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segunda-feira, 23 de outubro de 2023

PENYSLÂNDIA

 


Sentia-se maltratado.
Incomodado e outros aborrecimentos 
que o stress da cidade lhe causava.
Não havia um gosto para recordar.
Afastava mecanicamente sorrisos 
que não entendia e olhos nos olhos, 
mirava desconfiado as palavras 
que lhe cansavam os ombros.
Tudo tentou, mas a lamúria não acabava.
Fingiu-se de louco, 
vestiu-se de mouco e começou 
a falar alto para o altar 
das prédicas consignadas.
Nada mudava.
A sensatez com que pintava 
cenários amovíveis, não funcionava.
Afogou a irmandade com perícia.
Escondeu-se da polícia.
E agora manda notícias cálidas
do retiro espiritual da Penyslândia.



2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA


PATOLOGIAS

 


Estamos cá para o que der e houver


Outras patologias


Serão perfeitamente dispensadas



,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA


TANTO PARA NADA SER

 


Desencanto manipulado 
Desagrado orquestrado 
Uma opinião tísica vacinada 
com taxa moderadora
Um concreto vasculhado  
no ecoponto de conhecimento codificado
Partiu apressado 
para não dar tempo à mentira 
e tirou as luvas para que o guiador não deslizasse
Leu isto no manual da civilidade.
O INEM nada pôde fazer
Tinha adormecido abraçado ao guia prático 
de como não ser imbecil.



,2017,mar_.aNTÓNIODEmIRANDA


TALVEZ UM FADO

 


Disseste-me um dia sentida
que o teu amor por mim
foi em vão.
E que agora estás arrependida
deste sentimento sem paixão.
Pois eu que te amei
mesmo sem o coração querer,
gostei de ti é verdade,
talvez te amasse sem saber.
Agora passas por mim
com esse olhar de vaidade,
gosto de ti, mesmo assim
neste querer já sem saudade.
Já nada valem os beijos
com que jurámos ilusão,
foram falsos os desejos
que agora temos na mão.



,2017,mai_.aNTÓNIODEmIRANDA


SWEET DREAMS

 


*

Dormirei 
com 

possibilidade 
de 
acordar
no nevoeiro 
do teu sexo

*

O amor
é uma larga distância
muitas vezes com pontes
mentirosas
nunca se escreve
com o mesmo
alfabeto

*

Todo o cheiro que deixaste
dorme agora ao meu lado
abraçando a nudez
para que o desejo desenfreado
espalhe no colchão
as breves delícias
de um fascínio que passou ao lado



2017set_aNTÓNIODEmIRANDA


SOLIDÕES FICTÍCIAS

 


Não finjas não saber quem és
de cada vez que pensas
que
preciso de ti

Tenho no voar
um alcance maior
lido por folhas desamparadas
onde escrevo solidões fictícias



,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA


COPY / PASTE

 


Panou a ideia enquanto pensamentos 
ardiam lentamente na fogueira. 
Agarrava o copo cheio de cinzas 
que lhe saiam da alma. 
Queimava os beijos nunca acontecidos, l
embrando-se de Paris 
e de nunca ter visto a torre Eiffel
(mágoa que sempre lhe doeu). 
No caminho para o quarto, 
passava invariavelmente pelo Bois de Boulogne 
e admirava outros tipos de beleza 
que o ajudavam a aquecer o sonho. 
A insónia acabaria por chegar embrulhada 
em petit fours
Também é verdade que nunca se entreteve 
com os fait divers do Moulin Rouge.  
Havia uma lágrima teimosa 
que nunca conseguiu enxaguar. 

Copy e Paste põem tudo sempre igual.




,2015aNTÓNIODEmIRANDA