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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

IVE

Interrupção

Voluntária da

 Estupidez
...

Deveria ser considerada norma obrigatória!



2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

ESTEJA ATENTO ÀS POSSÍVEIS DERROCADAS

O deslocamento no grupo ocidental emerge um risco acentuado de precipitação. Não há que recear. A velocidade está controlada pela protecção civil que prevê um normal desvio na direcção do evento.
Vamos manter o alerta laranja com o vodka do costume.
Ao longo desta bebedeira as previsões nupciais não se confirmaram, e o prior da freguesia, tal como o regente da filarmónica mantêm-se à coca.
Foram tomadas todas as precauções para que a mesma não seja afectada.
O porta nós da transportadora nacional perante a manifesta preguiça do trem de aterragem, optou como medida preventiva tentar resgatar aquele jackpot em Las Vergas que a morena de Ipanema há muito tinha prometido.
Até porque o estado do mar dificultava a acostagem de 22 lagostas de 19 kilates eroticamente envergando burkinis aprovados e medidos no palácio da indecência.
Esperam-se mais desenvolvimentos nas próximas horas.
Esteja atento às possíveis derrocadas.

2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

PRÁXIS DA IMBECILIDADE

a) Qualquer imbecil pensa que pensa que é menos imbecil
     do que o imbecil que o faz pensar isso.
b) Qualquer imbecil nunca passa disso mesmo.
c) Qualquer imbecil pensa que não o é
     por isso nunca conseguirá provar o contrário.
d) Qualquer imbecil sente-se abençoado quando lhe mentem
     dizendo-lhe que não é o único imbecil.
e) Qualquer imbecil é uma contrafacção continuada,
    por isso a imbecilidade é uma característica sempre presente.
f) Qualquer imbecil pode ser rico.
    E isso, como é sabido, também o faz ainda mais estúpido.


,2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

HARDCORE SINCRONIZADO

Faria sentido almofadar os pulsos
numa exagerada potência acelerada,
gastar o asfalto malvado na pressa que me sobressalta,
mas tenho braços cansados de navegar na escuridão.
Preciso urgentemente de deixar esta realidade
que não tem maneira de me aceitar como hóspede,
de uma vénus não amputada
que me sossegue este demónio.
Anunciarei com pompa e circunstância
o desejo apetecido:
Fechado temporariamente
para trabalhos corporalmente expressivos
num hardcore sincronizado.


2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

PALAVRAS CRUZADAS

Gostaria de tocar-te na pele!
Mas não tenho mais para te oferecer do que este desejo

que me aquece a vontade que me arde.
Gostaria de ter nas mãos uma poção mágica que te fizesse sentir

que por vezes não minto sempre.
Gostaria que a eloquência do nó da gravata

com que aperto as flores que nos momentos de distracção
ousei oferecer-te, não ficasse enrugado.
Gostaria de entregar à tua indiferença

os livros de que mais gosto
mesmo correndo o risco de ficar ainda mais só.
Mas eles são a minha pele

e confesso que ainda não estou preparado para esta troca.
Gostaria de não continuar a apunhalar palavras

e não acordar assim com um hálito assassino.
Gostaria que as cartas que não te enviei

pudessem corar a vergonha num campo de verde milho
como aquele que vi lá em Lijó.
Mas eu paro-me tanto neste desabrigo

onde pássaros atrevidos chegam sempre antes de mim
ao fruto que sempre penso, iria comer.
Empanturro-me de desculpas esquisitas,

mentindo à mentira que me assola,
que hoje vai ser diferente.
Mas porquê chego sempre atrasado?
Tenho de escrever sempre um poema dentro de mim.
Não são assim tão difíceis estas coisas,

só porque eu não as consigo dizer.
Sorrimos um para o outro com palavras cruzadas.
O entendimento acabará por acontecer.



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terça-feira, 13 de setembro de 2016

CHARLIE VOAVA SEMPRE FORA DO SONHO


 
Charlie voava sempre fora do sonho e o heróico suor que lhe molhava o sax abria-lhe continuadamente portas para que ele pudesse voar sem rumo.
Charlie tocava, tocava uma música que chorava a alma nunca repetindo obediências para só ser aquilo que pensava.
Charlie deslizava nas chaves do sax praias que ele próprio sabia nunca iriam acontecer.
E era o momento em que os anjos deixavam de ouvir deus
Charlie tocava com todo aquele suor que embalava a dor de nunca ter sido aquilo que os outros pensavam que era normal.
Charlie não era um pássaro vulgar.
Quem o poderá culpar por ter nascido com asas diferentes?
Charlie detestava o Parker.
Pensava que o enganava quando Charlie se distraía com agulhas enganadoras.
Depois da colheita acabavam sempre por se abraçar no jazz.
The Bird foi o meu primeiro camarada nesta música.
Apresentei-o sempre aos meus amigos sem qualquer laivo de vergonha sem a mínima preocupação.
Gosto muito.
E conservo religiosamente esta admiração.
Charlie ofereceu-me milagres.
Peço desculpa, mas nunca os irei entregar.



 016,09aNTÓNIODEmIRANDA
 
 
 
 
 
 



 

LEMBRAS-TE? (Songs from a room)

Ganhámo-nos numa rifa da feira popular
com meia dúzia de taças de vidro
ainda não fabricadas na China,
 e berrámos desalmadamente no poço da morte,
de mãos dadas com cheiro de sardinha.
No comboio fantasma apalpei-te as mamas
e antes de a viagem chegar ao fim,
ousei conhecer a temperatura das tuas cuecas.
Nada ligámos àqueles espelhos
que desumanamente nos queriam enganar.
Fomos respeitosos no táxi
e pedíamos pressa para chegar ao apartamento
onde só ouvíamos o primeiro trecho do mais que riscado
LP do Leonard Cohen.
“Dance me to the end of love”.
Lembras-te?

  
 2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

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