Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

POEMA PARA UMA PASSAGEM DE ANO COM FINAL FELIZ

 Lembro-me de certos dias  
De um sonho sem retorno  
De alguns passos desviados e 
Da matança integral Dos fracassos 
com doses de naftalina e 
Da alfabetização Da ejaculação colectiva 
Dos buracos ocasionais 
Da estrada Da glória 
De alguns erros De palmatória 
que não pude escusar 
De certas acções De castidade mal sucedidas  
De elogios frios como o mármore 
De favores perfeitamente dispensáveis 
De poucas curvas sem muita gravidade 
De aparições cósmicas sem serem convidadas 
De senilidades não vigiadas 
De carícias tímidas 
De poucas conversas envergonhadas
 De algumas urgências atrapalhadas 
De poucos convites para a deserção social
Também me lembro Dos dias restantes
Mas esses serão sempre pertença minha

Permitam-me que me apresente:
sou um homem que em mim tem fé
e, pelo qual nutro a simpatia suficiente

,2017dez_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com



BISBILHOTICE DORIDA

 


Gosta de mim?


Porque não?


É uma anomalia

Como outra

Qualquer


2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

LÍNGUA DE PERGUNTADOR

 


Então, nada diz.


Não se preocupe.


Quando gostar, falo.


(para bom entendedor)…


2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

EQUIVALÊNCIA ACIDENTAL A ROÇAR A INSOLVÊNCIA DA SORTE TRIVIAL

 


Talvez devesse escrever no sentido 
discordante
Reparar o Almanaque
Preparar o Sudário
Pedir asilo ao Sacrário
E desorientar virgulas 
na  rotunda das interrogações
Talvez devesse ainda acalentar 
gemidos surpreendidos 
Salgar o abecedário
Ludibriar o salário
Sacudir o leque dos suores ousados
Elogiar os pecados não arrependidos
E esperar na horizontal
Um idílio mais que improvável
[Vai longo este enfado
enlatado na eira das fadigas]



2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

IREI POR AÍ ACHAR UMA NOITE

 


Vou por aí esperar uma noite.
Um sonho que verdadeiramente acredite em mim.
Agora que falam que o céu não tem culpa 
da demora do meu chegar.
Sentado na janela,
um pássaro roufenho,
procura  na nuvem a última viagem. 
Um sax magoado,
bate à porta da magia,
E, então, um solo amistoso,
lentamente vai soprando 
as folhas do calendário.
Ergo as mãos para o laço.
Cavalgo num lento compasso.
Nada entendo das palavras
Que querem que ouça.
Irei por aí achar uma noite.







2025Out19_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

domingo, 28 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DA COVA

 

Já 

Só 

Falo 

Com 

Gume 

Do 

Silêncio




,2022dez_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

VISTO-ME NESTE MANTO DE FIASCOS

 

Neste pranto de vistas vazias 

enrolo a ossaria 

com versos de 

tempestade



,2022dez_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com
.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

IDEIA EFICAZ

 


O Tédio 

Aborrece-te?



Muda 

De 

Óbito



2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NA MINHA INOPERÂNCIA JUVENIL

 


Dei-te todo o meu amor mas nunca soubeste daquilo que falávamos. Continuas a pensar que voas no céu aquecido, feito pateta vestido de amarelo empobrecido, para a rentrée da estação tola, onde caiem folhas que ninguém lê. 
Não gosto daquilo que encontras. 
Tenho escrito no nó da gravata os preâmbulos que não tivemos. 
Pára de me enfeitares a sorte. 
Essa carta está avariada, contida num vazio que dentro de mim, insulta a vontade com que me ofereço. Continuaremos a escrever na pele este adeus sempre que a despedida deixe de ser uma palavra mentirosa.
3 mata-haris / 1 califa constipado / 1 faquir enferrujado / 3 observadores circuncisados & uma vontade tremenda de ver outro filme /Je t`adore ma petite / mais pour favor / ne me donne plus / patates frites.
Escrevo-te um atestado comprovativo de falta de assiduidade mental, mas não quero fazer de ti a gata putalheira a ler a ladainha excomungada. 
Há quem viva numa caixa de espelhos mirando a Modas & Bordados, e duvide das intenções só com maldade moderada. Aquilo que somos é a impossibilidade que ignobilmente nos consome. E ficamos quietos como um qualquer caracol encarquilhado. Desprezámos o indício da escolha.  Nessa altura eu era jovem e ainda não sabia percorrer os caminhos da língua. Na minha inoperância juvenil eu achava sempre que a primeira vez tardava. 
Claro que me chateei / Embora soubesse / Que isso podia acontecer / Eu disse-te / Que era um problema / Mas não eras tu / Que o iria resolver.


