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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

LÁBIOS DE VINHO

 

Beijavam-se     com 
tanto     álcool 
que     eventualmente 
iriam     amar 
no dia possível

Olhavam-se tão 
inevitavelmente
que     casualmente  
se     desejariam 
na     vontade 
insuportável

Adiaram a questão
Sorrindo 
Eloquentemente


2016,02_aNTÓNIODEmIRANDA


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

E EU, COMO SE FOSSE ATREVIDO

No voo das tuas asas, entregaste-me 
desejos obscenos, trazidos do 
paraíso que tão mal te tratou. 
Guardo pétalas queimadas, 
no choro que tudo lamenta. 
Costumava ser simples, 
o amor mentirosamente 
imaginado, naquele cinema das fitas 
a fingir. 
Já não existe aquele conforto 
que ardilosamente nos iludia. 
E eu, 
como se fosse atrevido, 
puxava-te a saia até às coxas, 
só para mentir 
a temperatura dos teus seios. 
O intervalo servia para ensaiar 
o beijo da cena final. 
Depois, o filme 
tornava-se desinteressante. 
A bem dizer, um empata fodas.


2019mai_aNTÓNIODEmIRANDA

VIDA DE PUTICE

 

no seu olhar escorria a tristeza
mesmo quando tentava 
escrever uma carta à morte

mas o sossego tardava
e as notícias que lhe entregavam
vinham de um paraíso desanimado

queria deixar aquela vida 
mas toda a gente mentia 
quando diziam que era fácil

partia sem vontade de voltar
àquele estranho lugar
que só enganava o caminho



,2022Fev_aNTÓNIODEmIRANDA


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

AO DOMINGO OS NAMORADOS...(BARCELOS)

Vestiam bonitas camisetas
nas tardes de domingo, ...
e com a "zambrene" dobrada no braço,
davam grandes voltas
montados nas suas lambretas.
Era como no cinema da "malotinha",
onde miravam os beijos mais atrevidos,
nada parecidos com aqueles
que trocavam às escondidas.
E doidamente amavam Roma,
a cidade que nunca visitaram.
E as possíveis namoradas,
fingindo-se não interessadas,
riam-se umas com as outras
no meio de conversas loucas,
esperando o gelado prometido.
Passavam assim as tardes
daqueles domingos que aproximavam
uma segunda feira nunca apetecida.
Os mergulhos no Cávado,
eram apreciados numa cavaqueira divertida,
abusada por um braço
entornado ao de leve sobre o ombro.
Eram despedidas matreiramente aproveitadas,
até ao chamar da mãe da moçoila...





 2016,08aNTÓNIODEmIRANDA


 

 

Bob Dylan - A Hard Rain's A-Gonna Fall (Official Audio)

EMANUEL FÉLIX | Mister Texas Johnson Contador de Histórias


A menos que os Estados Unidos disponham 
de um poderio aéreo incontestável, estamos sujeitos
a qualquer anão amarelo que tenha um canivete
Lyndon Johnson

essa versão
essa sua aversão
essa sua aos quadradinhos versão digamos Mister
                                                      Texas Johnson
da história do Anão-Amarelo-Que-
-Tem-um-Canivete
essa versão digamos
é demasiado
demasiado digamos
imprópria
p'ra dar às criancinhas
Mister Texas mesmo aos quadradinhos Johnson digamos
tenha modos
O.K.?
e essa também
essa também digamos sua ideia de
         Lady-Branca-De-Neve-Macbeth-
         -Varrendo-Com-Vassouras-De-Napalm-A-
         -Casa-Aos-Sete-Anões
essa também
digamos sua ideia
é demasiado
demasiado também digamos tenebrosa
mesmo para os adultos
mesmo para os adultos Mister Texas Johnson demasiado
 faz maus sonhos
 mesmo aos adultos
mesmo aos quadradinhos
 bad dreams Mister Texas


