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sábado, 8 de fevereiro de 2020

A VISITADORA

Entrou discreta no hotel.
Bateu ao de leve na porta do quarto com o sinal combinado. Mostrou o sorriso a condizer com o à vontade, e, o primeiro beijo, confirmava aquele momento que combinaram ao telemóvel.
Se não se importar gostaria de receber já. Não leve a mal, mas, já tive clientes que se esqueceram. Dizia, enquanto despia com olhar malicioso o desejo do freguês. Abriu a boca, fez dele chupa-chupa, revirando mecanicamente os olhos. Pôs-se de quatro, respeitando as instruções recebidas, e, esperou o enfianço. 
Nada sentiu, mas, como sempre, fingiu.
Estou a foder bem querida?
Dou-te prazer?
As perguntas do costume.
Os gemidos habituais.
Limpou-se.
Completou o cenário com um afago aligeirado.
No elevador, respondeu à mensagem que propunha mais uma visita.





,2020Jan_aNTÓNIODEmIRANDA

AS SIRENES DA MISÉRIA

Anjos escondidos nas cores dos fantasmas, flutuam no naufrágio dos sonhos estrangulados.
O velho farol acendeu as ruínas, 
e canta qualquer coisa, como se o mar 
fosse o possível amigo.
Barcas velhas,
cansadas da inutilidade da reforma,
oferecem ânforas com crédito recompensado, para a indecência que nos alvejou.
É tarde, grita o infame infante, 
lá na ponta, 
onde a areia acabará por nos atraiçoar.
Todos à proa!
Que se foda Lisboa, 
o aquém e além mar!
Fomos marinheiros estupidamente destemidos, franzinos no corpo, 
broncos no ousar.
Lá vai a nau da treta, 
que só merda tem para contar.
Todos em sentido!
Ó vento impiedoso, 
porque ainda nos queres enganar?
Terra à vista!
Nas cidades roubadas, 
esconde-se a fome, 
abafam-se as sirenes da miséria. 


,2020Jan_aNTÓNIODEmIRANDA

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

domingo, 2 de fevereiro de 2020

BUKOWSKI. Obrigado, Sara Veiga e Tiago Costa


BUKOWSKI _ Então queres ser um escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

Tradução: Manuel A. Domingos ( retirado da revista Bula)

INCAPACIDADE

Aprender com certas pessoas
é uma possibilidade, 
que a sua incapacidade
não permite.




,2020Jan_aNTÓNIODEmIRANDA

sábado, 1 de fevereiro de 2020

PORQE NÃO TEMOS TEMPO A PERDER


Beijo-te na lua,
aquele lugar do pretérito perfeito,
onde olhares enamorados
são pintados
sem códigos espaciais.
Aguardo a tua chegada
vestida na mais fina chita
e o teu andar de flor.
E então,
levantarei o teu sorriso
que unicamente tocará o nosso
céu.
Eu prometo,
portar-me mal
para despir o teu
véu.
Mandei pintar a calçada
com o rosa mais conseguido,
avançar o trânsito
no sentido proibido,
anular os risos patéticos
e oferecer um repasto
feito com as ervas da nossa paixão.
Soletro o teu nome numa via aberta,
porque não temos tempo a perder.

2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA