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quinta-feira, 2 de março de 2017
quarta-feira, 1 de março de 2017
POSTAL TRISTE
Sem jeito algum tenho o pó dos anos enterrado num dedal e alguma vida
enrolada num desenfreado novelo tão pequeno que cabe em qualquer do meu lugar.
Animo um vulcão escondido numa tenda com um grotesco zelo que esta mania
não emenda e saboreio uma rabanada de vento dourado como se fosse uma torta
fatia de gloriosas celebrações, quando sem dar por ela consigo acertar alguma
agulha para provocar o descarrilamento daquilo que me não é querido.
Atento como se fosse revisor acciono o fecho das portas desta carruagem
que chegará a um destino onde nada de mim acabará.
Sei de antemão o cais da minha pouca sabedoria e só espero que nuvens de
carvão sosseguem a ausência daqueles que me esperam. Possivelmente nunca
chegarei a esse lugar até porque sempre me disseram que o paraíso tem má fama.
Escrevo este postal molhado por uma chuva envergonhada que encontrei num
canteiro onde rosas tristes tentam enternecer a minha angústia.
Melros fora de horas entregam às suas amadas cânticos de natal com
saudades do bolo-rei.
Deixei no parquímetro algumas moedas para colmatar alguma necessidade
imprevista.
Todo o sonhar é possível!
Aguardemos com renovada esperança a chegada do carteiro mentiroso.
GOSTO DA VIDA NÃO ENCASTRADA
Tenho posto algum fermento no destino
mas o tempo não cumpre o horário previsto.
Lembro-me algumas vezes de um pequeno bar
em Dublin onde ficava até ouvir
aquela harmónica roufenha.
Depois saía em direcção à velha estação
dos comboios amigos e esperando pelo último,
sonhava com quem iria passar a noite.
Só conheci tesos naquele tempo,
mas nem isso impediu uma vez sequer
a troca de sorrisos cúmplices.
Havia sempre o derradeiro cigarro
dividido com verdadeira amizade.
Tínhamos um tecto comum que por vezes
nos molhava a alegria mas nunca impedia
o desejo de um próximo encontro.
Gosto do cheiro da relva molhada
e dos cães com curiosidade em cumprimentar-me.
Gosto dos cânticos que saindo dos bares,
aquecem-me o ânimo e aconchegam a fome.
Gosto do fumo e do bafo do nevoeiro,
mesmo quando ele me encharca o cabelo.
Gosto do serpentear das guitarras
e de vozes que ficam contentes com a minha presença.
Gosto desta folia que me encharca a alma
e deste mar de gente feliz com sorrisos prometedores.
Gosto da vida não encastrada.
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
mas o tempo não cumpre o horário previsto.
Lembro-me algumas vezes de um pequeno bar
em Dublin onde ficava até ouvir
aquela harmónica roufenha.
Depois saía em direcção à velha estação
dos comboios amigos e esperando pelo último,
sonhava com quem iria passar a noite.
Só conheci tesos naquele tempo,
mas nem isso impediu uma vez sequer
a troca de sorrisos cúmplices.
Havia sempre o derradeiro cigarro
dividido com verdadeira amizade.
Tínhamos um tecto comum que por vezes
nos molhava a alegria mas nunca impedia
o desejo de um próximo encontro.
Gosto do cheiro da relva molhada
e dos cães com curiosidade em cumprimentar-me.
Gosto dos cânticos que saindo dos bares,
aquecem-me o ânimo e aconchegam a fome.
Gosto do fumo e do bafo do nevoeiro,
mesmo quando ele me encharca o cabelo.
Gosto do serpentear das guitarras
e de vozes que ficam contentes com a minha presença.
Gosto desta folia que me encharca a alma
e deste mar de gente feliz com sorrisos prometedores.
Gosto da vida não encastrada.
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
PARA TI SE FALTARES
Para ti se faltares,
tenho o punhal dobrado
no mais fino bragal.
Para ti se faltares,
tenho o champanhe gelado
para ser bebido
ao longo do teu corpo.
Tenho beijos haute cuisine
banhados num tinto de colheita envelhecida.
Para ti se faltares,
tenho um filme encomendado
entregue impreterivelmente
na hora da tua chegada.
Tenho sais de saudade
lágrimas em tons de rebuçados
luvas com o toque das nossas peles
e algumas orquídeas
especialmente vindas
do expresso da última noite.
Para ti se faltares,
tenho numa jarra o tempo
que dorme nos lençóis da nossa ausência.
Tenho rosários naquele quadro
que pintamos quando nos queríamos.
Para ti se faltares
tenho dois corações
para substituírem
aqueles que já não usamos.
Para ti se faltares.
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
tenho o punhal dobrado
no mais fino bragal.
Para ti se faltares,
tenho o champanhe gelado
para ser bebido
ao longo do teu corpo.
Tenho beijos haute cuisine
banhados num tinto de colheita envelhecida.
Para ti se faltares,
tenho um filme encomendado
entregue impreterivelmente
na hora da tua chegada.
Tenho sais de saudade
lágrimas em tons de rebuçados
luvas com o toque das nossas peles
e algumas orquídeas
especialmente vindas
do expresso da última noite.
Para ti se faltares,
tenho numa jarra o tempo
que dorme nos lençóis da nossa ausência.
Tenho rosários naquele quadro
que pintamos quando nos queríamos.
Para ti se faltares
tenho dois corações
para substituírem
aqueles que já não usamos.
Para ti se faltares.
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
SINA
Enjoava o sonho com tabefes amistosos
num torpor de pijama a roncar numa
almofada confidente.
Ressonava a vontade num breve cálice de porto
como se o acordar das
manhãs que não queria vestir, fossem só palavras mesmo mentidas no encontro daquela
cor que sempre lhe faltava naquela sina de sabor ausente.
Apertava os pulsos na costumeira oração e no banho turco beijava a toalha
com toda a esperança.
Deitada, adormecia a nudez beijando o sabor da sua sombra.
Nada disto foi escrito na sua autópsia.
DESCULPA-ME SE ME LEMBRO DE TI
Brincávamos no intervalo das aulas no recreio dos
delírios à cabra-cega e
eu de olhos vendados
só via o teu sexo.
Doces olhares molhavam então o meu desejo
e na tua imaginada nudez
pintava
os beijos da vergonha.
Há lençóis que nunca nos cobriram
e caricias de espuma
que jamais nos
esperaram.
Sítios que fingiam a nossa presença,
verbos mal ditos e sobretudo
silêncios
que nos humedeceram.
Todo o presente foi então feito de saudade
e
isso porque agora ainda aqui estamos,
torna tudo mais dorido.
Tenho nos dedos um cigarro
só para torrar uma memória
que não devia ter
acontecido.
Consolamo-nos debaixo de uma pele
sempre pronta para nos lembrar o
adeus.
Desculpa-me se me lembro de ti.,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
CONTRAPESO
Usava um alvará lubrificado na manutenção da
prioridade máxima ao encanto.
Estendida na marquesa dos abismos, onde o sol se queima nos raios buliçosos, desenhava cenários no átrio das excomungações.
Salpicava com tépida vontade nesta emergência sem saída, a vida custosa em contrafação.
Arrendava à hora espíritos sofisticados, mas muito impertinentes entre quatro paredes.
Vestia-os com uma linda lingerie e saltos altos, para deixá-lo sem fôlego no seu fetiche favorito.
Velas de aromaterapia, óleos sem cheiro e música suave, faziam de contrapeso à sua singular maneira de gemer.
Pendurado na parede um relógio impaciente perguntava ao tempo:
Quantos segundos faltam para um minuto decente?
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
Estendida na marquesa dos abismos, onde o sol se queima nos raios buliçosos, desenhava cenários no átrio das excomungações.
Salpicava com tépida vontade nesta emergência sem saída, a vida custosa em contrafação.
Arrendava à hora espíritos sofisticados, mas muito impertinentes entre quatro paredes.
Vestia-os com uma linda lingerie e saltos altos, para deixá-lo sem fôlego no seu fetiche favorito.
Velas de aromaterapia, óleos sem cheiro e música suave, faziam de contrapeso à sua singular maneira de gemer.
Pendurado na parede um relógio impaciente perguntava ao tempo:
Quantos segundos faltam para um minuto decente?
,2017fevaNTÓNIODEmIRANDA
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