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sábado, 14 de outubro de 2017

ESTRANHA TRAGÉDIA

Vesti o coração de mordomias
Enchi-o de coragens
Encolhi-o num cruzeiro clandestino.
Disseram-me
que
morreu
a navegar
uma estranha
tragédia.


,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

A LUA NÃO CABE EM TODO O MUNDO

Quando os meus dedos saem da tua pele,
e os meus olhos diluídos
na procura do pecado que me ofereces,
escondem as noites sem ti,
embalo a canção triste,
num desabafo que sempre me trai.
Finjo na tua boca
o abraço perdido.
A lua não cabe em todo o mundo.
 

,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

VIVER NA DÚVIDA NÃO ATRASA O RELÓGIO

Se me perco no caminho, deparo-me com descobertas que vou pisando, e as sombras que me encobrem, perdem-se num sangue que foge apressado sem foz para o agarrar. O oceano navegado no oráculo dos imbecis, afoga tanto como a merda empurrada pelo botão do autoclismo. Não se é bom para nada. E assim o nada não gosta daquilo que não presta. E o que resta, quando o nada não presta, é um imenso dilúvio que enche a banheira, que nos enrouquece a voz, como um feroz eczema atópico . Gravámos um vídeo com a inteligência possível, nunca aquela considerada minimamente costumeira. Mijámos na água, temperámos a torneira, torneámos a toalha afagando os colhões, não temos champanhe, bebemos mijeira. Aleluia! Louvado seja quem for! Nestas horas de dificuldade alheia, erguemos a estupidez com toda a esperança para que alguém tão insípido como nós, nos faça alegre companhia.
Lá no olimpo das orgias constantes, onde o porteiro está sempre sexualmente ocupado para disfarçar alguns gemidos irritantes, sorrisos disfarçados nos altifalantes, debutantes na arte do sushi com espadas mal amanhadas e um casaco estampado de AIKIDÓI, apressadamente copiado dos antigos Armazéns do Conde Barão. O Tone Wats, essa estranha quadrophinia, ressacada de uma porno chanchada filmada na Reboleira, imita demasiadamente mal um porco, mesmo limpo, a levar no cu. Certamente que as galinhas na sua heróica tarefa de oferecerem ovos com 2 gemas, ficariam muito tristes.
Viver na dúvida não atrasa o relógio!
 
,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

SANGRADO

Trocámos as veias numa análise. Só de ti eu esperava o que de mim não podia acontecer. Velha estrada chorada neste verbo onde o tempo perdeu o haver. E havia sangue nesta caminhada sem destino para o nada, e o nada de tão pouco querer, fazia que havia o que faltava para nada de novo acontecer. E havia luz numa estrela ausente e apagada que fingia que iluminava aquilo que julgámos ter. E o ter já fugia, lesto corria para o encontro onde nada acontecia, porque nada havia para amanhecer. Má sorte a morte que nos pariu, a vida que nos fugiu e a sina comprada na cigana errada. Mentira esta ideia acostumada, logro sempre usado para o azar adormecer. E dormíamos sonhando, adormecendo um sono que em nada nos fingia. Sonho fora da janela, escondido na estrela que não nos conhecia. E o teu corpo frio, que o meu nunca conheceu e a minha ternura congelada numa vontade adiada, escrita nas asas do voo meu. E tu no meio da minha veia, cosendo a meia do poema que ainda nenhum poeta escreveu. Agora tenho o teu sangue neste coração ao abandono, e percorro o teu sorriso como se fosse o meu oceano. As lágrimas passam alisando esta calçada, com falhas alheias ao meu desejo. Sangue que foge do meu corpo. Resta-me talvez este infinito sem retorno, e uma cada vez mais atrasada esperança de me achar. Deitado nesta maca encardida que faz de mim a vida, olho nos olhos que nada já vêem, seringas ávidas de me tocarem o sangue. Onde estou, neste lugar que não presta, vestido de batas brancas embaladas em cadeiras de rodas onde o sol nunca poisa? Este cheiro de estrume desinfectado, não está interessado na minha poesia, e a preocupação do termómetro é coisa que não me diz respeito. Olho o vento que sopra, fugindo enquanto é tempo, do encefálotrama que me quer apanhar.
Agora não posso fintar. O jogo é sério.
Não tenho nenhuma sinfonia preparada.

,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA

VARIAÇÕES EM Mi s/ Si

puxou dos balões
&
finalmente
voou
decentemente

@

 é podre
&
mal
empobrecida

@

enquanto
o pau
vai e vem
alguém
foge
também

@

 a fé
e a esperança
nem sempre
acabam
em bonança

 
 
,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA