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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

ATÉ BREVE


Caiar sorrisos.
Entregá-los porta a porta,
no prazo máximo de 24 horas.
Andar por aí,
sem sentido único.
Ladrar aos desconfiados,
lançar chamas de ousadia,
baralhar as contas,
chamuscar a própria sombra.
Não ter medo,
remover o quase,
ofuscar a solidão,
chorar só o necessário,
estender abraços.
Andar por aí,
sempre numa douda correria,
afligir todas as maldades,
amar, mesmo na fila do trânsito.

Fim da concessão!
Até breve.


,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA



FARDOS DE SILÊNCIO


Mudar e desaparecer lentamente.
Não posso viver com o medo,
na procura de ideias para me encontrar.
Quero adormecer por aí,
abraçado ao bafo da sombra.
Não costumo rezar aos Domingos,
e nos dias importantes,
tal também não acontece.
Estou farto do desempenho 
deste esqueleto amassado.
Quieto,
carrego fardos de silêncio.



,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA

ASAS ERRADAS

Desculpa.
Desta vez sou só eu.
Os anjos abandonaram-me.
Sem querer, queimei as asas erradas.
Há demasiado tempo que não nos sentimos, 
e, perdido na solitude que me encharca, 
não encontro o caminho para abraçar as tuas lágrimas.
Sinto a tua falta, embora saiba que há coisas que terminam antes do pensamento.
Agora que morreste, tenho um presente para aqueles que tanto te detestaram.
E, esta é a única maneira que me resta para tanto gostar de ti.



,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

AL-79-46

Eram pagos ao dia. 
Quando chovia não havia trabalho. 
Os colaboradores do meu pai recebiam à semana. Se não pudessem ir para o monte, ficavam na fábrica a fazer outras coisas. Almoçavam lá em casa, e no final do dia, entravam no velho Ford Escort, com a gratidão estampada no olhar.
Ao domingo, os ricos iam à missa de mercedes.
Mas, 
o meu pai deitava-se feliz.


,2019nov_aNTÓNIODEmIRANDA

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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Da Madalena Ávila.

levar a boca ao prato
os talheres ao chão

e comer os restos da angústia

e sim a noite é esta manhã
deitada sobre a chuva
e o rio diz-me para caminhar
sobre ele
as mãos estendidas
na curva terna
e a raiva um oceano
para me cuspir

acordaram os aviões
os pássaros espantaram-se
e a Sombra quis mel

SANDWICH DE NAFTALINA

Não seria o mais famoso dos cromos mas sem dúvida alguma era o único agente secreto que ruminava sandes de naftalina. Não por ser chique mas pela simples razão de tal acto amainar os incontroláveis vapores do seu rego. Uma conhecida corretora financeira ainda o tentou demover, ameaçando-o com um considerável rating abaixo do estrume. Seguro de si próprio e com os índices de confiança elevados ao mais alto desnível, conseguiu resistir a todos os assédios. Até porque mantinha a secreta esperança de um dia coordenar, nas horas de ponta, o trânsito ferroviário na ponte sobre o Tejo. Uma pequena questão pendente com uma brigada que amiúde lhe causava problemas, lá para os lados da bagageira. Mantinha há longo tempo conversações avançadas com o sindicato e esperava a todo o momento o anal do secretário-geral. Até porque representava um conceituado ponta de lança, disponível para uma hipotética transacção. Era sobejamente conhecida a sua ambição por uma estrela Michelin, embora no seu pisa cocós, fosse evidente a primazia pela Firestone. Mudar? Nem pensar! Havia um contrato a respeitar e nunca iria pôr em causa o patrocínio que tanto lhe custou a adquirir. A indústria química estava no bom caminho. Novos e prometedores mercados rolavam na via verde.
Cedo abandonou a carreira política. Não admitia que houvesse alguém que enganasse e roubasse mais do que ele.

,2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA