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terça-feira, 1 de setembro de 2020

A BELA SONOLENTA

 A bela sonolenta, deitada na cama, 

ouvindo a lenga-lenda da ama, 

espera a fingir de acordada, 

a chegada do cavaleiro da Kawasaki 1100,

 produzida no Camboja, 

onde nunca lhe contaram, 

que ali caíram bombas.

Vestiu a combinação de lingerie adequada, 

para a noite da desfloração, 

e muda reza a Buda, 

pedindo para que o príncipe encomendado, 

não se esqueça do Black & Decker, made in Japan.

Lembra-se vagamente do Enola Gay.

Que raio de coisa haviam de mentir.

São rosas!

Escreveu-lhe uma rainha de um distante país. 

Mas de cada vez que olhava pela janela

só via os espinhos

que mancharam a humanidade.

Melides,2016,07aNTÓNIODEmIRANDA

Melides. Pescados na peixaria da Lúcia Silva.

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

MEMÓRIA VAGABUNDA


A minha memória é uma vagabunda e eu sou um desvairado sem eira, sentado à sua beira, sulfatando delícias enquanto vai bebendo o meu sangue. 
Está sempre pronta a abusar da minha alucinação. 
Bailámos esta andança nas recordações não devolvidas. 
Estamos cansados de esperar a passagem da nuvem que só viaja em banho-maria. 
Temos o manjar preparado, mas ainda não fomos convidados para o festim, onde só entram estranhos com fatos de gala alugados.
A minha memória é uma vagabunda.  
Está sempre pronta para me trocar por realizadores com outros filmes. 
Mas há cenas em que já não sou bem-vindo.
Tenho fome da sua saudade, 
embora tente fingir que não a sinto.


2016,11aNTÓNIODEmIRANDA

terça-feira, 11 de agosto de 2020

NÓDOA PREDILECTA

 

Porra!

No final desta vida,

o filme morre mesmo a sério.

Foi só um momento a fingir ternura,

um cenário não conseguido

numa gelatinosa apoteose, 

roubando a corda do relógio do tempo que vai cansando. 

A pretensa simplicidade muitas vezes, 

torna-se na nódoa predilecta 

das pessoas sem dias para contar.



















,2020Julho_aNTÓNIODEmIRANDA