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sábado, 2 de julho de 2022

MAS EU NÃO PRECISO DE BONDADE * Gregory Corso # in Gasolina# editora Barco Bêbado

 

Conheci as estranhas enfermeiras da Bondade,
Vi-as beijar os doentes, cuidar dos velhos,
Dar doces aos loucos!
Vi-as, em noites obscuras e tristes,
A empurrar cadeiras de rodas junto ao mar!
Conheci os gordos pontífices da Bondade,
A velhinha grisalha,
o padre da vizinhança,
o poeta famoso,
a mãe,
conheci-os todos!
Vi-os, em noites obscuras e tristes,
a colar cartazes de piedade
nos desolados postes do desespero.

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Conheci a Toda-Poderosa Bondade em pessoa!
Sentei-me nos pés d`Ela, puros e brancos,
ganhei a confiança d`Ela!
De nada maldoso falámos,
mas uma noite atormentaram-me aquelas estranhas enfermeiras,
aqueles gordos pontífices
A velhinha passou-me com um carro de picos por cima da cabeça!
O padre abriu-me a barriga ao meio, pôs as suas mãos em mim
e gritou:- Onde está a tua alma? Onde está a tua alma?-
O poeta famoso pegou em mim
e atirou-me pela janela fora!
A mãe abandonou-me!
Corri para a Bondade, irrompi pelos Seus aposentos,
e profanei!
com uma faca inominável fiz-Lhe um milhar de feridas,
e maculei-as de imundice!
Levei-A dali nas costas, como um demónio!
pela calçada nocturna abaixo!
Cães uivavam! Gatos fugiam! Todas as janelas fechadas!
 Levei-A por dez lanços de escada!
Deixei-A no chão do meu quarto acanhado
e ajoelhado ao lado d`Ela, chorei. Chorei. 

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Mas o que é a Bondade? Eu matei a d`Ela,
mas o que é ela?
É-se bondoso porque se leva uma vida gentil.
S. Francisco era bondoso.
O senhorio é bondoso.
Uma bengala é bondosa.
Posso dizer que as pessoas sentadas em parques são mais bondosas? 

Mas Porque É Que Não Morres?! de Kirill Sokolov * Ontem na RTP2




 

& O FUTURO FOI PARA A PUTA QUE O PARIU

 

*Luz seca corta o céu em bocados de desespero*

* Fugir sem sair*

*Morrer abraçado a um grito* 

*Chorar numa cama de sombras vadias* *Humedecer a tristeza* 

*Acordar a espera* 

*Distrair a angústia* 

*Agarrar a fisga* 

*Rezar o último segundo* 

*Queimar o prazo da validade* 

*Regar ausências* 

*Explodir frequentemente* 

*Enraivecer* 

*Conferir*

*Suturar esperanças*

*Despoletar por aí*



,2022Jun_aNTÓNIODEmIRANDA


sexta-feira, 1 de julho de 2022

ESTOU PRONTO

Não estou para gastar a vida observando os medos a crescer. Nunca nada comprou a beleza do tempo que me abandona. Deitado num baú de suposições, o cansaço oferece-me uma forma de envelhecer, ostentando o monstro da mentira, que diz que estou na mesma.  Continuo a nada perceber da preocupação alicerçada na incoerência. Portanto, não respeito a indignação, como salada de percalços, marinada num molho de lágrimas naufragadas num horizonte enferrujado. Para isto, estou sempre pronto. Permanentemente atento para sair dos planos da glória. Continuo a esconder as lâminas que cortejam a pele. Quero queimar as acendalhas da esperança inútil, e, esfaquear as armadilhas, que um dealer sem direitos de autor, tenta vender. Trafiquei o incenso da espera, que prometia o melhor caminho de desespero. Admiro os sangues oferecidos, embora esteja sempre longe do lugar que pensava me pertencia. Não passa de um vomitado, a certeza que tenta iludir-me. Tenho no ousar, um delírio nunca acabado, um destino pré-comprado para a pousada dos beijos não magoados. Morro muitas vezes num silêncio casto, enquanto a noite me oferece um vagar abençoado, para não atrapalhar a troca dos presentes. Não consigo correr mais do que este abandono, que me ilude com a oferta perfeita, tocada no tambor da pele quebrada sem artifícios para trocar. 

Os meus heróis não passam de fantasmas. 
Estou pronto para o último carimbo no passaporte. 


2019jun_aNTÓNIODEmIRANDA