que morreu de velhice antecipada.
Antecipadamente previsível, é a inviável hipótese que todo o engano só depende do acreditar.
No acreditar é que está o ganho e por isso, ninguém saúda os não ganhadores.
Os não ganhadores, têm a urgência de apanhar juízo para não serem estrangulados nesta marmelada bafienta, barrada com artifícios mentalmente desalojados.
Há que continuar o não aplauso do nosso próprio falhanço.
Outras coisas acontecerão.
Sejamos unicamente dignos de não comprometer a sua aparição.


2016,11aNTÓNIODEmIRANDA

"COMO SER ANJO" (nota do Senhor Levi Condinho)

7_ COMO SER ANJO...
“Como ser anjo” é o título de outro livro que trouxe comigo, de Vassilis Vassilikos. Foi editado em 1969, nas então jovens publicações Dom Quixote, dirigida por uma grande senhora que foi Snu Abecassis, que veio da Suécia para abanar o meio cultural português, e que acabou tragicamente ao lado do amor “proibido”, agitando o charco da hipocrisia que sempre foi apanágio de muita gentinha de um país de muitos inquisidores activos e virtuais. Esse amor chamava-se Francisco Sá Carneiro.
Na página 50 desse livrinho sublinhei, aquando da sua leitura, talvez em 1970, e nunca me esqueci:
“Quando se morre deve procurar-se outro caminho, e não voltar atrás, para o quadro estreito duma cidade que nos apunhalou, duma árvore que nos traiu, dum reclamo luminoso que nos atravessou como uma seta.”
Há aqui, num sentido lato, uma filosofia consoladora que tal como a aceitação do absurdo como alavanca vital ( talvez em Camus), acaba por abraçar um poema, como este, escrito quase 50 anos depois.
 
 
 
 

ROLLING STONES - DOWN IN THE BOTTOM (live)

domingo, 14 de agosto de 2022

ANJO APAIXONADO

Tinha uma língua de Spitfire.
No cockpit todos a disputavam.
O piloto automático
no suicídio várias vezes tentado
sonhava voltar a vê-la
com olhos irresistíveis de anjo apaixonado

 
 
,2016,08.aNTÓNIODEmIRANDA