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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

CONVERSAS COM DEUS (6)

É para ti que eu ralho,
sóbrio como de costume,
conquanto não entenda as tuas sugestões
para melhorar a humanidade.
Não consumo o teu ópio,
nem cobiço a corrente dourada
pendurada no pescoço,
só para atrofiar os estúpidos
que acreditam numa coisa tão mentirosa.
Patético sermão
incrustado de genuflexões sujas
enquanto monsenhores
enrabam outros senhores.
Nada é pecado nesta oração
rezada de joelhos
quando se esconde o ouro assassino
destilado nos corredores
onde tudo é absolvido.
E as criancinhas?
Deixai-as crescer.
Por agora é crime.
E temos outras coisas para foder!




2016,10aNTÓNIODEmIRANDA

LIÇÃO DA VIDA

1. A perfeição é um molotov.
   Usemo-lo a preceito.

2. Vamos para o importante.
    Porque o resto já está feito.

3. Complicamos o gosto.
    Mastigamos o sabor.
    Arrotamos o desgosto.
 
2016,10aNTÓNIODEmIRANDA


ELE, AMIGO FIEL...

Gostaria que as coisas, as importantes e aquelas com alguma importância, ferissem palavras com a devida relevância. Mas a importância, a importante importância, não passa de uma singela homenagem àquilo que pensamos ser relevante. Mas, pensamos no resto, aquilo a que não damos importância, o arquivo que escoa a memória, que de tanto incómodo causado, relegamos para a vaga ideia. A vaga ideia, torna-se assim o refúgio que ilustramos com páginas de ingénua conveniência, adoçando-a com açúcar mascavado, longe das formigas curiosas, sempre prontas para invadir este triste engano. Aqui a ilusão é o nosso sem abrigo que sorrateiramente escondemos para que ninguém descubra o enredo tecido.
Para que o perigo não apareça, só contamos este segredo, deitados no divã , atentamente escutados pelo nosso consultor ginecológico.
Ele, amigo fiel, depois do discreto pagamento, promete-nos que a recepcionista, embalada em meias de rede, púbis aparada e bigode rarefeito, nada irá contar à sua mamã.
Sacode um olhar preocupado.
Já está atrasado.
A carrinha do hospício espera-o para o acompanhar à sessão habitual.
2016,10aNTÓNIODEmIRANDA

CONSIDEREM-SE OSCULADOS

Grato!
Infinitamente grato pela vossa atenção.
Considerem-se osculados.
Prometo solenemente,
assim não me falte tempo e disposição,
entupir com a estupidez das vossas cinzas,
qualquer pista prometedora
que vos conduza à absolvição.
Obrigado pela atenção dispensada.
Endereço-vos os melhores cumprimentos
E, agora que já nos fartamos,
despeço-me de vós
com os meus melhores pêsames.
Apesar de tudo,
foi uma enorme perda de tempo,
admitir sequer a inviável hipótese
de vos ter conhecido.
Atentamente,

2016,10aNTÓNIODEmIRANDA

DEIXEI A ESPERANÇA A SECAR NO VARAL

Não me entregues o amor.
Esta não é a altura ideal.
Eu sei que o teu erro não me engana,
que sou só eu, quando dizes o único que amas.
Tenho guardado num envelope a escrita das nossas traições
e nas telas que pintamos com velhas molduras mentirosas,
decoramos auto-retratos onde sempre estivemos ausentes.
Não me entregues o amor.
Sabes tanto como eu, que ele morreu numa taça de champanhe
quebrada muito antes da nossa paixão.

2016,11aNTÓNIODEmIRANDA

OBRIGÁDÔ

Devo agradecer aos turistas o desenvolvimento cultural da chacota Nacional.
Devo agradecer aos turistas a possibilidade geográfica de a Trafaria ser uma estância turística do norte de África.
Devo agradecer aos turistas a liquidação local de Lisboa.
Devo agradecer aos turistas o pastel de bacalhau com queijo, assim como as bifanas sem aquele molho gorduroso e nojento.
Devo agradecer aos turistas a infindável espera do 727, assim como a inutilidade do meu passe social.
Nunca me irei esquecer, claro, de agradecer aos turistas, o cheiro pestilento da comida de plástico que encharca a tipicidade desta cidade.
Devo agradecer aos turistas a sua imaculada estupidez, passeada em qualquer tuk tuk com o som estereofónico das suas curiosidades.
Devo agradecer aos turistas, este trânsito de troleys que desgostam os passeios, assim como o seu sempre patético sorriso que de tão tonto, torna o meu, amarelo.
Devo agradecer aos turistas, o enlevo com que poisam as patas nos bancos dos comboios , o ruído nos restaurantes, o terem-me ensinado a comer ameijoas de faca e garfo, a possibilidade cada vez mais rara, de saborear a verdadeira comida Portuguesa.
Devo agradecer aos turistas a sua sábia ecologia, a sua natural imbecilidade que os faz não respeitar as filas, entrarem pela porta de saída e ocuparem os lugares reservados para velhos, grávidas e crianças. Devo agradecer aos turistas a impossibilidade de alugar uma casa com o preço correcto, de saborear um simples café sem ser incomodado pela sua vista, e eventualmente com um inadequado pedido de uma foto.
Devo agradecer aos turistas a conspurcação dos cheiros destas ruas, a ocupação dos sentidos , a usurpação da identidade desta Lisboa cada vez menos parecida.
Não posso deixar de agradecer aos turistas a iniquidade da sua presença, assim como o ridículo da sua presunção e a minha não obstipação dedicada à sua memória.
E agora, isto é a sério:
Agradeço o retour chez vous.
Merci pró cu!

2016,10aNTÓNIODEmIRANDA

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Um poema do Miguel Martins.

E se as aves estacarem em pleno voo e ficarem imóveis
na pintura de Deus? E se Deus estiver indisponível
e a remoção do corpo não remover o olhar? E se ficarmos
para sempre olhando aquela imagem feita de azul e branco
e negro, desbotados por um sol manso, de esperança...
ainda em esboço? E se a Eternidade for um jogo de xadrez
perpetuamente empatado, uma água estagnada que
enverdece como os cobres de uma casa abandonada?
É provável que o encanto seja fraco descanso, que o tédio
sobrevenha ao veraneante, que o trocaria por uma hora
de juventude, de joelhos esfolados pelo asfalto de uma queda
logo erguida num sorriso rompante. É provável que desejemos
apenas morrer e o desejemos muito, como se aquele segundo
em que a respiração se suspende dando início ao orgasmo
pudesse durar para sempre, não como um travelling
sobre a pradaria da irrealidade, mas como um corte abrupto
que, gloriosamente, não deixa qualquer questão nas ideias
dos néscios. Sim, esperemos que o Céu um spaghetti western.


Miguel Martins