,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Dezembro e os Outros Tempos. Prefácio do Levi Condinho.

 



CANSADO À ESPERA DA BOLEIA QUE ME SALVE DO PARAÍSO

 

Pensam que vivo zangado com o mundo.
- Ninguém fala da minha insatisfação.

Estranham a minha distância. 
- Todos ignoram as feridas desse caminho.  

Ninguém estima a competência que tenho para acertar relógios esquecidos das horas malucas. 
- Desconhecem que o carteiro já não bate à porta.

Crêem-me intolerante.
-Nada sabem do desencanto de adornar passados.

,2021Dezembro_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

FANTASIAS DE NATAL

 
Não sei se terei o tempo para ter o momento para te mentir no engano mais verdadeiro.
Nada sei de calendários com nomes estranhos que definem dias para vontades nunca apetecidas. Fico-me por Janeiro não por ser o primeiro mas porque Dezembro tem um calor que já não me aquece. Roubo figuras do presépio poupando-as assim ao desconforto de um choque eventualmente patético. Agora são cromos pousados num musgo com características normalizadas. Queimei assim as palhas para incendiar natais onde só isso faltava. Fingia a alegria imitando o olhar infeliz da criancinha e adormecia com a repetida frustração de mais um par de meias de duvidosa qualidade. Na manhã seguinte toda a gente sorridente mas nada era mesmo o nada e o resto nunca diferente. Os anjos de chocolate com asas deficientes, animavam o José e a Maria arrependida. O burrinho constipado, o menino cagado e alguém agoniado queimava incenso para disfarçar o cheiro da erva.



,2016,05.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

Alberto Ribeiro _ Canção do Cigano.wmv / Uma das canções que o meu tio Jorge Faria, costumava cantar.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A VISITA DO DESALENTO

 



Tenho 3 luas na minha algibeira,
disse-me o cachimbo de um sábio índio.
Enrola a vida numa velha manta,
e nunca a deixes cansar de remendar 
alegrias.
Aconchega os sentidos na penumbra
poeirenta,
e,
nada mais caberá na tua cabeça,
do que a visita do desalento.
Abraça a ausência do deitar ferido,
e, chora na  enxerga de lençóis desabitados,
mesmo que não consigas esperar a chegada
escrita nos anúncios do nevoeiro,
que espreitam na janela.
O que te espera,
quando com a solidão,
não consegues falar?
D. Juan foi brincar com a erva do diabo.



,2019Dez_aNTÓNIODEmIRANDA
poenanaalgibeira.blogspot.com

GOSTO DE TI INDECENTEMENTE



Amor da minha vida 

Que tão cedo me enganaste 

Flor em constante ferida 

Fúria incorrigível  

Cavalgada

Em fracassos de puro-sangue 


,2023Abr_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com



OFERTAS DE NATAL # DA SÉRIE FANTASIAS DE NATAL#

 

 O tempo está a cair.
Espera no varrer das folhas, 
os conselhos da solidão aprazível.
Aqui, 
no lugar que foge, 
há memórias embrulhadas para ofertas de natal.
Fala-se agora uma estranha linguagem, 
caiada numa indiferença 
que nunca nos abandona.

.

,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sábado, 20 de dezembro de 2025

TODOS OS DIAS TROCAMOS ABRAÇOS

 


No 

Inquieto instante 

Do Recordar 

Roubo 

Nomes 

Ao Diário 

Das 

Ausências 








2025Out_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

NO CAMINHO PARA O PARAÍSO EMBEBEDEI-ME NAS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO

 


A agonia recém-trasladada não resistiu 
às tentações do 
Antão
e, como paga, 
autopsiou a audácia de 
Hieronymus.

