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segunda-feira, 13 de março de 2017

LAÇO

Tenho a fé embalada!

& não sei desatar o laço.

O que me faz falta

é um outro como eu,

para tomar conta de mim.
2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA

JOKER

Tenho uma carta que roubei do baralho.
É um joker batoteiro
com chapéu brejeiro
e olhos em bico,
só para me distrair.
Lancei a dama de copas
moça de experiência comprovada
nos balneários da instituição.
O matreiro disse que não.
Fiquei intrigado
e logo pensei que tinha algo fisgado
fora da minha decisão.
Mostrei-lhe a manilha
e ele disse que não.
Deixei-lhe uma mala
com pistola e bala
para ele pensar no assunto.
Sorri prazenteiro
foi um tiro certeiro.
E no velório
toda a gente me disse,
mesmo o mais querido parente:
que bonito defunto.

2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA

FALTA SEMPRE QUALQUER COISA

Falta sempre qualquer coisa na nossa estupidificada insatisfação. Cozinhamos ilusões num spaghetti plastificado comprado no supermercado com descontos alucinantes impressos no cupão que consigna a norma de cliente fidelizado.
Longe vão os tempos em que falávamos com o dono do lugar que nunca se esquecia de perguntar se queríamos um ramo de cheirinhos. E a oficina do sapateiro forrada de modelos atrevidos embora ele há muito já não rompesse meias solas. Entretinha-se amiúde com capas e manejava com mestria a sovela tal valente cavaleiro, como víamos nos livros aos quadradinhos. Lembro-me do cheiro a pão quente e verdadeiro, das encrencas da retrosaria e dos cantares com saudades do Alentejo que ao findar do dia saiam da taberna, misturados com tintos, torresmos e outros petiscos sempre observados pelo papagaio zeloso para que o pagamento não fosse esquecido. De rebentar a lata dos rebuçados da bola e tê-la como ambição máxima para o esperado muda aos cinco e acaba aos dez.. Dos jogos de hóquei em patins tendo como balizas as sargetas e do desafio de ganhar o jogo da carica brincado no lancil do passeio.
Nunca me fartei de ser campeão.
E deus sabe como eu treinava para isso.

2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA

DESENHAMOS UM POEMA

Desenhamos um poema.
Eu e o poeta.
Debaixo daquela árvore que nos abrigava dos curiosos,
liamos naquele encontro todos os livros
e fumávamos imagens como se fossem só nossas.
O tempo amainava enquanto soletrávamos capas de Lp`s.
Era assim que abraçávamos a nossa música.
O regresso ao outro mundo,
entrar em casa nem sempre era pacífico
e doía tanto como a traição.
Dormia à pressa,
não tinha tempo a perder.
E esperava confiante a chegada do poeta.
Depois apareciam as nuvens que nos ofereciam
poemas para colorir.
Era um céu sagrado que sempre
nos dava a mão.

2017marçoaNTÓNIODEmIRANDA

Brevemente em nossa casa! Prazer em conhecer-te, REBECA!


sexta-feira, 3 de março de 2017

2 "petits fours" do Senhor Miguel Martins. Tenho o enorme privilégio da sua amizade. & isto não é para qualquer um!



The Doors Light my fire live in hollywood bowl 1968 | Porque...



Só tenho 62!...
& assumidamente
pouco tempo para ganhar algum juízo.
& isso não me deixa preocupado.
Já muitos sóis me queimaram a pele,
outros virão para temperar
a sensatez que me resta.
Recebo sinais vindos de uma lua
onde algumas vezes estou.
Não quero ser de outra maneira
nem modificar a leveza do meu barbear.
Espalho esta espuma perfumada
no meu rosto, pelos sorrisos
que me miram no espelho.
Alegro-me nestas manhãs
sem manhas nem truques
de ilusionista manhoso.
Sacudo a má memória para a sanita,
ponho na gravata um nó catita
e ejaculo a oração matinal:
Que seja como ele quiser!
Eu agora tenho mais que fazer!
Desiludo-me instantaneamente dos passos
em falso, estendo preocupações vadias no vitral
da marquise, enxaguo lágrimas no estendal das mentiras

e seco recordações não amistosas no programa 7 da máquina de lavar memórias.
Só tenho 62!
& a máxima tendência
para não acertar no euro milhões.
Tenho muito mais que fazer!
& isso também não me preocupa!




,2017mar_aNTÓNIODEmIRANDA