( A Viagem Possível - Poesia 1965/1992)





terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

EU NO AUTO DESCONSOLO PRECAVIDO



Esta noite não preciso da solidão. Empenhei os sapatos que me levariam ao quarto que já não tenho. Sou a todo o momento um habilidoso desclassificado. Não aplaudem o meu discurso e ignoram a única coisa que tenho para exibir: uma miséria de segunda classe. Já não durmo com o medo. Só poderei pedir desculpa porque fugi das palavras. Escondido por aí, espalho-me nas peregrinações da decadência. Os passos das minhas voltas fugiram do último sonho que tinha para colorir. Massacro o chão de cada vez que leio aquela lápide. E eu que tanto desejava que não tivesse partido. Sei que não deveria sentir assim mas invejo a chuva que saúda o seu passar. Um bom dormir talvez acalmasse a onda do desespero que faz deste tempo um cavalo alucinado, a fugir sem parar da inquietação. Onde param agora as asas das vozes bondosas? Falam de uma ideia navegada na angústia do choro das baleias. Terrível desilusão que só me dirige para sonhos imperfeitos. E estes gritos não cessam, qual murmúrio sangrento ávido para assassinar o hálito dos deuses. Perdi o perfume da utopia especial. Onde te encontrar diccionário das solidões escondidas, dos desencontros da memória da proximidade cada vez mais longínqua, nas feridas sem conserto da consolação possível? Perdido em mim, envolto nos sentidos proibidos da ferida audácia, cortejo a atracção do abismo. Só, como de costume já não desenho a delicadeza do desejo. Deito-me no castigo da fracassada espera e qualquer acontecer nunca passará de um inconveniente acaso. Roubaram tudo (Nina Simone - Ain't Got No, I Got Life). É a mentira maior quando o imbecil conforto afirma que voltaremos a viver. Estou deveras cansado desta inutilidade. Quero fugir deste fumo e do convite para dançar na imbecilidade da reanimação hipócrita. Sacudo as ideias mas os distúrbios permanecem na cabeça. Dizem que me amam, da maneira mais absurda, para vomitar palavras bonitas no desgosto dos meus ombros. Um pássaro que nunca me disse o nome rouba apressadamente a ampola da última esperança. O vento infeliz encosta a raiva nos uivos do desânimo. Deitamo-nos lado a lado na cama da carne fresca com fantasmas a fingir, escondidos nos cachecóis da crueldade. Beijos sintéticos abençoam a benevolência da mentirosa salvação. Duendes desesperados apagam a ardósia da poesia.

VÁ. INDE BRINCAR COM OS OUTROS MENINOS

Seja bem-vinda a solidão e os abraços envergonhados que entrega.  Às vezes sinto-me a escrever qualquer coisa perto do fim, como se fosse fácil rasgar o nojo do que gostaria ter queimado. Neste deserto nunca se está só. Jamais pretendi combinar com as notícias da última hora, nem me deixei seduzir pelo apelo carbonizado do talho dos Mártires ou pela promessa da santificação com certificação devidamente armadilhada. Nuvens atentas antecipam o relatório do tempo, e, assim não deixam mentir a vontade de um curioso qualquer. Objectivo obrigatório: Gatilho espoletado / Deflagrar venturas aziagas / Declamar a azia insonsa / Engalanar relíquias virtuais / Sodomizar qualquer simpatia pela memória calcinada. Por determinação superior, plantado no meio da selva de mentes pingadas, escondo-me da plantação de microfones tentando-me aliviar numa qualquer introspecção ambulatória. 

OPERÁRIOS DO SABER

Ainda não frequento esses lugares. Até porque será sempre difícil enganar o céu. Embebedei o cansaço. Um deus arrependido pediu-me um afago embrulhado com laços de tédio sexual. Momentos eternizados. Ideias fora do formato espichado. Psique retalhada. Cadáver acrílico: rabisco memórias. Divirto-me delicadamente na festa das sensações. Sonho -te sempre, mesmo sabendo que nunca tocarei no perfume da tua pele. Acho-me e perco-me no festim para o caminho entornado por estrelas enganadoras. 

Despediu-se e foi para longe. 
Moral da história de um Insignificante Camafeu
Ninguém deu pela sua falta.


,2024Jan16_aNTÓNIODEmIRANDA