Bosch 
pedrado até mais não, 
enxertava suspiros na 
Adoração Da Criança.

Entretanto, 
um desfile não programado do 
Carro de Feno 
conduzido por anões 
(em fase adiantada de estupefacção), 
tentou disfarçar a decência.
Lá no arraial, no 
Jardim das Delícias Terrenas
as sardinhas passaram-se com os bíceps do 
Ecce Homo.

Deixa-as morrer, 
gritava doidamente o 
Juízo Final





2025DezaNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

A SABEDORIA DO AFONSO (4 ANOS)

 


O que é morrer?


                            É ir para o céu.


Isso eu não gosto!


                        Quero ir todos os dias

Para casa



2025DezaNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

NADA NO MUNDO ME AGRADA MAIS DO QUE A PAIXÃO

 


O futuro está escrito numa mortalha
 ansiosa 
e os sonhos engalanados 
na cama da infâmia,
contemplam a ajuda ausente 
bordada 
na colcha do não acontecer. 

Gritos meus escritos na vidraça apedrejada, 
escondem nas veias o sangue tingido 
na cadência da vergonha. 

Haverá por aí alguém para enterrar 
a última palavra? 

Resta-me o tempo que a esperança agoniza.

E eu, 
já alguma vez vivo me senti.






2025Out19_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CAFÉ DOS POETAS #36 – Natal de Quê? Natal de Quem? Natal de quê? De quem? TEMPLO DA POESIA_ PARQUE DOS POETAS_ OEIRAS - 5ª Feira - 18 Dezembro.

 


CAFÉ DOS POETAS #36 – Natal de Quê? Natal de Quem?
Natal de quê? De quem?
Este verso de Jorge de Sena (extraído do poema ‘Natal de 1971’) dá o mote para esta edição de Natal do Café dos Poetas.
E para tornar esta sessão ainda mais especial, convidámos cerca de duas dezenas de poetas que, ao longo destes últimos anos, têm sido amigos e cúmplices da PALAVRA, para nos enviarem um poema inspirado na quadra natalícia.
A colectânea de poemas que daqui resulta, será nesta noite lançada com pompa e circunstância. Mais do que celebrar o Natal, pretende também mostrar que estamos atentos ao que se passa no mundo num período que deveria ser de paz e harmonia entre todos nós.
Não percam uma noite cheia de surpresas!

Participam:
Afonso de Melo, Alice Duarte, António Carlos Cortez, António de Castro Caeiro, António de Miranda, António Manuel Ribeiro, Elisa Scarpa, Emília Gomes da Costa, Fernando Pinto do Amaral, Filipe Homem Fonseca, Jaime Rocha, José Anjos, José Baião Santos, José Fernando Delgado Mendonça, Lauren Mendunieta, M. Parissy, Maria Caetano Vilalobos, Maria de Abreu Morais, Miguel Martins, Nuno Miguel Guedes, Paula Cortes, Paulo Amado, Rodrigo Brandão, Rute Rocha Ferreira e Sir Scratch.

domingo, 14 de dezembro de 2025

SE ISTO FOSSE UM POEMA

 


Se isto fosse um poema, beijava a oração do descrédito dos poetas do fim do longe. Enlatava os erros de palmatória, queimava a tristeza absurda que assola as perspectivas e barrava todos os naufrágios deste mar que só lavra a terra do desperdício. Se isto fosse um poema, as horas que me roubam teriam outro tempo e a exactidão dos ponteiros não se aproximaria tanto da fatalidade. Se isto fosse um poema, não teria nojo de toda esta mentira, que tudo me tira nestes dias cortados em fatias envenenadas. Se isto fosse um poema, não lamberia esta gelatina de destroços que me congela os ossos em alguidares de menosprezo. Se isto fosse um poema, queimava o mundo que me vira as costas e a dignidade significada em formas de postas, que me oferece a mais pobre afinidade. Se isto fosse um poema, não seria menos que o resto, e o que de mim dizem faltar, oferecido em festins nus numa festa definhada. Se isto fosse um poema, diria que ler certa poesia, é por vezes um hobby nojento. Se isto fosse um poema, na sombra da árvore sagrada dos versos, sentir-me-ia existir agradecido às folhas que pousavam no meu firmamento, pintava assim as horas amigas, soletrando prazeres com abraços de poetas companheiros, que pisam o mesmo chão.


2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

FUTEBOL (1) (Para o Tó Carlos)

 


Futebol

É 

Óbvio 

Do 

Povo.


,2016jan12_aNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sábado, 13 de dezembro de 2025

AQUILO QUE GOSTO DE LER

 


Nunca será importante 

        o que escrevo.


O que continua a realizar-me,

            é aquilo que gosto de ler.



2017,jun_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

AMY W.

 


No último degrau do sonho que deixaste, 
doí-me demasiado o não poder ouvir-te 
e o meu coração é um copo de vinho 
que nunca molhou o teu penteado. 

O mundo sempre aborrecido, 
desprezou o teu olhar de sereia atrevida 
navegando o tempo que não te quis merecer.
 
As boas estrelas voltam ao sonho, 
acompanhadas de um sax que grita ajoelhado 
o tímido amor de só te quer beijar. 

No teu céu, estará à espera 
um cálice sempre cheio de saudade.

Aqui, vou rasgando aqueles aplausos 
que tanto te enganaram.







2017set_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

APENAS UM CONSELHO

Não cobices o alheio com receio!

Culpas arrependidas

nunca têm fodas cumpridas.
 




,2017,abr_.aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

AO CORRER DO TEMPO

Tenho no bolso as outras horas
que o relógio que uso no pulso esconde.
Ouço agora os soluços da guitarra do Ry Cooder
que escorrem como se fossem memórias.
Sinto o frio no meio do meu mundo,
onde demasiadas vezes,
como Pilatos, lavei as mãos.
Está difícil este tempo,
e o seu correr deixa-me cansado.
É uma sentinela, sempre alerta
e preocupada.
Continuamente escondida
por uma cortina de fumo,
que só me permite
um enlace nunca dourado.



2016,02_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

 
 

A VÉNIA ,

 

Pus um sorriso nas veias
e quase toquei o céu

Alguém invejou
a vénia 
que o tempo
me entregou

Eu
Só tentei
Outro
Lugar



,2020Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


CARNE PICADA

Enrola-me pela manhã
docemente até ao fim do dia.
Quero que me mates...

até os ossos
se tornarem fiambre.
Ama-me no chão,
faz de mim o mais vil tostão
um chá de um Judas pestilento,
canta-me numa canção de
azar,
só para acreditarem
que gostas de mim.
Enrola-me num cartucho
como se guardasses a
mais preciosa iguaria.
E oferece-me sofregamente
quando te apetecer.
Estou aqui,
abaixo do zero
mais que finito
com arpejos do bolero
onde uma loura sem vergonha,
cavalgou nas minhas ancas
arfando palavras
roubadas dos meus poemas.
Enrola-me de manhã
mesmo só um bocado,
no mais fino brocado
para fingir a alegria.
Enrola-me agora,
pela noite fora
até fazeres das minhas costas
um ossário defeituoso.


2016,12aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A SOMBRA DE DEUS

 


Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras. As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado. Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos. Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas. Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente. Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos. Fui sequestrado por um arco-íris. Na minha cabeça há um comboio de inquietações sem catalogação possível, escondendo visões numa maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas grito que afaga suavemente confeitos envinagrados argamassa roída coma esquelético ossos braseados cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio, apalpando o êxtase das entranhas deixadas ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso. Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas. Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade. Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos num bordel de virgens electrificadas. 
 Psicoestimulante colérico escravizado pelos embaixadores da maldade. 
A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim. Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias da nojenta oligarquia do Kremlin. Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão. Confissão mágica emprenhando paixões distraídas acampadas no viaduto da burocracia. Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz de onde fugiu um manequim que nunca aceitou a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões. Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas em postes benzidos. De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível. A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta.
Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente da sombra de deus.



,2023Dez06e7_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

SE ESCREVEREM À MINHA TRISTEZA…

 


Não sei e não tenho vergonha.
É-me estranha a peçonha recolhida na palha onde aqueci estrelas não sintonizadas com a harmonia dos horóscopos. Não sei escrever um suflê da mais digna maneira que tanta canseira me produz quando desagua em offshores emporcalhados onde engordam panças geradas pelo suor do pobre. Não sei nada dos amantes ousados num script onde nada pintei. Não sei dar corda a este relógio que tanto me abusa e se recusa a lamber-me um só minuto de intervalo. Não sei de não gostar. Não sei sugerir opções contrárias a uma mania que acorda sempre na minha cabeça. Não sei fazer nada que não me apetece, agora que já posso silenciar o despertador com um tiro retardador dirigido pela  minha aptidão de não admitir interferências litigiosas direccionadas à minha alheia susceptibilidade. Não sei.. Não sei porque o meu cão deixou de gostar da ração. Não sei porque continuo a caminhar assim. Como se não quisesse magoar as águas do rio que corajosamente zela pela ferrugem da minha âncora. Não sei que horas tenho embora me tivessem prometido que isso seria uma questão de dias. Não sei que sonhos pintar agora que os segundos foram passar a noite na ópera. Não sei que lâmina usar para fatiar contratempos não convidados. Não sei. Procuro só os passos que me levarão ao encontro de um coração desclassificado.
Se escreverem à minha tristeza, por favor não lhe digam como eu me sinto.


,2016,04,08,03,30h_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com




quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

#DEZEMBRO E OS OUTROS TEMPOS#_COM GREGORY CORSO NUMA CADEIRA PERTO DO CÉU (abençoados por um cogumelo cósmico)

 





COSTUMAVA SER MINHA, ESTA MANIA POR VEZES HÁBIL DE EVITAR SONHOS

 


Talvez o céu sacuda a poeira que me 
calca os ossos, escorra do tempo 
o cansaço e afaste todos os escolhos 
deste teimoso caminhar.

Santa misericórdia dos urinóis,
não me deixes fugir das tentações.

Embrulha - me só nos pecados 
originais,
leva os sonhos para além do céu.

Diz qualquer coisa que me tire deste 
contrário. 

Pinta aquele sorriso, que leva o convite 
para o banquete das iguarias imponentes.

Ajuda - me a sair deste grito.

Costumava ser minha, 
esta mania por vezes hábil de evitar 
sonhos.



,2021Novembro_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com



O TEMPO PASSA, A MERDA ACONTECE

 


Há uma longa mentira entre mim e aquilo que querem que veja.
Podemos construir castelos e banhá-los nas memórias da areia, e na fronteira da tonta espera, continuar sem encontro marcado para o afago da guilhotina. 
Odores de um bairro operário aguardam a chegada dos imaculados enquanto a morte é carpida em vivos soluços. 
O vagabundo encostado à porta, veste a alma que um dia alguém animou. 
A tentação foge sem destino e uma fala estranha ladra o terrível desapontamento. 
Deuses cor de carne apodrecida, exímios predadores, oferecem fortunas perversas para que a realidade proposta não seja contestada. 
Lâminas de propaganda abençoam a estupidez com que te enganam, levando-te a pensar que és o crente mais importante. 
(Enquanto isso, o atropelo continua). 
De repente descobres que o medo é o único conforto que te entregaram. 
A dúvida aloja-se nos vómitos. 
Mas sabes que não há resposta certa para te impedir de desistir. 
A vida nunca nos pertencerá. 
Não passa de um exército de órfãos. 
E o pintor das palavras vazias, recolhe as lágrimas da colher de prata para desenhar outros sonhos. 
Quem irá nesse caminho ardiloso, qual destino matizado com enganos espalhando nas ogivas da baixeza as últimas orações perfumadas pelas flores de urânio? 
Nada melhor do que uma bomba para lamentar a incapacidade. 
Deus é grande. 
Maior será sempre a minha indignação. 
Muitas vezes a princesa dos sonhos acorda angustiada por tanto fingimento. 
(A inutilidade da nojenta existência, qual desfile de óvulos mal mexidos,
colectora de vontades incorrectas enxertadas em troncos de auto-ajuda). 
E no bar das insónias, voos falidos procuram sugestões para incendiar o repetido pedido de desculpas. 
Um dia quando for regar o Jardim das Delícias tentarei o prazer em pequenas doses, entregue por uma qualquer estrela rebelde rebocada com subtis micoses eclesiásticas. 
Nunca admitirei ser algemado pelos convites dos profetas asilados na estação das desamparadas promessas. 
Não me apetece lamber cinzas na crueldade do herbário dos falhados.
Porque bordar sonhos à pressa nos lençóis da procurada ternura, não é senão uma fantasia.
 
Não fede nem cheira.
  (como a minha mãe costumava dizer).

2025DezaNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


SANGRO EMOÇÕES PARA ASSASSINAR IDEIAS COM PALAVRAS

 


Pois é, caro Leminski!
Vivemos o tempo em que 
qualquer pateta 
se ousa dizer poeta.

E o verdadeiro poeta, 
no desconsolo de tanta palermice, 
morre à pressa 
antes que chegue a chalaça 
do reino da chatice.

E não há procedimento estético 
que disfarce tamanha agonia!

(afinal aquilo que o poeta tanto 
queria).





2025DezaNTÓNIODEmiRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

MANCEBO

 


        Encostado na esquina, ouço partir os olhos vazios, neste passar do tempo, que teimam em dizer que perdi. Mas eu continuo a acender este fogo, como se fosse um cantor de uma banda de rock`n`roll, onde nunca toquei. Poderia contar outras histórias, se o blush na minha face, não mostrasse que isso não passa de uma mentira. És doce como aquela canção que já não me espera. Continuo longe desse sapateado, ensaiado na escala do baixo, que amorosamente quer levantar o chão que me insulta. Por vezes, tudo me parece tão difícil, malgrado as desculpas de ocasiões mal desagravadas. Tenho saudades das velhas lojas, onde muitas vezes entrei para nada comprar, apesar das boas intenções. Os velhos amigos continuam comigo, mitigando a recordação das gajas que não chegamos a comer. Era só um supor malandro, que enchia uma pose com que fingíamos vender a alma. Estamos aqui, como provam estas gargalhadas emolduradas nos cabelos brancos, que só nos fazem sorrir. Naquelas noites tocadas nos jardins, fomos os mais felizes astronautas. Nas ondas do medo, iluminadas pelos faróis dos carros da polícia, enfeitávamos em segredo a nossa diferença. E no quarto das paredes sem sonho, adiávamos o sono, com todo o pavor da farda que nos esperava. Nunca perdemos a cabeça neste horizonte selvagem, ainda que as notícias dos amigos mais velhos deixassem de ser escritas. A lua sonhava então, com cores bonitas, o pequeno-almoço era animado com ácidos sem estricnina, e lá fora, a realidade mentirosa, felizmente não estranhava esta mania. Acariciava os anjos no duche, e compreendia que o seu olhar, só procurava o amor, num abraço que nunca ignorei. Entregavam-me sempre uma fotografia, com uma nuvem que tentava agarrar todas as coisas que fugiram do meu caminho, quando deus não estava feliz com a minha aparição, nas manhãs do ódio que tanto me sujava. Olhos sem luz, sorrisos maltratados, assaltavam a minha cabeça, neste princípio da procura de uma só escada divertida.


,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

MARÉS MORTAS

Ando
A
Amar-e-ar
Pelas
Paredes.
&
Marés
Mortas
Não
Me
Tiram
Dos
Rodapés.


,2017out_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com

INCONTINÊNCIA ERVANÁRIA

 


Não te resisto

Nunca me abandones

Continuarei 
a enrolar-te 
com toda a fé 
que prometi 
na última 
tentação


,2022Nov_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com